Edição 434 | 09 Dezembro 2013

A complexidade da relação entre repressão policial, sociedade e investidores

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Luciano Gallas

O questionamento é de Bruno Cava, que se mostra menos surpreso com a violência estatal no controle das manifestações do que com a facilidade como são construídos discursos políticos e jornalísticos para legitimar a brutalidade

“A radicalização da repressão policial revela ligações íntimas. Estaria mesmo a repressão associada ao cumprimento do império da lei e à manutenção da ordem pública, ou será que serviria, bem mais concretamente, para atender às demandas por pacificação dos investidores? Ou seja, para evitar o desastre da ‘fuga de capitais’ comprometidos com megaeventos e a ultravalorização imobiliária?”, questiona Bruno Cava. Ele mesmo lembra que, “nos últimos meses, têm sido solicitadas garantias de ‘paz’ aos governos por empresários da cerveja, da hotelaria, do mercado imobiliário, por patrocinadores dos megaeventos e do carnaval, por redes de televisão que esperam fábulas em verbas de publicidade e pela própria FIFA”. Dessa forma, a repressão policial estaria menos relacionada aos interesses da sociedade em manter a ordem do que em garantir o retorno financeiro aos grandes investidores envolvidos com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, para citar apenas os principais eventos programados para ocorrer no Brasil nos próximos anos.

Para Bruno Cava, não é o “esmagamento sistemático das manifestações por uma força superviolenta e superarmada que dirige toda a exuberância de sua brutalidade contra os manifestantes na rua” o que surpreende, porque a violência da polícia (e, de uma forma mais geral, do Estado como um todo), já é plenamente conhecida pelos moradores das regiões de periferia e pelos grupos sociais marginalizados. “O que surpreende nem é tanto o grau superlativo dessa violência do Estado, algo já amplamente conhecido, mas a facilidade com que se constroem discursos políticos/jornalísticos que a minimizam, camuflam e terminam (ou se esforçam) em legitimá-la”, destaca ele em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Usando expressões batidas como ‘resposta dura’ ou ‘coibir vândalos mascarados’, os jornais e a televisão passam a ‘senha’ nos dias anteriores aos protestos. A incitação à violência começa nos editoriais. Como efeito, qualquer um numa manifestação passa a ser um ‘vândalo’ em potencial, da mesma forma que qualquer jovem negro numa favela pode estar ‘implicado com o tráfico’ — o que muda é o material da bala. Imediatamente, e com livre curso nos meios dominantes de comunicação, a narrativa do vandalismo (ou o tráfico, no caso correlato) é invocada para justificar a violência policial”, complementa.

Bruno Cava é graduado em Engenharia de Infraestrutura Aeronáutica e em Direito, possui mestrado em Direito na linha de pesquisa Teoria e Filosofia do Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e é editor do blog quadradodosloucos.com.br. É autor de A vida dos direitos: ensaio sobre violência e modernidade (Rio de Janeiro: Lumen Iuris, 2008) e publica contos, crônicas, resenhas e críticas em diversos sítios.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - As manifestações do chamado Outono Brasileiro alcançaram uma vitória irreversível? 

