Edição 403 | 24 Setembro 2012

Beethoven: modernidade e ousadia nas semânticas do Mistério na música

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Márcia Junges e Luís Carlos Dalla Rosa

Compositor é base do repertório experimental e radical de hoje por acreditar nas “capacidades perceptivas do ouvinte”, sinaliza Yara Caznok

“O som, por ser um fenômeno vibratório, uma energia que não tem concretude material e visual, muitas vezes é tomado como sendo a manifestação do mundo inominável da incorporeidade, do invisível e, por extensão, do sagrado”, explica Yara Caznok, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Em sua opinião, Beethoven é um dos primeiros compositores pré-românticos. Em sua música “os modelos formais clássicos vão sendo expandidos, estilhaçados e, a tal ponto, ‘deformados’, que se questiona se as nomeações das peças a partir de seu arcabouço formal – minuetos, sonatas, codas, por exemplo – ainda são válidas em suas mãos”.

Yara Caznok é graduada em Letras Franco-Portuguesas, pela Fundação Faculdade Estadual de Filosofia Ciências Letras Cornélio Procópio - FAFI, e em Música pela Faculdade Paulista de Arte – FPA. Especialista em Educação pela Universidade de São Paulo – USP, cursou mestrado em Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado em Psicologia Social pela USP com a tese Música: entre o audível e o visível (São Paulo: Edunesp, 2004). É autora, entre outros, de Ouvir Wagner – Ecos nietzschianos (São Paulo: Editora Musa, 2000) e O desafio musical (São Paulo: Irmãos Vitale, 2004). Leciona na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, no Departamento de Música.

Em 02-10-2012, Yara apresentará o minicurso Semânticas do Mistério na Música. Audição comentada de três concertos de Beethoven, às 14h30min, dentro das atividades do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. A programação completa pode ser conferida em http://bit.ly/rx2xsL.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – De modo geral, como a música se constitui em um dizer do Mistério? Qual a relação entre música e espiritualidade?

Yara Caznok –
Desde que o homem registrou sua presença e suas formas de vida nas cavernas, a música o acompanha. A expressão sonora faz parte de nossa maneira de pensar e de sentir, e isso se verifica em todas as culturas – não há sociedade sem música. O som, por ser um fenômeno vibratório, uma energia que não tem concretude material e visual, muitas vezes é tomado como sendo a manifestação do mundo inominável da incorporeidade, do invisível e, por extensão, do sagrado. Para muitas culturas, os sons, quando transformados em música, são capazes de dar forma e de exteriorizar essa dimensão imaterial da vida humana que, por meio de outros conhecimentos, se torna quase inacessível. Já na Grécia antiga, os poderes encantatórios da música podem ser encontrados no mito de Orfeu, o músico-poeta que transformava o cosmos interior dos seres – animais, humanos, vegetais, minerais – por meio de sua música. Seja como percepção da manifestação de uma divindade ou como possibilidade de comunicação com ela, a música foi e ainda é considerada o veículo mais apropriado para dar forma aos conteúdos espirituais. No mundo cristão, desde os primeiros registros que se tem dos cantos monódicos – século I – até às composições contemporâneas, a ligação da música com a espiritualidade tem se firmado e se constituído em um terreno fértil, de mútuo apoio e legitimação. Ao Papa Gregório , responsável pela unificação da música da Igreja Cristã no século VI, era atribuído o dom de ouvir, decifrar e transcrever os cantos trazidos pelo Espírito Santo – uma pomba pousada em seu ombro que, com o bico próximo ao seu ouvido, “ditava” as melodias e os textos. Um dos princípios da música cantada – tirar o texto de sua imobilidade e dar-lhe vida – guiou a produção musical durante muitos séculos, desenvolvendo-se tanto no repertório sacro como no profano.
Podemos avaliar esse poder quando eliminamos a melodia de uma canção e apenas declamamos sua letra – fica “sem graça, sem élan” e esta é uma das primeiras experiências que aprendemos desde crianças. No caso da música religiosa, é a voz da divindade que, quando entoada, coloca em movimento a energia afetivo-espiritual de seu conteúdo, fazendo-nos vivê-la integralmente. É possível ter essa vivência com Johann Sebastian Bach , por exemplo, um dos mais fervorosos compositores luteranos do século XVIII. Sua capacidade de fazer o Verbo se tornar realidade vivida – emocional, espiritual e física, inclusive – o coloca entre os mais poderosos e inspirados compositores do gênero “concertos para a alma” ou, “concertos espirituais”, que a história da música ocidental até hoje conhece. No século XIX, quando a música instrumental já havia conquistado sua autonomia, a escuta musical se torna uma verdadeira vivência mística: a fala da e com a interioridade, o encontro com a contemplação e o diálogo sem palavras com Deus. Contemporaneamente, há uma gama infinita de combinações e aproximações entre música (s) e espiritualidade (s), nem todas elas bem sucedidas... De qualquer forma, há que se acercar do tema com o critério inegociável da qualidade musical e com a crença que a estesia, a capacidade de perceber a beleza e de se deixar envolver por ela, é um convite que a música nos oferece para momentos de transcendência e de encontro com os inefáveis mistérios que a vida encerra.


