Desenvolvimentismo: ideologia do desenvolvimento econômico dos países retardatários

Luiz Carlos Bresser-Pereira recorda que, no Brasil, o nacional-desenvolvimentismo foi a estratégia dominante entre 1930 e 1980, e teve êxito em promover a industrialização ou, mais amplamente, a revolução capitalista do país

Por: Graziela Wolfart

Ao se reafirmar como um “novo desenvolvimentista”, o economista brasileiro Luiz Carlos Bresser-Pereira considera que “o desenvolvimentismo é a ideologia do desenvolvimento econômico dos países retardatários, que realizaram ou realizam sua revolução nacional e industrial depois que os países mais avançados se industrializaram e se tornaram imperialistas; é a estratégia que usam os países retardatários para se industrializar e alcançar os níveis de renda dos países ricos; é a alternativa à proposta de crescimento liberal e dependente que, como vimos na sua última versão, o Consenso de Washington, não promove o desenvolvimento econômico, mas a instabilidade financeira e o aumento da desigualdade”. Na entrevista que aceitou conceder por e-mail à IHU On-Line, o ex-ministro de FHC defende que “o desenvolvimentismo não é uma estratégia nacional de desenvolvimento de esquerda ou de direita. Ele implica sempre a hegemonia de uma coalizão de classes nacionalista da qual fazem parte empresários industriais, burocracia pública e trabalhadores. Implica, portanto, um acordo social entre a centro-direita e a centro-esquerda”.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, onde ensina economia, teoria política e teoria social. É presidente do Centro de Economia Política e editor da Revista de Economia Política desde 1981. Escreve uma coluna quinzenal na Folha de S.Paulo. Foi ministro do Ministério da Fazenda, da Administração Federal e Reforma do Estado, e da Ciência e Tecnologia, nos governos Sarney e Fernando Henrique Cardoso. É bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, mestre em administração de empresas pela Michigan State University, doutor e livre docente em economia pela Universidade de São Paulo. A maior parte de seus trabalhos está disponível no website que mantém desde 1996 – www.bresserpereira.org.br. Dentre seus livros publicados citamos Desenvolvimento e crise no Brasil (São Paulo: Brasiliense, 2004), Globalization and competition. Why some emergent countries succeed while others fall behind (New York: Cambridge University Press, 2010), Doença holandesa e indústria (Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010) e Crise global e o Brasil (Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Considerando que, dentro da concepção nacional-desenvolvimentista, a industrialização era o caminho necessário da autonomia e da modernidade, como fica esse ponto hoje a partir de uma chamada “desindustrialização” em nosso país?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – O desenvolvimentismo é a ideologia do desenvolvimento econômico dos países retardatários, que realizaram ou realizam sua revolução nacional e industrial depois que os países mais avançados se industrializaram e se tornaram imperialistas; é a estratégia que usam os países retardatários para se industrializar e alcançar os níveis de renda dos países ricos; é a alternativa à proposta de crescimento liberal e dependente que, como vimos na sua última versão, o Consenso de Washington , não promove o desenvolvimento econômico, mas a instabilidade financeira e o aumento da desigualdade. No Brasil, o nacional-desenvolvimentismo foi a estratégia dominante entre 1930 e 1980, e teve êxito em promover a industrialização ou, mais amplamente, a revolução capitalista do país.

IHU On-Line – Qual a importância da teoria da “segurança nacional” formulada pelos militares brasileiros para o sucesso da implementação do modelo desenvolvimentista no Brasil?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – O nacional-desenvolvimentismo não foi inicialmente adotado no Brasil pelo regime militar de 1964, mas por Getúlio Vargas a partir de 1930. Começava, então, a Revolução Capitalista Brasileira que, como todas as outras revoluções nacionais e industriais, foi realizada no quadro de um regime autoritário. Depois de realizada a revolução nacional e industrial, que, a meu ver, se completou no final dos anos 1970, o desenvolvimentismo deve e pode ser democrático e social, voltado como está o nosso para um estado do bem-estar social.