Bruno Cava - A principal mudança está na percepção. Antes de junho, reinava a sensação de tranquilidade nos gabinetes. As pesquisas de opinião configuravam um cenário confortável para a reeleição da presidenta Dilma Rousseff e a manutenção das forças políticas majoritárias. Indicavam um respaldo da grande maioria às políticas na base do modelo de crescimento econômico, inclusão social e “revitalização” urbana realizado nos últimos 10 ou 15 anos. Essa tranquilidade deixava os governantes à vontade para conservar os esquemas de governabilidade, seus parceiros empresariais e financeiros, o eixo da política fiscal e monetária e todo um sistema de alianças político-partidárias no Congresso, nos estados e municípios. A pacificação do dissenso se dava, basicamente, numa “zona cinzenta” entre atendimento e cooptação dos movimentos sociais, bem como com a própria institucionalização da esquerda, dentro dos aparelhos de governo. Os outros descontentes eram vistos como minorias inexpressivas que, embora barulhentas, não eram capazes de alcançar efeito de escala, a ponto de ameaçar os índices de popularidade e as previsões eleitorais. A ocupação do canteiro de Belo Monte  ou da Câmara dos Deputados por indígenas, a greve selvagem de Jirau , a resistência estilo “black bloc” de Pinheirinho , a formação de comitês de questionamento dos megaeventos, o ataque contra o mascote da Copa em Porto Alegre , os movimentos pela moradia e transporte nas grandes cidades, a rede de ocupas brasileiras de 2011-2012; nada disso era visto como sintoma de um fenômeno maior, adensando nos subterrâneos da política representativa. Além disso, se sustentava a análise de que o ciclo global de lutas começado nas revoluções árabes, transmitido ao movimento do 15 de Maio europeu  e ao Occupy norte-americano , e que neste ano espocou na Turquia e no Egito, estaria associado unicamente a uma crise recessiva do capitalismo, sem reunir condições para pegar no Brasil.

Nesse sentido, as manifestações de junho, na casa do milhão de manifestantes e espalhadas em centenas de cidades grandes, médias e pequenas, racharam com o consenso. Nessa rachadura passou a vazar um líquido em alta pressão, muito quente, borbulhante de indignações, propósitos e a vontade de se fazer visto e ouvido. Eu concordo com Rodrigo Nunes que, em recente artigo , adere ao conceito de evento para explicar o que aconteceu: “o momento em que se registra, de maneira inequívoca, que uma transformação dos corpos, das sensibilidades, das palavras e dos desejos ocorreu”. Isto não significa que o levante tenha explodido do nada, como um raio no céu azul, mas sim que, em junho, um conjunto de mobilizações e insatisfações pouco visíveis e dizíveis acumulou energia crítica para sobrepujar os entraves, bloqueios e interditos e conseguir impactar a percepção de uma maneira sem volta. Surgida na esteira dos protestos, a campanha Cadê o Amarildo?, apenas para dar um exemplo dramático, contribuiu para trazer a periferia ao centro da percepção. Hoje, sabemos quem é Amarildo, que foi um ajudante de pedreiro negro, morador da Rocinha, com seis filhos, buscado em casa em 14 de julho por agentes “pacificadores” do Estado e levado a uma sessão de torturas, morto e desaparecido. Sabemos quem foi Douglas, o adolescente da zona norte de São Paulo, cujas últimas palavras ao policial que o matou foram: “Senhor, porque atirou em mim?”. Ou Paulo, 18, de Manguinhos , outro morador negro de comunidade “pacificada”, levado para uma revista policial num beco escuro e espancado até a morte. Os nomes e circunstâncias, há alguns meses, simplesmente não apareceriam. Não haveria sensibilização alguma, e ficaria por isso mesmo. Hoje, eles fazem diferença, geram uma mobilização que transcende os territórios onde ocorreram os fatos, realimentando os protestos em maior escala.

Outro exemplo de mudança está na percepção de que a dita “esfera pública” está completamente emaranhada com o “privado”, de maneira que não dá mais pra identificar o que poderia separar a razão pública do interesse privado. O Movimento Passe Livre (MPL) e o OcupaCâmara (acampamento de dois meses nas portas e, por um período, dentro da Câmara dos Vereadores do Rio) expuseram somente uma das “caixas pretas”, a dos transportes coletivos, entre outras que determinam as campanhas eleitorais, os contratos públicos e o destino da arrecadação e tarifas. A radicalização da repressão policial também revelou ligações íntimas. Estaria mesmo a repressão associada ao cumprimento do império da lei e à manutenção da ordem pública, ou será que serviria, bem mais concretamente, para atender às demandas por pacificação dos investidores? Ou seja, para evitar o desastre da “fuga de capitais” comprometidos com megaeventos e a ultravalorização imobiliária? São perguntas que os protestos colocam. Nos últimos meses, têm sido solicitadas garantias de “paz” aos governos por empresários da cerveja, da hotelaria, do mercado imobiliário, por patrocinadores dos megaeventos e do carnaval, por redes de televisão que esperam fábulas em verbas de publicidade e pela própria FIFA. Essa problematização se generalizou nas manifestações de rua e nas redes, ganhando visibilidade inédita.

