Edição 401 | 03 Setembro 2012

O Concílio Vaticano II e a ética cristã na atualidade

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Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa

Para José Roque Junges, o Concílio Vaticano II se caracterizou por um cunho pastoral de compreensão sobre a presença da Igreja e dos cristãos católicos no mundo de hoje. Este é o seu legado primordial

O Concílio Vaticano II não foi um fenômeno eclesial extemporâneo, mas respondeu a anseios internos da Igreja e recolheu os frutos teológicos e pastorais de uma intensa movimentação intelectual e prática de volta às origens do cristianismo e de abertura ao mundo moderno durante a primeira metade do século XX.

Na sociedade contemporânea, é exigida “uma atitude de humildade e principalmente de testemunho por parte da Igreja no anúncio da mensagem cristã, numa cultura e sociedade que já não é mais cristã em sua identidade, mas pós-cristã. Muitos ainda não se deram conta disso, criando ruídos e entraves para a presença pública da fé cristã. A teologia pública é justamente aquela perspectiva de reflexão que complementa, mas não se identifica com o enfoque eclesiástico, por não ter como objetivo precípuo animar os fiéis da comunidade eclesial, mas tentar justificar e explicitar a fé cristã no espaço público da sociedade para quem professa uma cultura que já não é mais cristã, mas que é aberta para o diálogo e para as interfaces com o mundo espiritual”, afirma José Roque Junges, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo o teólogo, “se a Igreja quer ser ouvida em sua mensagem na sociedade, ela não pode fazer uma bioética de sacristia, mas participar dos fóruns públicos com uma abertura de diálogo crítico, com a construção de argumentos contundentes dentro de uma racionalidade lógica e comunicativa”.

José Roque Junges possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, mestrado em Teologia pela Pontificia Universidad Catolica de Chile e doutorado em Teologia Moral pela Pontificia Università Gregoriana de Roma, Itália. Tem experiência na área de Teologia, Filosofia e Ética, com ênfase em Bioética. Entre seus livros publicados citamos Bioética: perspectivas e desafios (São Leopoldo: Unisinos, 1999); Ecologia e Criação: resposta cristã à crise ambiental (São Paulo: Loyola 2001); Ética ambiental (São Leopoldo: Unisinos, 2004); e Bioética: hermenêutica e casuística (São Paulo: Loyola, 2006).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o senhor compreende o Concílio Vaticano II a partir do ponto de vista da teologia moral?

José Roque Junges –
O Concílio Vaticano II não foi um fenômeno eclesial extemporâneo, mas respondeu a anseios internos da Igreja e recolheu os frutos teológicos e pastorais de uma intensa movimentação intelectual e prática de volta às origens do cristianismo e de abertura ao mundo moderno durante a primeira metade do século XX. Assim tivemos um Movimento Bíblico que possibilitou uma nova compreensão da revelação divina e uma hermenêutica mais adequada da Sagrada Escritura; um Movimento Litúrgico que desembocou no novo modo de conceber e celebrar os sacramentos e especialmente a eucaristia; um Movimento Ecumênico de aproximação das outras expressões eclesiais da fé cristã, superando antigos conflitos para uma denominação de Igrejas irmãs; um movimento de volta às fontes da fé cristã, principalmente pela redescoberta da patrística; e, por fim, um movimento de renovação teológica que superou o imobilismo intelectual da Escolástica moderna, tentando pensar o dado da revelação a partir de novas lógicas e paradigmas teóricos. Esse movimento aconteceu também na teologia moral através da renovação trazida por teólogos da chamada Escola de Tübingen, que tentaram repensar a moral cristã a partir de uma antropologia personalista e de uma fundamentação bíblica que ponha o foco do agir do cristão nas exigências do Reino de Deus e no seguimento de Cristo, e não tanto na lei natural. O teólogo moralista que soube sistematizar essa renovação da moral foi Bernhard Häring  com o seu célebre livro A Lei de Cristo  publicado em 1954 no qual se formaram muitos bispos que participaram do Concílio. Não é por nada que Häring foi um dos grandes assessores teológicos do Concílio Vaticano II. Essa nova compreensão está presente, por exemplo, no documento conciliar Optatam Totius que trata da renovação da formação do clero, quando afirma que “se consagre cuidado especial ao aperfeiçoamento da Teologia Moral cuja exposição científica mais alimentada pela doutrina da Sagrada Escritura evidencie a sublimidade da vocação dos fiéis em Cristo e sua obrigação de produzir frutos de caridade para a vida do mundo” (OT 16). É possível destacar três elementos importantes dessa definição: inspirar-se mais na Sagrada Escritura, evidenciar a vocação dos fiéis em Cristo, trazer frutos de caridade para o mundo, afirmações revolucionárias para a renovação da teologia moral, pois não faziam parte do discurso escolástico da moral. Esse novo espírito da centralidade de Cristo, da visão antropológica positiva do ser humano e da abertura e diálogo com o mundo perpassou todo o Concílio e aparece em todos os seus documentos, trazendo novos ares, renovação e jovialidade para a prática da fé cristã dos católicos.


