A luta contra a fome e a opção pela vida

Aquilo que é um direito humano não pode ser compreendido como caridade, pontua Dom Mauro Morelli ao se referir à garantia do alimento. Uma revolução cultural com impactos na ordem econômica e em nome do bem comum deve ser o pano de fundo para nossas ações

Por: Márcia Junges

Dom Mauro: criança com fome não é motivo de pena, mas de vergonha

Lutar para que uma criança não morra criança por falta de comida, desnutrida. Esse é um dos grandes objetivos que inspiram a trajetória de vida de Dom Mauro Morelli, bispo emérito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. “Segurança só se tem com alimentação saudável e adequada. Sonho em ver um povo saudável, inteligente, criativo e bem humorado, que não durma com fome ou raiva. Devemos lembrar sempre do perdão e do pão, mencionados no Pai Nosso”. Em sua fala na tarde de 26-06-2013, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, durante o evento Direito Humano ao Alimento e à Nutrição no Contexto Mundial das Metas do Milênio, Dom Mauro contou aspectos de sua luta contra a fome, na garantia do direito humano ao alimento. “Precisamos evoluir da cultura piedosa para uma cultura do direito, que assegure às pessoas a segurança alimentar”, disse à plateia na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros.

Descendente de imigrantes italianos que viveram as agruras da falta de alimentos e da carestia na Europa do século XIX, na região do Vêneto, Dom Mauro celebra a “brasilidade que impregna o ser”, mas que convive com a fome em diferentes partes do país. “A riqueza não vive sem a pobreza, e é preciso rever esse modelo econômico concentrador. As grandes fortunas devem ser taxadas. Vejam: o Brasil não será pacificado enquanto continuar a haver esse acúmulo de bens”, ressaltou. Ele manifestou a importância de vivermos uma vida mais frugal, sem o acúmulo ou o esbanjamento. “Esse modelo econômico que aí está desenraiza as pessoas e as comunidades”.

Assistencialismo

“Aquele que reparte o pão é uma pessoa iluminada, que superou sua condição egoísta”, observou Dom Mauro Morelli. Em seu ponto de vista, não se pode falar em caridade de matar a fome, pois o alimento é um direito da pessoa. Isso está escrito na encíclica Caritas in Veritate, de Bento XVI. E que não se confunda assistência social com assistencialismo: “No Brasil o que impera é o aspecto assistencialista. Precisamos de uma guinada de 180 graus para que as pessoas não dependam do Bolsa Família no futuro. A pedagogia do Bolsa Família deveria ser outra”, frisou.

Outro aspecto que Dom Mauro enfatizou foi a importância da alimentação desde a concepção da vida. Se faltar alimento quando o óvulo é fecundado, haverá danos físicos. E esse alimento deve atender a três critérios: deve ser adequado, saudável e solidário.

Fome x obesidade

Para Dom Mauro Morelli, o fundamental é perceber que não se deve ter pena de criança desnutrida. “Devemos ter é vergonha. Trata-se de uma dignidade ferida, lesada. Essa deve ser a motivação para lutarmos contra a chaga da fome”. E acrescentou: “Nosso DNA acumula a memória ancestral da fome que a humanidade experimentou. Por isso acumulamos gordura. É para o caso de passarmos por períodos de carestia e termos o que queimar”. Contudo, felizmente aquelas épocas de acesso periclitante à comida já se foram. Hoje a produção mundial de alimentos tem crescido. Paradoxalmente, a fome continua, aliada a outra epidemia: a da obesidade mórbida, alicerçada pelo consumo de produtos industrializados, ricos em açúcares, gorduras, sódio e outros aditivos nocivos à saúde.

Outro paradoxo que surgiu na discussão com a plateia foi a falta de abordagem da temática da fome pelos cursos acadêmicos de Nutrição e Medicina. Essa lacuna das graduações precisa ser revista. E mais: “Devemos nos reeducar, voltarmos a ser saudáveis e ter outra relação com os alimentos. Há alimentos não saudáveis que são ofertados em excesso. Fazer uma opção pela vida é preciso e fundamental. É necessária uma profunda revolução cultural com impacto na ordem econômica para que o bem comum seja o motivo por trás de tudo isso. Todos os seres devem ser preservados, e não apenas os humanos. Educação é um processo de relações permanente”.

Alegria de viver

Na modernidade vivemos um verdadeiro paradoxo. Estamos inseridos num mundo avançado em tecnologia ao lado de populações famélicas, esquecidas pelo poder público. “Fome não é fatalidade de Deus. Josué de Castro , com sua obra formidável, não nos deixa esquecer disso”. Em sua jornada pela mesa abastada nas famílias e nas comunidades eclesiais, Dom Mauro acentuou que é impossível esquecer as crianças desnutridas que conheceu. Mais de 40 mil delas foram visitadas na Baixada Fluminense, sendo que 5 mil foram recuperadas do estado desnutrido no qual se encontravam. “Todos temos que nos envolver com o combate à fome. Devemos celebrar a vida comendo e bebendo, e não perder a alegria de viver”.

Quem é Dom Mauro Morelli

Bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias-RJ, Dom Mauro Morelli é presidente do Conselho de Segurança Alimentar de Minas Gerais – Consea/MG, Fundador do Instituto Harpia Harpyia e um dos fundadores do Movimento pela Ética na Política. Fortaleceu a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Esteve à frente da criação do conceito de segurança alimentar como combate à fome e foi um dos articuladores do programa Mutirão de Combate à Desnutrição Materno-Infantil. Foi membro do Comitê Permanente de Nutrição da ONU. Para maiores informações sobre sua trajetória e suas lutas, acesse www.mauromorelli.blogspot.com. 

Nos dias 6, 7 e 8 de maio de 2014, o Instituto Humanitas Unisinos - IHU sediará o Seminário brasileiro sobre a fome. A programação e demais informações serão divulgados oportunamente.

Leia mais...

Confira os materiais publicados sobre Dom Mauro Morelli pela IHU On-Line:

* Combate à fome: o desafio de equacionar problemas estruturais. Notícias do Dia 21-05-2013, disponível em http://bit.ly/12RUSOc 

* A morte dos mártires. Notícias do Dia 19-09-2006, disponível em http://bit.ly/11Q1bki 

 

Baú da IHU On-Line

Confira edições da revista IHU On-Line que abordaram a temática da fome e da alimentação.

* A comida fala a redescoberta da mesa em tempos de fastfood. Edição 163, de 07-11-2005, disponível em http://bit.ly/1ais1tb 

* Por uma ética do alimento. Sobriedade e compaixão. Edição 191, de 14-08-2006, disponível em http://bit.ly/m28gQt

* Josué de Castro e Graciliano Ramos. A desnaturalização da fome. Edição 274, de 22-09-2008, disponível em http://bit.ly/17kY1cz

Comentários

clara souza da silva
comentou em 13/07/2013
Parabéns Dom Mauro por ser voz do povo oprimido pela fome, em busca de uma sociedade justa e sem pobreza.

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