Edição 440 | 07 Abril 2014

Eficiência, resultado, inovação – A questão da técnica em Jacques Ellul

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Márcia Junges e Andriolli Costa

Jorge David Barrientos-Parra retoma o pensamento de Jacques Ellul para demonstrar que, na sociedade contemporânea, as relações pessoais e econômicas são mediadas pela técnica

Na década de 1950, o teólogo francês Jacques Ellul propôs o conceito de que, em nossos dias, já não é mais a economia o elemento fundamental da sociedade, mas a técnica. O que pode ser percebido a partir da “preocupação da imensa maioria dos homens de nossa época em procurar em todas as coisas o método absolutamente mais eficaz”, cita o professor Jorge David Barrientos-Parra, pesquisador da obra de Ellul.

Barrientos-Parra relata que o teólogo dedicou toda sua vida ao estudo sistemático do fenômeno técnico do ponto de vista sociológico. Mas que técnica é esta trabalhada por Ellul? Para ele, a questão da técnica “é muito mais do que o maquinismo; alcança também as consciências, não deixando margem nem para o pragmatismo, nem para o instinto, nem para o acaso”, relata o professor, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Assim, a tendência de aplicação de técnicas cada vez mais eficazes passou a determinar toda a nossa civilização. Hoje, há duas palavras que são unanimidade em todas as disciplinas científicas: inovação tecnológica. É a panaceia universal”, conclui. 

Jorge David Barrientos-Parra possui graduação em Direito pelas Faculdades Metropolitanas Unidas, mestrado pela Universidade de São Paulo e doutorado na Université Catholique de Louvain, Bélgica, todos na mesma área. Atualmente é professor assistente do Departamento de Administração Pública da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp, campus Araraquara.

É autor de Dívida Externa: do desequilíbrio contratual ao jubileu (São Paulo: Editora Juarez de Oliveira, 2002) e organizador de obras como Jacques Ellul: por uma análise crítica da moderna sociedade técnica (Araraquara: Ed. Unesp, 2009) e Direito, Técnica, Imagem: os limites e os fundamentos do humano (São Paulo: Editora Unesp, 2013).

Barrientos-Parra estará no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, participando do III Seminário em preparação para o XIV Simpósio Internacional IHU: Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades - A modelagem da vida, do conhecimento e dos processos produtivos na tecnociência contemporânea. Ele vai ministrar a palestra A técnica como segunda natureza humana no pensamento de Jacques Ellul, no dia 09-04-2014, às 19h30min, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a atualidade do conjunto da obra de Jacques Ellul  e que autores estão em diálogo com ele e são seus referenciais teóricos?
Jorge David Barrientos-Parra -
A obra de Jacques Ellul é atual e muito relevante, considerando que ele foi um pensador multidisciplinar que teve como objetivo central afirmar e defender a liberdade do homem frente aos perigos que a ameaçam. A sua obra sociológica de crítica da sociedade tecnológica é hoje reconhecida pelo mundo afora. Ellul é um autor que procura o diálogo com o homem do seu tempo e que não se fechou num sistema conceitual. Entre seus referenciais teóricos ele reconhece a Karl Marx ; a Soren Kierkegaard , menos como filósofo pai do existencialismo do que como alguém que fraternalmente entrega a sua experiência de sofrimento e de amor. Uma terceira referência é o teólogo suíço Karl Barth , que denunciou o hitlerismo, pregou a volta às Escrituras e a adaptação do Evangelho ao tempo presente.

IHU On-Line - Em que aspectos a tirania tecnológica sobre a humanidade, apontada por esse pensador, tem se demonstrado uma preocupação que se tornou realidade em nosso tempo?
Jorge David Barrientos-Parra -
Vou dar dois exemplos. A preocupação de Ellul com a liberdade do indivíduo que, aparentemente, seria algo abstrato ou no mínimo afastado das preocupações quotidianas de qualquer pessoa; foi trazida, pelo caso Snowden , à pauta das questões políticas de maior transcendência. Governos e líderes mundiais (inclusive a presidenta Dilma) são espionados sistematicamente. Se isto acontece com essas pessoas, quanto mais acontece com os simples mortais. Em outras palavras estamos sendo constantemente vigiados, monitorados; dessa forma perdemos a nossa liberdade e a nossa privacidade, que são direitos fundamentais, consagrados em qualquer regime democrático.

