Edição 391 | 07 Maio 2012

Inside Job – Trabalho Interno e a visão plural do capitalismo mundial

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Thamiris Magalhães

O filme busca interrogar, colocar questionamentos e denúncias em relação ao capitalismo, aos governos e à ciência econômica, de forma que a sociedade possa ter uma visão mais plural dessas questões, afirma Lucas Henrique da Luz

Ficha técnica
Título original:
Inside Job
Diretor: Charles Ferguson
Produção: Charles Ferguson, Audrey Marrs
Roteiro: Chad Beck, Adam Bolt
Fotografia: Svetlana Cvetko, Kalyanee Mam
Trilha Sonora: Alex Heffes
Duração: 109 min
Ano: 2010
País: EUA
Gênero: Documentário
Cor: Colorido
Distribuidora: Sony Picture Classics
Estúdio: Sony Pictures Classics/Representational Pictures
Classificação: 10 anos


“Inside Job – Trabalho Interno me leva a reforçar um sentimento de ‘esgotamento’ da modernidade, apontando então para uma ciência econômica mais plural e complexa, principalmente no que diz respeito ao entendimento das suas motivações, da sua legitimação, da sua realidade e, quiçá, a um mercado mais plural, complexo que, talvez, possa contribuir para a exploração e emergência de diferentes tipos de organizações, com diferentes finalidades que não apenas a maximização do lucro”. Essa é a opinião de Lucas Henrique da Luz, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Lucas diz ainda que o filme mostra que o capitalismo financeiro precisa ser compreendido num contexto mais amplo, mais complexo, relacionado à globalização, às tecnologias informacionais e de comunicação, à produção do conhecimento, aos jogos de poder, à sociedade como um todo, e alerta para a necessidade de regulamentá-lo, controlá-lo, mostrando que não deve e não pode ser um processo autômato. E conclui: “Parece-me que fica o convite para superar o esgotamento de uma visão reducionista/utilitarista da economia, transitando para uma época de concepções ainda não claras, mas que parecem (não sei se isso é desejo meu) retomar dimensões relevantes do mercado e da sociedade, como os bens comuns, a reciprocidade, os bens relacionais, uma dimensão mais civil e plural dos mercados, da gestão e da economia. Creio que são algumas ideias, reflexões e motivações que ficam”, pondera.

Lucas Henrique da Luz possui mestrado em Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, graduação em Administração de Empresas – Hab. Recursos Humanos pela mesma universidade e especialização em Elaboração e Avaliação de Projetos Sociais, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É um dos coordenadores do curso de Administração da Unisinos (ao lado de Silvia Polgati e Dagmar Sordi), e professor nesse mesmo curso e no de Graduação Tecnológica em Gestão de Recursos Humanos. É integrante do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Tem experiência na área de administração, com ênfase em gestão de recursos humanos, atuando principalmente nos seguintes temas: Recursos Humanos e terceiro setor; pós-modernidade, complexidade e cultura; sociologia do trabalho e organizacional; gestão social, economia solidária e cooperativismo; e sustentabilidade e autogestão.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – De que forma a crise do capitalismo é projetada no cinema, especificamente no filme Inside Job – Trabalho Interno?

Lucas Henrique da Luz –
Existem vários filmes que retratam o capitalismo e suas “faces menos agradáveis”, suas crises, suas disfunções, seja numa perspectiva mais histórica, retratando períodos iniciais do capitalismo, seja em relação a suas diferentes fases e a sua configuração hoje. O cinema vem retratando isso por meio de filmes tais como: Tempos Modernos, Tucker – Um homem e seu sonho, Como era verde meu vale, Inside Job, Margin Call – O Dia Antes do Fim, dentre outros. Além disso, filmes “em geral” acabam retratando estilos de vida, projetos de vida, que normalmente trazem uma perspectiva capitalista hegemônica.


