Edição 425 | 01 Julho 2013

O fluxo da corrente verbal. O catolicismo tradicional popular e o novo jeito de ser Igreja

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Graziela Wolfart

Maria Cecilia Domezi aborda a maneira de recepção e de enunciação do Concílio Vaticano II na base leiga e popular da Igreja Católica

“O Concílio fez uma virada antropocêntrica”. A opinião é da professora Maria Cecilia Domezi, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line. Ela explica sua afirmação: “o centro das atenções da Igreja deixou de ser ela mesma enquanto instituição de poder, deixou de ser uma doutrina sem vida; passou a ser a pessoa humana na sua completude, situada no mundo moderno, com todas as suas relações e com sua realidade cultural”. Para ela, na América Latina essa virada encontrou um “espaço especialmente favorável. A partir das Conferências de Medellín e de Puebla e com a Teologia da Libertação, concretizou-se o modo de ser Igreja Povo de Deus, em relação mais circular que piramidal, no exercício da cidadania eclesial a partir do batismo, no profetismo, na opção pelos pobres como sujeitos da sua libertação integral. O protagonismo da base leiga e popular da Igreja, através de sua participação grupal e comunitária, passou a aparecer no ‘fluxo da corrente verbal’, como apresenta o filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin. Ali está o processo de conscientização e engajamento na práxis que transforma as injustiças da sociedade. Dentro da tomada da Palavra divina, a tomada da palavra humana faz maravilhas”.

Maria Cecilia Domezi possui graduação em Instrumentos pela Faculdade de Música Santa Marcelina, graduação em Educação Artística pela Associação Santa Marcelina – Faculdades Santa Marcelina e em Teologia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, mestrado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção e doutorado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professora nas Faculdades Integradas Claretianas, de São Paulo, e no Instituto São Paulo de Teologia. Ela participará esta semana do evento “O Concílio Vaticano II como evento dialógico” ministrando a palestra “Entre o pensamento mítico e a práxis de transformação social: o Vaticano II em linguagem popular.”

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Em linhas gerais, qual o foco da abordagem que a senhora trará ao falar sobre o tema “Entre o pensamento mítico e a práxis de transformação social: o Vaticano II em linguagem popular”?

Maria Cecilia Domezi – O foco é a maneira de recepção e de enunciação do Concílio Vaticano II na base leiga e popular da Igreja Católica. Refiro-me especialmente às mulheres e homens participantes de círculos bíblicos e comunidades eclesiais de base. A linguagem dessas pessoas, em profunda interação com a sua prática, mostra como elas fizeram e fazem o espírito do Concílio encarnar-se, tornar-se vida. O interessante é que não há linguagem popular no Concílio Vaticano II. Sabemos que seus dezesseis documentos se fizeram numa linguagem teórica, abstrata, erudita. O discurso da fé ali foi formulado em meio aos conflitos entre o dogmatismo da neo-escolástica e a nova teologia. Mas formulou-se uma teologia em perspectiva existencial, hermenêutica e dialógica, com centralidade na Palavra de Deus. Nesta perspectiva, o Concílio fez uma virada antropocêntrica. O centro das atenções da Igreja deixou de ser ela mesma enquanto instituição de poder, deixou de ser uma doutrina sem vida; passou a ser a pessoa humana na sua completude, situada no mundo moderno, com todas as suas relações e com sua realidade cultural. Na América Latina, essa virada encontrou um espaço especialmente favorável. A partir das Conferências de Medellín  e de Puebla  e com a Teologia da Libertação , concretizou-se o modo de ser Igreja Povo de Deus, em relação mais circular que piramidal, no exercício da cidadania eclesial a partir do batismo, no profetismo, na opção pelos pobres como sujeitos da sua libertação integral. O protagonismo da base leiga e popular da Igreja, através de sua participação grupal e comunitária, passou a aparecer no “fluxo da corrente verbal”, como apresenta o filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin. Ali está o processo de conscientização e engajamento na práxis que transforma as injustiças da sociedade. Dentro da tomada da Palavra divina, a tomada da palavra humana faz maravilhas.

