Edição 461 | 23 Março 2015

Insatisfação, turbulência e a disputa entre a velha e a nova política

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Patricia Fachin

Para Moysés Pinto Neto, falta credibilidade do governo na condução da economia. Os protestos da população são consequência da negação da crise pelo Planalto

As manifestações que ocorreram no domingo, dia 15 de março, que estão sendo chamadas de “o 15M brasileiro”, fazendo referência aos protestos que ocorreram na Puerta del Sol, em Madrid, em 2010, não teriam existido sem junho de 2013. A tese é de Moysés Pinto Neto. “Pode-se ler o 15M como uma resposta à permanente denegação de junho pelo governo”, destaca à IHU On-Line em entrevista por e-mail. Ele lembra que “o PT e sua nuvem de apoiadores recusam até hoje a potência das ruas de 2013. Para eles, não houve qualquer abalo significativo naquele momento”. Por outro lado, ele destaca que o movimento foi “banhado de conservadorismo”, porque “não propõe uma mudança de tabuleiro, apenas a substituição das peças e da direção do jogo. As manifestações são conservadoras não apenas porque são antipetistas, já que o petismo hoje em dia está longe de representar uma efetiva "esquerda", mas fundamentalmente porque procuram apenas conservar a máquina fazendo-a funcionar melhor, sem qualquer visão de transformação social e às vezes, muitas vezes, hostil a qualquer mudança”.

 

Na avaliação de Pinto Neto, os protestos de junho de 2013 e a retomada das manifestações por conta da atual conjuntura política e econômica indicam “uma mudança estrutural mais ampla no modo de fazer política”, embora “muitos ainda não perceberam”. A questão, entretanto, é se “essa estrutura vai ser usada na direção conservadora ou transformadora”. E acrescenta: “É algo que está em disputa na conjuntura, mas a estrutura existe e negá-la hoje é uma tolice”.

Para ele, o fato de as manifestações do dia 15-03-2015 terem tido mais adeptos do que as do dia 13-03-2015, demonstra uma “vitória simbólica da nova política sobre a velha. O que está em jogo ali não é apenas a questão ‘ideológica’, mas a questão do modo de organização das massas hoje em dia. Enquanto o modelo governista se baseou na articulação de organizações tradicionais, dos sindicatos ao MST, o novo modelo pode aglutinar uma massa mais heterogênea”.

Moysés Pinto Neto ainda enfatiza que as manifestações já estão tendo uma repercussão na política, mas “é cedo para avaliar” e tudo vai depender de como a presidente irá se comportar nos próximos meses. “No primeiro momento, o comportamento arrogante dos ministros favoreceu o clima de insatisfação, confirmando o discurso de que o governo não é confiável, continua negando a realidade. No dia seguinte, começaram discursos de humildade”, critica.

Moysés Pinto Neto é graduado em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS e doutor em Filosofia nessa mesma instituição. Leciona no curso de Direito da Universidade Luterana do Brasil - Ulbra Canoas. 

Confira a entrevista. 

 

IHU On-Line - O que as manifestações demonstram sobre o atual momento político brasileiro? Houve razões para tais manifestações, como em junho de 2013?

Moysés Pinto Neto - As manifestações demonstram que o momento atual é turbulento. A eleição se resolveu por uma diferença pequena de votos que agudizou a polarização entre governistas e antipetistas. Ao traçar o jogo nesse tabuleiro, o PT acabou criando uma armadilha para si próprio, fortalecendo um lado que acreditava enfraquecido (duas vitórias eleitorais consecutivas e razoáveis índices de aprovação no fim do primeiro mandato de Dilma faziam crer que o PSDB era um inimigo que sempre seria batido), mas que, na verdade, tem aversão total ao PT e à esquerda em geral e quando crescesse não economizaria esforços para derrubá-lo. Nada pode convencer esse público. Mimetizando a direita, o PT apenas atinge sua própria base com falta de credibilidade, já que a direita não aceita o PT simplesmente por ser PT, independente das políticas que aplica. Por isso, todos os esforços atuais conciliatórios de Dilma — como o pacote contra a corrupção — serão incapazes de apaziguar esse campo. De tanto dizer que as ruas eram da direita, o PT acabou chamando-a para rua. Antes, o cenário estava dividido. O momento político brasileiro, portanto, é de instabilidade, com um governo enfraquecido por manobras suicidas e a oposição de direita no seu momento mais forte.

Sem dúvida há razões para as manifestações. 