Em geral, com as manifestações, o desassossego passou a assolar os gabinetes. Os índices de popularidade despencaram — só a aprovação de Dilma [Rousseff] caiu incríveis 27% em algumas semanas —, não poupando governantes à esquerda ou à direita do espectro partidário. As análises até então adotadas pelos governos ficaram suspensas no ar, na medida em que os parâmetros e variáveis não conseguiam mais explicar, prever ou classificar o que acontecia nas ruas. As cartas estavam embaralhadas e ninguém pode mais garantir, hoje, que em 2014 estas ações não se repetirão e com que intensidade. O fracasso do diagnóstico levou apressadamente à hipótese do caos, pela velha ideia, que remonta a Edmund Burke , da turba despolitizada e de apetites anárquicos e perigosos que, na realidade brasileira, daria margem a apropriações oportunistas e golpistas. Uma conclusão reconfortadora, confirmando a autopercepção da esquerda institucional nos governos que, fora de seus rituais, protocolos e bandeiras, só haveria despreparo, radicalismo inconsequente e fantasia. Isso apenas aguçou a sensação nervosa de medo, de mundo em extinção, na cabeça do poder constituído. O que se seguiu foi uma repressão política na qual a participação de intelectuais, dirigentes e mandatários da esquerda brasileira foi sem precedentes. Essa participação direta, aberta, de boa consciência na criminalização dos movimentos oriundos das manifestações desde junho também é um fato irreversível para a organização das lutas daqui por diante.

 

IHU On-Line - Qual é o principal legado do Outono Brasileiro?

Bruno Cava - Em 20 centavos: a luta contra o aumento (São Paulo: Veneta, 2013), livro publicado em outubro, Pablo Ortellado  fala da conquista da redução do preço da passagem do ônibus como grande exemplo para as lutas, como um grupo pequeno e bem organizado pôde conjugar foco no processo e nos resultados para realizar uma pauta. O livro celebra esse legado do MPL, o que, de fato, é um paradigma de ação autônoma e eficaz. Mas, a meu ver, o legado vai além disso. A pauta da mobilidade urbana, num cenário crítico para a população das grandes cidades, especialmente a mais pobre, foi fundamental para massificar os protestos. No entanto, o movimento rapidamente se alastrou como uma peste, desencadeando processos latentes de indignação e revolta. No Rio, por exemplo, se multiplicaram palavras de ordem, marchinhas, xingamentos e cartazes questionando os megaeventos, não só as obras implicadas, mas também as medidas de exceção que serão aplicadas por exigência da FIFA. Liam-se mensagens do tipo: “Quero escolas e hospitais padrão FIFA” e “Copa do Mundo, não quero não / quero dinheiro pra saúde e educação!”. E se ouvia: “Era um país muito engraçado / não tinha escola, só tinha estádio / Ninguém podia protestar não / Porque a polícia sentava a mão”. O grito talvez mais frequente, em particular quando a polícia bombardeava os manifestantes, era: “Não vai ter Copa!”. Quando, em 7 e 15 de outubro (7-O e 15-O), novas manifestações ocuparam inteiramente a Avenida Rio Branco, sua composição política estava muito mais orientada à crítica aos governos (nas três esferas, federal, estadual e municipal), com foco na violência policial e criminalização dos movimentos, na falta de investimento na educação e, mais uma vez, no questionamento dos megaeventos. Não se viam mais, como em junho, pessoas cantando o hino nacional, de verde e amarelo, ou encampando a pauta anticorrupção da mídia corporativa. O golpismo era mesmo um fantasma de lençol.

