Edição 459 | 17 Novembro 2014

Por um projeto político livre dos medos

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Ricardo Machado | Colaborou: Fernanda Frizzo Bragato | Tradução: André Langer

De acordo com Eduardo Devés-Valdés, o Sul Global precisa ter um posicionamento crítico e autônomo para avançar no debate acadêmico internacional

“Continuamos em grande parte ‘ilhas periféricas’ de uma região para a outra. Não nos reconhecemos, não nos interessamos, ignoramo-nos reciprocamente. Há, por certo, exceções. O Brasil foi claramente o país da nossa região que deu passos mais importantes nas últimas décadas para aproximar a América Latina e a África. Creio, no entanto, que a academia brasileira fez pouco e a chilena muito menos”, critica o professor e pesquisador Eduardo Devés-Valdés, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Tomar o posicionamento crítico do professor como algo pessimista é um erro. “Na minha maneira de ver as coisas, talvez o mais importante foi o desenvolvimento da progressiva autonomia dos povos das regiões periféricas no último meio século e a constituição, por isso mesmo, de Estados-nação um pouco mais autônomos e de uma comunidade internacional mais ampla e capaz de outorgar reconhecimento”, sustenta. “Se os Estados do centro perderam soberania com a globalização, nós ainda continuamos ganhando, embora isso possa ser detido, e inclusive recuar no futuro”, completa.

Eduardo Devés-Valdés critica o que ele classifica como “pouca vontade de pensar por si” de parte da intelectualidade da periferia, carente de sentido histórico e perspectiva própria. Nesse sentido, sustenta uma perspectiva política baseada na liberdade, não exatamente no liberalismo. “A acracia é um processo que exige o fim dos medos, é uma pedagogia da liberdade ao mesmo tempo que uma gestão da segurança. Anarquistas que assustam as pessoas e esquerdistas que ameaçam os dominadores com o paredão satisfazem apenas seu ego de valentes, pois, sem o querer, na verdade, fortalecem o autoritarismo e enfraquecem a democracia, a gente-cracia e a acracia”, aponta.

Eduardo Devés-Valdés é doutor em Filosofia pela Universidade de Lovaina e doutor em Estudos Latino-Americanos e História pela Universidade de Paris III. Professor do Doutorado em Estudos Americanos e do Mestrado em Estudos Internacionais da Universidade de Santiago do Chile. Especialista em estudos eidéticos, do pensamento latino-americano, do pensamento das regiões periféricas e das redes intelectuais. Investigador e encarregado do Programa de Pós-Doutorado do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Santiago do Chile.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Passados aproximadamente 200 anos da independência da América Latina e 50 anos da independência do continente africano, que semelhanças e diferenças há entre as duas realidades?

Eduardo Devés-Valdés – Interessam-me mais as semelhanças do que as diferenças, neste caso. As duas regiões continuam sendo claramente periféricas em termos de economia, das decisões internacionais e da circulação das informações.

Sobre este último ponto. Entre a América Latina e a África produz-se menos de 5% do “conhecimento aparente” (artigos indexados) em nível mundial, sendo nós aproximadamente 25% da população mundial. Esta maneira de medir o fenômeno não é a única. Pode ser complementada com outras, como ver que não temos prêmios Nobel em Ciências nos últimos 20 anos, com exceção de alguns poucos em Literatura e outros Nobel da Paz. Outra maneira é perceber que as tendências ideológicas, políticas, filosóficas, epistemológicas, reconhecem muito poucas figuras das nossas regiões como chaves, certamente muito menos de 25%. Outra ainda é que a produção eidética, científica, de cada uma destas regiões é quase completamente desconhecida para a outra, exceção feita para alguma intelectualidade originária das nossas regiões e que vive e trabalha no centro e ali toma conhecimento e se interessa mais pelo que fazem as pessoas da outra região.

Continuamos em grande parte “ilhas periféricas” de uma região para a outra. Não nos reconhecemos, não nos interessamos, ignoramo-nos reciprocamente. Há, por certo, exceções. Mas isto acontece num grau menor do que há algumas décadas e devemos nos alegrar; no entanto, é mais grave, dada a existência da internet e da TV a cabo, pois atualmente podemos dispor de informação maior. O Brasil foi claramente o país da nossa região que deu passos mais importantes nas últimas décadas para aproximar a América Latina e a África. Creio, no entanto, que a academia brasileira fez pouco e a chilena muito menos.

