Edição 391 | 07 Maio 2012

Uma sociologia indignada: horizonte e inspiração para pensar o Brasil

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Márcia Junges e Thamiris Magalhães

Rubem Barboza Filho; Fernando Perlatto (org.). Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012. 483 páginas

A obra de Werneck Vianna cumpre um papel significativo para se compreender a sociedade brasileira em diversos sentidos. “Além de contribuir para ilustrar aspectos fundamentais de diferentes segmentos e grupos que compõem a nossa sociedade – como os intelectuais, os sindicalistas, os juízes, etc. –, Werneck constrói, de fato, uma interpretação do Brasil que atravessa todos os seus escritos e que tem como objeto a natureza do nosso processo de modernização. Isso está fortemente presente em trabalhos como Liberalismo e sindicato no Brasil (Vianna, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976) e A revolução passiva (Vianna, Rio de Janeiro: Revan, 1997), fundamentais para que possamos entender o andamento da sociedade brasileira”, avaliam os autores, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Para eles, outra virtude de Werneck é a capacidade de “voo largo sobre a história, e a acuidade com que surpreende o movimento das estruturas sociais e dos atores em nossa cena política cotidiana”. E completam: “acreditamos que cada leitor, ao acompanhar os diversos textos reunidos neste livro, poderá compreender o impacto efetivo da reflexão desenvolvida por Werneck em nosso mundo acadêmico e fora dele. Grande parte dos artigos trata precisamente disso, e o nosso convite a todos para que leiam o livro não é para encontrar apenas o que pensa Werneck isoladamente, mas aquilo que na sua sociologia e na sua reflexão tornou-se horizonte, desafio e inspiração para muitos de nós na tarefa comum de pensar o Brasil”.

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto foram os organizadores do livro Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012. 483 páginas).

Rubem Barboza Filho possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução – SBI/IupeRJ. É professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Fernando Perlatto possui graduação em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e mestrado em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IupeRJ. É doutorando no Programa de Sociologia e Ciência Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ, que sucedeu o antigo IUPERJ e pesquisador do Centro de Estudos Direito e Sociedade – Cedes/PUC-Rio. É professor substituto do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como define o conceito de sociologia indignada?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
Este título nasceu da intervenção feita pela professora Lilia Schwarcz  em uma das mesas do Seminário da Cátedra Luiz Werneck Vianna,  e nos pareceu adequado para uma tentativa de síntese da obra de Werneck. Na verdade, não estamos propondo, rigorosamente falando, um novo conceito de sociologia, mas oferecendo, em um título, o vislumbre de uma prática reflexiva que associa, de forma original e poderosa, as vantagens do rigor e da paixão, as preocupações da teoria e aquelas da ação, num compromisso permanente com a sociedade brasileira e sua democratização. Uma leitura atenta da conferência de Werneck, que finalizou o Seminário e encerra o nosso livro, oferece o rápido panorama de uma vida que começa a se formar no interior das lutas políticas mais importantes e decisivas da segunda metade do século passado e do começo deste século no Brasil. Werneck é um personagem emblemático de todo este período e nunca escondeu sua paixão política, sempre em rota de colisão com todas as formas, claras ou insidiosas, de opressão, desigualdade e ausência de democracia. Se ele nasce jacobino para vida – ele mesmo se atribui essa característica na adolescência –, sua paixão política é progressivamente articulada ao rigor reflexivo, com sua embriaguez característica. O que é característico de Werneck é a articulação destas duas paixões: a paixão pela política – que o leva, por exemplo, a candidatar-se a deputado num momento em que já era reconhecido como um dos nossos mais importantes sociólogos – e a paixão pela reflexão, por uma prática reflexiva rigorosa, interessada em decifrar este nosso complicado Brasil e suas possibilidades. E que o leva a denunciar todas as tentativas de redução destas possibilidades ao que existe, como se o que existe pudesse esgotar o que podemos ser. O título “sociologia indignada” refere-se, desse modo, a esta prática reflexiva que faz de Werneck um dos grandes intelectuais brasileiros.


