Edição 425 | 01 Julho 2013

O Concílio Vaticano II como evento dialógico

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Graziela Wolfart

Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso e PPG em Linguística da Universidade Federal de São Carlos debatem em seminário internacional que tem o Vaticano II como pano de fundo

Em que sentido um evento religioso como o Concílio Vaticano II, realizado há 50 anos pela Igreja Católica, pode interessar a um grupo que estuda gêneros do discurso dentro de um programa de pós-graduação em Linguística? Essa questão é respondida por alguns membros do Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso – GEGe, da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar, que promove nesta semana, nos dias 3 e 4 de julho o “Seminário Internacional O Concílio Vaticano II como evento dialógico” (mais informações em http://bit.ly/15awLgO). 

Questionado sobre em que sentido o Concílio Vaticano II pode ser descrito como um evento dialógico, o professor Paulo Dalla-Déa, do Departamento de Letras da UFSCar, cita a Mensagem do Concílio à Humanidade (que foi feito no final): “lá estão todos os novos agentes sociais e eclesiais que o Concílio quis dar voz e vez. Mulheres, jovens e crianças, trabalhadores, intelectuais, artistas, etc. O documento final quis reunir todos como forma de mostrar que eles têm lugar na Igreja e que devem ser acolhidos”. Para Paulo, infelizmente evoluímos mais na escuta de algumas vozes do que de outras. “A ‘dialogia’ do Vaticano II foi a de escutar, acolher e querer mostrar que essas vozes também são cristãs e não anticristãs ou anticatólicas. São frutos do Espírito de Deus agindo na história de hoje e nós devemos escutá-lo”. 

Já para o professor Valdemir Miotello, líder do GEGe, certamente que a Igreja, que enunciou sua palavra nos documentos do Vaticano II, é aquela que lança sua palavra como se fosse a única verdadeira: “lança sua palavra como quem faz uma comunicação, sem levar em conta seu interlocutor; lança sua palavra como palavra dogmática. Essa Igreja não se coloca como dialógica. Mas a ‘dialogia’ não depende dela. A dialogia se dá apesar dela. A relação que garante que outras vozes se imiscuem nos documentos não depende do controle da própria igreja enunciadora. As palavras carregam em si vozes contraditórias, de valores e de interesses diversos, apesar do enunciador”. Nesse sentido, explica ele, “é que dizemos que há outras vozes nos documentos da Igreja. Vozes dissonantes, discordantes, diversas, indicando outras possibilidades de caminhadas e de porvires. Nossa reflexão vai em direção do desvelamento dessas outras vozes que lá estão, apesar da palavra religiosa se apresentar como autoritária, única verdadeira, dona dos sentidos. A realidade da enunciação é a polissemia, os mais variados sentidos. Ninguém pode prender a palavra. As palavras são livres. E cabe a todos nós lutar pela liberdade da palavra. De modo que ela possa ser emprenhada de todos os sentidos possíveis, e assim significar em todos os eventos possíveis”.

Na visão de Daniel Stosiek, igualmente pesquisador do Grupo, “a Igreja, que durante muito tempo tinha sido parte constituinte do poder imperial ‘monológico’, se viu desafiada por uma modernidade que também era e é monológica. Em parte, a Igreja respondeu seguindo uma lógica de guerra (se retirando, construindo muros, amaldiçoando os outros), mas no Concílio, ela começou a abrir-se ao diálogo com o mundo (autônomo) e com outras religiões”. Ele acrescenta que a “pesada herança da identidade total tornou difícil para a Igreja abrir-se inteiramente para o diálogo e a alteridade, porque isso requereria um processo de autotransformação. Nesse sentido, o Concílio Vaticano II é um evento dialógico apenas começado. E fica a nossa tarefa continuar o processo dialógico, pois como Walter Benjamin disse, cada geração tem uma ‘uma frágil força messiânica’ para com o passado histórico; e como Franz Rosenzweig  disse, ‘as esperanças do passado nunca estão simplesmente acabadas, mas se erguem para o futuro’”.

Acompanhe a seguir as respostas destes três pesquisadores a algumas questões que ajudam a compreender a realização deste seminário que relaciona história, linguística, teologia, ciências da religião e outros temas.

IHU On-Line – Por que escolher o Vaticano II como tema de estudo de um seminário promovido por uma universidade federal?