A Universidade de Santiago do Chile e a Rede Internacional do Conhecimento  estão preocupadas com isto, colaborando de fato com várias outras, como a Associação Latino-Americana de Estudos da Ásia e da África - ALADAA e o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais - CLACSO.

 

IHU On-Line – O que mudou na relação entre os países do Sul Global no período pós-colonial com as potências do Norte? Houve algum tipo de reorganização significativa das relações?

Eduardo Devés-Valdés – Na minha maneira de ver as coisas, talvez o mais importante foi o desenvolvimento da progressiva autonomia dos povos das regiões periféricas no último meio século e a constituição, por isso mesmo, de Estados-nação um pouco mais autônomos e de uma comunidade internacional mais ampla e capaz de outorgar reconhecimento. Isso permitiu a existência de relações Sul-Sul que antes de 1950 eram praticamente impensáveis, pois a grande maioria dos povos ou eram colônias ou estavam completamente subordinados como quintais das potências durante a Guerra Fria, com menor autonomia de pensamento e ação, no que se refere a questões internacionais e mundiais, porque muitos tinham maior autonomia para a sua existência doméstica.

Esta situação equilibrou, parcialmente, uma situação que era ridiculamente desequilibrada. A descolonização foi um processo paulatino. O fim da Guerra Fria contribuiu ainda mais para esta conquista de autonomia. A gravitação da China em nível mundial contribuiu também para a divisão do poder e isso nos ofereceu maiores possibilidades de jogo, econômico, sobretudo, mas não somente.

Além disso, a nossa sociedade civil, a nossa opinião pública, a nossa expressão pública regional foi fortalecida, tornando-nos mais autônomos nos juízos e mais diversificados. Apesar do provincianismo das pessoas das periferias, o “apetite metanacional” aumentou, levando-nos a nos interessar progressivamente a ir além das nossas fronteiras nacionais, conectar-nos internacionalmente, ocupando-nos cada vez mais com o destino do Planeta. Desenvolveu-se um espaço público global, melhor para expressar ideias, mais variado e plural, melhor para organizar campanhas mundiais.

Se os Estados do centro perderam soberania com a globalização, nós ainda continuamos ganhando, embora isso possa ser detido, e inclusive recuar no futuro. O poder continua se dividindo, subdividindo e diluindo. Ao menos em alguns sentidos. Os povos sofrem menos manipulação, mas nem todos, nem em todas as suas dimensões. A capacidade de manipulação das grandes potências diminuiu, a capacidade das grandes empresas aumentou; a capacidade de manipulação das Igrejas diminuiu, mas a capacidade de algumas agências de comunicação aumentou.

No mundo existem cerca de 190 Estados reconhecidos pela ONU. Quantos havia há 40, 50 ou 60 anos? Um terço, porque a imensa maioria eram territórios coloniais entre os quais estavam quase todos os da África, Caribe e Pacífico Central tratando de constituir-se, e alguns Estados-títeres e outros, arrastados e manipulados pela Guerra Fria. É possível que França, Alemanha ou Estados Unidos e Japão gozassem de maior autonomia ou soberania que agora, mas os povos latino-americanos como quintal ou os da órbita soviética, ou os da África, a grande maioria da Ásia e a totalidade da Oceania careciam quase completamente de soberania até a pouco tempo atrás. Esta noção de enfraquecimento ou desaparecimento do Estado-nação, que é trazida pelos teóricos da globalização, toma uma pequeníssima parte da realidade e a projeta para o mundo. Alguma intelectualidade das periferias, carente de sentido histórico e de uma perspectiva própria, aceita de maneira acrítica esta teorização, delatando assim o pouco manejo de informação, a pouca vontade de pensar por si mesma e a preguiça que nos leva a assumir aquilo que traz prestígio, sem pensar.

Entenda-se bem, não defendo que atualmente os quase 200 Estados-nação que pertencem à ONU sejam autônomos ou que gozem de total soberania. O que pretendo dizer é que a imensa maioria dos povos possui Estados-nação administrados melhor por si mesmos, com maior autonomia que há poucas décadas... onde guerra fria, grandes impérios, potências coloniais, empresas e multinacionais religiosas associadas a estes podiam manipular mais facilmente os povos.