Inside Job – “mundo real” X “mundos criados”

No caso específico de Inside Job, o que está posto é mais do que mostrar uma crise. Penso que o filme retrata a insustentabilidade de um modelo de desenvolvimento, de sociedade e até mesmo de ciência que estamos construindo. Ele mostra uma separação clara entre “mundo real” e “mundos criados”, onde o que ocorre no cotidiano é muito diferente dos movimentos da economia financeirizada, virtualizada, em que o mundo apoiado por boa parte da economia “acadêmica” formadora de opinião é diferente do mundo real e parece atender a interesses que não os da sociedade em geral. O filme projeta uma crise para além do capitalismo, ele evidencia que tiramos a vida, os sujeitos, as pessoas, do centro da economia, da sociedade e da ciência. Mostra um capitalismo movido por uma relação de interesses e fatos que não consideram necessidades reais, bens comuns, felicidade pública, sustentabilidade, mas sim um sistema autômato e associal. Por exemplo, o importante não é a pessoa ter acesso ao crédito imobiliário de maneira que possa satisfazer sua necessidade de habitação, possa exercer sua cidadania. O importante para o capitalismo e o “crescimento/desenvolvimento” é gerar operações de crédito que sejam, depois, alicerce para uma carteira de seguros, para um conjunto de artefatos financeiros, econômicos, que movimentem uma engenharia econômica, que gere capital para algumas instituições e bônus para alguns CEOs. Ora, isso é retrato de um sistema amoral, sem sujeitos e perverso que, com certeza, não tem sustentação e não pode representar uma economia capaz de satisfazer as necessidades plurais do homem. O filme faz isso ao revelar o excesso de risco a que se submete o setor financeiro, as relações nada éticas entre setor financeiro, governos e academia, bem como uma busca de lucros e ganhos que se faz a partir de meios amorais.


IHU On-Line – De que maneira o filme ajuda a compreender o real funcionamento do sistema capitalista na atual etapa de financeirização?

Lucas Henrique da Luz –
Penso que as contribuições são várias. Primeiro, ele mostrou de maneira clara uma engenharia financeira que tem fim em si própria e em seus agentes. Conseguiu demonstrar que o capital financeirizado, virtual e volátil, desenvolveu seu próprio sistema, seus caminhos e seu pequeno grupo de beneficiários, independente dos países, governos, mecanismos de regulamentação e controle social, dentre outros. O que é um perigo e era uma tragédia anunciada. Segundo, evidenciou como os interesses desse capitalismo virtualizado conseguem permear instâncias públicas, como governos, poderes legislativos, bem como instituições de ensino e pesquisa. Revelou um lado perverso dessas influências e o quanto ainda a imperfeição dos sujeitos afeta as instituições, independentemente de locais onde se encontram, de espaços de ciência ou não ciência. Creio que ele auxilia ao explicitar que o modelo do equilíbrio geral e a teoria das expectativas racionais, bem como a ideologia neoliberal dos mercados autorregulados, a liberalização e desregulamentação geral do sistema econômico, acabaram abrindo espaço para fraudes de todo tipo, como bem analisou o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, em artigo no jornal Folha de São Paulo e reproduzido pelo sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU no dia 14 de março de 2011. Modelo esse afiançado pela ciência econômica ortodoxa. Terceiro, o filme mostra a necessidade de questionar a técnica pela técnica, e ciência pela ciência, a (s) verdade (s) absoluta (s). Coloca em xeque verdades econômicas e de gestão ligadas a um progresso das nações que dependem de uma total ou quase que total desregulamentação, como se a receita econômica e social fosse única e global, desconsiderando contextos locais, regionais e nacionais. Creio que ainda hoje se faz bastante isso, ao tentar importar modelos de desenvolvimento, sem adaptá-los e problematizá-los localmente. Com isso o filme mostra que esse capitalismo virtualizado/imaterializado, financeirizado, acabou deixando o mundo ao sabor daquilo que a engenharia financeira e informacional é capaz de fazer: colocou a vida dos sujeitos com pouca ou nenhuma proteção em relação a isso.


Capitalismo financeiro entendido de forma ampla

Assim, penso que o filme mostra que o capitalismo financeiro precisa ser compreendido num contexto mais amplo, mais complexo, relacionado à globalização, às tecnologias informacionais e de comunicação, à produção do conhecimento, a jogos de poder, a sociedade como um todo, e alerta para a necessidade de regulamentá-lo, controlá-lo, mostrando que não deve e não pode ser um processo autômato.


IHU On-Line – Que lição o filme quer passar para as pessoas com relação à economia?

Lucas Henrique da Luz –
Toda obra, filme, livro, artigo, toda comunicação de algo é uma construção social e depende da sua audiência. Assim, a meu ver, o filme busca mais interrogar, colocar questionamentos e denúncias em relação ao capitalismo, aos governos e à ciência econômica, de forma que a sociedade possa ter uma visão mais plural dessas questões.