IHU On-Line – De forma mais específica, qual foi relevância do documento conciliar Gaudium et Spes e como ele impulsionou o pensamento ético na Igreja pós-conciliar?

José Roque Junges –
Um dos principais documentos conciliares em que aparece esse novo espírito é Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje. Bernhard Häring teve um papel fundamental na assessoria e redação desse documento. Trata-se de uma constituição pastoral e não dogmática como são, por exemplo, a constituição Lumen Gentium (Luz das nações) sobre a natureza da Igreja e a constituição Dei Verbum (Palavra de Deus) sobre a revelação divina na história humana de salvação, que abordam os próprios fundamentos da Igreja. A Gaudium et Spes (Alegrias e esperanças) formula a visão e os princípios que devem reger o modo de agir da Igreja no mundo. O documento expressa a concepção da Igreja sobre o ser humano (GS 12-22); sobre o sentido da comunidade (GS 23-32) e da atividade humanas no mundo (GS 33-39); e sobre a função da Igreja no mundo de hoje (GS 40-45). Por fim, são abordados alguns problemas urgentes como a família e o matrimônio compreendidos a partir de uma visão renovada (GS 47-52), a promoção da cultura com critérios para que ela seja integral (53-62), a vida econômico-social com princípios sobre o desenvolvimento e a destinação dos bens terrenos (GS 63-72), a comunidade política centrada numa compreensão do bem comum (GS 73-76), a paz e a comunidade das nações com novas diretrizes sobre a ocorrência de guerras (GS 77-90). O documento exprime uma visão positiva do ser humano e uma abertura e diálogo com o mundo, superando uma perspectiva condenatória de anátemas que caracterizava até esse momento a Igreja no seu modo de encarar o mundo moderno. Por isso inicia dizendo que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. A Igreja se deu conta de que para anunciar o Evangelho que é uma Boa Nova, uma Boa Notícia, ela não podia ter uma atitude condenatória; se tem um anúncio de salvação a dar ela não deve condenar, mas saber acolher e convencer pelo testemunho. João XXIII ao convocar o Concílio queria que fosse diferente dos anteriores, que serviam mais para dar anátemas. Por isso ele insistiu que o Vaticano II deveria ser mais de cunho pastoral com uma abertura ao mundo como esse se apresenta, sendo Gaudium et Spes a máxima expressão dessa perspectiva. Esse novo modo de encarar o ser humano e de agir no mundo exigiu uma renovação da reflexão moral da Igreja, obrigando a repensar os parâmetros, às vezes estreitos, que até esse momento regiam o agir dos cristãos católicos. Certamente não se soube ainda tirar as últimas consequências para o comportamento moral, por exemplo, relativo à sexualidade, dessa nova concepção antropológica de cunho mais personalista.


IHU On-Line – Qual a concepção de ser humano que emerge do Concílio e quais as decorrências para a antropologia e a ética cristã?

José Roque Junges –
Os números 16 e 17 da Gaudium et Spes sobre a consciência moral e a liberdade são centrais para entender a concepção do ser humano que emerge do concílio. Quanto à consciência moral, é afirmado que o ser humano descobre uma lei escrita por Deus no seu coração, e obedecer a ela é a sua própria dignidade. Essa consciência é o núcleo secretíssimo e o sacrário do ser humano onde ele está sozinho com Deus e onde ressoa sua voz. Pela consciência, descobre-se, de modo admirável, aquela lei que se cumpre no amor de Deus e do próximo (GS 16). Essa visão revoluciona totalmente a concepção sobre a consciência moral presente na tradicional moral escolástica que a reduzia a uma pura instância de aplicação da norma, mas nunca como um lugar de discernimento da vontade Deus. Portanto, a consciência é o núcleo íntimo da pessoa que deve ser respeitado onde ressoa a voz de Deus. Nela descobre-se por conaturalidade a única lei interpelante e imperativa que é o amor, da qual as outras normas são puras decorrências para orientar no amor.