À esquerda, o pacote de austeridade (que não apenas repete o que vem sendo contestado na Europa, como também explicita as mentiras na campanha recente) e todas as demais pautas do primeiro mandato que continuam com o mesmo rumo (genocídio indígena, invasão militar das favelas, a Olimpíada que vem aí, etc.). 

À direita, fora a corrupção (que sempre gera protestos mais ou menos seletivos, ainda que os valores do Petrolão  de fato sejam altíssimos e escandalosos e que o protesto contra corrupção seja uma pauta legítima), a crise econômica cujos efeitos são visíveis (destacando o aumento dos preços de serviços básicos) é o motivo mais forte. Ela ceifa o horizonte de crescimento que era fundamental para os negócios e a manutenção do nível de vida da classe média e elite. O problema, nesse caso, não são as medidas de austeridade, já que a direita votou em Aécio, que iria aplicar o mesmo receituário. O problema é a falta de credibilidade do governo na condução da economia. Ao negar veementemente a existência da crise, ridicularizar os que falavam em inflação e fazer o papelão das eleições (não podemos esquecer o famoso programa do Banco Central e o prato de comida), o governo não passa a confiança necessária para esse setor, sendo por isso alvo de protesto por incompetência. 

Críticas à esquerda e à direita

Ademais, tanto a oposição de esquerda quanto a de direita reprova o neodesenvolvimentismo de Dilma. A esquerda, porque vê nele um perfil tecnocrático, centralizador, gentrificador nas cidades, causador de destruição ambiental e em prejuízo das populações indígenas e ribeirinhas nas florestas. Quanto à direita, reprova a demagogia de atos como a diminuição de energia elétrica, a falta de gestão eficiente em empresas-chave como a Petrobras, a demora em reconhecer o problema e a perda de confiança do mercado e dos investidores na condução do Planalto. 

No meio ao primeiro mandato, Dilma tentou — como segunda fase do lulismo  — um programa que correspondia em alguma escala a medidas sugeridas por economistas desenvolvimentistas como o estímulo à indústria, mas nada funcionou. Com a maquiagem das contas públicas e seguindo uma tendência conhecida, a burguesia industrial não reinvestiu e a economia acabou se retraindo. Além disso, a política dos "campeões do BNDES", corretamente atacada por Marina Silva na campanha (tendo a candidata pagado um preço alto por isso), mostrou-se um foco de gigantesca corrupção, situando-se como emblema dos negócios opacos entre Estado e grandes empreiteiras. A política econômica do primeiro mandato, portanto, foi um grande fracasso. Para a esquerda da oposição, representou uma visão anacrônica do progresso que ignorou as transformações culturais, ecológicas e do próprio capitalismo no final do século XX e início do XXI. Para a direita, uma série de paliativos inúteis que drenaram recursos públicos sem resultados palpáveis, minando a confiança do mercado. Como a economia era o principal trunfo do PT, os alicerces da governabilidade foram abalados. 

 

IHU On-Line - Qual é o recado das ruas neste momento?

Moysés Pinto Neto - O recado é que o país está mal e ninguém mais quer ouvir falar de bonança. As pessoas querem enfrentar seus problemas com realismo para seguir em frente. 

Um segundo recado mais específico é ao PT: a elite e a classe média estão mobilizadas e querem aproveitar politicamente o descontentamento popular com a desaceleração da economia, que impacta a todos, e os vultosos escândalos de corrupção. 

 

IHU On-Line - Que relações estabelece entre as manifestações do dia 15 de março e junho de 2013?

Moysés Pinto Neto - São várias. A começar pelo fato de que Junho de 2013 não foi isento de manifestações de direita. Naquele caso, porém, havia uma polifonia de vozes, um descontentamento geral que estava em disputa. A mensagem, mesmo na direita, era menos antipetista que contra todos os partidos, menos contra Dilma que contra todos os políticos. Agora o foco se estabeleceu no antipetismo, o grande denominador comum do 15M brasileiro. Há, portanto, uma diferença fundamental entre os acontecimentos: Junho carregava na sua ambivalência um potencial subversivo imenso, a abertura de virtualidades inéditas que poderiam reconfigurar o tabuleiro da política brasileira. A forma como o Congresso Nacional foi acuado naquele momento não se repetiu. O 15M, por outro lado, é banhado de conservadorismo. Não propõe uma mudança de tabuleiro, apenas a substituição das peças e da direção do jogo. As manifestações são conservadoras não apenas porque são antipetistas, já que o petismo hoje em dia está longe de representar uma efetiva "esquerda" (estamos lidando mais com fantasmas que com a realidade), mas fundamentalmente porque procuram apenas conservar a máquina fazendo-a funcionar melhor, sem qualquer visão de transformação social e às vezes, muitas vezes, hostil a qualquer mudança. 