Outra questão na qual Ellul foi um pioneiro é o problema ecológico que envolve também o econômico e o social. Ellul afirmou com propriedade que não pode haver um desenvolvimento infinito em um universo finito. Por outro lado, como consequência desse desenvolvimento econômico, temos a poluição ambiental, que nunca alcançou a dimensão atual em toda a história da Humanidade.

IHU On-Line - Em que sentido a técnica se converteu no fator determinante de nossa sociedade?
Jorge David Barrientos-Parra -
Para Ellul, o fenômeno técnico é “a preocupação da imensa maioria dos homens de nossa época em procurar em todas as coisas o método absolutamente mais eficaz”. Ora, esta preocupação na hora da globalização significa que todas as sociedades tendem a formar somente uma: a sociedade técnica.

Hoje, em todos os âmbitos da realidade humana, a eficácia é o valor dominante. Assim, questão da técnica é muito mais do que o maquinismo; alcança também as consciências, não deixando margem nem para o pragmatismo, nem para o instinto, nem para o acaso. Desse modo, a tendência de aplicação de técnicas cada vez mais eficazes passou a determinar toda a nossa civilização. Hoje, há duas palavras que são unanimidade em todas as disciplinas científicas: inovação tecnológica. É a panaceia universal.

Por tudo isso, Ellul entende que em nossos dias não é mais a economia o elemento fundamental da sociedade, mas a técnica. Consequentemente, ele vai dedicar toda a sua vida ao estudo sistemático do fenômeno técnico do ponto de vista sociológico.

IHU On-Line - A partir dessa constatação, em que medida a racionalidade técnica norteia a vida em nosso tempo?
Jorge David Barrientos-Parra -
Esta é uma característica de nosso tempo. Em qualquer âmbito que se considere a técnica, em qualquer domínio que seja aplicada, achamo-nos em presença de um processo racional. Tende a submeter ao mecanismo o que pertence à espontaneidade. Essa racionalidade que se observa particularmente bem na divisão do trabalho, na criação de padrões, nos processos produtivos, etc., de acordo com Ellul, implica na realidade em dois movimentos: inicialmente a intervenção, em toda operação, de um discurso que exclui a espontaneidade e a criação pessoal. O outro aspecto desse movimento consiste em reduzir esse discurso à sua exclusiva dimensão lógica. Toda intervenção técnica é, em última análise, uma redução ao esquema lógico (dos fatos, dos fenômenos, dos meios, dos instrumentos).

IHU On-Line - Qual é o espaço da intimidade e direitos fundamentais numa sociedade técnica como a nossa?
Jorge David Barrientos-Parra -
O art. 5º, X, da Constituição Federal estabelece: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. Assim, a intimidade é um direito fundamental, é a proteção à vida privada do indivíduo, que deveria estar protegida contra toda ingerência na sua vida familiar, contra todo ataque à sua honra e reputação e contra toda divulgação desnecessária de fatos embaraçosos concernentes à sua vida privada. Este direito está no mesmo plano que o direito à saúde, ou o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Ora, na sociedade técnica, a multiplicação das ferramentas eletrônicas de espionagem e a multiplicação e o desenvolvimento de bancos de dados em rede — inclusive dos prontuários médicos em fichários eletrônicos — constituem uma formidável e constante ameaça à intimidade e à vida privada. A realidade demonstra que qualquer pessoa que entenda um pouco de informática pode, desde qualquer país e de forma anônima, invadir bancos de dados e cometer inúmeros crimes pelo computador ou com seu auxílio. Outras vezes, é a negligência ou conivência daqueles que teriam de proteger esses dados que possibilita a sua violação.

IHU On-Line - Quais são os impasses que surgem sobre a intimidade a partir da criação e uso do prontuário médico eletrônico?
Jorge David Barrientos-Parra -
O mais importante é que esses dados podem ser devassados por hackers ou por outras pessoas que tenham acesso aos bancos de dados. Quanto maior for o banco de dados, maior é a sua fragilidade, uma vez que maior é o número de pessoas que tem acesso a ele.