IHU On-Line – Qual é a importância da obra de Werneck Vianna para compreendermos a sociedade brasileira?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
A obra de Werneck Vianna cumpre um papel significativo para compreendermos a sociedade brasileira em diversos sentidos. Além de contribuir para ilustrar aspectos fundamentais de diferentes segmentos e grupos que compõem a nossa sociedade – como os intelectuais, os sindicalistas, os juízes, etc. –, Werneck constrói, de fato, uma interpretação do Brasil, que atravessa todos os seus escritos, e que tem como objeto a natureza do nosso processo de modernização. Isso está fortemente presente em trabalhos como Liberalismo e sindicato no Brasil (Vianna, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976) e A revolução passiva (Vianna, Rio de Janeiro: Revan, 1997), fundamentais para que possamos entender o andamento da sociedade brasileira. Esta interpretação de maior fôlego, que flagra com precisão a natureza passiva do processo de modernização e ocidentalização de nossa sociedade, permite-o desvendar com precisão os movimentos próprios de cada conjuntura. Esta é outra virtude de Werneck: a capacidade do voo largo sobre a história e a acuidade com que surpreende o movimento das estruturas sociais e dos atores em nossa cena política cotidiana. Acreditamos que cada leitor, ao acompanhar os diversos textos reunidos neste livro, poderá compreender o impacto efetivo da reflexão desenvolvida por Werneck em nosso mundo acadêmico e fora dele. Grande parte dos artigos trata precisamente disso, e o nosso convite a todos para que leiam o livro não é para encontrar apenas o que pensa Werneck isoladamente, mas aquilo que na sua sociologia e na sua reflexão tornou-se horizonte, desafio e inspiração para muitos de nós na tarefa comum de pensar o Brasil.


IHU On-Line – Como surgiu a Cátedra Werneck Vianna? Qual é o seu escopo e importância dentro das discussões sociológicas em nosso país?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
A Cátedra Luiz Werneck Vianna está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. A ideia da Cátedra surgiu a partir de debates travados neste programa e do desejo de prestar uma homenagem a um intelectual que se destaca não apenas pelas suas análises estritamente acadêmicas, mas pela sua intervenção destacada na esfera pública. A Cátedra pretende ser um espaço não apenas de consagração da obra de Werneck, mas de inquirição permanente de temas ao qual o autor se dedicou e que permanecem atuais para compreendermos a vida democrática brasileira. Ou seja, a Cátedra, inclusive em respeito ao próprio perfil do homenageado, não é um espaço institucional voltado para uma celebração acrítica de seus trabalhos; pelo contrário, ela é um ponto de partida para o estabelecimento de investigações sobre a democracia brasileira.

No que concerne aos aspectos institucionais, a Cátedra objetiva ser um espaço de realização de seminários, pesquisas e debates, reunindo pesquisadores provenientes de diferentes universidades para, partindo de temas presentes na obra de Werneck, ampliarmos a compreensão dos desafios para o aprofundamento da nossa experiência democrática.


IHU On-Line – Werneck Vianna acompanhou todos os desdobramentos da democracia brasileira. Nesse sentido, qual é a importância de sua contribuição à solidificação e aprofundamento desse sistema político no Brasil?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
A obra pessoal, política e acadêmica de Werneck Vianna se confunde com a questão democrática. Talvez essa tenha sido a grande questão a animar suas formulações no decorrer de sua vida. Este aspecto fica muito evidente na palestra que ele proferiu no Seminário da Cátedra e transcrita em nosso livro. Os dilemas colocados por um processo de modernização como o brasileiro, no qual o moderno tem dificuldade de se mostrar e afirmar, configuram-se como as linhas mestres de um trabalho que normativamente defende a democracia política e social, mas que a deseja ancorada em uma participação autônoma e ativa dos segmentos subalternos em uma esfera pública plural, viva e ativa.


IHU On-Line – Quais são as peculiaridades fundamentais da obra desse pensador?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
Para além dos aspectos destacados anteriormente, vale aqui chamar a atenção para a capacidade que Werneck tem de dialogar com diferentes gerações de intelectuais e mobilizá-los em torno de determinadas ideias e preocupações. Ele consegue atuar como uma espécie de farol que irradia opiniões e energia, que são apropriadas por outros intelectuais a partir de suas próprias preocupações. Nesse sentido, vale destacar que Werneck nunca foi um intelectual solitário e individualista. Passou por várias instituições, nas quais deixou sua marca intelectual, uma espécie de semente da qual brotaram importantes obras das ciências sociais brasileiras. Além de ter participado de instituições como o Cebrap,  Werneck constituiu, a partir de determinados espaços, agendas de pesquisa, reunindo vários pensadores em torno dessas ideias. Isso é evidente no caso da Revista Presença e do Centro de Estudos Direito e Sociedade – Cedes, atualmente vinculado à PUC-Rio.


