Edição 442 | 05 Maio 2014

Superar a mercantilização para garantir segurança alimentar adequada e saudável

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Luciano Gallas e Andriolli Costa

Francisco Menezes, do Ibase, apresenta um panorama das discussões sobre o tema no Brasil

“Se a segurança alimentar e nutricional no Brasil alcançou avanços significativos, com políticas públicas que permitiram o acesso aos alimentos para grupos sociais mais vulneráveis, não podemos festejar melhoras na forma como parte da alimentação é produzida, dentro de uma perspectiva mercantil, voltada para o lucro e sem a preocupação de uma alimentação adequada e saudável. Nesse ponto, ainda há muito o que avançar”, defende o economista Francisco Menezes.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Menezes comenta as alternativas para a “mcdonaldização” dos alimentos — como o movimento Slow Food, o papel e a atuação do agronegócio na busca por novos e crescentes nichos de mercado. Relaciona também o próprio papel do consumidor em exigir do mercado alimentos de qualidade.

 Francisco Menezes é graduado em Economia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ, e tem pós-graduação em Desenvolvimento Agrícola pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ. Atualmente é pesquisador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Com a globalização da alimentação, com produtos industrializados e fast foods se popularizando no mundo inteiro, percebemos uma padronização da dieta com uma alta predominância dos mesmos ingredientes (milho, soja, arroz, etc.). Que tipo de prejuízos sofremos, tanto do ponto de vista nutricional quanto dos cultivos agrícolas, a partir desta homogeneização da produção alimentícia? 

Francisco Menezes – Um elemento determinante para uma alimentação saudável e nutricionalmente adequada é a diversidade. É o melhor caminho para garantir o acesso ao conjunto mais completo de componentes necessários para uma boa alimentação. Restringir-se a poucos ingredientes vai acarretar, invariavelmente, insuficiências nutricionais. Ao lado disso, decorre nos cultivos agrícolas uma perda de toda a diversidade de espécies, trazendo riscos grandes de escassez de alimentos, frente a imprevistos que a atividade agrícola sempre carrega, como problemas climáticos, de pragas, etc. Acrescente-se, ainda, outro tipo de prejuízo, frente à cultura alimentar, que no caso de nosso país é riquíssima.

 

IHU On-Line - Na indústria alimentícia, em nome da alta produtividade, existem exemplos de extremos, como a crueldade com os animais, abuso no uso de inseticidas e pesticidas, utilização de transgênicos experimentais ou mesmo a exploração de mão de obra escrava. Qual é a realidade brasileira em relação a estes aspectos?

Francisco Menezes – Se a segurança alimentar e nutricional no Brasil alcançou avanços significativos, com políticas públicas que permitiram o acesso aos alimentos para grupos sociais mais vulneráveis, não podemos festejar melhoras na forma como parte da alimentação é produzida — dentro de uma perspectiva mercantil, voltada para o lucro e sem a preocupação de uma alimentação adequada e saudável. Nesse ponto, ainda há muito o que avançar.

 

IHU On-Line – Por outro lado, nos últimos anos, a indústria tem investido também em soluções opostas, em geral para agregar valor ao alimento, entre as quais a produção orgânica ou agroecológica e o abate humanizado. Do ponto de vista do consumidor, não é um contrassenso pagar mais por soluções que, na verdade, deveriam constituir a norma na produção agrícola? 

Francisco Menezes – Mesmo dentro de uma perspectiva que toma o alimento como mera mercadoria, ocorrerá a preocupação com o que é mais aceito pelos consumidores, sobretudo aqueles com maior poder aquisitivo. Daí que assistimos, hoje, a tentativa da indústria de alimentos em explorar esse nicho de mercado, prevendo inclusive que ele poderá se tornar maior, à medida que as exigências dos consumidores forem assumindo maior rigor. A questão é que a boa alimentação precisa ser cada vez mais acessível a todos. 

 

IHU On-Line - Até que ponto o consumidor que se exime de buscar informação sobre o que come colabora para a manutenção do status quo da indústria? Como é possível mudar isso?

Francisco Menezes – O consumidor precisa ser cada vez mais consciente sobre o que come e, mais ainda, em que bases são produzidos os alimentos que consome. É claro que o desconhecimento do consumidor colabora em muito para abusos e más práticas no sistema alimentar.

 

IHU On-Line - Ainda pensando em alternativas, surge o movimento Slow Food  — uma resposta ao Fast food e à “mcdonaldização” da alimentação. Qual a origem destas iniciativas?

Francisco Menezes – O slow food se iniciou na Itália, indo na contra mão da “modernização” dos costumes alimentares ditos modernos, ligados à rapidez e à praticidade. Mas logo se propagou pelo mundo, inclusive aqui no Brasil, como uma necessidade de resposta, na prática, a um sistema alimentar tão questionável, como é o que hoje ainda se apregoa como moderno.

