Edição 400 | 27 Agosto 2012

O budismo étnico está gradativamente envelhecendo

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Thamiris Magalhães

Baseado nos dados atualmente disponíveis, pode-se dizer que em números absolutos, entre 2000 e 2010, houve um crescimento de brasileiros que se declaram budistas, declara Frank Usarski

“No decorrer do último censo, identificaram-se 243.966 pessoas como adeptos da religião budista. Isso significa um aumento de 29.093 pessoas em comparação com os números finais do censo de 2000 (214.873)”, aponta o pesquisador da PUC-SP, Frank Usarski, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, em termos percentuais não havia mudança significativa. E completa: “Pelo contrário, devido ao crescimento da população, a proporção dos budistas no Brasil ficou inalterada. Tanto em 2000 como em 2012 os budistas autodeclarados representam apenas 0,13% da população brasileira”.

Frank Usarski é doutor, com tese sobre os mecanismos e motivos da estigmatização pública de novos movimentos religiosos na Alemanha Ocidental e possui pós-doutorado na área de Ciência da Religião pela Universidade de Hannover, na Alemanha, sobre o papel das religiões nas Exposições Mundiais entre 1851 e 1900. Desde sua chegada ao Brasil em 1998, faz parte do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Em 2009, obteve o título de Livre Docente na área de Ciências da Religião pela PUC-SP. Entre suas atividades acadêmicas, destacam-se a pesquisa, o ensino e diversas publicações sobre as religiões orientais, bem como sobre a história e o perfil atual da ciência da religião. Além disso, é fundador e coordenador da Revista de Estudos da Religião – REVER – e líder do grupo de pesquisa Centro de Estudos de Religiões Alternativas de Origem Oriental no Brasil – CERAL. De suas obras, além de O Budismo e as outras. Encontros e desencontros entre as grandes religiões mundiais (Aparecida: Ideias & Letras, 2009), citamos Constituintes da ciência da religião. Cinco ensaios em prol de uma disciplina autônoma (São Paulo: Paulinas, 2006).

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Qual o valor analítico dos dados fornecidos pelo IBGE até agora? 

Frank Usarski – Até agora, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, baseado no censo de 2000, forneceu apenas dados provisórios relacionados ao budismo no país. Isso limita o valor heurístico dos números em dois sentidos. Primeiro, estamos em uma situação comparável com a divulgação dos primeiros resultados do penúltimo censo (2000), conforme os quais havia 245.871 budistas no Brasil. A publicação dos dados corrigidos alguns meses mais tarde indicou que, na verdade, foram contados apenas 214.873 budistas, ou seja, 31 mil a menos do que inicialmente afirmado. Tratou-se de uma discrepância numérica que fazia muita diferença em termos analíticos. A interpretação dos dados atuais, portanto, deve-se manter aberta para futuras variações de números, tanto para baixo como para cima. Segundo, como no caso do censo de 2000, as tabelas relacionadas ao budismo fornecidas pelo IBGE são menos detalhadas do que as de religiões numericamente mais relevantes. Por exemplo, faltam informações que permitem a dedução de correlações entre o budismo e a classe social. Para preencher tais lacunas, é preciso submeter os microdados do último censo a uma análise detalhada, o que é uma tarefa urgente para o futuro próximo.

IHU On-Line – Quantos e quem são os budistas no Brasil?

Frank Usarski – Baseado nos dados atualmente disponíveis, pode-se dizer que em números absolutos, entre 2000 e 2010, houve um crescimento de brasileiros que se declaram budistas. No decorrer do último censo, identificaram-se 243.966 pessoas como adeptos dessa religião. Isso significa um aumento de 29.093 pessoas em comparação com os números finais do censo de 2000 (214.873). Em termos percentuais, porém, não havia mudança significativa. Pelo contrário, devido ao crescimento da população, a proporção dos budistas no Brasil ficou inalterada. Tanto em 2000 como em 2012, os budistas autodeclarados representam apenas 0,13% da população brasileira.

IHU On-Line – Os dados do censo revelam um budismo em transformação no Brasil? No que consiste essa mudança?