IHU On-Line – Em que aspecto a obra Uma sociologia indignada aborda a questão das vicissitudes da democracia e da modernização?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
A obra Uma Sociologia Indignada resulta do Seminário da Cátedra Luiz Werneck Vianna, que reuniu intelectuais provenientes de diferentes universidades do Brasil não apenas para prestar homenagens a Werneck, mas para discutir aspectos fundamentais da sua obra e debater temas concernentes à democracia. Infelizmente, alguns participantes do Seminário – como os professores Sergio Miceli,  Renato Lessa,  Maria Arminda do Nascimento Arruda,  Nísia Trindade Lima  e Gisele Cittadino  – não puderam contribuir com artigos para a obra. O livro está dividido em oito grandes partes. Na primeira, intitulada “Trajetória pelo olhar dos outros”, intelectuais como Maria Alice Rezende de Carvalho,  Lilia Schwarcz e Gisele Araújo fazem um retrato geral da obra de Werneck, destacando os principais aspectos e temas presentes em seus trabalhos. A segunda, chamada “Tradição e mudança em Werneck Vianna”, contém artigos de Lucia Lippi,  Robert Wegner,  João Marcelo Maia  e Beatriz Helena Domingues,  estando voltada para o debate em torno de um tema caro à obra werneckiana, relacionado ao diálogo crítico com a tradição para uma agenda de mudanças. A terceira parte do livro, “Tradição e mudança em diálogo com Werneck Vianna”, que reúne Ricardo Benzaquen,  Maria Emilia Prado,  Antonio Carlos Peixoto  e Raul Magalhães,  mobiliza os debates anteriormente citados, mas os coloca em uma perspectiva dialógica com as obras de outros autores do pensamento social e político brasileiro. As partes quarta, quinta e sexta são voltadas diretamente para o tema democrático, ora focalizando a questão do constitucionalismo e do papel do Judiciário – com artigos de Cícero Araújo,  Rogério Dultra,  José Eisenberg  e Juliana Magalhães –, ora o tema dos intelectuais – com os trabalhos de Marco Aurélio Nogueira,  Marcelo Burgos  e André Botelho  –, e ora as complexas relações entre esquerda e democracia – com textos de Cesar Guimarães, Luiz Sergio Henriques  e Marcelo Camurça. A parte seguinte do livro é dedicada às conferências proferidas por Francisco Weffort  e José Murilo de Carvalho.  Por fim, há a transcrição de uma bela fala de Werneck falando sobre sua vida e de que forma sua trajetória se articula com a formulação de suas agendas de pesquisa. Como se vê, portanto, o livro percorre temas essenciais, colocando em diálogo autores de diferentes gerações e universidades, abordando temas que atravessam as vicissitudes da democratização e da modernização, a partir de perspectivas plurais.


IHU On-Line – Quais são os autores fundamentais do debate teórico que Werneck Vianna realiza em sua obra?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
A obra de Werneck é atravessada pelo diálogo com diferentes autores e tradições intelectuais. Talvez os autores mais fortemente presentes em seus trabalhos sejam Marx, Gramsci,  Tocqueville,  Weber,  Habermas,  Oliveira Vianna,  Tavares Bastos  e Raymundo Faoro.  Werneck ancora-se na tradição dos autores clássicos, mas está sempre antenado aos debates conjunturais da sociologia. Seu mérito maior nesse sentido talvez seja o de colocar tradições e autores diferentes para dialogar – como Tavares Bastos e Oliveira Vianna, Gramsci e Tocqueville –, buscando extrair daí uma síntese que oriente sua compreensão sobre o país. Isto é, a mobilização dos autores não é apenas no sentido de um erudutismo desconectado da realidade; pelo contrário, ela se dá para servir como ancoragem da sua interpretação do país.


IHU On-Line – Como é a pessoa Werneck Vianna? Quais são seus traços marcantes como ser humano?

Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto –
É sempre muito complicado falar de um amigo e orientador. Ambos fomos orientados por Werneck e temos com ele uma forte amizade. Werneck é um ser humano solidário, tanto pessoal como intelectualmente, muito erudito para além das questões acadêmicas, amante do futebol, simples, engraçado, divertido e sempre preocupado com aqueles que ele considera próximo. É difícil definir Werneck. Assim como sua complexa obra, é preciso conhecê-lo para decifrá-lo.

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