Não creio que esta lenta e progressiva autonomização seja um processo irreversível. Provavelmente, se houvesse uma imensa catástrofe ambiental, voltaríamos a formas de concentração de poder muito grandes, porque as pessoas em geral temem mais a insegurança do que o autoritarismo. A construção da democracia é lenta e longa e requer em geral estabilidade. A acracia  é um processo que exige o fim dos medos, é uma pedagogia da liberdade ao mesmo tempo que uma gestão da segurança. Anarquistas que assustam as pessoas e esquerdistas que ameaçam os dominadores com o paredão satisfazem apenas seu ego de valentes, pois, sem o querer, na verdade, fortalecem o autoritarismo e enfraquecem a democracia, a “gente-cracia” e a acracia.

 

IHU On-Line – Como é possível superarmos o marco epistemológico da ocidentalização como modelo de desenvolvimento? Qual a contribuição do Sul Global na proposição de novas racionalidades?

Eduardo Devés-Valdés – Vou responder a partir de uma premissa evolucionista. Não será possível superar o modelo de desenvolvimento ocidental, se assim se pode chamá-lo, se não tentarmos (ou descobrirmos) outro no qual um conjunto de elementos produza melhores resultados: trabalhar menos com a mesma produtividade ou produtividade maior com o mesmo trabalho, menos contaminação e menos aquecimento global, igual ou maior realização e satisfação psíquica das pessoas, igual ou maior liberdade e capacidade de expressão, maiores níveis de igualdade nos benefícios, melhor saúde e qualidade de vida... Trata-se de uma encruzilhada de numerosos fatores, onde nem todos devem ser positivos, mas a somatória sim.

Assim como os governos ou os Estados de centro-esquerda inteligentes conseguem que a burguesia trabalhe (ao menos parcialmente) para o país e não apenas para si mesma, um Sul global, uma periferia inteligente, pode fazer com que o centro trabalhe (ao menos parcialmente) para o mundo.

Certamente, no Sul existem muitas formas de vida alternativas ao desenvolvimentismo, mas estas por sua vez são “fatos” mais que formulações e, por outro lado, não conseguem ser formulados como modelo alternativo que sirva para inspirar outras regiões. O bem-viver  como proposta indo-americana tentou uma formulação alternativa ao desenvolvimentismo, mas me parece ainda idealizando enormemente a vida comunitária autóctone da qual não poderiam participar realmente aqueles que enunciam esses postulados. É fundamental que aqueles que formulam postulados alternativos possam vivê-los; caso contrário, a proposta é retórica ou de duplo padrão, algo como: “Proponho que os autóctones vivam autoctonamente, eu que falo em nome deles vivo de uma forma diferente, de forma não sustentável, da forma que condeno, pois não estou disposto a sacrificar a minha liberdade individual, sou antropólogo, não autóctone”.

Inventar e provar mil vezes formas de inovação em modelos econômicos e de vida melhores. Processo longo e desde sempre em marcha. Mahatma Gandhi , Muhammad Yunus , Paulo Freire , Hernando de Soto , Samir Amin  e muitas outras pessoas fizeram propostas especificamente orientadas para as periferias. Nem por isso funcionam em todas as partes, nem para todas as décadas.

 

IHU On-Line – Em um contexto globalizado, de que ordem são os desafios de tornar a produção de conhecimento do Sul Global parte significativa do debate internacional? De que forma podemos tornar esse protagonismo viável?

Eduardo Devés-Valdés – Não defendo o protagonismo de nenhum setor. Simplesmente que haja uma equidade em nível global da população do Sul. Para a América Latina, 8% ou 9%. Isso não impede que certas causas, como a proteção dos ecossistemas tropicais, possam ser lideradas por quem vive nessas regiões, mais que por quem vive em regiões temperadas como eu, ou frias, gélidas, como quem vive no norte da Ásia, Europa ou América. 

Não quero o protagonismo, embora maior presença que a atual. Creio que a África e a América Latina estão notoriamente sub-representadas no conhecimento, na opinião, nos critérios, nos princípios, nas teorias, nos saberes em nível global.

