Edição 413 | 01 Abril 2013

O governo Lula e a reconstituição de uma visão nacional no país

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Graziela Wolfart

Na visão do economista e professor da Unicamp, Claudio Salvadori Dedecca, um dos maiores acertos do governo petista foi a sua estratégia internacional
"A prática de adoção de medidas de condução do governo segundo o calendário eleitoral é muito antiga no Brasil"

 

Ao comparar o discurso do PT na sua origem com o que o faz e prega hoje, o professor Claudio Salvadori Dedecca avalia que não poderíamos associar o Partido dos Trabalhadores nos dias atuais a uma política de esquerda. Por outro lado, continua ele, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, “se olharmos a situação do país em 2003 e hoje, e quais foram os resultados sociais que o país alcançou ao longo de 10 anos, talvez pudéssemos dizer que a política foi de esquerda, porque gerou alguma redistribuição de renda no país, gerou emprego, fortaleceu o setor produtivo. Entretanto, quando olhamos essa política redistributiva, percebemos que ela beneficiou fortemente grandes interesses, em especial do setor financeiro”. De tal modo, conclui, “os governos do PT têm sido muito mais progressistas do que governos de esquerda, situação que tem favorecido o país. No entanto, a ausência de um projeto mais robusto e estratégico faz com que essa política dos governos do PT tenha efeitos positivos, mas produzam uma transformação social muito lenta”.

Claudio Salvadori Dedecca é professor do Instituto de Economia da Unicamp. Possui graduação, mestrado e doutorado em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas. 

Confira a entrevista.


IHU On-Line – De forma geral, qual foi o marco do governo petista no Brasil nesses 10 anos? Como era o Brasil antes do PT e como ele é hoje?

Claudio Salvadori Dedecca – O PT resgata a perspectiva de um desenvolvimento de natureza nacional, isto é, focado nos interesses do país. O governo Lula se inicia em uma situação muito difícil, em 2003. Já o cenário internacional favorece o Brasil e o governo aproveita essas condições favoráveis para fortalecer a economia interna com um conjunto de políticas de renda, de políticas produtivas, e também com um conjunto de políticas sociais. Isso considera que qualquer possibilidade de desenvolvimento do país depende fundamentalmente de fortalecimento do mercado interno, de fortalecimento da renda e do sistema produtivo nacional. Esse é o grande marco do governo PT comparativamente ao governo anterior.

 

IHU On-Line – Quais os acertos e erros do PT nesses 10 anos? 

Claudio Salvadori Dedecca – Os principais acertos foram obviamente o fortalecimento da renda interna, do emprego, do sistema produtivo nacional, apesar da valorização cambial ter prejudicado essa estratégia. E o principal problema se relaciona com o modo como o governo conduziu sua relação com o mercado financeiro. Em um primeiro momento, o governo adota uma política conservadora, que de meu ponto de vista está correta. Entretanto, essa política deveria ter sido adotada com mais cautela e por um período mais curto. Esse foi um grande problema, porque durante o período de crescimento pré-crise nós convivemos com taxas de juros elevadíssimas e, portanto, perdemos a oportunidade de produzir um crescimento mais acelerado e um processo de transformação social ainda mais positivo.

 

IHU On-Line – Nesses dez anos de PT no poder, o que mais mudou no discurso dos presidentes Lula e Dilma do início para os dias atuais? 

Claudio Salvadori Dedecca – A grande mudança em termos de governo – e essa mudança já havia sido sinalizada antes mesmo da posse do presidente Lula – foi uma migração para um discurso bastante pragmático em termos de desenvolvimento do país. O governo perde uma visão mais estratégica, mais complexa do que deve ser o desenvolvimento do país e quais são os pilares básicos desse processo. E acaba adotando uma política bastante pragmática que tem como foco, em grande medida, viabilizar o crescimento, viabilizar a geração de emprego e produzir alguma redistribuição de renda. Essa perspectiva foi positiva, sem dúvida. Entretanto, ela é insuficiente para provocar uma transformação social do país, que permita uma redução substantiva da desigualdade e, mais do que isso, um equacionamento adequado da situação de pobreza.

 

IHU On-Line – Quais as principais diferenças e semelhanças entre Lula e Dilma? 

Claudio Salvadori Dedecca – Existem diferenças significativas entre os dois presidentes. Entretanto, para que possamos apontar quais são, é preciso também considerar que as condições do país no momento em que cada um deles assumiu o governo são completamente distintas. O governo Lula assume o governo em uma situação econômica muito difícil, de crise e, portanto, teve que ter muito jogo político para viabilizar o governo e sair com uma popularidade altíssima depois de dois mandatos. Ele é uma pessoa que conduziu o governo muito mais baseado no tino político. Enquanto que a Dilma pega o país em uma situação mais favorável, apesar da crise internacional. Ela não tem o tino político de Lula, mas tem uma iniciativa em termos de gestão técnica do governo muito importante e adequada. O grande desafio hoje do Brasil não é tanto político, mas é muito mais em termos de gestão administrativa, de projetos técnicos, de natureza técnica. Nesse sentido, o perfil da Dilma é muito adequado para os desafios que o país enfrenta nesse momento. 

 

IHU On-Line – Que rumo pode ser vislumbrado para o país tendo em vista o crescimento da chamada classe média e as medidas de redução da pobreza pelo governo Dilma? 