A livre escolha pelo bem

O número seguinte dá a verdadeira dimensão do que foi dito antes sobre a consciência: O ser humano não pode, porém, voltar-se para o bem, a não ser livremente (GS 17). O texto aponta para a grandeza da liberdade que tem a sua base na imagem de Deus impressa no ser humano: A verdadeira liberdade é um sinal eminente da imagem de Deus no ser humano. Pois Deus quis deixar ao ser humano o poder de decidir, para que, assim, procure espontaneamente o seu Criador, a Ele adira livremente e chegue à perfeição plena e feliz (GS 17). Em continuação, o texto parece assumir uma tese típica da ética moderna kantiana, isto é, a autonomia como fundamento da dignidade: Portanto, a dignidade do ser humano exige que possa agir de acordo com uma opção consciente e livre, isto é, movido e levado por convicção pessoal, e não por força de um impulso interno cego ou debaixo de mera coação externa (GS 17). Nesse texto, a dignidade humana significa, ao mesmo tempo, exigência e cumprimento, ou condição e vocação que se realiza através da liberdade. Em outras palavras, a liberdade está intimamente ligada à dignidade, sendo a indispensável condição de sua realização. Assim, a grandeza da liberdade tem um duplo conteúdo: como valor em si enquanto liberdade e, como dinâmica de liberdade que visa à realização da dignidade humana.

Quem não conheceu a visão antiga pré-conciliar não consegue avaliar o que essa reflexão sobre a consciência e a liberdade significa como mudança e virada copernicana na concepção antropológica da Igreja. Essa visão está na base de uma das declarações mais revolucionárias do concílio que foi a Dignitatis Humanae  sobre a liberdade religiosa. Significou aceitar que toda pessoa deve ser respeitada em sua opção religiosa feita em sã consciência, nunca se podendo impor a ninguém um credo religioso. Esse posicionamento e a visão antropológica que o fundamenta foram o motivo, além de outras afirmações, da não aceitação da totalidade do concílio Vaticano II pelo movimento ultratradicionalista do bispo Marcel Lefebvre , suspenso de suas funções episcopais por João Paulo II, mas cujo movimento está em processo de reabilitação por Bento XVI, o que é preocupante por suas possíveis consequências para a recepção do concílio que ainda está em curso ao interno da Igreja.


IHU On-Line – Como o Concílio entendeu a questão da dignidade da pessoa humana?

José Roque Junges –
A Constituição pastoral Gaudium et Spes é o primeiro documento oficial da Igreja com uma explicitação mais formal sobre a dignidade humana. Para a fé cristã, todo ser humano é imagem de Deus e sua semelhança divina é o fundamento de sua dignidade. Isso está explicitado quando a constituição afirma: As Sagradas Escrituras ensinam que o ser humano criado ‘à imagem de Deus’ é capaz de conhecer e amar seu Criador, que o constituiu senhor de todas as coisas terrenas, para que, dominando-as para seu uso, glorifique a Deus... Deus não criou o ser humano solitário. Desde o início, ‘Deus os criou varão e mulher’ (Gn 1,27). Esta união constituiu a primeira forma de comunhão de pessoas. O ser humano é, com efeito, por sua natureza íntima, um ser social. Sem relações com os outros, não pode nem viver nem desenvolver seus dotes (GS 12).