Para melhorar isto, para expressar-se melhor, para inserir-se melhor nas discussões globais, proponho as seguintes operações: operação conhecimento mútuo entre ambas as regiões e especialmente entre suas intelectualidades e universidades; operação criação de redes intelectuais entre a África e a América Latina; operação ventilação das bibliografias excessivamente voltadas para obras do centro, para oferecer um espaço maior às obras das periferias; operação educação na trajetória do pensamento próprio, para receber, inspirar-se, discutir com esta trajetória, sendo capazes de capitalizar o ali existente; operação criação de institucionalidade acadêmica que nos permita nos conhecermos, reconhecermos, encontrarmos, aproveitarmos melhor; operação para elaboração de uma agenda intelectual do Sul que formule temas, tarefas, desafios, objetivos e projetos.

 

IHU On-Line – Em uma sociedade em rede, qual a importância de constituir ligações entre os diversos elementos de produção de conhecimento e que tipo de impulso tal postura pode dar às sociedades de modo geral?

Eduardo Devés-Valdés – Penso que a “redificação” África-América Latina é importante em vários sentidos, mas não quero atribuir-lhe uma significação exagerada. Estes assuntos são de muito longo alento, com resultados ínfimos e lentos. Na resposta anterior propus várias operações, que, penso, devem funcionar como círculo virtuoso.

Estas redes poderiam ter impacto em vários aspectos sobre as nossas sociedades: ao melhorar o conhecimento e o interesse mútuo sensibilizaria aqueles que tomam decisões na educação, na política, na diplomacia, permitiria que maior número de estudantes e pessoas em geral viajasse de uma região a outra. Minha principal ênfase, no entanto, é que desconhecendo o que faz a intelectualidade e mais amplamente a cultura africana, perdemos uma grande parte do que a humanidade criou. Não quero colocá-lo como alternativa a outros, senão como complementar, mas “redificar-se” com a África é um esforço que significa deixar de gastar X% de esforço em redificar-se com outras regiões.

 

IHU On-Line – Considerando uma das características das sociedades do século XXI, que é a navegação on-line, como podemos superar a superficialidade que a Internet nos convida e nos aprofundarmos nas questões de fundo de nosso tempo?

Eduardo Devés-Valdés – Para mim, a internet convida a maiores níveis de profundidade que em tempos da letra impressa. Isto devido à maior quantidade de informações que se pode manipular atualmente. O nível de informações que manipulo agora, a quantidade de publicações disponíveis, os artigos atuais de opinião aos quais posso ter acesso, os olhares de quem protagoniza acontecimentos, entre outros elementos, são tanto maiores que a comparação me parece desnecessária.

Os baixos níveis de informação anteriores convidavam a contentar-se com poucas leituras. Atualmente, existem menos desigualdades entre a informação manipulada em uma grande universidade do centro e uma modesta instituição da periferia. Existem menos desculpas para o localismo, para a preguiça intelectual, para o dogmatismo, para o eurocentrismo das intelectualidades latino-americanas.

Imagine gente jovem tratando de pesquisar nas modestíssimas bibliotecas ou centros de documentação de pequenas universidades. Imagine o tempo perdido antes para chegar à biografia de uma personalidade ou a uma data ou a um acontecimento. Hoje demoramos menos de um minuto. Publiquei recentemente um livro muito extenso sobre o pensamento das regiões periféricas. Sem internet teria sido ainda pior (ou menos bom). Por último, se a tarefa da pesquisa se une à tarefa das redes, como acontece no meu caso frequentemente, a internet cumpre uma dupla função.

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Eduardo Devés-Valdés – Sim, desejo terminar com várias proposições:

- Que estes temas devem gozar de maiores discussões por parte das intelectualidades da América Latina e destas com as do Pacífico, da África, da Ásia, mas também com as regiões periféricas da Europa e com as “minorias” do centro;

- Que é fundamental uma “pedagogia para pensar e dialogar entre os grandes espaços”;

- Que empapar a nossa intelectualidade com a realidade africana, asiática e mundial é uma maneira de cortar o cordão afetivo-umbilical com a Europa;

- Que a “expressão pública”, como voz(es) da população, além da voz do Estado-nação ou dos organismos intergovernamentais, nos permite fazer-nos ouvir de uma região a outra. É de se comemorar os contatos que muitos governos tentam para estabelecer conexões entre a África e a América Latina, mas isso não nos impede, nem nos exime, de pronunciar as vozes autônomas;

- Que não nos deixemos levar por uma retórica subalternista ou decolonial simplesmente, porque é mais importante criar condições e uma institucionalidade que contribua para que nos falemos e escutemos reciprocamente: viagens intelectuais, fóruns, programas, encontros e publicações compartilhadas.

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