Edição 401 | 03 Setembro 2012

Vaticano II. 50 anos depois, apenas o início de um longo processo de recepção

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Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa | Tradução de Moisés Sbardelotto

Massimo Faggioli destaca que instâncias como as do papel dos leigos e das mulheres não foram discutidas no Concílio Vaticano II, “mas hoje todos aqueles que pedem para discuti-las se colocam claramente no rastro da herança do Concílio”, defende

“O Concílio inaugurou uma nova forma de ser Igreja seguramente na medida em que a Igreja Católica hoje não é mais uma Igreja de cultura apenas ocidental ou europeia. O Vaticano II, teologicamente, deu legitimidade a outras culturas para acolher o Evangelho e desenvolver uma compreensão própria da mensagem cristã, sem ter que depender de modo escravizante da herança greco-romano-medieval”. A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor na University of St. Thomas, de Minnesota, Estados Unidos. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line Faggioli destaca a importância do Vaticano II, lamentando que nos últimos anos “tornaram-se mais fortes as vozes que tendem a banalizar o Concílio ou a culpá-lo pela secularização: por esse motivo, o 50º aniversário é uma ocasião necessária para lembrar o que foi verdadeiramente o Concílio e como, graças a ele, a Igreja começou a se renovar”.

Massimo Faggioli é doutor em História da Religião e professor de História do Cristianismo no Departamento de Teologia da University of St. Thomas, de Minnesota, Estados Unidos. Seus livros mais recentes são Vatican II: The Battle for Meaning (Paulist Press, 2012) e True Reform: Liturgy and Ecclesiology in Sacrosanctum Concilium (Liturgical Press, 2012).

Confira a entrevista.
 

IHU On-Line – O que significa celebrar os 50 anos de abertura do Concílio Vaticano II?

Massimo Faggioli –
Celebrar os 50 anos de abertura do Concílio Vaticano II significa lembrar aquele momento de consulta da Igreja universal decidido por João XXIII : um momento que, para toda a Igreja, foi de esperança de poder reformar algumas coisas dentro dela mesma, no sentido de ser capaz de mudar algumas coisas do mundo, graças a uma nova interpretação do Evangelho no mundo contemporâneo. Nos últimos anos, especialmente em certos ambientes tradicionalistas, tornaram-se mais fortes as vozes que tendem a banalizar o Concílio ou a culpá-lo pela secularização: por esse motivo, o 50º aniversário é uma ocasião necessária para lembrar o que foi verdadeiramente o Concílio e como, graças a ele, a Igreja começou a se renovar. É preciso libertar a história do Concílio das “narrativas” e das ideologias políticas que foram criadas em torno dele.


IHU On-Line – Quais fatores sociais e eclesiais foram decisivos para a realização do Concílio?

Massimo Faggioli –
Do ponto de vista social e político, foi importante o processo de descolonização, que na época do Concílio havia recém-começado, e a consequente desocidentalização do catolicismo e do cristianismo mundial, também em nível das elites dirigentes da Igreja. Além disso, desempenhou um papel próprio a política de abertura diplomática da Santa Sé ao mundo comunista, a chamada “Ostpolitik” , na tentativa de desvincular a Igreja de uma aliança muito estreita com o mundo ocidental. Mas foi decisiva, do ponto de vista teológico, a contribuição dos movimentos de reforma do início do século XX – o Movimento Bíblico e Litúrgico, a renovação patrística, o Movimento Ecumênico. Do ponto de vista cultural, foi a experiência do pluralismo nas sociedades modernas que levou o Concílio a reconsiderar algumas doutrinas sociais dadas por óbvias e a repensá-las em uma ótica menos ligada a uma única experiência nacional e mais ligada ao Evangelho. Mas foram os bispos e os teólogos daquela geração que tiveram a coragem de discutir e de votar esses documentos.


IHU On-Line – Na gênese do Vaticano II, qual a relevância da Ação Católica?

Massimo Faggioli –
A Ação Católica foi importante, sem dúvida, ao propor no início cautelosa e lentamente um novo modelo de laicato católico, obediente à hierarquia, mas também capaz de olhar para a frente e de pensar a Igreja como um agente de mudança social. Além disso, a Ação Católica introduziu no Concílio frutos que depois se reverteram em outras correntes, tais como os “novos movimentos católicos”. Mas, sem a Ação Católica, o protagonista atual do laicato não teria sido possível.


IHU On-Line – Em que medida o Concílio inaugurou uma nova forma de ser Igreja?