IHU On-Line – O que a senhora entende por “pensamento mítico” e “linguagem popular” aplicados ao Vaticano II?

Maria Cecilia Domezi – Justamente, essa tomada da Palavra se faz por criativos malabarismos, nos dinamismos da cultura popular brasileira. É sobre a herança da tradição bíblica oral que os membros das CEBs e dos círculos bíblicos constroem e reconstroem continuamente a sua enunciação. Aproveitando os “pedaços” que podem alcançar, das formulações do Vaticano II, da Teologia da Libertação, de projetos de nova sociedade, de discursos socialistas e de outras fontes, operam por bricolagens, sínteses, articulações, adaptações, atualizações. Desse modo constroem narrativas tão coerentes que nos deixam maravilhados. O que esses sujeitos eclesiais e sociais fazem é a interação entre o catolicismo tradicional popular e o novo jeito de ser Igreja, entre a visão mítica do mundo e a consciência histórica. O pensamento mítico tem a ver com a visão do mundo e da vida a partir do sagrado. Tem a ver com o modo das “histórias de quando Deus andou no mundo”, no catolicismo de devoção aos santos protetores. Pois bem, esse modo de compreensão é caminho indispensável para a nova consciência da realidade histórica. A compreensão mítica de “destino traçado por Deus”, por exemplo, é base para a nova compreensão e atuação como sujeito histórico. A tradição continua a valer, recriada através de uma nova identidade religiosa. É assim que a linguagem do Concílio Vaticano II aparece na linguagem dessas pessoas da base da Igreja. Quando dizem, por exemplo, “Povo de Deus”, “projeto de Deus”, sua enunciação vem de todo um processo da linguagem do vivido e do compartilhado, linguagem viva e operante, contagiante, recriadora e transformadora. 

IHU On-Line – Que análise estrutural pode ser feita da Constituição Gaudium et Spes?

Maria Cecilia Domezi – Este é o documento conciliar que mais expressa a virada da Igreja na priorização do ser humano. Ali estão os ideais humanistas para o cultivo da “pessoa humana integral”, com todos os seus valores. Ali está a chamada aos membros da Igreja para apurar a sensibilidade e “auscultar” as novas necessidades das pessoas. Também na relação com os diferentes de nós. A união se faz buscando perceber o modo de pensar e sentir dessas pessoas (podem-se conferir os números 61 e 62). Nesta ênfase, podemos lembrar, entre muitos outros, o carisma e a atuação do arcebispo Dom Luciano Mendes de Almeida, de santa memória. O “outro”, para ele, era sempre um ser humano de rosto bem definido, um ser humano situado, que ele tratava com o mesmo carinho com que tratava os “iguais”, ou seja, os membros da sua Igreja. O outro, a outra, era a pessoa em situação de rua, a pessoa de outra cultura, de outra religião, de outra cosmovisão. Dom Luciano  viveu como irmão do “outro” e irmão de todos e todas. Mas, junto com a priorização do ser humano, a Gaudium et Spes opta por reconhecer e respeitar a autonomia das realidades temporais, ou seja, as realidades desta vida, as realidades históricas e materiais (ver o número 36). Junta-se a virada eclesiológica do Concílio, fazendo a Igreja passar à autocompreensão como Povo de Deus e servidora da humanidade. A perspectiva está lançada para a caminhada da Igreja na América Latina, com todo o protagonismo da sua base leiga e popular. Nesta base, as culturas são lócus importante para a construção das narrativas do povo, portadoras da nova mensagem. Linguagem e práxis transformadora não se desvinculam, mas estão em interação, assim como religião e política, fé e vida, oração e ação. 

IHU On-Line – Tendo em conta suas pesquisas acerca da pluralidade de formas do catolicismo brasileiro, em especial as Comunidades Eclesiais de Base, qual a utilidade que a hermenêutica da Gaudium et Spes pode oferecer às CEBs e à prática do método Ver-Julgar-Agir? 

Maria Cecilia Domezi – A propósito dessa pluralidade de formas do catolicismo brasileiro, temos que considerar também o que se pode chamar de “não lugar”, o não definido, a fronteira, o recurso à ambiguidade. 

