Edição 452 | 01 Setembro 2014

"A técnica é realização plena da hipertrofia da razão moderna"

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Márcia Junges e Andriolli Costa

O filósofo Celso Candido de Azambuja analisa o livro Psique e Techne – O homem na idade da técnica, do psicólogo italiano Umberto Galimberti, que defende uma concepção da técnica para além de seu caráter instrumental

A questão da técnica é um tema que vem intrigando filósofos desde os gregos antigos. Na história recente, a discussão volta à pauta especialmente a partir de Martin Heidegger, que, como esclarece o filósofo Celso Candido de Azambuja, defende uma concepção da técnica para além de seu caráter instrumental. Deste modo, “a técnica é de certa forma a expressão da vontade de poder humana em dominar o mundo de forma ordenada e racional”.

Ao longo dos anos, o tema foi retomado por diversos autores. Um dos mais representativos, atualmente, é o italiano Umberto Galimberti, graças a sua “obra monumental” Psiche e Techne, o homem na idade da técnica (São Paulo: Paulus, 2006). Segundo Azambuja, Galimberti vai além do proposto por Heidegger para explorar os mitos da neutralidade, da instrumentalidade e da não humanidade da técnica, “quer dizer, da falsa e alienante oposição homem versus máquina”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Azambuja evidencia como, diferentemente do proposto por Aristóteles, na contemporaneidade não há mais separação entre episteme (ciência, conhecimento) e techne (a técnica, em si). Desta intensificação e interdependência “surgiu o que hoje chamamos de tecnociência, uma forma de conhecimento aplicado que tende a dominar todos os setores da produção material e imaterial atualmente”. É isso o que permite que, na idade da técnica, esta passe a dominar mesmo a política, a economia ou as relações humanas. “Estamos de fato condenados a viver um destino tecnocientífico. A questão, para ele, é: como queremos viver este destino irreversível?”

Celso Candido de Azambuja possui graduação e mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, com doutorado em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Atualmente é professor adjunto da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, ministrando aulas em diversas áreas e tendo como foco filosofia, antropologia, ética, política, educação, cultura, internet, web, redes e tecnologia. É autor, entre outros, de Tecnociência, ética e poder - Ensaios para a compreensão da civilização tecnocientífica (Nova Petrópolis: Nova Harmonia, 2012) e Psiquismo digital, sociedade, cultura e subjetividade na era da comunicação digital (Nova Petrópolis: Nova Harmonia, 2012).

O professor apresentará, no dia 11-09-2014, a partir das 19h30, o livro Psique e Techne, de Galimberti, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos - IHU. A apresentação do livro é um dos pré-eventos do XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades. A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea, que será realizado entre 21 e 23 de outubro de 2014.

Umberto Galimberti, autor do livro Psique e Techne – O homem na idade da técnica, fará a conferência de abertura do XIV Simpósio Internacional IHU, no dia 21-10-2014, a partir das 20 horas, no Auditório Central da Unisinos, em São Leopoldo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quem é Umberto Galimberti  e qual é a importância de sua obra filosófica para o debate acerca da técnica?
Celso Candido de Azambuja -
Umberto Galimberti é um filósofo e psicanalista italiano contemporâneo que tem já uma vasta obra filosófica, parte dela traduzida para o português, a qual inclui títulos como: Os vícios capitais e os novos vícios (São Paulo: Editora Paulus, 2004), Dicionário de Psicologia (São Paulo: Edições Loyola, 2010), Nos rastros do sagrado (São Paulo: Paulus, 2003), além de sua obra monumental, Psiche e Techne, o homem na idade da técnica (São Paulo: Paulus, 2006).

Entre os livros sobre o problema da técnica, sem dúvida, Psiche e Techne é uma obra à parte, grande entre as grandes. Na realidade é um verdadeiro tratado, uma grande síntese do problema da técnica na história da civilização. Nesta obra, Galimberti defende teses fundamentais as quais são realmente indispensáveis nos debates atuais sobre a técnica.

Em um horizonte em que emergem dramática e admiravelmente a nova imagem antropológica do transumano, a criação e transformação radical das formas de vida existentes e a modelagem da subjetividade contemporânea através da tecnociência, Galimberti surge como um pensador estratégico que trabalha na direção da desconstrução de três mitos que, a meu ver, estão no centro da compreensão do problema e da natureza da técnica e suas interdeterminações na sociedade atual, ou seja: os mitos da neutralidade da técnica, da instrumentalidade da técnica e da não humanidade da técnica, quer dizer, da falsa e alienante oposição homem versus máquina.

Trata-se, pois, de uma obra fundamental em um debate que deseja ir além das análises superficiais, ainda dominantes nas instituições acadêmicas, científicas, públicas e privadas sobre o problema da técnica enquanto tal e sua importância decisiva nos destinos da civilização.

