Edição 393 | 21 Maio 2012

A Conferência Rio+20 poderá humanizar a água e os recursos hídricos?

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Thamiris Magalhães

Nos dias de hoje, a água potável segura e o saneamento básico adequado são fundamentais para a redução da pobreza, para a saúde, para o desenvolvimento sustentável e para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM, da ONU, pondera Dieter Wartchow

A melhor maneira de a população contribuir para a melhoria do saneamento ambiental e para proteger os recursos hídricos é não poluindo e combatendo a pobreza cultural e educacional que acompanham a pobreza econômica. Essa é a colocação do professor Dieter Wartchow, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, a pobreza atua no sentido oposto da racionalidade e do equilíbrio ambiental. “Portanto, é preciso mudar hábitos e comportamentos, e distribuir saberes e conhecimento, através de uma interação constante com o meio ambiente”. E continua: “A educação ambiental e a participação do cidadão nas tomadas de decisão também podem contribuir para o saneamento do ambiente melhor e mais saudável. A educação começa em casa. O simples ato de plantar uma árvore certa no lugar certo, varrer a calçada, não desperdiçar energia e água, separar os resíduos e devolver pilhas, baterias, lâmpadas fluorescentes ou levá-los a um local seguro, etc., é uma demonstração de que é possível mudar no âmbito local um problema global”.

Dieter Wartchow estará no IHU no próximo dia 24-05-2012, onde abordará o tema: “Rio+20 e recursos hídricos: tecnologias sustentáveis no tratamento de águas residuais”. Acesse http://bit.ly/M2h8je para conferir a programação completa do evento. 

Graduado em Engenharia e mestrado em Hidrologia Sanitária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Wartchow é doutor em Engenharia Sanitária e Ambiental pela Universidade Stuttgart, Alemanha. É professor no Instituto de Pesquisas Hidráulicas – IPH, da UFRGS. É autor de Água para todos: rompendo o paradigma da ineficiência do setor público (Porto Alegre: Publicação Independente, 2003).

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Qual a importância da Rio+20 para o tema da água e recursos hídricos?

Dieter Wartchow – Salvaguardar a água e os recursos hídricos como um bem da vida e não deixá-los serem transformados em commodity ou bem econômico especulativo. Em 28 de julho de 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas, através da Resolução A/RES/64/292, declarou a água limpa e segura e o saneamento a um direito humano essencial para gozar plenamente a vida e todos os outros direitos humanos. Em abril de 2011, o Conselho dos Direitos Humanos adotou, através da Resolução 16/2, o acesso à água potável segura e ao saneamento como um direito humano, um direito à vida e à dignidade humana. É por isso que o acesso universal ao saneamento básico de qualidade é fundamental para a dignidade humana e a privacidade, assim como um dos principais mecanismos de proteção da qualidade ambiental dos recursos hídricos. Nos dias de hoje, a água potável segura e o saneamento básico adequado são fundamentais para a redução da pobreza, para a saúde, para o desenvolvimento sustentável e para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODM, da ONU.

IHU On-Line – Como garantir o equilíbrio entre as condições ambientais associadas aos recursos hídricos e os propósitos econômicos?

Dieter Wartchow – Entendendo que sem qualidade ambiental a economia terá dificuldades em se manter. Oferecendo à natureza o que pertence à natureza como, por exemplo, o tempo necessário para que ela possa se sustentar, apesar das modificações a ela impostas por conta do desenvolvimento sustentável. Sabe-se que as pretensões dos países e governos na Conferência Rio+20 são as de debater o contexto da economia verde e a governança em busca do desenvolvimento sustentável. Qual o significado destes conceitos, assim como a real tradução do que é o desenvolvimento sustentável? Movimentos sociais que geralmente ficam às margens das programações oficiais, a exemplo do Fórum Mundial da Água, estão a propor uma discussão em torno do acesso à água segura, da mercantilização e privatização da água, das barragens e do modelo energético em países em desenvolvimento.

IHU On-Line – Há conflitos de ideias na Rio+20?

Dieter Wartchow – Os países negociadores concordam com o estímulo à economia verde e a necessidade de se criar um organismo multilateral fortalecido para questões ambientais, no intuito de melhorar a governança. Mas faltam acordos. De um lado, países desenvolvidos procuram salvaguardar seus interesses, atuando com persuasão ou se valem da força econômica. Já os países em desenvolvimento temem que a economia verde (que pode ser tudo, pois é um conceito ambíguo) possa significar barreiras comerciais e dificuldades em crescer. Todos os países querem crescer, mas não se sabe até onde isso é possível, devido às limitações de recursos naturais, a exemplo da água. Teme-se que cada país venha criar o seu conceito de economia verde e que esta venha a se transformar apenas em mais um negócio.

IHU On-Line – Atualmente está na moda se dizer sustentável. Qual a sustentabilidade que a Rio+20 deveria buscar?

Dieter Wartchow – A sustentabilidade do bem. Da história da evolução e da importância das questões relacionadas ao meio ambiente afirma-se que a “consciência ecológica” de mundo contemporâneo nasceu à sombra da fissão nuclear – Hiroshima. Segundo Albert Einstein: “A poderosa desintegração do átomo veio modificar tudo, salvo o nosso modo de pensar, fazendo-nos assim deslizar para uma catástrofe nunca vista. A sobrevivência da humanidade exige uma nova maneira de pensar”.

Afinal, o que é sustentabilidade?