IHU On-Line - Em que medida estamos abrindo mão de nossa autonomia em função dos paradoxos estabelecidos pela técnica?
Jorge David Barrientos-Parra -
Na verdade, o homem da nossa época acredita estar se servindo da técnica. Entretanto, somos nós que a servimos. A técnica deixou de ser instrumental, para Ellul ela é um sistema que restringe cada vez mais o ser humano. Por outro lado, a técnica constitui também uma crença, isto é uma forma quase mística de conceber o mundo. Aqui encontramos o “mito do progresso”, o mito de que “a ciência e a técnica nos trarão a felicidade completa”. Muito embora esses mitos tenham se esfacelado no século passado após a destruição material e moral das duas guerras mundiais, eles continuam a influenciar o homem contemporâneo. Para Ellul, é essa sacralização da técnica que escraviza o homem.

IHU On-Line - Sob o prisma de Ellul, em que aspectos a técnica é ambivalente?
Jorge David Barrientos-Parra –
Hoje, praticamente, não mais se discute na literatura a constatação de Ellul de que a técnica não é neutra. Porém, em 1950, quando ele apresentou essa ideia, foi um escândalo. Isto quer dizer que é inerente a ela certo número de consequências positivas e negativas, independentemente do seu uso. Não é uma questão de intenção. É verdade que o uso pode orientar uma técnica por um determinado tempo, em um sentido puramente positivo, mas esta técnica contém potencialidades que serão inevitavelmente exploradas. Tomemos o exemplo dos fogos de artifício que os chineses utilizaram somente nesse sentido, entretanto essa técnica continha potencialidades, por nós conhecidas, que não poderiam ser negligenciadas por muito tempo.

Para Ellul, a ambivalência é uma mistura complexa de elementos positivos e negativos (“bons” e “maus” se quisermos utilizar um vocabulário moral). Ele entende que é impossível dissociar esses fatores para obter uma técnica puramente boa, que os bons resultados não dependem do uso que fazemos do instrumental técnico. Com efeito, neste uso, nós mesmos somos modificados. No conjunto do fenômeno técnico não ficamos intactos.

IHU On-Line - Há pontos de aproximação entre as obras de Jacques Ellul e Ivan Illich  no que tange à técnica e à modelagem da vida?
Jorge David Barrientos-Parra -
Illich considera-se discípulo de Ellul. Assim, há pontos de aproximação, por exemplo, o conceito de convivialidade  de Illich é a aspiração à justiça e sensibilidade que a sociedade técnica perdeu em função de agir somente visando à eficácia que leva afinal de contas a transformar os meios em fins.

IHU On-Line - Qual é a peculiaridade da abordagem de Ellul sobre a energia nuclear?
Jorge David Barrientos-Parra -
Nesse debate sobre a energia nuclear e sobre outros debates em torno de questões puramente técnicas, Ellul mostra a completa inadaptação de nossos políticos. E a perda de influência do político e da política. Porque o que no final acabará se impondo são as soluções técnicas, que somente alguns poucos técnicos dominam. Ora, essas soluções são impostas autocraticamente por políticos que desconhecem os meandros do problema (salvo se são engenheiros especialistas nesses temas — o que é raro) e suas consequências. Quanto ao cidadão comum, o único que lhe cabe é pagar a conta e sofrer as consequências dos desastres quando as usinas funcionam mal (ou não funcionam) com severas projeções no meio ambiente.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Jorge David Barrientos-Parra -
Perguntaram para Ellul se ele pudesse resumir a sua obra ao essencial: o que o senhor diria? Ele disse "eu tratei de mostrar como a técnica se desenvolve de forma independente, fora de todo controle humano. Em seu sonho prometeico, o homem moderno se propôs domesticar a natureza, o resultado disso foi a criação de um meio artificial mais restritivo ainda. Ele pensava se servir da técnica, mas é ele que a serve". "Eu descrevo um mundo sem saída, com a convicção de que Deus acompanha o homem em toda a sua História".

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