Nova forma de fazer política?

Mas existe algo mais profundo, estrutural, que ultrapassa a própria noção de semelhança. O 15M precisou de Junho porque inaugurou uma outra política no Brasil. Copiando o que escrevi no blog, quando se falava de “nova política”, muitos deram gargalhadas e reafirmaram (de modo bastante cínico e bem pouco cético, diga-se) que a única política possível era a que está aí. Recolheram a fala de Beto Albuquerque  para dizer que era impossível governar sem o PMDB. Mas o que se afirmava – independentemente da figura de Marina Silva – é que existe uma nova forma de fazer política e esse processo não só é inevitável, cruzando os dois hemisférios e se manifestando nos mais diversos países, como já começou. Esse processo envolve uma nova constituição da relação entre o presencial e o virtual, uma ampla integração entre as redes digitais e a política de rua, o surgimento de novos mediadores e a participação ativa dos agentes na construção do imaginário coletivo. Junho mostrou e o 15M confirmou que a organização não depende mais das instituições do século XX, mas atua com "flashmobs ", usando a lógica da ocupação como mecanismo de pressão sobre o sistema político institucionalizado.

O Estado é visto como uma burocracia distanciada da realidade social pulsante que tenta incessantemente a capturar, mas cada vez mais se aprofunda o abismo entre ambos. O 15M mobilizou essas redes à direita, canalizando os afetos na direção moralista, integrando parcelas descontentes do eleitorado que perdeu a eleição. Independente disso, do ponto de vista formal essa mobilização marca a entrada definitiva da nova política no sistema fechado dos partidos políticos. Portanto, o 15M não poderia ter existido sem Junho, ele se faz parte de uma mudança estrutural mais ampla no modo de fazer política que o Brasil passou nos últimos anos e muitos ainda não perceberam. Se essa estrutura vai ser usada na direção conservadora ou transformadora, é algo que está em disputa na conjuntura, mas a estrutura existe e negá-la hoje é uma tolice.

15M como resposta a junho de 2013

Finalmente, pode-se ler o 15M como uma resposta à permanente denegação de Junho pelo governo. O PT e sua nuvem de apoiadores recusam até hoje a potência das ruas de 2013. Para eles, não houve qualquer abalo significativo naquele momento, a "correlação de forças" permanece a mesma de sempre. Arriscando uma psicanálise selvagem do nosso cenário, podemos ler o 15M como uma repetição desse trauma recalcado pelo PT, que não ousou dar respostas às ruas - preferindo ficar agarrado ao sistema podre que sempre criticou quando na oposição -, fazendo dessa repetição uma neurose. Isso também explica a paralisia de ideias, a sensação de impotência generalizada, o "deserto" que os negrianos destacam, já que temos um "sujeito" que está neuroticamente trancafiado na repetição da falsa polaridade fantasmática entre governistas (a suposta esquerda) e antipetistas (os detratores da esquerda que não existe). 

 

IHU On-Line - Na sua avaliação, qual foi o objetivo das manifestações de sexta e domingo?

Moysés Pinto Neto - A goleada do 15M sobre o 13M foi a vitória simbólica da nova política sobre a velha, ou seja, foi uma vitória de organização, uma goleada formal. O que está em jogo ali não é apenas a questão "ideológica", que existe e já analisarei, mas a questão do modo de organização das massas hoje em dia. Enquanto o modelo governista se baseou na articulação de organizações tradicionais, dos sindicatos ao Movimento dos Sem Terra - MST, o novo modelo pode aglutinar uma massa mais heterogênea, reunida a partir de um ponto de sintonia afetivo, com o verde-e-amarelo como sinal de alegria compartilhada. Talvez haja escalas entre os modelos: o nível de articulação e capacidade de formular demandas do 13M pode ser mais efetivo, mas a capacidade de mobilização e o efeito simbólico do 15M é muito superior. Mais um ponto que deveria colocar a pensar os eternos negadores petistas do que está acontecendo no mundo (e que atinge o Brasil como consequência).