Frank Usarski – Há indicações de uma crescente desproporção no interior do universo budista a favor do chamado “budismo de conversão”. Para entender essa dinâmica, deve-se lembrar que, na literatura especializada, encontra-se uma diferenciação analítica que sensibiliza para a existência de dois segmentos do campo budista. Trata-se da distinção categorial entre o “budismo de imigração” (ou “budismo étnico”) e o “budismo de conversão”. Obviamente, há limitações heurísticas implícitas em dicotomias desse tipo. O mesmo vale para as cinco rubricas da categoria “cor”, com as quais o censo nacional trabalha e aos quais os entrevistados se autoidentificam no momento da entrevista. Abstraindo de problemas metodológicos e “políticos”, a correlação entre as respostas “eu sou budista” e “considero minha pele amarela” representa um parâmetro para quantificar o segmento de brasileiros cujos antepassados imigraram de um país asiático, sobretudo do Japão, e cujas famílias mantiveram práticas e crenças budistas.

Dados

Em 2000, esta parcela do universo budista foi representada por 81.345 pessoas, ou seja, por 37,9% dos budistas brasileiros. Devido a uma diminuição de 4.449 “budistas amarelos” entre 2000 e 2010, o último censo contou 76.896 pessoas, o que corresponde a 31,5% dos budistas no Brasil. Essa queda estatística não surpreende. Em vez disso, confirma uma tendência que já foi observada em outros momentos da história dos censos nacionais, por exemplo, a partir de uma comparação entre os dados do censo de 1991 e os do censo de 2000. Em 1991, foram contados 236.405, dos quais 89.971 autoidentificaram-se como representantes da raça amarela. Isso significa que, naquela época, cada terceiro budista no Brasil se encaixava na categoria do “budismo étnico” (33,05%). Abstraindo da relação numérica entre os dois subuniversos do budismo brasileiro, pode-se dizer que os dados relevantes para o budismo étnico revelam um processo de uma constante diminuição estatística em relação ao campo religioso em geral. Em 1991, os budistas autodeclarados “amarelos” representavam 0,06% da população brasileira. Em 2000, o valor tinha caído para 0,05%. 

Em 2010, a diminuição contínua se manifestou em uma porcentagem menor ainda (0,04%). Este desenvolvimento negativo aponta para dois problemas principais inter-relacionados: Primeiro, não há mais aquele fluxo numericamente significativo de imigrantes asiáticos, que décadas atrás contribuiu para uma “renovação” das comunidades de budistas étnicos no Brasil. Segundo, há dificuldades de manutenção da herança religiosa dentro das famílias de origem asiática, cuja maioria se estabeleceu definitivamente logo depois da segunda Guerra Mundial em nosso país.

IHU On-Line – Qual a faixa etária dos que frequentam o budismo em nosso país? Por quê? 

Frank Usarski – Os dados fornecidos pelo IBGE referentes à opção religiosa de faixas etárias pelo budismo indicam uma “irregularidade” em comparação com a “pirâmide” demográfica da população brasileira. Concretizando: enquanto as brasileiras e os brasileiros acima de 50 anos representam cerca de um quarto da população nacional, mais que um terço de budistas brasileiros concentra-se nas correspondentes faixas etárias. Um olhar mais detalhado revela que, em 2010, apenas 4,84% da população brasileira tinha mais que 70 anos. A proporção de budistas desta idade é 11,96%, isto é, quase 2,5 vezes maior do que a média geral. Ao mesmo tempo, 24,08% da população tinha menos de 14 anos, mas apenas 14,21% dos budistas brasileiros pertencia a esta faixa etária. 

