Edição 465 | 18 Maio 2015

O Papa que salvou a Igreja do suicídio. Um grande milagre

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Márcia Junges e João Vitor Santos | Tradução: Sandra Dall'Onder

Gianni Vattimo diz que Bergoglio surge para livrar a Igreja do suicídio. O espírito provocador do Papa suscita revoluções, embora ainda tenha muito a trilhar

Na perspectiva de Gianni Vattimo, a Igreja Católica caminhava dura e firmemente para um abismo. De lá, provavelmente se jogaria, presa às suas convicções. Isso, até que surge Bergoglio e começa a mudar esse curso da história. “Os dois primeiros anos do pontificado de Francisco me parecem um grande milagre do Espírito Santo, especialmente porque eles salvaram a Igreja do suicídio que parecia próximo dos Papas anteriores”, diz em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O filósofo ainda destaca o espírito revolucionário de Francisco. “O Papa diz aos jovens para hacer lio, criar confusão. Ou seja, ter um pouco de espírito anárquico, em um mundo cada vez mais integrado e controlado pelo poder econômico e militar”, destaca.

No entanto, Vattimo reconhece que um dos grandes desafios do Papa é uma revolução de fato. Isso porque a primeira batalha se dá “dentro de casa”. “Francisco pode ajudar na transformação da sociedade, para que ela se torne mais humana. Isso se o Papa for capaz de revolucionar, antes de tudo, a Igreja”, pondera. Ele também aponta questões que precisam evoluir na gestão bergogliana de uma entidade conservadora e patriarcal. “Em termos de relações de gênero ainda falta um passo decisivo, a admissão das mulheres ao sacerdócio. E também a questão do celibato clerical. Um ponto muito delicado para a vida dos padres.”

Gianni Vattimo é filósofo e político italiano, considerado como um dos expoentes do pós-modernismo europeu. Discípulo de Luigi Pareyson, graduou-se em Filosofia, na cidade de Turim, em 1959. Especializou-se em Heidelberg, Alemanha, com Karl Löwith e Hans-Georg Gadamer, cujo pensamento introduziu na Itália. Em 1964, tornou-se professor de Estética na Universidade de Turim e, a partir de 1982, de Filosofia Teorética. De sua produção intelectual, destacamos, Acreditar em acreditar (Lisboa: Relógio D’Água, 1998); Depois da cristandade. Por um cristianismo não religioso (São Paulo: Record, 2004); e O fim da modernidade: niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna (São Paulo: Martins Fontes, 1996). 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Em termos gerais, como avalia os dois primeiros anos do pontificado de Francisco?

Gianni Vattimo - Os dois primeiros anos do pontificado de Francisco me parecem um grande milagre do Espírito Santo, especialmente porque, em certo sentido, eles salvaram a Igreja do suicídio que parecia próximo aos Papas anteriores. Suicida, me parecia, então, a pretensão de impor uma moral fóbica sexual, tanto pelo interesse em atividades econômicas conhecidas, quanto pelos escândalos do banco do Vaticano. Em ambas as questões, Francisco mostrou sinais de mudança radical.

 

IHU On-Line - Quais são seus avanços e limites?

Gianni Vattimo - Os progressos são os que eu citei acima, embora até agora não tenha visto resultados em termos de dogma e disciplina eclesiástica. É verdade que o Papa parou de falar constantemente de contracepção, preservativos, etc. Mas em termos de relações de gênero ainda falta um passo decisivo, a admissão das mulheres ao sacerdócio. E também a questão do celibato clerical. Um ponto muito delicado para a vida dos sacerdotes.

 

IHU On-Line - Ao falar de indiferença e ternura, o Papa Francisco invoca, respectiva mas indiretamente, a Gramsci  e Che Guevara.  Como essas referências permeiam os dois primeiros anos de seu Papado?

Gianni Vattimo - Não me parece exagerado aproximar o Papa a Gramsci e a Che Guevara. Na verdade, um ato que não parece exagerado seria a beatificação, além de Dom Romero, do próprio Che Guevara. Mas eu percebo que seria esperar muito. Eu vejo poucas razões para aproximar Gramsci ao Papa, na verdade, eu nunca havia pensado sobre isso, embora a ideia gramsciana de hegemonia pode se aproximar à noção de uma transformação espiritual da vida social que o Papa também quer promover.

 

IHU On-Line - Em que medida o “pensiero debole”  se apresenta agora como uma dobra do pensamento sacramental?

Gianni Vattimo - Certamente insistir na caridade e na misericórdia, a atenção aos necessitados, a rejeição à guerra, são elementos que aproximam o pensamento fraco à pregação Papal. Eu diria mais: o pensamento fraco é acima de tudo um pensamento que rejeita a metafísica absoluta, e até mesmo os religiosos absolutistas. Eu não vejo Francisco dizendo, por exemplo, que "fora da Igreja não há salvação", condenando ao inferno pessoas como o Dalai Lama,  por exemplo. Não que Francisco seja um homem de pouca fé, eu acho, mas a caridade nele se sobrepõe à verdade, e isto, guardadas as devidas proporções, sustenta o pensamento fraco.