Pautas

Mas não se pode deixar também de levar em consideração o elemento ideológico. Como vários destacaram nos últimos dias, a pauta da direita é mais simples que a da esquerda. Afinal, o que a direita quer é que tudo fique mais ou menos como está. Além disso, não se pode subestimar a influência da grande mídia sobre o movimento, tanto no sentido de apoiar quanto de reforçar, ou até construir, a pauta. Não que também devamos superestimar isso. A mídia não conduz um punhado de robôs teleguiados simplesmente. É preciso que haja algum elemento real, palpável, para mobilizar essa multidão. A crise econômica, o futuro nublado, certamente tem esse poder catalisador. Mas isso não significa que o trabalho em sintonia entre a multidão e a mídia não exista. 

Além disso, o componente racial e de classe, com reflexos na atuação policial, não pode ser subestimado. Imagine se uma manifestação igual tivesse no lugar de Lobão, Luciano Huck e Ronaldo indivíduos como Mano Brown, Davi Kopenawa e Tati Quebra-Barraco. Se a periferia tivesse descido do morro no mesmo número em todas as cidades do Brasil haveria fortíssima repressão policial, independentemente de qualquer situação de violência. Quando a polícia se deparou com o perfil social dos manifestantes do 15M, percebeu que ali não haveria problema, não era a sua tarefa conter ou desestimular qualquer comportamento vindo daqueles a quem ela efetivamente está aí para proteger. É uma realidade traumática para os legalistas, mas materialmente a polícia funciona dessa forma, ainda que sua programação jurídica seja outra. 

 

IHU On-Line - O "voto crítico" que reelegeu Dilma esteve presente nas manifestações?

Moysés Pinto Neto - A crítica do voto crítico não foi simplesmente ouvida, como os demais que o rejeitaram já sabiam que não seria. Houve a tentativa de construir uma fagulha de última esperança, dar mais uma chance à Dilma, mas nada foi feito para mudar. 

Por que o voto crítico não esteve presente nem em 13 nem em 15? No 13M, só os governistas mais exaltados participaram. Como as pessoas do voto crítico não eram exatamente os exaltados, mas aqueles que gastaram sua última aposta, não era o caso. E não foram no dia 15 porque era uma manifestação da direita, pouca gente destoou desse quadro. Mas a principal razão de o voto crítico estar em silêncio, ou tagarelando em círculos, é que não apenas ele não foi escutado, como o governo inclusive piorou em tudo que ele tinha como certo. 

O voto crítico está sem argumento

Em síntese, Dilma desmoralizou o voto crítico. Tudo aquilo que era visto como uma imagem do mal vem sendo realizado pelo atual governo, com destaque para o ministério ridículo e o ajuste fiscal. Como alguém que apoiou Marina Silva, por óbvio não estou neutro. Mas pergunto: o que Marina teria de pior que o governo atual? Ela apenas disse a dura verdade sobre a economia, sobre as transações do BNDES, sobre a roubalheira da Petrobras (que alguns amigos petistas me diziam ter sido uma "deselegância" e com isso legitimado a operação de destruição do PT), etc. e isso foi usado contra ela. Hoje, é difícil para o voto crítico sustentar suas pautas porque aquilo que era apontado como referencial desapareceu. Ficaram sem argumentos e sabem o desgaste que foram as eleições, ainda bastante recentes na memória de todo mundo. Resta a simbólica que orientou essa posição durante as eleições: o vermelho, a esquerda, os trabalhadores. O governo hoje está reduzido praticamente a isso. 

 

IHU On-Line - Como avalia as críticas tanto daqueles que querem defender as manifestações de domingo, quanto daqueles que querem deslegitimá-la?

Moysés Pinto Neto - Acredito que a resposta comporta vários níveis. O direito de protestar e a liberdade de expressão são reconhecidos pelo Estado de direito e a democracia, de modo que afirmar que a elite e a classe média não podem pura e simplesmente protestar, ir às ruas, é um comportamento autoritário. Por outro lado, ir à rua significa colocar pautas na esfera pública, e nesse caso quem coloca está expondo um ponto de vista a ser deliberado pelos demais. O fato de o direito ao protesto existir não significa que o conteúdo desses protestos deva passar indene ao questionamento. Nesse sentido, pode-se distinguir o comportamento dos que deslegitimaram as manifestações apenas pelos sujeitos que as promoveram daqueles que procuraram entender o significado das demandas e encontraram muitos problemas. 