IHU On-Line - Qual é a influência de Heidegger  na formulação do pensamento de Galimberti?
Celso Candido de Azambuja -
Não sou especialista na obra de Galimberti e não saberia dizer a medida efetiva desta influência. Não posso, pois, falar diretamente e com autoridade sobre isto. Mas, de fato, na obra Psiche e Techne, ele faz várias referências diretas a Heidegger, na mesma magnitude que as faz a Aristóteles e Platão, por exemplo. Ele se apoia e desenvolve, sem dúvida, as grandes percepções de Heidegger sobre a técnica. Por exemplo, a partir de seu famoso ensaio sobre a técnica, Heidegger defende uma concepção da técnica para além de seu caráter instrumental, defende a ideia de que a técnica é de certa forma a expressão da vontade de poder humana em dominar o mundo de forma ordenada e racional.

Galimberti desenvolve com muito talento e consistência estas percepções fundamentais de Heidegger sobre a técnica. Mas, quanto à questão da técnica, certamente vai além do próprio Heidegger, que, a bem da verdade, não me parece que tenha feito da técnica uma questão central em seu pensamento. Ao mesmo tempo, Galimberti se apoia para pensar a técnica em outros autores não menos importantes nesta obra, tais como  Gehlen , Hegel  e Nietzsche , por exemplo.

IHU On-Line -  Em que medida Galimberti compreende a técnica como uma característica marcante da sociedade ocidental?
Celso Candido de Azambuja -
Para Galimberti a técnica é o destino das sociedades ocidentais avançadas. É nosso destino. Considera que não existe nenhuma chance de retorno ou escolha quanto a isto. Estamos de fato condenados a viver um destino tecnocientífico. A questão, para ele é: como queremos viver este destino irreversível?

Mas, para abordar verdadeiramente esta questão, é preciso entender, primeiramente, o lugar originário que a técnica ocupa na vida humana e, sobretudo, entender o papel fundamental que ela desempenha na realidade atual. Segundo ele, a técnica é o único e verdadeiro sujeito da história hoje. Somos, por assim dizer — e pior, sem o saber —, apêndices e instrumentos da própria técnica, da grande maquinaria técnica que nenhum homem ou instituição sozinha pode dominar. Não temos mais domínio sobre a técnica. Não somos mais os sujeitos todo-soberanos, emancipados da modernidade, e a técnica, nosso instrumental de ação no mundo. O crescimento quantitativo do aparato técnico transformou qualitativamente a relação tradicional fundante das relações entre ética e técnica na qual esta seria apenas um objeto e um instrumento nas mãos dos seres humanos, os quais, de acordo com seus valores morais e intenções, seriam livres para manipular a seu bel prazer. Não somos mais os sujeitos, mas nos transformamos nos objetos deste grande sujeito da história que é a técnica.

O fundamental agora, então, é fazer um trabalho de autorreconhecimento desta situação que não só seria menos lamentável que uma vida humana sem técnica, pois esta conduziria a humanidade à sua própria extinção, enquanto aquela [uma vida tecnificada] ao vazio de sentido, ao niilismo, a uma vida e uma subjetividade inteiramente reificada. Mas é preciso acordar o quanto antes para esta realidade dramática.

IHU On-Line - Há um nexo objetivo entre a hiper-racionalidade que fundamenta a modernidade e o surgimento e consolidação da técnica?
Celso Candido de Azambuja -
Sem dúvida. A modernidade sustentou a tese de que somente através do esclarecimento (Aufklärung) a humanidade poderia realizar-se a si mesma. Somente através da razão o indivíduo pode encontrar a liberdade, e a humanidade encontrar um caminho para sua emancipação e aperfeiçoamento.

A inflação da razão está na base da racionalidade instrumental que é o fundamento da técnica, ou, em outras palavras, a técnica é a realização plena da hipertrofia da ideia de razão moderna. Heidegger, por exemplo, não distingue mais ciência e técnica, como antes fizera Aristóteles distinguindo claramente episteme e techne. Para Heidegger, na modernidade não existe mais ciência sem técnica nem tampouco técnica sem ciência. É impossível pensar a ciência sem a técnica e a técnica sem ciência. Uma seria correlata à outra.

Desta intensificação e interdependência da relação entre episteme e techne que emerge na modernidade surgiu o que hoje chamamos de tecnociência, que é uma forma de conhecimento aplicado que tende a dominar todos os setores da produção material e imaterial atualmente.