IHU On-Line – A partir da perspectiva do Mistério, qual o significado da obra de Beethoven?

Yara Caznok –
Creio que para Beethoven  o grande mistério é a vida humana experimentada em sua plenitude. Tenho a suspeita que para ele a pergunta não era “o que é a vida”, mas “como” ela pode se dar em sua intensidade, em seus movimentos de expansão e de realização entre os homens. Em sua carreira de artista-pensador, Beethoven busca e defende um ideal de homem que seja capaz de exercer e de afirmar sua liberdade, sua singularidade, sua dignidade, suas capacidades de transformação e de construção de uma sociedade solidária, fraterna, justa e ética. Essas seriam as manifestações do Divino no homem. Por isso ele endereça sua música a um ser que crê nas forças da natureza humana, que considera a razão como aspecto indissociável da sensibilidade na construção do conhecimento e na condução das intempéries e das alegrias da vida. Esse é seu credo e, mesmo tendo tido uma vida espiritual resolvida de forma discreta solitária – também por causa da surdez que o acometeu por volta dos 30 anos – ouve-se em sua música a explicitação de sua intensa fé e de sua devoção ao Criador.


IHU On-Line – Podemos dizer que Beethoven realiza uma “revolução copernicana” em termos musicais? Que mensagem e sabedoria emergem de sua obra?

Yara Caznok –
Continuando a linha de composição aprendida com Haydn  e Mozart , Beethoven amplia enormemente nossas capacidades perceptivas em direção ao pensamento musical puro, ou seja, abre-nos a possibilidade de acompanharmos o diálogo dos sons sem o auxílio de uma narrativa literária ou recurso extramusical. Sua obra é um organismo sonoro que se nos apresenta inteiro, se cria e se recria, se desenvolve, se transforma e nos faz participantes de sua existência. Sua maneira de tratar principalmente a forma musical o coloca na história da música como um dos primeiros compositores pré-românticos: os modelos formais clássicos vão sendo expandidos, estilhaçados e, a tal ponto, “deformados”, que se questiona se as nomeações das peças a partir de seu arcabouço formal – minuetos, sonatas, codas, por exemplo – ainda são válidas em suas mãos. É só nos lembrarmos de sua 9ª Sinfonia, obra magna que rompeu os padrões da música sinfônica anterior e que apresentou novas possibilidades de diálogo entre voz humana e música instrumental sinfônica. Do ponto de vista da condução do pensamento musical do ouvinte, podemos afirmar que a mão de Beethoven continua, até hoje, escrevendo junto com os compositores contemporâneos – sua modernidade e ousadia em acreditar nas capacidades perceptivas do ouvinte são a base do repertório experimental e radical atual. Isso se traduz no uso de certos procedimentos composicionais explorados por ele e que não nos abandonam mais: a partir de uma melodia (tema), aprendemos a acompanhar seus desenvolvimentos de derivação, de variação, de contração ou aumentação, de adensamento ou rarefação, entre muitos outros. Essas “aventuras” pelas quais os elementos musicais passam formam nosso ouvido musical, crescendo e se enraizando em nossa imaginação, memória e desejos musicais. Nesse sentido, pode-se, sim, dizer que uma outra história do pensamento musical ocidental começa com Beethoven e que ainda está em pleno curso...


IHU On-Line – Tendo presente o contexto histórico do artista, quais ideais de humanidade são evidenciados na obra de Beethoven?

