Edição 393 | 21 Maio 2012

O desafio de ser girardiano

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Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

Autor de uma obra coerente, Girard pode ser “acusado” daquilo que Popper dizia sobre Freud: a necessidade de explicar em excesso. Alternativa seria propor uma “teoria mimética em termos cientificamente mais formais”, pondera Gabriel Andrade

Para Gabriel Andrade, autor da biografia intelectual René Girard: um retrato intelectual (São Paulo: É Realizações, 2011), a obra desse pensador é extremamente coerente, tanto que por vezes “é impossível separar os temas de que trata”. Contudo, após a empreitada de três anos escrevendo o livro, o sociólogo venezuelano revela que não é mais tão girardiano quanto era ao iniciar a tarefa: “Creio que meu distanciamento intelectual da religião me impediu de manter a simpatia entusiasta que, faz alguns anos, eu sentia por Girard”. E completa: “uma de minhas críticas a Girard é similar à crítica que Karl Popper fazia à psicanálise e a toda forma de pseudociência: pretende explicar demasiado”. Assim, “quase qualquer canção, película, chiste, evento esportivo, relação diplomática, novela, etc., servem como confirmação da obra de Girard”. Na opinião de Andrade, o desafio dos girardianos para o futuro é “propor a teoria mimética em termos cientificamente mais formais, de maneira tal que seja aceitável a uma mentalidade moderna que exige rigor científico”. As afirmações fazem parte da entrevista a seguir, concedida por e-mail com exclusividade à IHU On-Line.

Gabriel Andrade é doutor em Ciências Humanas pela Universidade de Zulia, na Venezuela, onde cursou mestrado em Filosofia e graduação em Sociologia. Leciona nessa mesma instituição, no Departamento de Filosofia. Além da biografia intelectual de Girard, escreveu La crítica literaria de René Girard (Maracaibo: La Universidad del Zulia, 2007) e El darwinismo y la religión (UNICAN: Ediciones de la Universidad de Cantabria, Santander, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as principais mudanças pelas quais passa o pensamento de René Girard ao longo de sua trajetória intelectual?

Gabriel Andrade – Inicialmente, Girard foi um crítico literário. Seu principal interesse era a literatura comparada: seu primeiro livro trata sobre cinco grandes novelistas europeus. Durante aquela época, formulou sua teoria do desejo triangular, ao qual logo chamaria “desejo mimético”. Depois, Girard dirigiu sua atenção aos mitos e ritos gregos bem como aos ritos e mitos de povos contemporâneos não ocidentais. A partir dessa época, começa a interessar-lhe qual é a origem cultural da humanidade e como as sociedades primitivas resolvem o problema da violência. Em seus anos mais maduros, Girard se dedicou a contrastar a Bíblia com os mitos clássicos e os mitos de culturas não ocidentais. Como resultado de suas investigações, chegou à conclusão de que a Bíblia é um texto singular e que está divinamente inspirada. Desde então, durante estas últimas três décadas, o pensador se dedicou fundamentalmente a explorar o impacto que o cristianismo e a Bíblia têm tido sobre o mundo, embora não tenha deixado de exercer um labor como crítico literário.

IHU On-Line – Qual é o elemento, a ideia central, que atravessa a obra girardiana?

Gabriel Andrade – Há fundamentalmente três grandes ideias na obra girardiana. 1) Nós, seres humanos, desejamos ficar imitando os demais, e isso gera rivalidades e violência. 2) A violência produzida pelo desejo mimético é tradicionalmente resolvida com o mecanismo do bode expiatório: a coletividade em crise projeta sua violência contra um agente em particular e, uma vez que este foi eliminado ou expulso, se alcança a paz social. Este mecanismo, sustenta Girard, é a base da vida cultural; mas, para poder funcionar, o mecanismo deve ser inconsciente. Isso se costuma obter apresentando crônicas distorcidas que narram a história original a partir da perspectiva dos agressores: desse modo, não se adquire consciência de que se está projetando violência sobre uma vítima inocente. 3) A Bíblia, diversamente dos mitos, apresenta as histórias sobre violência a partir da perspectiva das vítimas. E, ao fazer isso, a Bíblia torna ineficaz o mecanismo do bode expiatório.