Massimo Faggioli –
O Concílio inaugurou uma nova forma de ser Igreja seguramente na medida em que a Igreja Católica, hoje, não é mais uma Igreja de cultura apenas ocidental ou europeia. O Vaticano II, teologicamente, deu legitimidade a outras culturas para acolher o Evangelho e desenvolver uma compreensão própria da mensagem cristã, sem ter que depender de modo escravizante da herança greco-romano-medieval. Muitas instâncias, como a da colegialidade e a do governo da Igreja, foram discutidas no Concílio e, no fim, redimensionadas em comparação com as expectativas: redimensionadas tanto durante o Concílio como depois do Concílio por Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Outras instâncias, como as do papel dos leigos e das mulheres, não foram discutidas no Concílio, mas hoje todos aqueles que pedem para discuti-las se colocam claramente no rastro da herança do Concílio Vaticano II.


IHU On-Line – Em sua análise, quais foram os principais frutos do Concílio?

Massimo Faggioli –
De um modo muito esquemático, eu diria que os maiores frutos ad intra se referem à reforma litúrgica; ao papel das Escrituras na teologia e na vida da Igreja; a um repensamento da ideia de Igreja segundo uma concepção menos jurídica e mais bíblica e patrística; e a uma ideia de liberdade religiosa que relativiza o papel das instituições com relação às exigências da consciência. Os maiores frutos ad extra dizem respeito ao compromisso ecumênico da Igreja, ao diálogo inter-religioso e a uma nova ideia de diálogo entre Igreja e mundo. A partir desses frutos, será impossível voltar atrás, senão à custa de tornar a Igreja Católica um gueto.


IHU On-Line – Qual o significado e o alcance do conceito Igreja Povo de Deus? Como esse modelo de Igreja surgiu no contexto do Concílio?

Massimo Faggioli –
Ele tem um significado importante, porque liquida um conceito neotomista e, além disso, contrarreformista de Igreja e assume uma compreensão da teologia como “história da salvação” e da Igreja como “povo de Deus” a caminho nesta história da salvação. “Povo de Deus” não tem imediatamente um sabor sociológico, mas sim bíblico e histórico. Eliminar essa nota eclesiológica – a Igreja como povo de Deus – equivale a redimensionar todo o Vaticano II. Esse modelo de Igreja surgiu dentro de uma discussão eclesiológica que já havia iniciado depois da publicação da encíclica do Papa Pio XII  Mystici Corporis (1943), mas que chegou à maturidade somente na fase preparatória do Concílio, quando modelos eclesiológicos diferentes (Igreja como Corpo Místico, Igreja como povo de Deus, Igreja como sacramento de salvação, eclesiologia ecumênica) se fundiram na constituição Lumen Gentium .


IHU On-Line – À luz do Vaticano II, entre o recuo e o avançar, como o senhor analisa o atual momento da Igreja?

Massimo Faggioli –
Estamos em uma fase difícil, em que o pontificado de Bento XVI deixou os espíritos tradicionalistas livres para tentar voltar atrás com relação aos ensinamentos do Concílio. Mas é uma tentativa fadada ao fracasso. A renovação inaugurada pelo Concílio é irreversível. Nos próximos meses e anos, deveremos continuar testemunhando a riqueza do ensinamento do Concílio e, por isso, serão anos difíceis. Mas, no longo prazo, não tenho dúvidas de que o Concílio Vaticano II é a única chance da Igreja de testemunhar o Evangelho no mundo contemporâneo.


IHU On-Line – Tendo em conta os desafios da conjuntura mundial, em que medida o Vaticano II continua atual?

Massimo Faggioli –
Permanece muito atual, se levarmos em conta, por exemplo, o valor da declaração Nostra Aetate  depois do 11 de setembro de 2001. Mas, em geral, eu diria que a vitalidade da Igreja hoje se deve ao Vaticano II. Esse processo de renovação há pouco começou: na história dos concílios ecumênicos e da Igreja, 50 anos são apenas o início de um longo processo de recepção da mensagem do Concílio.



Leia mais...

Confira alguns dos artigos de Massimo Faggioli publicados no sítio do IHU:

• Alguma coisa importante aconteceu no Vaticano II. Artigo publicado em 13-03-2010

• Recepção do Vaticano II em discussão. Artigo publicado em 17-06-2011

• Cúria, uma reforma pela metade. Artigo publicado em 30-05-2012

• Geografia de Deus. Artigo publicado em 20-06-2012

 O voto e a santidade. Artigo publicado em 22-06-2012

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