Yara Caznok –
Beethoven nasceu em 1770 e viveu a fase em que a Europa estava sendo sacudida por movimentos políticos e sociais importantes – a Revolução Francesa, em 1789, e a figura libertária do jovem Napoleão  são marcos em sua vida. Sua adesão às ideias revolucionárias da época o fez ser o primeiro compositor, na história da música ocidental, a afirmar, por meio de sua obra, que a liberdade, a dignidade e a autonomia do homem – do artista – são valores humanos inegociáveis, que devem ser conquistados, defendidos e valorizados como única forma possível de viver em sociedade. A fraternidade e, um termo hoje muito em moda, a tolerância, eram pressupostos defendidos por ele. Por isso suas obras são consideras definidoras do papel e da função do artista no século XVIII pré-romântico. Não se tratam mais de obras criadas conforme o gosto da aristocracia, subservientes aos desejos de um patrão. Não são mais um entretenimento refinado, leve e divertido, cuja função era cultivar a convivência de uma sociedade “civilizada”, bem educada, como até então se consideravam as produções de seus predecessores. Sua produção se impôs como retrato de uma personalidade politicamente orientada, que assume uma forma de intervir no mundo com sua música, definida por uma participação ativa em uma sociedade que se constrói a partir de valores éticos e morais, e que reivindica para a arte o status de um conhecimento ideológica e politicamente fundamentado.


IHU On-Line – O que a senhora gostaria de comentar ou destacar em relação à temática do minicurso Semânticas do Mistério na Música. Audição comentada de três concertos de Beethoven?

Yara Caznok –
Pretendo propor uma experiência de encontro, por meio da escuta, com a concepção musical de Beethoven presente no gênero “música pura”, a partir de três concertos para solista (s) e orquestra. O contraste e o equilíbrio construído entre forças aparentemente desiguais – de um lado o (s) indivíduo (s) solista (s) e de outro o grupo, a orquestra, é um dos principais critérios musicais do gênero e que, nas mãos de Beethoven, ganha soluções muito particulares. Também procurarei realçar a percepção de alguns elementos musicais – temas, timbres instrumentais, diálogos e procedimentos composicionais, entre outros – que nos colocam frente a frente com o pensamento vigoroso e exigente do compositor. Dos três concertos selecionados, dois deles são para solistas: o Concerto para Violino, em Ré maior Op. 61 (o único para este instrumento escrito por Beethoven), cuja gravação escolhida para o minicurso nos fará admirar o som de um violino Stradivarius de 1704, com a jovem intérprete Isabelle Faust, e o 5º Concerto para piano, denominado “Imperador”, em Mi bemol maior Op. 73, que será ouvido com o pianista romeno Radu Lupu. A terceira obra é o Concerto Triplo, para piano, violino e violoncelo, em Dó maior Op. 56, em uma gravação mais antiga, mas que é um dos modelos de concepção interpretativa beethoviniana: os solistas são os “gigantes” David Oistrakh (violino), Mstislav Rostropovich (violoncelo) e Sviatoslav Richter (piano), sob regência de Herbert von Karajan. A ideia de escolher intérpretes de diferentes épocas e linhas interpretativas é proposital, para experimentarmos uma questão crucial no universo musical: a inexistência do conceito de “verdade” interpretativa. Não há uma única leitura correta e verdadeira que possa ser considerada mais fiel às intenções do compositor ou mais próxima do contexto histórico das obras. Dentro de parâmetros objetivos, claro, há várias possibilidades de concepções interpretativas não excludentes, que realçam múltiplos aspectos e que nos falam das preocupações estético-estilísticas de diferentes épocas e sensibilidades. Ouviremos excertos, pois a duração total das três obras não caberia nesse formato de encontro, mas tenho a forte esperança que todos os participantes se sintam estimulados, ao voltar para casa, a logo ir procurar no Youtube (caso não tenham os CDs) a gravação integral dos concertos e a usufruí-los em sua totalidade.


Leia mais...

Yara Caznok
já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

* “Mozart, um compositor e suas contradições”. Edição 174, intitulada Wolfgang Amadeus Mozart. Jogo e milagre da vida, de 03-04-2006

* A respiração tornada melodia. O canto pascal. Edição 288, de 06-04-2009

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