Edição 393 | 21 Maio 2012

Margin Call – O Dia Antes do Fim e o retrato da crise das instituições financeiras norte-americanas

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Thamiris Magalhães

O filme se passa em uma espécie de banco de investimentos que, pelo que se deduz no decorrer da história, busca retratar por meio da ficção os momentos críticos pelos quais passaram as instituições financeiras norte-americanas durante a crise de 2008, explica Fernando Maccari Lara


“Penso que a verdade mais incômoda que resulta da crise financeira de 2008 não é retratada pelo filme, porque não está na esfera privada das instituições financeiras, mas sim na esfera pública”, enfatiza Fernando Maccari Lara, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. As graves distorções criadas ao longo do ciclo de crescimento com endividamento, segundo o docente, poderiam ter sido evitadas, ou ao menos amenizadas, caso a estrutura de regulação e coordenação dos mercados financeiros não tivesse sido desmontada. “Obviamente que isso resultou de poderosos lobbies políticos que visavam reduzir ao máximo a regulação, para ampliar ao máximo a rentabilidade das instituições financeiras”, diz. E completa: “Entretanto, diversos economistas acadêmicos também defenderam ardorosamente esta orientação liberalizante, em nome de supostos ganhos sistêmicos de eficiência e, por esta via, de resultados melhores para a sociedade em geral. A crise e as suas consequências deixaram estes economistas em situação bastante incômoda”.
Fernando Maccari Lara esteve no IHU debatendo, juntamente do professor Gilberto Faggion, o longa-metragem Margin Call – O Dia Antes do Fim, no dia 15-05-2012. No próximo dia 22-05-2012, quem não teve a oportunidade de assistir ao filme poderá fazê-lo, das 12h às 14h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU.

Fernando Maccari Lara possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e mestrado e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. É pesquisador e coordenador do Núcleo de Estudos de Política Econômica – Nepe, da Fundação de Economia e Estatística – FEE/RS. Também é professor da Unisinos.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – De que forma a crise do capitalismo é projetada no cinema, especificamente no filme Margin Call – O Dia Antes do Fim?

Fernando Maccari Lara –
O filme se passa em uma espécie de banco de investimentos que, pelo que se deduz no decorrer da história, busca retratar por meio da ficção os momentos críticos pelos quais passaram as instituições financeiras norte-americanas durante a crise de 2008. O longa é, portanto, inspirado em um momento bastante importante para a economia norte-americana, já que as estatizações e falências de instituições financeiras parecem ter marcado o fim de um ciclo relativamente longo de crescimento baseado em consumo e financiado por endividamento e valorização de imóveis. Desde então, a economia norte-americana enfrenta grandes dificuldades para retomar um ritmo de crescimento razoável.


IHU On-Line – De que maneira Margin Call – O Dia Antes do Fim nos ajuda a compreender a crise financeira de 2008?

Fernando Maccari Lara –
Há um trecho do filme em que o personagem Will diz ao seu colega de trabalho que a atividade que exerciam permitia que as pessoas pudessem ter “carrões e mansões pelas quais não podem pagar”. Embora o diálogo represente, no filme, uma tentativa dos personagens de encontrar um sentido na atividade que exerciam e, por que não dizer, também de justificar ou maquiar eventuais equívocos e irresponsabilidades, a meu ver ele aponta para uma característica crucial do ciclo de crescimento da economia norte-americana pré-crise. É preciso ter em conta que, desde os anos 1980, a sociedade norte-americana vem assistindo a um brutal processo de concentração da renda, em função de mudanças regressivas na tributação, redução do poder de barganha dos sindicatos e estagnação das rendas salariais. Essa transformação traz consigo um problema para a dinâmica capitalista: a dificuldade de seguir promovendo o crescimento da demanda efetiva, sem a qual os lucros não podem ser realizados a escalas cada vez maiores, como requer a acumulação capitalista. O modo pelo qual a economia norte-americana conseguiu compatibilizar o crescimento necessário dos mercados de consumo com rendas salariais estagnadas foi um intenso aprofundamento financeiro. Em termos simples, podemos dizer que o consumo dos norte-americanos seguiu crescendo sem que suas rendas crescessem na mesma proporção, e isso foi possível via endividamento crescente.


IHU On-Line – De que maneira o didatismo é retratado no filme? Ele consegue esclarecer termos complexos da economia para grande parte da população?