Deus, o mundo e o outro

A imagem divina no ser humano é analisada sob três aspectos: capacidade de conhecer e amar a Deus, de ser senhor de todas as coisas e de viver em comunhão com os outros. Trata-se de uma descrição do conteúdo do conceito de imagem de acordo com os três referenciais da pessoa: Deus, o mundo e o outro. A imagem expressa um projeto para o ser humano; não um simples dado, mas um dinamismo de realização, que o abre para as três relações. Nessas relações, efetiva a sua vocação: entrar em comunhão com Deus, com o outro e com o mundo. A dignidade humana consiste nessa efetivação. É importante salientar que na GS 12 o termo “dignidade” é usado em estreita ligação com o termo “vocação”. O sentido preciso dessa relação aparece no início da GS 19: A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do ser humano para a comunhão com Deus. A imagem se expressa nessa comunhão a que o ser humano é chamado e que fundamenta a sua dignidade. A relação com Deus, com o outro e com o mundo é o caminho de realização da vocação. Nessa vocação, está a sua dignidade. A vocação, como termo de mediação entre a imagem divina e a dignidade humana, somente é compreensível na dimensão cristológica, pois o conceito de “imagem de Deus” é vazio e sem conteúdo sem a referência à reconciliação operada em Cristo. O ser humano, criatura nova, é chamado a viver o amor salvífico experimentado em sua vida por obra e graça de Cristo. Daí a importância do título de GS 22 “Cristo, um Ser humano novo”, que termina o capítulo sobre dignidade com um fecho de ouro: Na realidade, o mistério do ser humano só se torna verdadeiramente claro no mistério do Verbo encarnado. Com efeito, Adão o primeiro ser humano era figura daquele que haveria de vir, isto é, de Cristo Senhor. Novo Adão, na mesma revelação do mistério do Pai e de seu amor, Cristo manifesta plenamente o ser humano ao próprio ser humano e lhe descobre a sua altíssima vocação. Não é, portanto, de se admirar que, em Cristo, estas verdades encontrem sua fonte e atinjam seu ápice (GS 22). Em Cristo, o ser humano é convidado a entrar em comunhão de amor com Deus, sendo, pela graça, regenerado em sua dignidade para viver como reconciliado.


Glorificar a Deus no corpo: exigência da própria dignidade

A imagem de Deus no ser humano e, portanto, sua vocação e sua dignidade realizam-se numa unidade estrutural corpóreo-espiritual (GS 14). A condição corporal e a vida interior são as mediações para a realização da vocação e a base para a efetivação da dignidade. O ser humano é imagem de Deus e portador de dignidade, não somente no aspecto espiritual, mas igualmente no corporal como dimensões de uma unidade pessoal. Não é, portanto, lícito ao ser humano desprezar a vida corporal, mas, ao contrário, deve estimar o seu corpo, porque criado por Deus e destinado à ressurreição no último dia (GS 14). O corpo participa da redenção pela ressurreição e deve ser considerado como uma realidade redimida, porque o Verbo assumiu a carne humana. Tendo presente, porém, a possibilidade da presença do pecado na realidade corporal, o texto lembra que o ser humano é convidado a glorificar a Deus no seu corpo, como exigência da própria dignidade. Contudo, o ser humano supera a condição corporal pela emergência da interioridade: Com efeito, por sua vida interior, o ser humano excede a universalidade das coisas. Ele penetra nesta intimidade profunda, quando se volta ao seu coração, onde o espera Deus, que perscruta os corações, e onde ele pessoalmente sob os olhares de Deus, decide sua própria sorte (GS 14).

O texto conciliar não apenas trata da essência da dignidade, mas descreve também sua condição histórica: o pecado (GS 13) e a morte (GS 18). Essa preocupação pela situação histórica é compreensível quando se entende a dignidade como vocação ou como cumprimento, e não apenas como exigência formal, como acontece em Kant. O pecado e a morte são um contínuo desafio para a efetivação da dignidade humana, regenerada em Cristo para a graça e a vida. A reconciliação operada por Cristo no batismo cria as condições, para que o ser humano possa dar uma resposta e vencer o pecado, como força desestruturadora, e a morte, como destruição definitiva, que ferem e negam a realização da dignidade. Reconciliado com Deus e agraciado pelo seu amor, o ser humano já não peca nem morre, pois venceu a potência do pecado e a morte eterna pela força da graça de Cristo. Nisso consiste a grandeza da dignidade humana para o humanismo cristão.


IHU On-Line – De maneira geral, qual a relevância do Vaticano II para a fundamentação teológica dos direitos humanos?