 

IHU On-Line - Existem experiências semelhantes ao redor do mundo? Frente à força das grandes indústrias, movimentos espontâneos e de pequena escala, que angariam adeptos pouco a pouco, são uma alternativa viável?

Francisco Menezes – Reproduzem-se continuamente experiências semelhantes por todo o mundo. É uma resposta que vai além da negação de hábitos alimentares pouco saudáveis e de qualidade questionável. Trata-se de opção para um outro modelo de vida, associado à natureza e à busca de uma vida com maior equilíbrio. 

 

IHU On-Line – Uma alegação em defesa das grandes monoculturas agrícolas é que, mesmo se focando na produção de commodities para exportação, estas também servem de alimento (ou ração, que indiretamente será alimento), mesmo que para outras regiões do mundo. Qual sua avaliação sobre isso?

Francisco Menezes – É fato que o agronegócio também produz alimentos, seja para serem consumidos diretamente, seja para alimentar animais que serão por nós consumidos. Isso porque a lógica do agronegócio não se restringe a produzir para exportar, mas buscar mercados que lhe proporcionem maiores ganhos, dentro ou fora do país, ou ambos.

 

IHU On-Line – Em contrapartida, no Brasil, quais são os alimentos produzidos tipicamente em escala local? Há um uso diverso de pesticidas e inseticidas nestas culturas na comparação com as monoculturas?

Francisco Menezes – Existem alimentos que são tipicamente da pequena produção, no Brasil, em escala local. O melhor exemplo é a mandioca, alimento fantástico, mas pouco aceito no padrão alimentar atual.

 

IHU On-Line – O médico e geógrafo Josué de Castro , autor do livro Geografia da Fome (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001), dizia que deixar as pessoas morrerem de fome é uma escolha. No Brasil, que decisões políticas ilustram essa escolha pela fome nas populações marginalizadas?

Francisco Menezes – A fome é o resultado, talvez o mais visível, de uma sociedade na qual impera a desigualdade. Em que a pobreza atinge parte considerável da população, como condição necessária para a riqueza de poucos. É fruto de políticas públicas feitas pelos próprios homens, como assinalava Josué de Castro.

 

IHU On-Line – Quais são as principais iniciativas no Brasil nos últimos anos para o combate à fome e à pobreza?

Francisco Menezes – O Brasil avançou muito no combate à fome e à pobreza. Primeiro porque compreendeu que as transformações necessárias somente poderão ocorrer mediante a aplicação de políticas públicas adequadas. Depois, porque também se compreendeu que essa construção deve ser feita com participação social. A retomada do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional - CONSEA e a construção de unidades estaduais e municipais foram ocorrências fundamentais. Além disso, percebeu-se também a importância de integração das políticas, em uma perspectiva intersetorial.

 

IHU On-Line – No país, a fome atinge que populações/regiões de forma mais intensa?

Francisco Menezes – Nenhum país poderá afirmar que venceu a fome completamente. Ela sempre pode aparecer. Mas o Brasil, nos últimos 12 anos, apresentou avanços inquestionáveis. Mesmo assim, ainda atinge grupos muito vulneráveis, como é o caso de indígenas, sobretudo aqueles que perderam suas terras para áreas de monocultura.

 

IHU On-Line – A agricultura familiar ainda é responsável pela maior parte dos alimentos consumidos pelos brasileiros?

Francisco Menezes – Provavelmente, sim, mas sou de opinião que não devemos nos fixar nos 70% identificado a quase dez anos. Devemos considerar a velocidade com que o agronegócio avança na produção agropecuária.

 

IHU On-Line – Qual é a relação entre esta participação da agricultura familiar na mesa dos brasileiros e os hábitos de consumo contemporâneos? Que ameaças isso apresenta a uma alimentação saudável?

Francisco Menezes – A agricultura familiar está diretamente associada à produção de alimentos in natura. O padrão de alimentos industrializados, assim, não se alinha com a agricultura familiar e se constitui em uma permanente e crescente ameaça.

 

IHU On-Line – A qualidade desta alimentação representa riscos para a saúde humana?

Francisco Menezes – Sim, e ao mesmo tempo que conseguimos reduzir os problemas de carências calórico-proteicas, surgiram de forma muito ameaçadora os problemas de sobrepeso e obesidade.

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar mais alguma coisa? 

Francisco Menezes -  As dificuldades e desafios que hoje se apresentam não devem nos paralisar. A ampliação de nosso conhecimento e interesse se constitui em uma possibilidade muito concreta de revertermos atuais tendências, em um contexto de ampla participação social nessas políticas.

 

Leia mais...

- Combate à fome precisa de transformações estruturais. Entrevista especial com Francisco Menezes, publicada em 11-12-13; 

- 11,5 milhões de brasileiros passam fome. Entrevista especial com Francisco Menezes, publicada em 21-07-2011.

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