Edição 199 | 09 Outubro 2006

A noção de sexo entre iguais é uma contribuição lésbica ao pensamento ocidental

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IHU Online

A teóloga feminista Mary Hunt é co-fundadora e co-diretora da Women's Alliance for Theology, Ethics and Ritual (WATER) em Silver Spring, Maryland, USA. Mulher participante nos movimentos de mulheres da Igreja Católica, ela colabora e escreve sobre teologia e ética. Hunt aceitou conceder uma entrevista exclusiva para a revista IHU On-Line no intuito de contribuir com o debate que levantamos na matéria de capa da edição desta semana: diversidade sexual.

Mary Hunt recebeu o Ph.D. da Graduate Theological Union de Berkeley, Califórnia. Ela também recebeu o título de mestre da Jesuit School of Theology de Berkeley e o título de mestre em Estudos Teológicos da Harvard Divinity School. Sua pós-graduação em Teologia e Filosofia foi realizada na Marquette Univerdas na Argentina.
Ela é co-editora, com Patricia Beattie Jung e Radhika Balakrishnan, de Good Sex: Feminist Perspectives from the World’s Religions. É autora de Fierce Tenderness: A Feminist Theology of Friendship. É também membro da Society for Christian Ethics e da American Academy of Religion. Eis a entrevista:

IHU On-Line - O que a senhora entende por teologia lésbica feminista? O que distingue essa teologia?

Mary Hunt
- A teologia feminista é uma reflexão crítica em experiência da perspectiva daqueles que priorizam o bem-estar das mulheres e crianças dependentes em um mundo injusto. Lésbicas (e devo acrescentar libertação, que deixa clara a marginalização, mulheres excluídas, especialmente mulheres lésbicas) têm uma importante perspectiva que precisa ser incluída na reflexão teológica. Não há grande coisa que essa teologia tenha escrito ainda. Eu, por exemplo, escrevi um artigo intitulado “Teologia feminista lésbica”, p. 319 – 334  reivindicando que alguns assuntos que precisam de atenção são expressão sexual lésbica, maternidade compartilhada, chamada lésbica à santidade. Meu texto é mais um esboço para um retrato do que um produto acabado, mas ajuda a apontar onde o trabalho precisa ser feito.
Bernadette Brooten  produziu textos úteis sobre mulheres lésbicas no período do cristianismo antigo, argumentando que foi a falta de uma parceria dominante/submissa na presença de duas mulheres que fez da prática sexual lésbica uma prática transgressiva. O padrão comum era, claro, um homem dominante e uma mulher submissa, ou até um homem dominante (normalmente mais velho) e um homem submisso (normalmente mais novo). Poder-se-ia argumentar que a noção de sexo entre iguais é uma contribuição lésbica ao pensamento cristão ocidental.

IHU On-Line - Existe uma exclusão da experiência lésbica na teologia moral católica sobre homossexualidade?

Mary Hunt
- A maioria das teologias católicas sobre homossexualidade é baseada na experiência, na anatomia e no agenciamento masculino. Existem algumas referências em cartas recentes de bispos norte-americanos, por exemplo, de lésbicas junto com homens gays, mas que eu saiba não há, virtualmente, nenhuma referência específica à expressão sexual lésbica.

IHU On-Line - Estes seriam alguns sinais da revisão do conceito oficial da Igreja de que pessoas homossexuais são “intrinsecamente más”?

Mary Hunt
- Na verdade, gays/lésbicas não são “intrinsecamente maus” de acordo com esta teologia antiga [no original, literalmente “fora de moda”]. Pelo contrário, suposições heterossexistas são a base dos ensinamentos do Vaticano de que a orientação homossexual “é uma tendência mais ou menos forte inclinada para um mal moral intrínseco; assim, a própria inclinação deve ser vista como um desvio objetivo.” . Do mesmo modo, o Vaticano sustenta que “práticas homossexuais são intrinsecamente desviantes e não podem ser aprovadas de maneira nenhuma” . Mas uma vez que tal análise é despida da noção de que pessoas de sexos opostos são requisito para sexo moralmente coerente, como a atual pesquisa sobre sexo/gênero certamente faz, e livre do fardo de provar que existe apenas uma boa maneira de exercer a sexualidade, estes ensinamentos devem cair por terra e sumir. Entretanto, existem indícios de que eles estão ficando mais repressivos com os documentos sobre homens gays no seminário divulgados recentemente. É largamente predito de que haverá pelo menos uma implícita, se não explícita, proibição de homens gays no seminário.

IHU On-Line - O que pode ser o erotismo como poder?

Mary Hunt –
Audre Lorde, teórica e poeta afro-americana, escreveu sobre o erotismo como poder. Concordo com ela que esta é uma maneira de manter contato com uma energia focada em boas e positivas razões. Acho que a experiência erótica feminina, especialmente experiências entre elas mesmas, é tão poderosa que é temida.

IHU On-Line - Como a senhora redefine o conceito de amizade e quais são suas implicações políticas?

Mary Hunt
- Escrevi bastante sobre amizade em um livro de 1981, Ternura Feroz: Uma Teologia Feminista da Amizade. Penso a amizade não como uma categoria menos importante  depois do casamento, mas como uma experiência potencialmente universal das relações humanas feitas de amor, poder/força, sexualidade e espiritualidade. A amizade é disponível para todos; o casamento é disponível para algumas pessoas. As amizades vêm em uma infinidade de formas, mas a amizade feminina, que a antiga filosofia grega, por exemplo, nem sequer reconhecia, é uma fonte de incrível energia para a mudança social assim como para a satisfação pessoal. Eu proponho amizade e não casamento (pelo casamento as pessoas podem ser amigas, claro) para a realização da experiência normativa  do adulto humano.

IHU On-Line - Como a senhora descreveria o Chamado Lésbico para a Santidade?

Mary Hunt
- Como uma chamada para a santidade de qualquer outra pessoa, mulheres lésbicas são inteira e igualmente parte de todas as comunidades fiéis. Assim sendo, a detestável retórica do Vaticano obscureceu a bondade e o valor das mulheres lésbicas. Eu procuro mostrar isso.
 

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