 

IHU On-Line - Ao falar sobre a globalização da indiferença, em que medida Francisco evoca a categoria da solidariedade, importante na filosofia que o senhor desenvolve?

Gianni Vattimo - Insistindo na solidariedade, Francisco simplesmente faz o seu trabalho, retoma e enfatiza os valores centrais da tradição cristã, embora muitas vezes sejam obscurecidos pela prática da Igreja. Estes são os valores cristãos que alimentam o pensamento fraco, que eu sempre concebi como uma "aplicação" ou uma tradução filosófica do Evangelho.

 

IHU On-Line - Em que sentido essas características refletem um viés revolucionário no trono de Pedro?

Gianni Vattimo - Certamente, em muitos aspectos Francisco parece um Papa "revolucionário". Alguns até mesmo o acusam de ser simplesmente um comunista. Eu não sei se é, mas deveria ser, especialmente agora que o ideal comunista foi arruinado pelas práticas de "comunismo real", o stalinismo e o totalitarismo soviético. Também gosto de falar que os horrores dos regimes comunistas foram produzidos principalmente pela pretensão de imitar de forma acelerada a sociedade capitalista e a sua estrutura industrial. Quanto à revolução, Francisco pode ajudar na transformação da sociedade, para que ela se torne mais humana. Isso se o Papa for capaz de revolucionar, antes de tudo, a Igreja. A Igreja "franciscana" é o primeiro passo no sentido de uma presença política dos cristãos, capaz de levar a cabo o fim da alienação.

 

IHU On-Line - Para além de seu impacto eclesiástico, qual é a importância política de Francisco?

Gianni Vattimo - Eu não sei quantas divisões tem o exército do Papa, como Stalin perguntava ironicamente. O seu peso político no "concerto das nações" é difícil de avaliar. Ele pode produzir nos cristãos ao redor do mundo uma transformação espiritual e cultural que lhes tire a ideia de serem defensores da ordem existente. O Papa diz aos jovens para hacer lio, criar confusão. Ou seja, ter um pouco de espírito anárquico, em um mundo cada vez mais integrado e controlado pelo poder econômico e militar. Anarquia com o único limite da caridade.

 

IHU On-Line - Vindo do “fim do mundo”, em que medida Francisco traz uma nova perspectiva e um ethos característico do Terceiro Mundo à Igreja?

Gianni Vattimo - Francisco é de qualquer forma um Papa — então podemos esperar muito dele, mas não tudo (uma frase de Claudel : "a nós sacerdotes supremos um passo maior não é permitido"). Não só a doutrina mas também a Cúria colocam limites difíceis de ultrapassar. A santificação de Che Guevara ainda está longe. Mas o fato de vir de muito longe é importante, no fundo é o Papa mais próximo da Teologia da Libertação. 

 

IHU On-Line - Hoje, qual é o sentido e o desafio de ser cristão e católico?

Gianni Vattimo - Eu repetiria o que disse acima: no mundo de hoje é importante criar confusão, não permitir que esqueçamos o ser, como diria Heidegger.  Isto é, que tudo esteja raso no funcionamento da grande máquina do capitalismo. Hacer lio também significa sentir que se pode ir para outro mundo, tanto para o futuro revolucionário quanto, se houver, para a vida eterna.

 

IHU On-Line - Como analisa os esforços de Francisco em promover o diálogo inter-religioso e a fraternidade entre diferentes confissões?

Gianni Vattimo - O diálogo inter-religioso sempre me deixa muito intrigado: não acho que exista uma única verdade na base das várias doutrinas religiosas, também não sei se vale a pena pensar sobre a conversão dos povos — que, afinal, até agora têm seguido os seus soberanos, começando por Constantino. Mas esses diálogos servem para limitar o fanatismo, para diminuir um pouco o peso da fé em favor da caridade.■

 

Leia mais...

- Gramsci e Papa Francisco, segundo Vattimo. Artigo do Gianni Vattimo, publicado em Notícias do Dia, em 18-03-2015, no sítio IHU;

- Comunismo hermenêutico, ética cristã, globalização e política contemporânea. Entrevista com Gianni Vattimo, publicada em Notícias do Dia, em 11-12-2012, no sítio IHU;

- Liberdade. Uma herança do cristianismo. Entrevista com Gianni Vattimo, publicada na edição 287, de 30-03-2009;

- Evangelho: as palavras divinas de Jesus. Artigo de Gianni Vattimo, publicado em Notícias do Dia, em 05-06-2013, no sítio IHU;

- Os ateus também têm seu deus. Artigo de Gianni Vattimo, publicado em Notícias do Dia, em 08-11-2009, no sítio IHU;

- A religião é inimiga da civilização? Artigo de Gianni Vattimo, publicado em Notícias do Dia, em 02-03-2009, no sítio IHU.

 

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