IHU On-Line - O que é a “ética do viandante” e como essa formulação de Galimberti se coloca como contraponto ao status da técnica em nosso tempo?
Celso Candido de Azambuja -
A ética do viandante é a ética da “pura processualidade”. Trata-se de uma ética sem meta nem normatividade ideal, pois ela está subordinada a mutabilidade que o domínio da técnica introduz no mundo humano; uma ética das escolhas sem fundamentos últimos, princípios primeiros eternos e absolutos. As portas da criação estão abertas para destinos cada vez mais complexos, difíceis, admiráveis, impensáveis, imprevisíveis. Na medida, pois, em que o mundo se transfigura e artificializa de acordo com a técnica, a ética não pode mais existir no terreno do estável. De acordo com Galimberti (2006, p. 532): “A idade da técnica cortou sem hesitação as raízes que afundavam a ética no terreno estável do eterno, e sucessivamente naquele menos estável, embora mais responsável, da previsão futura. (…) Ao homem não restou nada mais que o destino de viandante”.

Esta é a ética do viandante que só pode se reconhecer no terreno da transitoriedade, da instabilidade e marcada pela imprevisibilidade, diferentemente das éticas antigas que viviam em um horizonte de estabilidade no qual o presente e o futuro estavam inscritos na ideia de um eterno retorno e de uma ordem natural imutável.

IHU On-Line - Qual é a influência do conceito aristotélico de phronesis  nessa “ética do viandante”?
Celso Candido de Azambuja -
Devemos primeiramente reconhecer que o mundo de Aristóteles e as representações imaginárias dominantes em sua época eram bastante diferentes do nosso, com a atual onipotência da técnica. A “ética do viandante” é uma ética para uma época diferente da de Aristóteles e seu tempo, cujas preocupações com o impacto humano sobre a natureza em geral e sobre a sua própria natureza a partir da técnica não estavam efetivamente colocadas no horizonte da reflexão ética. A ética e a política que lhe era correlata eram fatores autônomos e determinantes das realidades e da própria técnica.

Deste então a técnica não parou de se emancipar, não parou de se insinuar no campo das ciências e das práticas humanas. Portanto, uma influência ou aplicação mecânica da sabedoria prática (phronesis) aristotélica em nossa realidade seria um contrassenso. Entretanto, penso que a ética aristotélica pode influenciar positivamente em nossa atualidade tecnocientífica, pelo menos de duas formas: primeiramente a relação ética mesma com a técnica, pois, mais que nunca, esta relação convoca a uma sabedoria prática “moderada”. Quer dizer, a relação com a técnica deveria ser regrada por uma espécie de meio-termo que justamente levaria a uma boa relação com a técnica. Sendo a falta de medida o pecado capital da ética aristotélica, o problema se colocaria aparentemente entre a imagem de um Frankenstein e de um Androide Nexus, entre a liberdade — que às vezes beira à vulgaridade — das redes sociais e um big brother global informatizado, etc. Em seguida, na medida em que a phronesis aristotélica almeja precisamente uma sabedoria que o indivíduo precisa ter nas diferentes circunstâncias de sua vida, quer dizer, uma vez que se trata de um espaço de autonomia do indivíduo que deve ser capaz de discernir o que é correto fazer nas imponderáveis e diferentes circunstâncias da vida, através da busca de um termo médio, buscando evitar os vícios do excesso e da carência.

Para Aristóteles, a ética não é um conjunto de normas rígidas a seguir, tampouco é uma sabedoria científica. Trata-se de uma sabedoria prática que, baseada no meio-termo, deve decidir a cada momento como agir.  Esta imprevisibilidade é um dos fundamentos da phronesis de Aristóteles e é também uma das características centrais da “ética do viandante”.

IHU On-Line - Em que sentido Galimberti “alerta” a humanidade com relação à onipotência da técnica e do próprio homem, que pensa poder dominá-la?
Celso Candido de Azambuja -
Para Galimberti, a idade da técnica é consumada com a experiência do Nazismo. O Nazismo é a expressão máxima deste movimento de domínio da técnica rumo ao niilismo, no qual não são mais os indivíduos que desejam, mas desejam aquilo que a racionalidade instrumental determina que eles desejem.

Nesta experiência os homens tornaram-se definitivamente instrumentos da técnica que eles imaginam ou buscam dominar, mas não podem mais. Acho que o “alerta” de Galimberti é de que sejamos capazes de reconhecer este papel todo poderoso da técnica na nossa atualidade, pois sem este reconhecimento continuaremos a ser instrumentos da técnica e incapazes de qualquer reação efetiva a este estado de coisas. Resumindo as intenções da obra, em seu último parágrafo diz o filósofo:

“Esta ampliação psíquica, longe de ser suficiente para dominar a técnica, evita pelo menos que a técnica aconteça sem que o homem o saiba e, de condição essencial para a existência humana, se traduza em causa de sua extinção. Com isso não pensamos ainda na supressão ‘física’ do homem, mas na supressão da sua cultura, da sua moral, da sua história. De fato, é preciso evitar que a idade da técnica marque esse ponto absolutamente novo na história, e talvez irreversível, onde a pergunta não é mais: ‘O que nós podemos fazer com a técnica?’, mas: ‘O que  a técnica pode fazer conosco?’ (GALIMBERTI, 2006, p. 829).”

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