José Roque Junges –
Para W. Huber , os direitos humanos se fundamentam em três valores básicos que os constituem em sua doutrina: liberdade, igualdade e participação que não devem ser separados, mas levados em consideração em sua condicionalidade e correlação mútuas. Essa afirmação institui uma regra hermenêutica para compreender os direitos humanos, pois cada um deve ser explicitado em relação aos três valores, embora determinado direito esteja mais próximo de um dos valores. Essa doutrina dos valores inseparáveis da liberdade, da igualdade e da participação como base de interpretação para os direitos aparece também na Gaudium et Spes ao explicitar o fundamento da dignidade humana na imagem e semelhança divina que justifica o respeito pela liberdade da consciência, a consideração de todos seres humanos como iguais em dignidade e o direito à participação de todos na herança humana e nos bens da natureza criados por Deus. Essa imagem e semelhança só adquirem conteúdo e expressão na encarnação do Verbo, quando o Filho do Pai eterno se faz homem em Jesus de Nazaré e se identifica com a humanidade. Em Cristo como homem novo é que a dignidade humana recebe o seu selo e sua garantia de realização, porque na identificação com o Filho, todo ser humano goza da liberdade dos filhos de Deus, aceita os outros como irmãos na igualdade e participa da herança do Reino de Deus que são a base teológica dos direitos humanos. Jesus fazendo-se irmão e semelhante a todo ser humano elevou a dignidade humana à condição de semelhança divina. Cristo tornou-se humano para que o ser humano possa tornar-se divino. Assim os direitos humanos são uma expressão dessa condição que é fruto da identificação do humano e do divino em Cristo. Assim o desrespeito aos direitos humanos é uma ofensa direta a Deus, porque lesa a sua imagem no ser humano.


IHU On-Line – Em sua opinião, depois de 50 anos da abertura, em que medida o Concílio continua atual, levando em conta os novos desafios implicados na chamada segunda modernidade?

José Roque Junges –
Por vontade explícita de João XXIII, o Concílio Vaticano II não teve um caráter apologético de condenações como os anteriores, mas se caracterizou essencialmente por um cunho pastoral de compreensão sobre a presença da Igreja e dos cristãos católicos no mundo de hoje. Esse espírito e essa nova perspectiva são o legado primordial do concílio, mais do que a pura letra dos documentos. Essa é a verdadeira recepção do concílio, conceito teológico que expressa como documentos oficiais são historicamente assimilados ao interno da Igreja. Todo concílio lega determinado espírito e mentalidade para a Igreja do seu tempo que está para além da letra dos documentos aprovados. O Concílio de Trento no século XVI configurou uma mentalidade muito própria na Igreja. Nessa perspectiva, pode-se afirmar com toda certeza que o Concílio Vaticano II deixou como herança um novo espírito e novo modo de posicionar-se no mundo e na sociedade, caracterizado essencialmente por uma atitude de abertura colaborativa e dialogante, embora possa e deva em muitos casos ser também questionadora e crítica, mas nunca condenatória. Hoje faz parte da identidade cristã ser aberto ao diálogo com as culturas e as religiões numa atitude colaborativa em prol da justiça e da fraternidade entre os povos e na construção de uma sociedade democrática e emancipadora. Esse legado do concílio continua extremamente atual, passados 50 anos, no sentido de saber se posicionar na cultura contemporânea da segunda modernidade com atitude dialogante e postura inculturada e crítica.


Autonomia e secularização

Outra característica do concílio foi reconhecer a autonomia das realidades sociais terrestres que não devem ser sacralizadas e depender da autoridade da Igreja. Essa é a base do assim chamado fenômeno da secularização, lamentado por tradicionalistas, mas que trouxe um grande bem e autonomia para o testemunho e a ação da Igreja no mundo e na sociedade. Esse legado do concílio continua a ser muito importante. Ocupar um papel político de poder sempre foi desastroso para o Evangelho, pois nunca pode ser anunciado a partir de uma posição de poder seja qual for e muito menos imposto com argumentos de autoridade. Ele só pode ser acolhido pelo convencimento interno e porque é compreendido como uma boa notícia de sentido e de salvação para a existência. Isso exige uma atitude de humildade e principalmente de testemunho por parte da Igreja no anúncio da mensagem cristã, numa cultura e sociedade que já não é mais cristã em sua identidade, mas pós-cristã. Muitos ainda não se deram conta disso, criando ruídos e entraves para a presença pública da fé cristã. A teologia pública é justamente aquela perspectiva de reflexão que complementa, mas não se identifica com o enfoque eclesiástico, por não ter como objetivo precípuo animar os fiéis da comunidade eclesial, mas tentar justificar e explicitar a fé cristã no espaço público da sociedade para quem professa uma cultura que já não é mais cristã, mas que é aberta para o diálogo e para as interfaces com o mundo espiritual.