IHU On-Line – Como podemos definir a relação entre o desenvolvimentismo e a esquerda no Brasil?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – O desenvolvimentismo não é uma estratégia nacional de desenvolvimento de esquerda ou de direita. Ele implica sempre a hegemonia de uma coalizão de classes nacionalista da qual fazem parte empresários industriais, burocracia pública e trabalhadores. Implica, portanto, um acordo social entre a centro-direita e a centro-esquerda.

IHU On-Line – O senhor ainda se considera um “novo desenvolvimentista”?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – Sem dúvida. Introduzi esse conceito em 2003, em uma época em que a palavra “desenvolvimentismo” havia sido transformada em palavrão pelos neoliberais. Vendo o fracasso de suas propostas, resolvi enfrentá-los. Parece que deu certo, porque todos estão interessados no desenvolvimentismo e temos uma presidente, Dilma Rousseff, desenvolvimentista.

IHU On-Line – Pensando em um modelo de desenvolvimento ideal para o país, qual sua opinião sobre a redução dos juros, o controle da entrada de capitais e a cobrança de imposto sobre a exportação de commodities?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – O desenvolvimento industrial de um país depende de uma taxa de câmbio equilibrada ou competitiva – de uma taxa que, em meu modelo sobre a doença holandesa , chamo de “taxa de câmbio de equilíbrio industrial”. Para que essa taxa seja colocada nesse nível, é preciso baixar os juros, controlar as entradas de capitais e estabelecer um imposto sobre as exportações das commodities que dão origem à doença holandesa. É importante, porém, assinalar que, afinal, os produtores não pagam nada, porque o que eles pagam em imposto lhes é devolvido com sobra sob a forma de depreciação cambial.

IHU On-Line – O que deveria fazer parte de uma mudança significativa de rumo na política macroeconômica brasileira?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – O desafio fundamental é sair da armadilha da alta taxa de juros e da taxa de câmbio cronicamente sobreapreciada.

IHU On-Line – Qual a importância do equilíbrio fiscal para o chamado “novo desenvolvimentismo”?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – Para crescer um país precisa de um Estado capaz que sirva de instrumento dos empresários, dos trabalhadores e dos profissionais que fazem parte da coalizão política desenvolvimentista. Ora, um Estado forte e capaz não pode estar endividado. Por isso, a responsabilidade fiscal é fundamental para o novo desenvolvimentismo. E também responsabilidade cambial. Como não devemos ter déficits públicos, não devemos também ter déficits em conta corrente.

IHU On-Line – Podemos afirmar que o desenvolvimento brasileiro ainda depende mais da demanda do que da oferta?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – O desenvolvimento econômico depende sempre tanto da oferta como da demanda. Mas a oferta é uma questão de longo prazo. Um país como o Brasil está sempre fazendo o melhor que pode para melhorar sua educação, sua saúde, sua infraestrutura, suas instituições. Já do lado da demanda o problema é de curto prazo. Se o Brasil colocasse a taxa de câmbio no equilíbrio industrial, que eu acredito estar hoje em torno de R$ 2,40 por dólar, as empresas brasileiras que usam tecnologia no estado da arte mundial teriam acesso a toda a demanda mundial ao mesmo tempo em que empresas estrangeiras não teriam condições de capturar o mercado interno brasileiro. O Brasil, em pouco tempo, dobraria sua taxa de crescimento e alcançaria maior estabilidade financeira, porque no nível do equilíbrio industrial não há déficit em conta corrente, mas superávit, e, portanto, não há a possibilidade de crises de balanço de pagamento.

IHU On-Line – Em que consiste o novo e amplo pacto político que está se formando no Brasil, conforme o senhor defende, e que pode levá-lo mais depressa para o desenvolvimento?

Luiz Carlos Bresser-Pereira – A grande coalizão de classes ou pacto político que está novamente se formando no Brasil envolve os empresários, a burocracia pública, as classes médias republicanas, os trabalhadores urbanos, a luta contra uma coalizão liberal-dependente formada por capitalistas rentistas, financistas que recebem comissões dos rentistas para administrar sua riqueza, e os interesses estrangeiros em relação ao mercado interno brasileiro.

Leia mais...

>> Luiz Carlos Bresser-Pereira já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

“O Brasil não precisa do capital externo. O capital se faz em casa”. Entrevista publicada na IHU On-Line número 372, de 05-09-2011, disponível em http://bit.ly/n0W9nr

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