Além da qualificação contínua das manifestações, elaborando melhor suas pautas e se concentrando nos problemas da cidade, outro legado duradouro tem sido a construção de instâncias de auto-organização. A criminalização está produzindo um efeito bumerangue. Em vez de desmobilizar os manifestantes, acabou levando-os a organizar a própria defesa, em vários planos: jurídico, midiático, político e físico. Surgiram veículos midiativistas, trabalhando intensamente com streaming, redes sociais, youtube e blogues, para contestar o regime de verdade da mídia corporativa. Ampliaram-se as redes de advogados militantes, para atuar nas delegacias, inquéritos e processos, a fim de confrontar acusações sem substrato probatório, usando tipificações vagas ou exacerbando leis penais ao arrepio da constituição. E também se congregaram indivíduos empenhados em defender as pessoas quando da brutalidade policial, com escudos improvisados, máscaras de gás, paus, bolinhas de gude, estilingues, garrafões de vinagre ou leite de magnésia. Inicialmente dispersas ou reunidas em grupelhos de afinidade, essas pessoas atuantes na autodefesa gradativamente começaram a adotar um visual próprio, com roupas e bandeiras na cor preta, e a se coordenarem taticamente a fim de conter a violência, permitindo que a maioria dos manifestantes pudesse ficar no protesto ou, pelo menos, tivesse condições de sair com mais segurança.

 

IHU On-Line - Em artigo recente publicado no blog Quadrado dos loucos, citas "a indignação real presente nas manifestações, saturada de uma condição de sofrimento e raiva, imediatamente manifestada na luta". Qual é o espaço do sofrimento e da raiva nas manifestações?

Bruno Cava - Pesquisando as lutas urbanas há vários anos, aprendi na prática que o que move as pessoas a continuar lutando, a resistir mesmo em situação de risco, mesmo criminalizadas e perseguidas, não é tanto algum compromisso ideológico. As pessoas não se expõem e continuam na rua porque acreditam numa utopia, e assim estariam defendendo essa idealidade. O que excita a coragem é muito mais uma condição de luta e afirmação que atravessa os corpos. Quero dizer, a luta está baseada numa potência de existir, no desejo de continuar existindo de uma maneira singular. Nesse esforço, é inevitável deparar-se com uma economia de coerções, uma normalidade coativa, que busca nos impedir, nos afetar de tristeza, nos paralisar e, então, explorar e violentar. Encontrei ressonância, assim, na ética dos afetos de Spinoza  (especialmente segundo a leitura pelo filósofo italiano Antonio Negri ), para quem a resistência tem uma tonalidade afetiva: é a própria forma de vida que se afirma, no que ela não mede esforços diante das intimidações e agressões, porque está em jogo a sua própria liberdade de existência. A raiva aí nasce de um amor maior, está assentada numa positividade ética de relações cooperativas. O medo, nessa filosofia, é a medida do Estado, aquilo que age internamente para deprimir o ímpeto de seguir agindo. É o que decompõe a prática, a sombra da resignação. A indignação sucede quando aqueles que ombream conosco, que compõem suas vidas numa vida comum de afirmação e resistência, são ameaçados e feridos.

