Edição 425 | 01 Julho 2013

A alteridade da vida que constitui as vozes humanas

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Graziela Wolfart

Daniel Stosiek reflete sobre o cristianismo como sendo constituído na alteridade e como o Concílio Vaticano II foi um movimento que se abriu ao diálogo, o que influenciou no surgimento da teologia da libertação e também incentivou movimentos indígenas

Para o pesquisador Daniel Stosiek, “enquanto uma teologia imperial vê Deus e o mundo de sentido na ‘identidade’, perto dos dominadores, imperadores e a riqueza material, uma teologia da libertação vê a proximidade de Deus na alteridade, perto dos marginalizados, dos empobrecidos, dos explorados, dos excluídos”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por e-mail, ele explica que “a tradição ocidental conhece a ética da comunidade, da vida social, mas adicionalmente pode aprender dos povos indígenas uma ética da reciprocidade com os outros seres vivos da natureza”.

Daniel Stosiek estudou Teologia na Alemanha, fez mestrado e doutorado em Política do Desenvolvimento na Universidade de Bremen. Realizou o pós-doutorado no ano passado na Universidade Federal de São Carlos. Atualmente integra o Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso – GEGe/UFSCar, que esta semana promove o evento “O Concílio Vaticano II como evento dialógico”, no qual ministrará a palestra “Buscando uma teologia da libertação que escute as vozes de povos indígenas”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em linhas gerais, qual o foco da abordagem que o senhor trará ao falar sobre o tema “Buscando uma teologia da libertação que escute as vozes de povos indígenas”? 

Daniel Stosiek – Vou tematizar o cristianismo como sendo constituído na alteridade, que se desenvolvia depois de séculos como identidade total, e como o Concílio Vaticano II foi um movimento que se abriu ao diálogo, o que influenciou no surgimento da teologia da libertação e que incentivou movimentos indígenas.

IHU On-Line – Como seria constituída uma teologia da libertação que escute as vozes de povos indígenas? Quais os elementos de uma teologia condizente com a cosmovisão e a cosmologia indígenas?

Daniel Stosiek – Enquanto uma teologia imperial vê Deus e o mundo de sentido na “identidade”, perto dos dominadores, imperadores e a riqueza material, uma teologia da libertação vê a proximidade de Deus na alteridade, perto dos marginalizados, dos empobrecidos, dos explorados, dos excluídos. Segundo Leonardo Boff, está-se descobrindo nas últimas décadas como novo sujeito da Teologia da Libertação a “alteridade da natureza” como sujeito empobrecido e explorado. Neste último aspecto, a teologia pode aprender muito dos povos indígenas porque na tradição cristã quase não existe a sensibilidade pela natureza viva. A tradição ocidental conhece a ética da comunidade, da vida social, mas adicionalmente pode aprender dos povos indígenas uma ética da reciprocidade com os outros seres vivos da natureza.

Depois de tematizar os processos de sentido e espiritualidade que acontecem entre o ser humano e outros seres da natureza, segundo o ponto de vista dos povos indígenas, é preciso destacar aspectos da exploração e da libertação. Além das teorias de Karl Marx, se poderá ver que o valor das mercadorias e a mais-valia têm sua origem não só na exploração da exterioridade do trabalho vivo do ser humano (como expressa E. Dussel), mas também da exterioridade do trabalho vivo da natureza, ou seja, trata-se do conjunto da relação do ser humano com a natureza. Se Enrique Dussel argumenta que a essência da dependência consiste em que – dentro da competição internacional – acontece uma transferência da mais-valia do capital do sul ao capital do norte, agora se pode argumentar que a riqueza do capital do Norte se origina no “trabalho vivo” da natureza e do ser humano do Sul. Por isso uma perspectiva de libertação mundial que também libera a espiritualidade e o sentido da alteridade ao mesmo tempo, vai começar quando a exterioridade do Outro (o “Tu” da natureza e do ser humano) se faça visível e audível. Neste processo, a comunicação com os povos indígenas é de grande importância.

IHU On-Line – Que vozes dos povos indígenas são essas que você pesquisa? Como se constituem?

Daniel Stosiek – A minha fonte de conhecimento são conversas e entrevistas com várias pessoas indígenas com as quais falei e, além disso, a literatura de autores indígenas e não indígenas. Finalmente não sei suficientemente como aquelas vozes se constituem, se deveria perguntar às próprias pessoas, mas o que posso pensar é que as vozes das pessoas provêm de suas sociedades, de seus contextos históricos e sociais, de suas memórias e experiências. Alguns indígenas dizem que a linguagem se origina na relação entre os seres humanos e a natureza. Segundo Mikhail Bakhtin, a linguagem provém do diálogo e da alteridade social, e os indígenas acrescentam a alteridade dos outros seres vivos. O poeta mapuche Elicura Chihuailaf disse (no evento Caxiri na Cuia, em maio de 2012, na UFSCar) que a palavra provém da emoção da escuta à natureza. Um indígena manchinery (da Amazônia) disse (durante um colóquio em junho de 2013 na UFSCar) que os Shamãs aprendem dos animais que, em certos aspectos, são mais elevados espiritualmente do que os seres humanos, e ele como também um Umutina disseram que a cultura humana vem da floresta. Segundo o antropólogo Pedro de Niemeyer Cesarino, “entre os povos indígenas, é possível aprender cantos com os espíritos dos animais” . Conforme tais depoimentos, as vozes humanas são constituídas, em última instância, pela alteridade da vida que existe além do ser humano.

IHU On-Line – O que a teologia da libertação, enquanto fruto do Vaticano II, tem a dizer aos povos indígenas cuja visão de mundo instaura-se na ideologia do bem-viver?

Daniel Stosiek – A Teologia da Libertação precisa, em primeiro lugar, escutar os povos indígenas em vez de “missioná-los”. Quando se abrir um diálogo mútuo e recíproco, ou seja, uma troca de experiências e de sabedorias, teremos a liberdade dos sujeitos indígenas, que poderão decidir o que eles querem aprender dos seus parceiros.

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