Sustentável é o processo que procura colocar tudo em harmonia. Não se recomenda maximizar a economia e minimizar as questões ambientais. Como pilares desse conceito de sustentabilidade cito a disponibilidade de recursos naturais por longos períodos; a preservação da prosperidade econômica; a justiça social e distributiva; a manutenção de uma cadeia alimentar e da biodiversidade, que necessita de um ambiente preservado; e a democratização e a profusão do conhecimento. Existe outro conceito que entende o desenvolvimento sustentável como aquele onde há constante crescimento do Produto Interno Bruto – PIB, ou ainda, que relaciona a sustentação do padrão de vida elevado.

IHU On-Line – Em que aspectos a Conferência RIO+20 se relaciona com a Eco-92?

Dieter Wartchow – Se fossemos resgatar os compromissos firmados por países e governos na Eco-92, veríamos que esses foram esquecidos e que se preferiu discutir geopolíticas e crises econômicas, cada país procurando defender seus interesses. Faltou solidariedade e seriedade desde então, o que nos leva a perguntar se na Conferência Rio+20 os países e governos querem fazer o debate verdadeiro ou o aparente. Essa dúvida advém da análise de alguns princípios que constam na Agenda 21, e que nunca perderam sua atualidade, como a produção e o consumo sustentável, a energia renovável; a educação permanente; a inclusão social e a distribuição de renda; a universalização do saneamento ambiental; a gestão do espaço urbano e a mobilidade; a política florestal e o controle do desmatamento; a proteção da qualidade dos recursos hídricos, as relações internacionais e a governança, a pedagogia da sustentabilidade e outros. O dever de casa não foi feito e é por isso que se deve debater como agiremos daqui para adiante, como poderemos compensar danos ambientais, como podemos cuidar do ambiente da casa (conceito de ecologia) e como administrá-la bem (conceito de economia).

IHU On-Line – Qual é a melhor alternativa para preservar os recursos hídricos?

Dieter Wartchow – Através de políticas de Estado. Com educação básica e ambiental. Respeitando e colocando a legislação em prática. Temos uma legislação bem constituída, inteligência instalada em nossas universidades e instituições. A cooperação, a difusão e a democratização do conhecimento desempenham papel importante para sair da inércia tecnológica. Então, o que falta?

IHU On-Line – Recursos hídricos têm a ver com saneamento ambiental?

Dieter Wartchow – Os recursos hídricos refletem em suas águas um capítulo da história do desenvolvimento. De um estado natural da época do descobrimento, passaram a ser indicadores do comportamento da civilização. Os rios corriam em paz em seu território, hoje as suas águas são disputadas em seus diferentes usos e poluídas. Os recursos hídricos são exauridos, transportam resíduos e esgotos e, no caso do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, têm dificuldades em garantir a vida aquática ou água para o consumo humano. Pouco se aprendeu da mortandade de peixes ocorrida em 2006, até lamentarmos o próximo desastre ambiental. Os recursos hídricos dialogam com o saneamento ambiental e vice-versa. Aliás, a temática dos recursos hídricos e do saneamento ambiental se interligam de forma sistêmica com as políticas e temas do meio ambiente, com o estatuto das cidades, com educação ambiental, com habitação e com desenvolvimento sustentável.

IHU On-Line – De que forma a população pode contribuir para a melhoria do saneamento ambiental e para proteger os recursos hídricos?

Dieter Wartchow – Não poluindo, combatendo a pobreza cultural e educacional que acompanham a pobreza econômica. A pobreza atua no sentido oposto da racionalidade e do equilíbrio ambiental. Portanto, é preciso mudar hábitos e comportamentos, e distribuir saberes e conhecimento, através de uma interação constante com o meio ambiente. A educação ambiental e a participação do cidadão nas tomadas de decisão também podem contribuir para o saneamento do ambiente melhor e mais saudável. A educação começa em casa. O simples ato de plantar uma árvore certa no lugar certo, varrer a calçada, não desperdiçar energia e água, separar os resíduos e devolver pilhas, baterias, lâmpadas fluorescentes ou levá-los a um local seguro, etc. é uma demonstração de que é possível mudar no âmbito local um problema global. 

IHU On-Line – Quais perguntas poderiam ser feitas aos participantes da Rio+20?

Dieter Wartchow – O que determina um nível adequado de prosperidade econômica? Os recursos hídricos caracterizam-se por ultrapassar fronteiras geopolíticas, portanto transferir consequências das nascentes para a sua foz, de município para município, de estado para estado e de país para países. Como garantir uma política segura para as bacias hidrográficas sabendo das implicações políticas, jurídicas, culturais, climáticas? E uma pergunta polêmica: Como garantir que a propriedade da água seja de Deus?

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Dieter Wartchow – A preservação da vida depende do cuidar da gente, da vida, dos animais, da saúde do meio ambiente, das cidades, do rio e da água. Devemos desenvolver a aptidão para transformar problemas em oportunidades. Devemos crescer sem destruir. Crescer com educação, cultivando e cuidando da seiva da vida, a água, a floresta, os animais, o ar e o solo. Isso parece muito filosófico, mas é o amor à sabedoria que poder fazer convergir ideias e ações para promover a progressiva visão do futuro que queremos. Combater interesses de interlocutores da economia verde e do capitalismo verde que não sejam justas socialmente, economicamente viáveis, politicamente corretas e ambientalmente sustentáveis é uma tarefa dos sábios.

>> Dieter Wartchow já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira: 

Saneamento básico e distribuição de renda andam juntos. Entrevista publicada na revista IHU On-Line número 321, de 15-03-2010. 

Código Florestal: "falta harmonia, conhecimento sistêmico e sobram dispersão e desinformação". Entrevista especial com Dieter Wartchow. Notícias do Dia 19-04-2011. 

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