IHU On-Line – A partir do atual contexto de mundo, quais são as grandes questões éticas e morais que interpelam a Igreja por respostas?

José Roque Junges –
No atual contexto, a Igreja enfrenta dois grandes desafios éticos que a interpelam e para os quais ela é convidada a contribuir com os tesouros simbólicos da fé cristã. O primeiro é a questão da vida para o qual ela está muito acordada e preocupada, mas é necessário compreender o transfundo simbólico de macroproblemas dos microproblemas morais como aborto, eutanásia, procriação assistida. A reflexão fica muitas vezes reduzida a essas microbatalhas com seus argumentos às vezes limitados, quando está em jogo uma batalha muito mais ampla de gestão da vida, para a qual esses microproblemas morais são apenas sintomas do que se manifesta em todo mundo das biotecnologias que se configuram sempre mais como estruturas de biopoder que criam e disseminam dinâmicas biopolíticas. A mentalidade sobre o aborto e a eutanásia é movida por essas dinâmicas e, por isso, elas devem ser o foco. É imperioso saber situar-se nesse contexto mais amplo de reflexão, sabendo, por exemplo, dialogar com autores como Giorgio Agamben , Roberto Esposito  e outros que estão trazendo elementos importantes para refletir, hoje, sobre as dinâmicas da gestão da vida. Se a Igreja quer ser ouvida em sua mensagem na sociedade, ela não pode fazer uma bioética de sacristia, mas participar dos fóruns públicos com uma abertura de diálogo crítico, com a construção de argumentos contundentes dentro de uma racionalidade lógica e comunicativa.


Aquecimento global

Uma segunda questão ética que aflige atualmente a humanidade e para a qual a Igreja ainda está pouco desperta e poderia colaborar muito mais com iniciativas globais é o problema ambiental e, especificamente, o aquecimento climático global (este ano tivemos, inclusive, o Encontro Internacional Rio+20). Assumindo essa preocupação com ações concretas de colaboração global em favor de iniciativas em defesa do meio ambiente, ela ampliaria o seu posicionamento de promoção da vida, ganharia em autoridade moral para reivindicar uma atitude de proteção da vida em toda sua amplidão e de coerência ecológica diante de uma criação que geme e sofre dores de parto, esperando pela libertação final escatológica.


IHU On-Line – O senhor gostaria de acrescentar algum aspecto que não foi abordado?

José Roque Junges –
Alguns afirmam, com certa razão, que o Concílio Vaticano II foi ingênuo em sua abertura ao mundo moderno, faltando uma visão mais crítica dos pressupostos da modernidade, especialmente em seu acento no indivíduo e no esvaziamento do senso comunitário, mas que só numa época já pós-moderna foi possível dar-se conta de suas consequências. Por um lado, o surgimento da modernidade foi possibilitado pelos condicionamentos criados pelo cristianismo, mas, por outro, as dinâmicas desenvolvidas pela mentalidade moderna podem esvaziar uma experiência de fé que está baseada unicamente nos reforços de um contexto cultural cristão. Ora, esse contexto está desaparecendo devido à pressão cultural das dinâmicas da autonomia. Esse fato pode ser libertador para uma evangelização que não está primariamente baseada em práticas rituais, mas na construção de convicções interiores. Nesse sentido pode-se falar da necessidade de uma autonomia teologal que conjuga graça e liberdade na configuração existencial da fé. Isso aponta para a necessidade urgente de uma fé fundada na experiência e vivência da graça e do amor de Cristo. Como dizia o teólogo Rahner, o cristão do século XXI ou será místico ou não será mais cristão.


Leia mais...

>> José Roque Junges já contribuiu outras vezes com a IHU On-Line. Confira:

• “Se o aborto é um problema, a sua solução não é o próprio aborto”. Entrevista publicada na edição número 219, de 14-05-2007

• Agenciamentos imunitários e biopolíticos do direito à saúde. Entrevista publicada na edição número 344, de 21-09-2010

• Transformações recentes e prospectivas de futuro para a ética teológica. Artigo publicado nos Cadernos Teologia Pública número 7

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