Tendências 

A concentração do budismo em faixas etárias mais altas é fruto de duas tendências: A primeira tem a ver com a problemática já refletida na resposta à pergunta anterior. Devido à incapacidade ou indisponibilidade de famílias com ascendência asiática de transmitir o budismo para as novas gerações, o budismo étnico está gradativamente envelhecendo. Quanto ao budismo de conversão, vale a observação de que a decisão de mudar de religião e aderir ao budismo é geralmente tomada em um momento de vida já “avançado”, ou seja, em uma fase biográfica em que o indivíduo já possui recursos intelectuais para avaliar a religião de origem de maneira crítica e entrar em negociação com uma alternativa. Os referentes dados do IBGE sustentam esta hipótese. Enquanto a proporção de budistas nas faixas etárias 0-14 anos (14,21% budistas versus 24,08% da população geral), 15-19 anos (5,4% versus 8,9%) e 20-24 (6,18% versus 9,04%) é numericamente inferior à porcentagem relativa à população geral, os valores da faixa etária 30-39 anos (15,24% budistas versus 15,53% da população geral) é quase igual. A partir da faixa etária 40-49 anos, a proporção de budistas (14,6% versus 13,02%) começa a superar as porcentagens da população geral. 

IHU On-Line – Como avalia o fato de o budismo aparentemente depender, cada vez menos, da sua transmissão entre as gerações de descendentes de asiáticos, e começar a se desenvolver entre pessoas de outras raças ou cores, mesmo em regiões que tiveram pouca influência da imigração? 

Frank Usarski – Trata-se de uma dinâmica histórica comum em países em que o budismo de imigração representa um fator importante para a presença desta religião em um sociedade anfitriã tradicionalmente marcada para uma tradição não budista. O mesmo vale para tendências de camadas conservadoras das comunidades étnicas, de resistir, na medida do possível, ao impacto da aculturação da sua herança religiosa. Quanto ao Brasil, diversos budistas, particularmente os porta-vozes das instituições mais ativas e articuladas, estão envolvidos em uma discussão intensa e duradoura sobre o potencial do budismo de se “aculturar” à mentalidade, ao ethos e à “estilística” religiosa do praticante brasileiro. Para um cientista da religião interessado em processos de “transplantação religiosa”, este debate “êmico” é muito interessante, inclusive o fato de que até agora a reflexão dos budistas brasileiros sobre o possível futuro caminho da sua religião no país não tenha chegado a uma conclusão, ou até mesmo, a uma tomada de providências no sentido de medidas sistemáticas em prol de um enraizamento sustentável do budismo no Brasil. Do meu ponto de vista, a relativa estagnação numérica do budismo é um sintoma da “perplexidade” dos líderes budistas diante do fato de que a imagem positiva que o budismo desfruta no país não se traduz em um movimento significante de adesão a essa religião.

IHU On-Line – Qual a peculiaridade do dudismo em relação ao islamismo e em relação ao cristianismo? 

Frank Usarski – A pergunta aponta para uma problemática altamente complexa, e uma resposta satisfatória ultrapassaria o espaço limitado oferecido para esta entrevista. Portanto, contento-me aqui com dois aspectos principais que diferenciam o budismo do islamismo e do cristianismo. 

A primeira diferença refere-se à ontologia favorecida pelas religiões em questão. Enquanto o cristianismo e o islamismo partem da hipótese da existência de um Deus criador onipotente e eterno, o budismo defende a ideia de que não existe nada que escape dos princípios universais da transitoriedade e não substancialidade, a não ser que se trate de nirvana que corresponde a um absoluto “impessoal”.

O segundo aspecto tem a ver com a soteriologia das três religiões. Em termos metafóricos, pode-se dizer que, para o cristianismo, a salvação vem de cima para baixo. O ser humano é marcado por uma natureza “decadente” que – na última consequência – impossibilita sua autossalvação. Sob estas circunstâncias, a salvação é pensada como um ato divino impulsionado pela Graça. O islamismo, por sua vez, relaciona a salvação à justiça divina em contrapartida à competência do ser humano de se submeter à vontade de Deus e de cumprir as regras impostas por Ele. O conceito de autorresponsabilidade para a própria salvação – através de atitudes corretas, do cumprimento de princípios éticos e de práticas contemplativas – é ainda mais acentuado no budismo, embora haja correntes, por exemplo, o budismo de “Terra Pura”, que reconhece o princípio de graça como um elemento salvífico essencial. 

 

Leia mais...

Frank Usarski já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira: 

O Budismo e “as outras”: em busca de uma teologia das religiões. Edição 334 da revista IHU On-Line, de 21-06-2010; 

Religiões orientais e a reflexão da renovação constante da existência. Edição 309 da revista IHU On-Line, de 28-09-2009.

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