Fernando Maccari Lara –
Penso que é muito difícil conseguir esclarecer para grande parte da população as complexas inovações financeiras que permitiram o aprofundamento do endividamento na economia norte-americana. O filme inclusive brinca com esta complexidade. Quando o personagem Will tenta explicar ao seu chefe Sam a situação crítica em que a empresa se encontrava, este diz a ele algo como: “ora Will, você sabe que eu não sei ler essas coisas”, referindo-se aos gráficos e projeções exibidos na tela do computador. De um modo geral, o que muitas destas instituições financeiras fazem são operações de “securitização”, que consistem em agrupar ativos financeiros (como títulos de dívidas de pessoas físicas ou hipotecas de imóveis) em “pacotes”, revendendo em seguida estes ativos nos mercados financeiros globais. Ocorre que, em função de um processo de desregulamentação e redução do papel do Estado na tarefa de coordenar e supervisionar aquelas instituições, as inovações financeiras resultaram em graves distorções nas avaliações de risco dos ativos. De um modo geral, os “pacotes” financeiros eram revendidos como se fossem ativos de baixo risco, porém ao longo da crise ficou demonstrado que estas avaliações não eram bem fundamentadas.


IHU On-Line – Que tipo de verdades incômodas da crise econômica mundial de 2008 o filme aborda?

Fernando Maccari Lara –
Penso que a verdade mais incômoda que resulta da crise financeira de 2008 não é retratada pelo filme, porque não está na esfera privada das instituições financeiras, mas sim na esfera pública. As graves distorções criadas ao longo do ciclo de crescimento com endividamento poderiam ter sido evitadas, ou ao menos amenizadas, caso a estrutura de regulação e coordenação dos mercados financeiros não tivesse sido desmontada. Obviamente que isso resultou de poderosos lobbies políticos que visavam reduzir ao máximo a regulação, para ampliar ao máximo a rentabilidade das instituições financeiras. Entretanto, diversos economistas acadêmicos também defenderam ardorosamente esta orientação liberalizante, em nome de supostos ganhos sistêmicos de eficiência e, por esta via, de resultados melhores para a sociedade em geral. A crise e as suas consequências deixaram estes economistas em situação bastante incômoda.


IHU On-Line – Que tipo de visão sobre a ética o filme busca relatar?

Fernando Maccari Lara –
Não tenho certeza se a intenção dos produtores do filme era esta, mas a situação ali retratada me leva a uma reflexão que me parece importante. No longa, o personagem Eric, ao ser dispensado da empresa, menciona que está com um trabalho importante em andamento. Embora inicialmente os remanescentes da empresa não lhe deem muita atenção, aquele trabalho acaba fazendo transparecer a todos a fragilidade da posição financeira da empresa e, posteriormente, dos mercados financeiros em geral. A reflexão que faço é a seguinte: será que não havia analistas financeiros ou economistas acadêmicos capazes de perceber com antecedência a progressiva ampliação do risco sistêmico que acabaria levando à profunda crise de 2008? Certamente sim, porém aqueles que se posicionavam criticamente recebiam bem menos atenção do que aqueles que louvavam os benefícios do livre mercado. No filme Inside Job  há um trecho em que os produtores do longa entrevistam um economista acadêmico, defensor da desregulamentação dos mercados financeiros. Perguntam a este economista se ele não via conflitos de interesse em defender esta posição no plano político e acadêmico, ao mesmo tempo em que prestava consultorias milionárias para instituições financeiras. O visível constrangimento da sua resposta negativa sugere que é preciso cuidado quando se trata, por exemplo, de buscar financiamentos para pesquisas acadêmicas. Inconscientemente ou não, compromissos desta natureza podem condicionar o andamento do trabalho de pesquisa e distorcer resultados. Tais cuidados me parecem fundamentais visto que os acadêmicos são frequentemente consultados a respeito de opções de políticas públicas cujas implicações são sentidas por toda a sociedade.


IHU On-Line – Que lição o longa-metragem busca passar para as pessoas com relação à economia?

Fernando Maccari Lara –
Tratando-se de um filme de ficção, acredito que não deve ser tomado estritamente como uma fonte para compreender o funcionamento da economia real, ainda que seja, sem dúvida, um bom ponto de partida para promover a discussão a respeito. Neste aspecto, o documentário Inside Job certamente dá uma contribuição ainda maior, uma vez que é baseado em depoimentos e situações reais. De qualquer modo, gostaria de parabenizar o IHU pela iniciativa e pela escolha de ambos os filmes, pois cumprem plenamente o objetivo de promover o debate sobre temas extremamente atuais e relevantes.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Fernando Maccari Lara –
Gostaria de apontar duas referências que considero importantes para aqueles que desejam aprofundar-se nesta temática:

SERRANO, F. Los trabajadores gastan lo que no ganan: Kalecki y la economía americana en los años 2000. Revista Circus, v. 3, 2008. (https://sites.google.com/site/revistacircus).

BARBA, A.; PIVETTI, M. Rising household debt: Its causes and macroeconomic implications: a long-period analysis. Cambridge Journal of Economics, v. 33, 2009.

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