Mito do progresso econômico como salvação

Creio que leva a questionar ou ao menos problematizar as questões anteriormente colocadas, como se a desregulamentação, a boa avaliação de agências de risco, títulos de subprime e outros fosse a medida de satisfação, progresso, de um país. Mostra a necessidade de desfazer o mito do progresso econômico como a salvação e aponta para a necessidade de desenvolver a economia e a gestão, numa perspectiva antropológica mais plural. Gosto da análise de Angel Cabrera reproduzida no sítio do IHU, onde ele coloca que o filme não deve apenas ser interpretado como uma denúncia de interesses privados por parte de quem interfere diretamente na ciência econômica e nas políticas públicas de gestão, mas sim, segundo ele, o filme mostra que durante décadas o ensino econômico e de gestão transmitiram uma série de valores sobre o funcionamento dos mercados, sobre a gestão do risco ou gestão dos recursos humanos que se demonstraram errôneos e prejudiciais. “Toda a teoria da eficiência dos mercados, por exemplo, passou a ser religião”, afirma ele. Assim a intervenção deveria ser zero, pois se feita seria prejudicial. E arremata dizendo que “mesmo nas políticas de retribuição, se você tratar as pessoas como oportunistas e egoístas por natureza, criando incentivos enormes em curto prazo, abre a porta para que se comportem assim”.


Inside Job – um alerta

É nesse sentido que creio que o filme, em relação à economia, é para a ciência econômica e para as pessoas um alerta que mostra a necessidade de considerarmos uma antropologia plural, uma diversidade de motivações. Assim como diz Sauquet em sua análise do filme, também acredito que uma relevante lição a ser tirada é dar mais voz à diversidade. Ele nos remete, quiçá, a repensar o excessivo positivismo das ciências, no caso mais específico a economia e a administração. A modernidade fez com que, se ambas quisessem ser respeitadas como ciências, deveriam se “libertar das amarras da ética e das veleidades metafísicas da antropologia. Consumou-se a ruptura epistemológica entre ciência econômica contemporânea, a humanista e civil”, como mostram Bruni e Zamagni (2010).


“Esgotamento” da modernidade

O filme me leva a reforçar um sentimento de “esgotamento” da modernidade, apontando então para uma ciência econômica mais plural e complexa, principalmente no que diz respeito ao entendimento das suas motivações, da sua legitimação, da sua realidade e, quiçá, a um mercado mais plural, complexo que possa contribuir para exploração e emergência de diferentes tipos de organizações, com diferentes finalidades que não apenas a maximização do lucro. Talvez nos motive a pensar no sentido de superar o mito apontado por Abramovay (2007), de que a economia tenha nascido de trocas impessoais, anônimas, sem vínculos, sendo que quanto menos permeado pela moral e ética tanto melhor será. Parece-me que fica o convite para superar o esgotamento de uma visão reducionista/utilitarista da economia, transitando para uma época de concepções ainda não claras, mas que parecem (não sei se isso é desejo meu) retomar dimensões relevantes do mercado e da sociedade, como os bens comuns, a reciprocidade, os bens relacionais, uma dimensão mais civil e plural dos mercados, da gestão e da economia. Creio que são algumas ideias, reflexões e motivações que ficam.


IHU On-Line – Que tipo de reação o filme pode causar aos espectadores? Por quê?

Lucas Henrique da Luz –
Creio que as reações sejam as mais diversas. Penso que ele gera indignação por trazer à tona um lado perverso da ideologia da ciência e, até mais do que isso, a corrupção de pesquisadores, de governantes, legisladores. Indignação pelo egoísmo inconsequente de CEOs em busca de bonificações e lucro próprio, sem importar-se com o direito e sonhos das pessoas.


Sentimento de solidão

Também um sentimento de solidão, pois parece que ninguém pode controlar a voracidade da financeirização do mundo, do capitalismo. Parece que não há estrutura institucional, social, algo que possa controlá-lo. E aí fica cada um a sua própria sorte, tendo que mover-se por si, por suas denominadas capacidades, competências etc. Ao mesmo tempo, pode gerar consciência e uma leitura crítica de paradigmas econômicos, sociais, de gestão, de equidade, enfim, questões que podem motivar a busca de alternativas. Creio que o mais importante é gerar o debate, colocar isso aos olhos do mundo e mostrar que mesmo a racionalidade técnica econômica e a racionalidade científica não são racionalidades puras e “produtoras” de verdades absolutas.

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