Edição 399 | 20 Agosto 2012

Alguns traços da vida e obra de Vilém Flusser

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Redação

Pesquisadores da obra de Vilém Flusser o apresentam aos leitores e às leitoras da IHU On-Line:
Vilém Flusser (Reprodução internet)

“Vilém Flusser foi um filósofo e teórico da mídia nascido em 1920, em Praga. Em 1940, imigrou para o Brasil com Edith Barth, que viria a ser sua esposa. Aqui, naturalizou-se e viveu por mais de trinta anos, até seu retorno à Europa, no início da década de 1970. No Brasil, seu pensamento floresceu e seus primeiros textos foram escritos e publicados. Seu retorno ao velho continente o inseriu nos círculos intelectuais ao lado dos grandes pensadores da época, o que o tornou reconhecido mundialmente. Tanto na Europa como no Brasil, a radicalidade de seu pensamento, seus métodos não acadêmicos e o seu poder de argumentação chamavam a atenção até mesmo de seus críticos. Entretanto, embora seu mais conhecido livro, Filosofia da caixa preta , tenha sido publicado em mais de quinze países, boa parte do seu trabalho permanece desconhecido, inclusive do público brasileiro.

Perspectiva teórica e filosófica peculiar

Muitos dos seus textos ainda estão restritos a usuários da língua alemã. A amplitude das publicações naquele país permite que Flusser ocupe atualmente um lugar de destaque na teoria da mídia, na Alemanha. No Brasil, desde a década de 1970, sua influência foi grande em um determinado círculo intelectual paulistano. À medida que seus textos estão sendo redescobertos e publicados, a importância de sua obra cresce no meio acadêmico brasileiro e internacional. Grande parte dessa valorização se deve ao fato de Flusser ter enfrentado, logo no alvorecer das tecnologias de informação e comunicação, algumas das principais questões que surgem de uma cultura permeada pelos aparatos tecnológicos. Muito do que ele escreveu pode ser mais bem compreendido hoje do que em sua época. Outro aspecto que caracteriza a grande importância da sua obra é a perspectiva teórica e filosófica peculiar adotada por ele, fortemente influenciada pela cibernética e pela fenomenologia. Esse ponto de análise específico e original permitiu muitos dos seus conhecidos insights.

César Baio - Professor adjunto do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará – UFC

 

“Vilém Flusser é um dos pensadores mais originais e instigantes do século XX. Judeu, nasceu em Praga, na antiga Tchecoslováquia, mas precisou fugir da invasão nazista, chegando ao Brasil em 1940. Naturalizado brasileiro, viveu entre nós por 30 anos, mas a ditadura militar o obrigou a voltar à Europa em 1973. Autor de mais de 30 livros e de cerca de mil ensaios curtos, é mais conhecido como escritor de língua alemã, embora tenha escrito e reescrito quase todos os seus trabalhos em quatro línguas, nessa ordem: alemão, português, inglês e francês. Não escrevia em tcheco, considerando sua língua materna “adocicada demais”. 

Gustavo Bernardo Krause – Professor Associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ 

 

“Vilém Flusser foi um pensador extremamente lúcido, que contribuiu e dialogou com várias disciplinas das ciências humanas. Entrou na história do pensamento como teórico de mídia, mas ele era também um importante filósofo, especialmente no campo da filosofia da linguagem. Além disso, seus textos possuem um grande valor literário.

Luta contra a ideologia e a demagogia

O que considero mais importante na obra de Flusser é sua infatigável luta contra qualquer tipo de ideologia e demagogia, que assumem as formas mais inesperadas na nossa sociedade. Ele nos ensina que toda informação que recebemos, por mais clara e transparente que nos possa parecer, precisa ser detalhadamente examinada. Porque nós todos vivemos num mundo codificado e, sem o permanente esforço de decifrá-lo, tornamo-nos facilmente manipuláveis e exploráveis”

Eva Batličková – Graduou-se em Língua Portuguesa, na Universidade de Brno, na República Tcheca, com um trabalho sobre a fase brasileira do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser)

 

Breve biografia de Vilém Flusser 

Nascido na recém independente Tchecoslováquia, de uma família de intelectuais judeus (seu pai era professor universitário de matemática e física), Vilém Flusser estudou filosofia na Universidade Carolina, em Praga, entre 1938 e 1939. Naquele ano deixou seu país, com os pais de sua futura mulher, Edith Barth, para viver em Londres. Prosseguiu seus estudos na London School of Economics and Political Science, sem no entanto concluí-los.

Em 1940, seus pais, irmã e avós são mortos em campos de concentração da Alemanha: o pai, em Buchenwald; os avós, a mãe e a irmã, em Theresienstadt.

No ano seguinte, ele e Edith emigram para o Brasil. No mesmo ano, casam-se no Rio de Janeiro, fixando-se posteriormente na cidade de São Paulo. Em 1950, naturaliza-se brasileiro.

Ao longo da década de 1960, leciona Filosofia da Ciência, na Escola Politécnica da USP, e Filosofia da Comunicação, na Escola Superior de Cinema e na Escola de Arte Dramática (EAD), também em São Paulo. Publica seu primeiro livro - Língua e realidade em 1963.

Porém, em 1970, quando a reforma universitária agregou todos os professores de filosofia da USP ao Departamento de Filosofia da FFLCH, Flusser, que era professor da Politécnica, não foi recontratado. A hipótese de que sua saída da Universidade tenha sido mais um episódio de repressão política relacionado ao regime militar, vigente na época, não parece provável. A maioria dos membros do Departamento era bastante crítica com relação ao regime, enquanto Flusser era considerado conservador entre seus pares. Aparentemente, a não renovação do seu contrato com a Universidade deveu-se à falta de comprovação de títulos acadêmicos.

De todo modo, uma vez excluído da universidade, Vilém deixa o Brasil em 1972 para viver inicialmente na Itália e posteriormente na França e na Alemanha.

Manteve-se bastante ativo até o final de sua vida, escrevendo e ministrando conferências na área de Teoria da Comunicação. Seus trabalhos se concentraram na discussão do pensamento de Heidegger, sendo marcados pelo existencialismo e pela fenomenologia.

Vilém Flusser morreu em acidente de trânsito, ao visitar sua cidade natal, para ministrar uma conferência.

 

Principais obras:

Língua e Realidade (São Paulo, 1963)

A História do Diabo (São Paulo, 1965)

Da Religiosidade (São Paulo, 1967)

Le Monde Codifié (Paris, 1972)

Natural:mente (São Paulo, 1979)

Pós-história (São Paulo, 1982)

A Filosofia da Caixa Preta: Ensaios para uma futura filosofia da fotografia (São Paulo, 1983)

Ins Universum der technischen Bilder (Göttingen, 1985)

Die Schrift – Hat Schreiben Zukunft?(Göttingen, 1987)

Vampyroteuthis infernalis (Göttingen, 1987)

Angenommen – eine Szenenfolge (Göttingen, 1989)

Gesten – Versuch einer Phänomenologie (Düsseldorf/Bensheim, 1991).

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