Paulo Dalla-Déa – Nosso grupo estuda Bakhtin  e um conceito central é ‘dialogia’. É preciso escutar outras vozes, porque é a partir do outro que eu constituo a minha identidade. A partir disso, refletimos e publicamos também sobre o discurso religioso, que é um outro para o discurso científico e acadêmico. E tem também a motivação das comemorações sobre a celebração de um evento tão importante como foi esse Concílio. Hoje a religião e os fenômenos que ela gera na sociedade têm que ser estudados, sem aquele ranço de que religião é “ópio do povo” ou “coisa a ser superada com a evolução da sociedade”. Nenhuma dessas posições entende o que acontece no século XXI: a religião hoje incorporou as críticas da academia e age de outra forma. Temos revoluções e atos no século XX que foram inspirados pela religião e que podem ser ou não positivos. O fato é que a postura também vai mudando na academia e isso é bom. Hoje as Ciências da Religião são uma realidade e a Teologia quer trabalhar com as diversas ciências, num trabalho de equipe. Não dá mais para fazer teologia de forma isolada e defensiva. Por fim, não se pode esquecer que o Concílio, mesmo sendo um evento católico, atingiu todas as Igrejas cristãs e isso tem que ser considerado na academia também.

IHU On-Line – Como surgiu a ideia de realizar um evento na área da linguística que tivesse como fonte o Concílio Vaticano II? 

Valdemir Miotello – Temos uma pesquisa aprovada pela CAPES aqui na UFSCar, que contempla esse tema. Queremos compreender a difusão do discurso religioso na sociedade contemporânea; entender sua força; suas fraquezas; seus argumentos. Afinal vivemos em uma sociedade laica, mas completamente encharcada de práticas e discursos religiosos. Um dos compromissos dessa pesquisa era discutirmos esses estudos em um evento ampliado, com outros pesquisadores. Nosso ponto de observação dessa questão é do lugar do linguista, que trabalha com os estudos da linguagem. Assim é desse lugar que vamos procurar compreender o Vaticano II. E as teorias com as quais estamos mais familiarizados são as propostas por Mikhail Bakhtin. Dessa forma, queremos submeter nossa crítica também aos eventos produzidos pelo Vaticano II, a seus documentos, às posturas da Igreja dela emanadas; aos caminhos trilhados pela Igreja nesses últimos 50 anos. Afinal o Vaticano II completa agora 50 anos de existência. E a Igreja também se sente em uma estrada em crise. E essa crítica produzida pelas contribuições de Bakhtin também indicam a possibilidade de se construir outras possibilidades de relações. Nesse caso dialógicas, relações rejuvenescedoras, libertadoras, também da palavra que se apresenta como autoritária. Cabe contribuir para pensar uma palavra liberta, que possa dialogar, em conflitos, mas livre.

IHU On-Line – Em que contexto surgiu a ideia de promover um evento com este discurso?

Daniel Stosiek – O evento trata um tema da teologia e ao mesmo tempo um tema social, de importância também fora da igreja. Acho que tratar tal tema, independentemente da teologia oficial e da igreja, oferece uma possibilidade grande da criatividade, de se apropriar dos temas teológicos autonomamente, e talvez até da “carnavalização”, da “risada” em alguns momentos. 

IHU On-Line – Como se deu a escolha dos palestrantes? 

Valdemir Miotello – Ao estabelecer contatos com pesquisadores, procuramos os que tivessem relação com o tema dos estudos da linguagem, por um lado, e estudos bakhtinianos da linguagem, e que tivessem relação com os possíveis temas possibilitados pelo estudo do Vaticano II, por outro. Assim, linguistas, teólogos, antropólogos, sociólogos e especialistas em comunicação foram os estudiosos contatados. Além do mais, são nossos amigos, com quem já temos boas relações de trabalho, o que garante possivelmente mais densidade às conversas, pois já temos contato sobre nossos trabalhos e reflexões. Além disso, temos também todo compromisso com o impulsionamento do que Bakhtin propõe como uma revolução possível nos tempos contemporâneos: entrar pela porta da alteridade superando os tempos de instauração da identidade; constituir a linguagem como dialógica, em detrimento de se encarar a linguagem como monofônica, autoritária; superar as dicotomias, instaurando relações rejuvenescedoras. Daí esse grupo de pesquisadores estar nesse evento. 

O Vaticano II e os estudos bakhtinianos

Os estudos da linguagem passam por um momento renovador, com uma quantidade de teorias que se esforçam para dar conta de seu objeto. Bakhtin também elaborou uma teoria em que a linguagem é mediação, e portanto ela está diretamente em contato com a vida, com os enunciadores singulares e concretos. A linguagem constitui os sujeitos; é material para elaboração de sua consciência, de seu jeito de viver, de suas crenças. Dessa forma, esse evento também vai contribuir para uma discussão e um aprofundamento dos estudos bakhtinianos. E olhando sob essa perspectiva para um evento grandioso, da magnitude do Vaticano II. Visto como evento dialógico, repleto de vozes, com todos os jogos de interesses dentro de si, com todas as contradições possíveis. Essa é sua riqueza. Essa é sua pobreza. Assim são as instituições. Assim são as pessoas. Assim é a vida.

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