Tome, por exemplo, o caso das pessoas que foram presas nas escadarias da Câmara de Vereadores do Rio, no final da manifestação do 15-O. A polícia isolou manifestantes pacíficos com um cordão, lotou três ônibus e espalhou-os por delegacias distantes, numa espécie de “auto de prisão coletiva”. Foram cerca de 200 pessoas detidas, das quais 64 depois seriam encerradas em presídios. Ao longo da semana anterior, a grande mídia repetidamente passou o recado de que seria aplicada a Lei 12.850/2013 , sancionada por Dilma, que prevê até oito anos de pena para quem integrar “organização criminosa”. Naquela noite, segundo o presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB , a “orientação da direção da polícia civil” era agravar ao máximo as acusações, a fim de manter o máximo de manifestantes presos. Somem-se a isso as buscas e apreensões policiais na casa de militantes, a proibição das máscaras, as contínuas conduções à delegacia para “averiguação”, os “passeios” não-oficiais e as intimidações e agressões diretas durante os protestos, e se pode ter uma noção do panorama de criminalização que estamos vivendo. É uma política do medo. Mais do que atingir o indivíduo A ou B, o plano é semear o medo nos meios ativistas, sobretudo através das redes sociais, para afugentar as pessoas da rua e das redes. Os “recados” passados pela grande mídia se dirigem inclusive contra pessoas que opinam nas redes e pesquisadores que, acuados, se acautelam em ressalvar que estão “explicando” o fenômeno, e não “justificando”.

A questão é que, como não se trata de um compromisso ideológico, mas de uma condição real de luta, essa repressão novamente ricocheteia contra o governo. Várias pessoas violentadas em alguma dimensão, ou que viram amigos violentados, não hesitam em voltar para rua no momento oportuno, organizar novas marchas, agora com ainda mais determinação. Muitos se solidarizam diante da repressão e passam a defender o simples direito de resistência. A pauta expande, para abranger o modelo de segurança pública, o questionamento das polícias e como isso está atrelado ao próprio direito à cidade. A panela de pressão vai estufando, enquanto os governantes tentam se convencer que podem controlar a multidão pelo medo. 

Recentemente escrevi um artigo , com Talita Tibola, no qual afirmamos que, para muitos manifestantes, a chance de reunir-se num protesto de rua e participar de ações diretas e autodefesa é o mais perto que já estiveram de construir coletivamente um sentido, para a afirmação de si e de seu mundo, onde podem exprimir o que sentem, querem, sua riqueza. Isso é muito político. Despolitização é ficar em casa para depois reproduzir a versão da TV aberta, criticando esses manifestantes como autores de “quebra-quebra”. Paradoxalmente, apesar da brutalidade policial que se abate sobre os protestos e de toda a histeria punitiva com que são retratados pela mídia corporativa, eles vivem a manifestação como um terreno de paz, um lugar onde podem se mascarar e viver a política com alegria, intensidade e sensação de compartilhamento. Para essas pessoas, é absurdo dizer que existiriam traços de fascismo no protesto. Imagine, o fascismo das execuções sumárias, da humilhação e do racismo, para elas, já é experimentado como normalidade nas comunidades, na revista policial, no aperto do ônibus, na fila da saúde, nas incursões, nas delegacias onde ficam virados para a parede e humilhados como escravos fugidos. O fascismo da sociedade já aconteceu, e o conhecem muito bem o negro e o índio, o queer  passeando nos “lugares errados” ou qualquer mulher sozinha à noite voltando para casa.

 

IHU On-Line - A violência presente nas manifestações de outubro em São Paulo e no Rio de Janeiro pode ser interpretada como denúncia da violência cotidiana? Como essa questão se relaciona com a violência policial?

Bruno Cava - É a presença da própria polícia que tem disparado os circuitos de violência nas manifestações. Por exemplo, na manifestação de 50 mil no Rio, no 15-O, no final da marcha, os manifestantes ocuparam pacificamente a praça da Cinelândia, com presença dos professores em greve, movimentos sociais, ativistas dos mais diversos coletivos e pessoas de máscara vestidas de preto. A polícia sitiou a praça fechando todas as saídas e, quando alguns grupos resolveram se movimentar para sair do cerco, ela começou um ataque maciço contra a manifestação como um todo. A alegação posterior, divulgada na imprensa, era de que os “black blocs” estariam rumando para depredar a Alerj [Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro). Ou seja, a polícia teve que usar a violência contra a manifestação para evitar a violência, numa lógica busheana  de “ataque preventivo”. O que faltou explicar é por que os ditos “black blocs” iriam vandalizar o prédio da Alerj se, nesse dia, não tinham sequer arranhado a desprotegida Câmara de Vereadores na Cinelândia, que era precisamente o foco dos protestos dos professores.