A exigência de que quem protesta contra corrupção seja favorável ou tenha ideias sobre reforma política é casuísta e irreal. O protesto contra a corrupção é legítimo de qualquer ponto de vista, ainda que por vezes possa adquirir tom seletivo ou moralista. A estagnação econômica e a má gestão pública decorrente do fisiologismo e aparelhamento também são pautas legítimas, mesmo que venham de setores que não são os mais prejudicados. Aliás, a corrupção atua em primeiro lugar para os vulneráveis: são eles a sentir com mais intensidade os efeitos do coronelismo, do desvio de verbas públicas, da falta de investimento para bancar oligarquias políticas ou engordar os cofres dos já muito ricos. Fala-se que toda sociedade brasileira é corrupta com base na antropologia do "jeitinho", mas só a partir de um formalismo ético é possível nivelar o desvio do miserável, geralmente uma estratégia de sobrevivência, com o roubo do rico e poderoso, esse sim decisivo na configuração hierárquica da sociedade brasileira.

Pedido de intervenção militar e o analfabetismo moral

Por outro lado, não é possível deixar de ler com preocupação os pedidos e a simpatia de boa fatia dos manifestantes pelo golpe militar. Pode parecer clichê, mas atribuo isso a um gigantesco déficit educacional. Com a extinção da disciplina de Educação, Moral e Cívica, que só propagava ideologia militar, ficou um buraco nos ensinos médio e fundamental que deveria ter sido ocupado com o ensino da cidadania, dos direitos básicos, do Estado de direito, da democracia e do respeito à alteridade. Os indivíduos que pedem intervenção militar não são apenas golpistas, não estão apenas fora da legitimidade e da legalidade: são analfabetos morais. Uma pessoa que não consiga entender que está errado um regime que impõe suas decisões pela força, que tortura, mata e desaparece com pessoas, que censura a liberdade de expressão, as artes, entre outras tantas coisas, não merece outra qualificação que não a de um estúpido. Seria importante um discurso bem claro do restante da sociedade contra esses grupos, começando pela mídia e pelos próprios parceiros de manifestação. O fato de Bolsonaro  não ter podido discursar no RJ é um bom sinal, mas ainda é preocupante a infiltração da mentalidade militarista na sociedade brasileira, especialmente porque atinge mais jovens que deveriam a considerar no mínimo bizarra. Faltou a eles uma formação como a que as crianças hoje começam a ter em matéria de meio ambiente, ficando horrorizadas quando veem pessoas mais velhas não separar o lixo e passando a ensinar aos pais e avós a importância de fazê-lo. Precisaríamos construir essas noções também para a esfera política no mínimo em relação à importância da liberdade, da democracia e do respeito aos direitos. 

 

IHU On-Line - O que a atual crise política demonstra sobre o lulismo?

Moysés Pinto Neto - O lulismo morreu de falta de imaginação política. Não há um intérprete do lulismo que não apontasse, já em 2010, que o ciclo estava em vias de esgotamento, especialmente em face da crise de 2008. Era quase unânime que o momento positivo que proporcionou o enriquecimento de todos estava esgotado e que não só era necessário distribuir de outra forma, como também que do ponto de vista político o foco no consumo puro e simples, sem uma qualificação da cidadania, mostraria seus limites. O próprio governo Lula tinha programas que poderiam ser aprofundados nessa direção, sem falar dos que poderiam ser inventados. A aposta do PT foi iniciar um ciclo desenvolvimentista de crescimento econômico que não funcionou. Mas havia muitas outras propostas na mesa que foram desprezadas (os "projetos ideológicos irreais" da ex-ministra Gleisi Hoffmann). 

Déficit teórico dos quadros políticos

Hoje sentimos na prática o déficit teórico evidente dos quadros políticos governistas. Não pensaram as transformações tecnológicas, a repercussão ambiental, os problemas da sociedade do consumo, o aprofundamento da democracia, a configuração das cidades, os novos movimentos sociais e nem mesmo a qualificação dos serviços públicos. O pensamento do governo ficou preso nos índices econômicos, no PIB, no aspecto quantitativo do crescimento acreditando que poderia finalmente "modernizar" o Brasil. A forma como lida com os direitos indígenas é emblemática dessa visão "progressista", hoje (paradoxalmente) "atrasada" pelas urgências do mundo atual como a de pensar a era do Antropoceno, interromper o ciclo infernal do consumismo e reinventar formas de vida que possam conviver de outro modo na cidade e no campo, inclusive traduzindo e usando exemplos ameríndios. Aquele poderia ter sido o momento de "reformas de base" reinventadas, o ponto de virada. A crise de 2008, além disso, poderia ser uma oportunidade para que o Brasil apresentasse uma alternativa econômica, usando toda sua riqueza vital e diversidade cultural, para um mundo em forte crise. O papel internacional do Brasil autorizava isso. Aliás, mesmo os discursos europeus dos ótimos novos partidos ainda passam por um certo imaginário do século XX "ajustado" em alguns pontos. 