IHU On-Line – Além do desejo mimético, que outras grandes temáticas são fundamentais no pensamento de René Girard?

Gabriel Andrade – São muitas as temáticas que interessam a Girard. A violência nos mitos e ritos é muito importante em sua obra, bem como a relação geral entre violência e religião, especialmente depois dos acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Também lhe interessa o contraste entre a Bíblia e outros textos da literatura religiosa arcaica, além da comparação entre o cristianismo e outras religiões. Há, ademais, preocupação pelo modo como o desejo mimético e o mecanismo do bode expiatório impregnam as relações sexuais, políticas, diplomáticas e econômicas. Um dos aspectos mais interessantes de Girard, embora também um dos mais criticáveis, é que suas teorias abrem o espaço para alcançar virtualmente todas as áreas das humanidades. Nisso ele se parece muito com Freud e Marx, dois dos grandes referentes intelectuais do século XX.

IHU On-Line – Qual foi o maior desafio em escrever a biografia intelectual deste pensador?

Gabriel Andrade – Talvez o mais difícil tenha sido escolher o método. Em princípio, tive a intenção de escrever uma biografia em função dos temas de sua obra. Mas isso se tornou muito difícil, porque a obra de Girard é tão coerente que muitas vezes é quase impossível separar os temas de que trata. Por isso preferi recorrer ao método cronológico: fui resenhando cada etapa de sua carreira. Isso trouxe, todavia, o risco de repetir temas. (Muitas vezes Girard repetiu os mesmos temas e inclusive exemplos ao longo de sua obra.) Porém, creio que consegui superar esse risco. Outra dificuldade consistiu em que, à medida que escrevia a biografia, eu me afastava de minhas simpatias por Girard e me tornava mais crítico. Quando comecei a escrever, posso assegurar que era um girardiano em sentido pleno. Quando terminei de escrevê-la, considerava-me um leitor de Girard, porém já não mais um girardiano total. Creio que meu distanciamento intelectual da religião me impediu de manter a simpatia entusiasta que, faz alguns anos, eu sentia por Girard.

IHU On-Line – Quanto tempo levou nesse trabalho e que metodologia utilizou para fazê-lo?

Gabriel Andrade – Levou-me em torno de três anos. Posto que me propus utilizar um critério cronológico, minha metodologia consistiu em ler detalhadamente cada livro em ordem cronológica. Quando terminava de ler um livro, escrevia um capítulo sobre o período da vida de Girard, durante o qual havia escrito esse livro. Posso assegurar que a biografia intelectual é uma revisão quase exaustiva dos livros que Girard escreveu.

IHU On-Line – Entrou pessoalmente em contato com Girard? Como foram esses encontros e conversas?

Gabriel Andrade – Só pude conhecer Girard pessoalmente uma única vez, na universidade de Purdue, nos Estados Unidos, em 2002, numa conferência sobre sua obra. Pareceu-me ser um homem sumamente afável e impressionantemente erudito. Soube, por exemplo, que meu sobrenome (Andrade) procede de Portugal e que houve diversos marinheiros com esse sobrenome. Também mostrou muito interesse pelos assuntos de meu país (Venezuela) e, sobretudo, embora metralhasse com sua erudição, tinha uma aparência de humildade.

IHU On-Line – Sendo Girard um autor extremamente atual, como percebe o diálogo de sua obra com a modernidade?

Gabriel Andrade – A obra de Girard tem muitíssima relação com temas modernos. O desejo mimético e o mecanismo do bode expiatório têm aplicação e poder explicativo no esporte, na política, nas artes, na religião, etc. Não obstante, uma de minhas críticas a Girard é similar à crítica que Karl Popper  fazia à psicanálise e a toda forma de pseudociência: pretende explicar demasiado. É muito fácil ver confirmações da teoria de Girard em todas as partes, da mesma forma em que Freud confirmava sua teoria em todos os assuntos da vida cotidiana. Quase qualquer canção, película, chiste, evento esportivo, relação diplomática, novela, etc., servem como confirmação da obra de Girard. Todavia, como bem dizia Popper, isso não é propriamente uma virtude. É antes um defeito, pois termina por não ser falseável. Creio que o desafio dos girardianos num futuro seria propor a teoria mimética em termos cientificamente mais formais, de maneira tal que seja aceitável a uma mentalidade moderna que exige rigor científico.