Claudio Salvadori Dedecca – A situação do Brasil apresenta cenários favoráveis e sinais que merecem toda a atenção. Quais são os sinais favoráveis? De fato, temos uma possibilidade de crescimento dada. As condições, tanto de inserção externa quanto as condições internas favorecem o crescimento. Entretanto, depois de um ano de medidas visando fortalecer o crescimento, o país parece que tem dificuldade em encontrar sua rota. No ano passado, o país começou com uma expectativa de crescimento de 4% e terminou o ano com crescimento ao redor de 1%. Este ano, a expectativa é de 3%, mas há uma grande dúvida se conseguiremos isso. De tal modo que, apesar das expectativas de crescimento, não estamos conseguindo transformá-las em algo real, efetivo. Esse é o grande desafio que em 2013 se coloca para a sociedade brasileira. Temos um potencial, mas até o exato momento não conseguimos transformar aquilo que é uma possibilidade em fato concreto, isto é, em crescimento robusto.

 

IHU On-Line – Quais os riscos de tomar medidas tendo em vista as eleições? O PT tem feito isso nesses 10 anos?

Claudio Salvadori Dedecca – A prática de adoção de medidas de condução do governo segundo o calendário eleitoral é muito antiga no Brasil. É da tradição brasileira compatibilizar as medidas e iniciativas de governo ao calendário eleitoral. O PT não inventou isso, ele se adaptou a essa prática histórica existente no país. Muitas vezes os partidos de oposição criticam o PT por isso, mas fazem nos estados aquilo que o PT faz no governo federal. Essa é uma prática generalizada, independentemente do partido. Isso sinaliza que é um modos operandi da política no país. O problema é que essa prática se associa à adoção sempre de medidas para um mandato, isto é, perdem-se nos governos as estratégias de política de maior longo prazo. Uma grande evidência disso é que, independentemente do partido, sempre um governante assume e rompe os projetos estratégicos que o governo anterior adotou, seja de um partido ou de outro, seja no governo federal, estadual ou municipal. Ou seja, existe uma descontinuidade em termos de condução de projeto, que é histórica e recorrente na política brasileira. Esse é um grande problema, obviamente, de associar estratégia de governo a calendário eleitoral ou a períodos de quatro anos apenas. 

 

IHU On-Line – Quais os avanços desses 10 anos de PT no poder em relação ao trabalho e emprego? 

Claudio Salvadori Dedecca – O governo Lula reconstituiu uma visão nacional no país, de que temos que ter um projeto que atenda aos interesses dos diversos segmentos da sociedade brasileira. Necessitamos buscar inserir esse projeto na economia internacional, no mundo. Entretanto, é fundamental que ele preserve questões básicas, como o crescimento, a estrutura produtiva, a renda e o emprego. O grande aspecto positivo que o governo do PT produziu foi uma vinculação muito estreita da necessidade de provocar um desenvolvimento na base produtiva com geração de emprego. E, nesse sentindo, o governo tem sido muito bem sucedido. E, mais do que isso, ampliou essa perspectiva com políticas de renda, como foi o caso do salário mínimo, do Bolsa Família, que tiveram um papel importante no sentido de fortalecer as condições de vida da população mais pobre. Entretanto, isso ainda não é suficiente para fazer uma transformação significativa das condições de vida da população brasileira. Investimentos em educação, saúde, saneamento e reforma agrária são fundamentais para uma transformação social mais robusta do país. Só que isso leva tempo e muitas vezes essas iniciativas são constrangidas pelo calendário eleitoral, como já falamos. 

 

IHU On-Line – Como o senhor avalia que o governo do PT na presidência da República conduziu as relações internacionais ao longo desses 10 anos, principalmente em relação à América Latina?

Claudio Salvadori Dedecca – Esse foi um dos maiores acertos do governo do PT, a sua estratégia internacional, em termos de relações internacionais. Porque não só o governo, de um lado, considera que é fundamental que a inserção externa seja balizada, referenciada nos objetivos nacionais, ou seja, nos interesses nacionais, como ele procurou fortalecer as relações com os países em desenvolvimento. E essa estratégia internacional acabou permitindo que o Brasil viesse a se transformar na liderança desse grupo, nesse momento, inclusive na América Latina. Isso tem sido muito importante para o Brasil, no sentido que deu uma proeminência externa até nos países desenvolvidos. E tem sido importante também no sentido de fortalecer projetos econômicos para as nações em desenvolvimento, o que, caso o resultado seja exitoso, o Brasil tem muito a ganhar.

 

IHU On-Line – Podemos afirmar que o PT tem sido um partido de esquerda nesses últimos 10 anos? 

Claudio Salvadori Dedecca – Essa é uma questão bastante delicada. Se compararmos o discurso do PT na sua origem, nós diríamos que não. Não poderíamos associar o PT hoje a uma política de esquerda. Por outro lado, se olharmos a situação do país em 2003 e hoje, e quais foram os resultados sociais que o país alcançou ao longo de 10 anos, talvez pudéssemos dizer que a política foi de esquerda, porque gerou alguma redistribuição de renda no país, gerou emprego, fortaleceu o setor produtivo. Entretanto, quando olhamos essa política redistributiva, percebemos que ela beneficiou fortemente grandes interesses, em especial do setor financeiro. De tal modo que eu diria que os governos do PT têm sido muito mais progressistas do que governos de esquerda, situação que tem favorecido o país. No entanto, a ausência de um projeto mais robusto e estratégico para o país faz com que essa política dos governos do PT tenha efeitos positivos, mas produzam uma transformação social muito lenta. 

 

Leia mais... 

>> Claudio Salvadori Dedecca já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira: 

 • Salário mínimo: “É preciso abandonar a postura de pensar o Brasil a curto prazo”. Entrevista publicada no sítio do IHU em 15-02-2011, disponível em http://bit.ly/11p3sUb

 

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