Recuperar o Estado de bem-estar (no caso europeu) ou finalmente implementá-lo (no caso brasileiro) ainda não é o bastante, seja porque é uma mera repetição, seja porque hoje precisamos mais, especialmente na inclusão de novos sujeitos na política. Quando explodiram as manifestações de 2013, Dilma tinha aprovação no teto, mais ou menos a mesma que Lula tinha no final do mandato em 2010, e era a chance de ter arriscado algo. O que houve foi o contrário: conservadorismo, afirmação do sistema político podre, arrogância de dono da razão. Hoje, o governo paga a conta por ter desprezado tudo isso. São poucos os intelectuais que ainda não romperam parcial ou totalmente com o PT e os novos movimentos, como o Movimento Passe Livre - MPL e o Movimento dos Trabalhadores Sem teto - MTST, tampouco entraram no velho discurso "contra o avanço da direita". A base de apoio discursivo ficou bastante reduzida. 

Atualmente o lulismo está reduzido à dimensão populista (em sentido lato), ao carisma de Lula. Quando disse que havia risco de Lula pretender voltar em 2018, muitos ficaram chocados com a ruindade da ideia. Hoje todo mundo vê que essa é a tendência. Se o Brasil continuar em crise, a volta de Lula como líder populista será péssima notícia para a democracia brasileira.

 

IHU On-Line - Em entrevista que nos concedeu  no ano passado, pós-eleições, você disse que a "a energia crítica que o PT mobiliza ainda é muito grande e não desapareceu totalmente". Como fica a "energia crítica do PT" após as manifestações de domingo?

Moysés Pinto Neto - Há muitas pessoas que ainda canalizavam suas energias para o PT entendendo-o como um significante da transformação no Brasil, da esquerda e assim por diante. Hoje o número dessas pessoas é cada vez menor. O último golpe nesses apoiadores quem deu foi a própria Dilma com a composição frágil do governo atual. Nada foi feito para a esperada "virada à esquerda", ao contrário. Assim, fica-se na sinuca de bico que Eliane Brum  recentemente descreveu como a "pior maldição do PT",  a esquerda em desamparo, sem referencial, enfrentando uma direita cada vez mais organizada e massiva. Fazer que Junho se infiltre na política é nossa única saída. 

 

IHU On-Line - O que vislumbra a partir de agora? As manifestações podem ter algum impacto na política? Como?

Moysés Pinto Neto - Já estão tendo, mas é cedo para avaliar. É necessário ver como Dilma vai se comportar nos próximos meses. No primeiro momento, o comportamento arrogante dos ministros favoreceu o clima de insatisfação, confirmando o discurso que o governo não é confiável, continua negando a realidade. No dia seguinte, começaram discursos de humildade (não por acaso se tornou a palavra-chave) e a tentativa de recomposição da base, inclusive com reforma ministerial. A pergunta é qual o grau de coesão que pode alcançar um governo tão desgastado e quanto tempo o PT consegue aguentar suportando a pressão das ruas e ao mesmo tempo golpeando seus próprios apoiadores. Hoje, sequer há clima para que Dilma tome um rumo diverso (por exemplo, nomear um ministério qualificadíssimo e apresentar medidas de ruptura) dessa estratégia arriscada. Parece que a resposta depende da recuperação econômica ou há forte risco de uma instabilidade política muito grande com riscos imprevisíveis.

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Moysés Pinto Neto - Como já disse, a saída é retomar Junho, narrar o que aconteceu, manter-se fiel ao acontecimento e construir alternativas que disputem espaço com a direita. O vazio deixado pelo PT tem vários candidatos, mas ninguém ainda se apresentou definitivamente. Sem que haja ocupação desse lugar, a direita vai se alastrar e soterrar as esperanças que tornaram o Brasil um pouco mais justo, mas ainda totalmente aquém do potencial desse país imensamente rico que continua sem aproveitar seu manancial étnico-cultural e sua plasticidade incessante.

 

Leia mais...

- O “voto crítico” reelegeu Dilma. Pós-eleições, as contradições voltam à cena. Entrevista especial com Moysés Pinto Neto, publicada no sítio do IHU em 07-11-2014;

- ''A redução da alteridade do outro em mera representação do inimigo é pura violência''. Entrevista especial com Moysés Pinto Neto, publicada no sítio do IHU em 20-09-2012.

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