“Quem tirou os votos do Lula aqui no RS foi a Heloísa Helena”

Essa declaração, entre outras, foi dada por Benedito Tadeu César em entrevista por e-mail à IHU On-Line e publicada originalmente no sítio do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), www.unisinos.br/ihu em 07-10-2006.

Por: IHU Online

 

Benedito, que leciona na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é graduado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Rio Claro (FAFIRC) e mestre em Antropologia Social pela Universidade de Campinas (Unicamp). Cursou doutorado em Ciências Sociais também pela Unicamp com a tese Verso, reverso, transverso - O PT e a democracia no Brasil. É um dos autores de Estrutura Atual de Classes no Espírito Santo. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo/Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo/Rede Gazeta, 1987 e A Contribuição Social do Industrial Gaúcho. Porto Alegre: FIERGS/Conselho de Cidadania, 1999. Sua publicação mais recente é A Contemporaneidade Possível - perfil social e projeto político (1980/1991). Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

 

IHU On-Line - O que faz do eleitor gaúcho não deixar um governo estadual se reeleger?

Benedito Tadeu César
– Eu tenho impressão que há polarização partidária aqui. Temos no Rio Grande do Sul um índice de filiação partidária maior que os outros Estados e mais que a filiação, temos um posicionamento partidário e ideológico relativamente estável. Isso faz com que aqueles que são derrotados numa eleição se organizem em outra eleição para reconquistar o eleitorado que tinham e voltar ao poder. Veja que desde o período de 1946 a 1964, víamos uma alternância entre o PTB e o anti-PTB. Agora temos uma alternância que ficou muito claro em Porto Alegre o PT e o anti-PT. Temos no Estado posições mais firmemente definidas. Não existe a hegemonia de um campo. A disputa fica sempre muita acirrada.

IHU On-Line - É a primeira vez que o PSDB entra na disputa ao governo com o PT, o que está mudando no Estado?

Benedito Tadeu César
– Sim, é a primeira vez. O PSDB já foi vice de três outros governos aqui. Não é um partido virgem do exercício governamental aqui no Estado. Foi vice do Alceu Collares, do Antonio Britto e do Germano Rigotto. O PSDB é um partido que vem se fortalecendo dentro da máquina no Estado e está se enraizando aqui.

IHU On-Line - Luís Inácio Lula da Silva sempre fez um bom número de votos no Rio Grande do Sul, o que determinou essa derrota para Alckmin no primeiro turno das eleições?

Benedito Tadeu César
– Tem uma boa parcela que é pelo anti-petismo. Mas temos também uma parcela do eleitorado tradicional do PDT no Estado que com a retirada do apoio do PDT ao governo Lula, deixou de votar. Também existe a possibilidade de não terem votado em Cristovam Buarque e nem em Lula. Observa-se a boa votação da Heloísa Helena aqui no Rio Grande do Sul que é um voto ideológico mais firme e decepcionado com o governo Lula. É um voto que não tem muito a ver com a corrupção, ele já havia migrado para a Heloísa Helena antes destas questões, ao menos, dessas últimas do governo Lula, é o caso do Dossiê de Cuiabá. Se somarmos os votos da Heloísa Helena aos do Lula no primeiro turno, Lula fica muito próximo da votação que ele sempre teve aqui. Fica ainda um pouco abaixo. Quem tirou os votos do Lula aqui no Estado foi a Heloísa Helena.

IHU On-Line - Podemos dizer que a pesquisa eleitoral aqui no RS acobertou o que realmente estava acontecendo com a candidatura de Germano Rigotto e de Olívio Dutra?

Benedito Tadeu César –
O Olívio Dutra não cresceu, ele se manteve no seu patamar. Ele oscilou de 26 a 22%, e acabou em 25% dos votos. Olívio ficou abaixo do patamar histórico do PT. A votação dele em 1998 e a do Tarso em 2002, é bem maior da que ele teve agora, fica em mais de 30%. O que a pesquisa não detectou foi à transferência de votos do Rigotto para a Yeda. Mas não podemos generalizar esse erro nas pesquisas. O Instituto Métodos e o do Correio do Povo apontaram essa possibilidade de migração de votos. O grande perdedor de detecção foi o Ibope. Para variar ele está sempre errando aqui no Estado. O Ibope fez uma pesquisa aqui na véspera da eleição mostrou uma disputa entre Yeda e Olívio para ver quem ia ao segundo turno com o Rigotto. E na boca de urna deu Rigotto e Olívio no segundo turno. Daí fica difícil entender o que eles fizeram.

IHU On-Line - O senhor acredita que os votos deixados pelo candidato derrotado Germano Rigotto vão decidir a eleição entre Olívio Dutra e Yeda Crusius?

Benedito Tadeu César
–A grande disputa agora é pelos votos do Rigotto por ser um grande percentual. Os votos do Collares são baixos e o PDT já declarou apoio a Yeda. Acredito que não haja uma transferência de voto tão tranqüila, pois não há um engajamento do eleitor do PDT que siga a orientação partidária. O Turra com o percentual dele de 4%, já declarou também apoio ao PSDB. O que deve definir é a migração dos votos do PMDB, que é um voto mais volátil que o voto do PDT ou do PP. É um voto mais disputável. Uma parcela desse voto, já no primeiro turno, migrou para a Yeda. E esses votos não podem ser vistos como definitivos para Yeda.

IHU On-Line - O Rio Grande do Sul está seguindo a polarização nacional entre PSDB e PT?

Benedito Tadeu César
– Sim. Nesse momento o fato do PMDB não ter apresentado candidaturas a nível nacional fez com que o candidato do PSDB se projetasse. Aqui, a candidata Yeda, foi muito beneficiada pelo nome de Alckmin como candidato a presidência.

IHU On-Line - Os movimentos sociais aqui no Estado estão dentro das campanhas ao governo estadual?

Benedito Tadeu César
– Peso eles sempre têm. Mas não são eles que definem as eleições. Tenho impressão que os movimentos sociais vão entrar mais fortemente na eleição para apoiar o Lula no plano federal, como o Olívio no plano estadual. Tem aquela coisa de que voltar o governo do PSDB é voltar às privatizações e uma política neoliberal. Creio que os movimentos sociais vão se colocar mais em campo e se envolver mais nas eleições.

 

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