Costumo lembrar o achado da imagem de Nossa Senhora da Conceição, em 1717. Era uma imagem pequena, quebrada e enegrecida pelo lodo do fundo do rio Paraíba do Sul. O povo sofredor que vive o catolicismo popular e que não é herege não vai encontrar plausibilidade somente numa ortodoxia estática e distante. Vai ter de recorrer também a uma heterodoxia, na fronteira e na circularidade entre a forma de catolicismo que vive e o magistério oficial. Assim, os pobres reciclam a imagem enquanto signo, colando seus pedaços. Ao mesmo tempo, reciclam a imagem enquanto significado, batizando a Senhora da Conceição oficial como Aparecida, no popular. Recriam a devoção. 

Esse processo popular é quase inusitado. Ocorre também com as palavras, os conceitos, a linguagem, o discurso teológico. A Gaudium et Spes lhe dá legitimação e inspiração, por sua abertura à pessoa humana situada no mundo real, e principalmente por sua abertura ao universo cultural da pessoa humana, e, portanto, também à cultura popular. E como tudo parte da vida pulsante e a ela retorna, ali está o Ver-Julgar-Agir. Nós, da América Latina e Caribe, o herdamos de nossos irmãos europeus da Ação Católica Especializada, mas ele se tornou nosso método, nosso jeito. Nos círculos bíblicos e nas CEBs, coloca-se “a vida na Bíblia e a Bíblia na vida”. Sempre se parte da vida e se retorna à vida, porque o Reino de Deus já começa aqui e se plenifica na escatologia. 

A Gaudium et Spes já começa dizendo que as “alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração”. Então, é preciso “auscultar” os sinais dos tempos, como dizia o papa João XXIII . É preciso diagnosticar a realidade, julgá-la à luz do Evangelho e transformar o que nela é estruturalmente injusto. Mesmo não usando termos como “método dedutivo”, as leigas e os leigos da base viva da Igreja praticam essa hermenêutica. 

O retorno do método Ver-Julgar-Agir

Na Conferência de Aparecida , em 2007, foi preciso uma grande e perseverante insistência para que se fizesse um retorno a esse método, já que ele havia sido rechaçado na Conferência de Santo Domingo , em 1992. O Ver-Julgar-Agir voltou a ser adotado e legitimado pelo magistério da Igreja latino-americana e caribenha, o que foi um resgate fundamental da tradição recente desta Igreja Local. Porém, o episcopado ainda teve dificuldade de por em prática os ensinamentos da Gaudium et Spes, porque não reconheceu a autonomia das realidades temporais. Se reconhecesse os valores da realidade histórica do nosso Continente, a realidade econômica, política, social, ideológica, cultural, humana, já começaria a primeira parte do documento de Aparecida fazendo um diagnóstico dela. Deixaria a realidade falar e faria análise dela com ajuda de cientistas humanos e sociais. Mas não, o documento final dessa V Conferência começa por um capítulo introdutório, que parece tentar espiritualizar a realidade. Mas valeu muito o esforço. 

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?

Maria Cecilia Domezi – Talvez seja importante ressaltar o valor da “roda de conversa” nas bases das nossas Igrejas, não só a católica romana, mas também as ortodoxas e as protestantes ou evangélicas. A massificação dificulta o ser Igreja, porque impede o ser comunidade. Ao contrário, os pequenos círculos ou grupos e as pequenas comunidades, principalmente quando atuam em rede, possibilitam as relações intersubjetivas e esse maravilhoso processo de conscientização e engajamento na práxis de transformação da sociedade, do qual falamos. 

Pensando em Bakhtin e na linguagem do Concílio Vaticano II, podemos dizer que na roda de conversa acontece o fluxo vivo e crescente da comunicação verbal. Ali cada pessoa pode mergulhar na corrente dinâmica da enunciação. A enunciação faz a pessoa despertar sua consciência. Sua consciência começa a operar. A pessoa comunica para os outros em palavras. Cada um dos outros descodifica essa palavra enunciada e faz nova codificação, em forma de réplica. Está aí o potencial para uma revolução humanitária, em prol da justiça e da paz. 

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