IHU On-Line – Quais são os principais interlocutores de Girard ao longo de suas obras?

Gabriel Andrade – São muitos. Provavelmente os dois autores com os quais mais buscou dialogar (embora nunca de forma direta, pois faleceram muito antes) são Freud e Nietzsche. Girard critica em Freud a ideia de que o desejo seja autônomo, porém Girard resgata de Freud a hipótese adiantada em Totem e tabu, segundo a qual as origens da cultura remontam a um assassinato. Nietzsche interessa muito a Girard, pois este sustentou que o cristianismo é uma religião que defende as vítimas. Isso, para Nietzsche, é um defeito da religião cristã, enquanto Girard crê que seja antes sua grande virtude. Porém, além desse desacordo, Girard aprecia em Nietzsche o fato de que, ironicamente, seja um anticristão que melhor tenha reconhecido o traço que distingue o cristianismo de outras religiões. Girard também teve diálogos com Derrida sobre a noção de pharmakos (remédio e medicina ao mesmo tempo), e com Gianni Vattimo  sobre o futuro do cristianismo. Girard lamenta especialmente não ter jamais podido manter uma conversação extensa com Claude Lévi-Strauss sobre as origens da cultura; parece-me que Lévi-Strauss não considerava Girard um genuíno antropólogo, devido à sua falta de experiência etnográfica.

IHU On-Line – Por que você afirma ser necessário expurgar o religioso na teoria mimética?

Gabriel Andrade – Vejo como muito difícil aceitar racionalmente a existência de Deus. Não há provas de sua existência e, ademais, creio que haja provas de sua inexistência. (Fundamentalmente, o problema do mal: se Deus é bom e onipotente, por que permite o sofrimento?). De forma tal que o único modo possível de crer em Deus é mediante a fé, e creio que uma pessoa racional não pode conduzir seus juízos pela fé. Parece-me que o principal problema da fé é que ela conduz ao relativismo: se por fé é legítimo aceitar que Maria foi virgem, por que não aceitar por fé que Joseph Smith teve um encontro com o anjo Moroni? A obra de Girard trata de oferecer alguns argumentos apologéticos para tratar de convencer-nos de que a Bíblia foi divinamente revelada e que, então, Deus existe. Mas esses argumentos me resultam ser muito débeis e creio que só convenceriam ao que já está convencionado de que a religião cristã é verdadeira. Contrariamente à opinião generalizada, parece-me que realmente existe uma oposição entre ciência e religião. Nisso acompanho autores ateus como Richard Dawkins , Sam Harris  e Daniel Dennett . Há, contudo, aspectos da obra de Girard que são bastante resgatáveis para uma pessoa com mentalidade científica, sempre e quando não se empreguem como elementos apologéticos a favor do cristianismo.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Gabriel Andrade – Gostaria de mencionar brevemente minha principal crítica à obra de Girard. Em primeiro lugar, creio que Girard é muitas vezes injusto ao comparar os mitos com a Bíblia, e que exagera o contraste entre ambos os corpos literários. Girard interpreta qualquer elemento ambíguo nos mitos como um exemplo de mistificação da violência. Mas quando se encontra com um elemento parecido no Novo Testamento, imediatamente faz malabarismos hermenêuticos para sustentar que não estamos frente a um texto que mistifica a violência. Por minha parte, contrariamente a Girard, opino que há uma plenitude de textos no Novo Testamento que mistificam a violência: o livro Apocalipse apresenta um Deus sumamente violento, e não se trata meramente da representação da violência humana (como erroneamente Girard pretende explicar os textos apocalípticos dos evangelhos). Ademais, creio que o Novo Testamento, em vez de defender as vítimas, muitas vezes antes as acusa, ao projetar sobre os judeus a culpabilidade da morte de Jesus. Eminentes historiadores contemporâneos, em especial Elaine Pagels , estudaram este aspecto muito de perto. Além disso, mesmo que admitíssemos que a Bíblia efetivamente é radicalmente distinta dos mitos, isso não implicaria que a Bíblia seja um texto divinamente inspirado; talvez tenha havido algumas circunstâncias históricas muito precisas que propiciaram que a Bíblia defendesse as vítimas.

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