O principal fator para a violência é a presença do Estado, e não a falta dele. Em primeiro lugar, a polícia ataca indiscriminadamente quem quer que esteja na rua, uma vez decidida a dispersão do protesto. Eu presenciei autênticos pogroms  por bairros inteiros, em operações do tipo “varredura”, onde até transeuntes insuspeitos e pessoas em bares foram alvejadas. Nunca houve confronto entre polícia e “black blocs”. O que tem sucedido é um esmagamento sistemático das manifestações por uma força superviolenta e superarmada, que dirige toda a exuberância de sua brutalidade contra os manifestantes na rua. O que surpreende nem é tanto o grau superlativo dessa violência do Estado, algo já amplamente conhecido, mas a facilidade com que se constroem discursos políticos/jornalísticos que a minimizam, camuflam e terminam (ou se esforçam) em legitimá-la. Usando expressões batidas como “resposta dura” ou “coibir vândalos mascarados”, os jornais e a televisão passam a “senha” nos dias anteriores aos protestos. A incitação à violência começa nos editoriais. Como efeito, qualquer um numa manifestação passa a ser um “vândalo” em potencial, da mesma forma que qualquer jovem negro numa favela pode estar “implicado com o tráfico” — o que muda é o material da bala. Imediatamente, e com livre curso nos meios dominantes de comunicação, a narrativa do vandalismo (ou o tráfico, no caso correlato) é invocada para justificar a violência policial.

Em segundo lugar, a grande maioria das depredações de patrimônio acontece no momento da dispersão. O caos se instala exatamente quando a manifestação é atacada com gás, bombas, tiros de borracha e choques elétricos. É a polícia quem produz o caos e depois o utiliza para justificar a sua própria violência sem limites. Começa o deus-nos-acuda e todos os mecanismos internos de autocontrole da manifestação perdem a eficácia. Alguns manifestantes completamente indignados com a situação repassam a violência sofrida aos alvos mais visados: vidraças de agências bancárias, ônibus e seus pontos, fachadas de casas legislativas.

Em terceiro lugar, não se pode esquecer a violência do desrespeito aos direitos, que começa quando as pessoas são cercadas, imobilizadas e detidas. Essa violência, real atentado à democracia, prossegue com indiciamentos arbitrários, condução a delegacias distantes, acusações coletivas e elásticas (por exemplo, enquadramento genérico no crime de “corrupção de menores”), oitivas informais sem a presença do advogado, devassa de telefones celulares e câmeras sem consentimento judicial, impossibilidade de fiança, encarceramento, sem falar no processamento usualmente violento da pessoa no transporte policial, delegacias, setor de identificação criminal e, last but not least , no presídio, com especial incidência sobre os detidos negros, índios e/ou em situação de rua.

Como se, nas manifestações, tivéssemos aberto a caixa de Pandora do modelo de segurança pública nas grandes cidades. O sociólogo José Cláudio Alves, da UERJ [Universidade Estadual do Rio de Janeiro], diagnosticou bem esse problema: a segurança pública, aqui, tem sido entendida como guerra ao crime, como erradicação de um mal, dentro da concepção de guerra e inimigo. Cabe à “sociedade de bem”, isto é, à opinião pública que a mídia corporativa representa, definir quem é o mal. Não à toa, há um diuturno esforço midiático em forjar a figura do vândalo, mascarado e “black bloc” como encarnação do mal, o antípoda do “bom manifestante”, bem como uma ânsia dessa mesma imprensa em enquadrá-lo no “crime organizado”, ou a ele ligado. Semelha, guardadas as proporções, à construção mais clássica do “envolvido no tráfico”, aquela vida matável e insacrificável (para adotar uma expressão de Giorgio Agamben ), que não vale nada, que merece a tortura, a execução sumária ou o inferno prisional. A construção midiática confina com o poder punitivo, pois define o campo de matabilidade, os limites do tolerável, do escândalo, fora do que o Estado recebe um mandato irrestrito para a violência. As reclamações caem em ouvidos de mercador, com vagas promessas de “apuração dos excessos”. A intensidade da violência estatal contra os manifestantes se dilata tanto quanto a capacidade de construção de uma verdade ao redor dos episódios, onde a violência é ponto focal e o “black bloc”, a principal figura diabólica. 

