Um modelo de desenvolvimento baseado no consumo

Segundo análise do economista Amir Khair, o modelo brasileiro de desenvolvimento atualmente se baseia, desde o governo Lula, no estímulo ao consumo na base da pirâmide social

Por: Graziela Wolfart

“Não consigo entender o desenvolvimento econômico se não fizer o trajeto que foi feito no governo Lula, que é o estímulo de baixo para cima. Isso significa melhorar a massa salarial, que é o grande termômetro da economia, pois é dessa massa que sai o consumo e a produção. Se temos trabalhadores ganhando pouco ou com índices de desemprego elevados, temos pouca massa salarial e, consequentemente, as empresas vão produzir menos, não vão investir, e o país vai para trás”. Essa é a tese defendida pelo economista Amir Khair, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Ele considera que “quando o Brasil começa a estimular a base da pirâmide social fortemente, com transferência de renda e direcionamento de recursos para atendimento das necessidades básicas da população, ele está indo na direção do desenvolvimento, de uma forma saudável, equilibrada e segura. Acredito que o governo Dilma está aprofundando essas questões e os frutos já estão começando a aparecer e vão aparecer cada vez mais”.

Amir Khair é mestre em Finanças Públicas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). É consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De forma geral, como o senhor define o modelo de desenvolvimento brasileiro atual?

Amir Khair – O modelo brasileiro de desenvolvimento atualmente se baseia, desde o governo Lula, no estímulo ao consumo. Nisso, se diferencia do governo Fernando Henrique Cardoso, cujo estímulo se fazia pelo investimento estrangeiro, trazido de fora, através das privatizações, da venda de patrimônio, visando estimular o investimento do exterior, ou seja, algo que vinha de cima para baixo. Já no governo Lula, era de baixo para cima, ou seja, o estímulo era feito na base da pirâmide social, criando consumo, o que antes não tinha. A partir daí, as empresas reagem produzindo e investindo. Esse modelo está sendo ampliado agora pelo governo Dilma, na medida em que procura atacar também a qualidade do crédito. No Brasil, o motor do crescimento do consumo é o crédito. E aqui no país o crédito é muito caro, é o mais caro do mundo, o que faz com que diminua a propensão dos brasileiros a consumir.

IHU On-Line – Então, o senhor ainda percebe no governo atual a adoção da postura de um desenvolvimentismo baseado em uma política de estímulo à renda na base da pirâmide social? Qual sua visão sobre isso?

Amir Khair – Na realidade, o governo Dilma ampliou as transferências na base da pirâmide social. Uma das questões disso é o aumento do programa Bolsa Família. Mas também temos aqui o Brasil Sem Miséria, que é um programa forte e que tende a ir mais “embaixo” ainda na questão das pessoas que estão desamparadas pelo setor público. Então, o governo Dilma está ampliando as políticas de redistribuição de renda, iniciadas no governo Lula. E agora ela está também atacando a questão das taxas de juros bancários. Quero salientar que faz parte dessa política a questão do salário mínimo, que antes estava acordado pelo governo Lula com as centrais sindicais. Dilma manteve esse acordo, só que transformou isso em lei. Há uma garantia, em lei, de que até 2014 o salário mínimo será corrigido acompanhando o crescimento do Produto Interno Bruto do país.

IHU On-Line – Que cenário o senhor vislumbra para o futuro da economia do país a partir da adoção desta postura?

Amir Khair – Vejo com bastante otimismo a situação do Brasil para a frente. O governo Dilma enfrentou seu primeiro ano com dificuldades e ainda ficou preso ao fantasma da inflação, que é um grande atraso no Brasil. Com isso o governo brecou a economia, o que provocou um crescimento bastante aquém do potencial do país. Foi percebido isso, embora com certo atraso, por volta de outubro do ano passado. E o governo, agora, resolveu priorizar o crescimento econômico, uma vez que a inflação atualmente seria um fator mais externo do que interno. Como os preços internacionais estão em queda, a inflação brasileira não é preocupante. Então, a prioridade que o governo está tendo agora é estimular, de fato, o crescimento econômico. E parece que essa será a linha a ser seguida pelo governo até o final desta gestão.

IHU On-Line – Que fatores mais influenciam na política desenvolvimentista de um Estado? Qual o papel da balança comercial e das taxas de juros nesse sentido?

Amir Khair – A balança comercial brasileira está positiva, mas pouco positiva em relação à necessidade de equilibrar as contas externas. É necessário que a balança comercial dê superávits bem superiores aos existentes, porque ela tem que pagar toda a conta que é altamente deficitária da balança de serviços. Para pagar este déficit é necessário que a balança comercial – que é a diferença entre as importações e exportações – cresça muito mais do que atualmente. A única maneira possível de fazê-la crescer é intervindo no câmbio. No Brasil, o câmbio está completamente defasado em relação ao que era no passado. Essa é uma das possibilidades que eu vislumbro. Com relação às taxas de juros, destaco essa política que o governo vem adotando em duas frentes: uma é a taxa básica de juros (Selic), fazendo-a retroagir para níveis semelhantes ao que ocorre nos países emergentes (por volta de 5% ao ano); e a outra, agindo em cima das taxas de juros bancários, que agora é a “menina dos olhos” do governo, fazendo essas taxas – que são as mais altas do mundo – retroagirem para níveis mais civilizados.

IHU On-Line – Que leitura pode ser feita da teoria do desenvolvimentismo a partir das transformações do capitalismo em nosso tempo?

Amir Khair – O capitalismo vem sendo considerado e apoiado na sua formulação liberal, mais moderna, que era a de deixar que o mercado resolvesse todos os problemas do sistema capitalista. Ocorre que ficou provado com a crise de 2007 e 2008 que o mercado não se autorregula sozinho. Pelo contrário, deixando o mercado livre como queria o pensamento liberal, temos o estrago mortal que o sistema financeiro pode causar. O sistema financeiro não foi regulado até agora. E, na medida em que ele não é regulado, pode assumir doses letais para as economias nas quais ele atua. O sistema capitalista está débil, enfraquecido pela sua própria gênese, ou seja, pelo próprio fato de ele ser não regulado pelo Estado, pelo governo. O que vejo hoje como necessário é termos um sistema em que a produção possa ser feita de forma democrática, livre, porém com regulação pelo Estado.

Leia mais...

>> Amir Khair já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

A crise do euro, a reestruturação geopolítica e os países emergentes. Entrevista publicada no sítio do IHU em 17-05-2010, disponível em http://bit.ly/tnKzea

Política econômica preventiva. “A redução da taxa Selic é positiva”. Entrevista publicada no sítio do IHU em 03-09-2011, disponível em http://bit.ly/v67PZF

Aposta no consumo e na liquidez interna como resposta à crise internacional. Entrevista publicada na revista IHU On-Line número 385, de 19-12-2011, disponível em http://bit.ly/ss5bo0

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