 

IHU On-Line - Que novos espaços para o debate e a ação políticos podem surgir a partir da pauta de reivindicações das manifestações?

Bruno Cava - Ao participar do acampamento da OcupaRio há dois anos, na Cinelândia, fiquei impressionado como basta você organizar um espaço de livre palavra, num lugar de grande circulação, para que pessoas as mais diferentes se adiantem e falem. Falam das dificuldades do cotidiano, problemas do bairro, das filas dos hospitais, de dívidas, expectativas, decepções, filhos ou de coisas pessoais que pareceriam bobagens quaisquer, mas que em suas bocas naqueles cinco minutos de liberdade alcançam uma sutil conotação política. Elas se encontram sempre cercadas de afazeres e obrigações, envoltas por uma vida íntima difícil e complexa, às vezes voltando de uma rotina embotadora ou um emprego estenuante. Contudo, ainda assim, para surpresa geral, e especialmente a sua própria, têm a coragem e a determinação de ir à rua para atuar na cidade, para falar. As pessoas vão à rua e simplesmente falam, se manifestam e umas com as outras desencadeiam um processo, e aquilo tudo rapidamente se qualifica como política.

Muitas pessoas têm a chance, nessas horas, de ser um cidadão, quer dizer, uma pessoa que calma e orgulhosamente expressa o que pensa, e luta para que essa expressão não seja tolhida. Apesar de tudo, das cobranças e frustrações, essas pessoas continuam profundamente ligadas a uma cidade, cujos governantes insistem em desarraigá-las. Diferente das verdades fabricadas pelo governo e pela imprensa, as manifestações que estão conduzindo o país a outro patamar de democracia não são infestadas por perigosos “mascarados vândalos”, a serviço de ideologias funestas, numa suposta fúria sem direção, anárquica e destrutiva. O que eu posso testemunhar é que, no estofo das manifestações, inclusive em suas ações diretas e na autodefesa, estão pessoas comuns como eu e você, anônimas, pessoas cheias de fraquezas e hesitações, amiúde dilaceradas pelo medo e pela dúvida, mas decididas em sair à rua nos momentos críticos, arriscar o próprio pescoço para lutar pelos direitos e existir como seres libertos.

Para os governos e a imprensa que lhes serve de agência de publicidade, a rua continua sendo um lugar de passagem entre a casa e o trabalho. O resto é “vandalismo”. Eles vigiam a peste com olhos de doberman, calculando onde passar o próximo cordão sanitário. Para eles, a voz dessas pessoas continua soando como nota em falso diante das maiorias silenciosas, embutidas nos índices de popularidade, doravante instáveis. Continuam sem entender.

A OcupaRio era uma ocupação pacífica, e todavia resistente, que você não poderia chamar de “pública” (no sentido de propriedade do Estado) ou “privada” (com outros donos), e onde desaguaram várias pautas da cidade, encarnada nos seus sujeitos, de moradores de rua a universitários e ativistas das redes, de dependentes químicos a militantes “profissionais” ou anarcopunks. Agora, neste ano que não vai acabar tão cedo, vejo como aquela experiência expressou uma cultura de rua que está no subsolo das manifestações.

 

Leia Mais...

- A esquerda e o desejo por trás do rugido da plebe. Entrevista especial com Bruno Cava, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 05-07-2013;

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