Edição 389 | 23 Abril 2012

Educação ambiental, valorização de diversidades

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Thamiris Magalhães

Se o bioma for mais valorizado, teremos investimentos. Tendo mais investimentos em tecnologias e em políticas públicas em áreas protegidas, a Caatinga conseguirá enfrentar de cabeça erguida o grande desafio que é o aquecimento global e a desertificação, explica Rodrigo Castro
Mascote como símbolo de valorização do bioma Caatinga

A educação ambiental tem um importante papel para a Caatinga, pois tem a capacidade de valorizar cada vez mais as diversidades que podem ser encontradas no bioma. “Quer dizer, ele ainda hoje é visto, no imaginário predominante da sociedade, como um ambiente sem valor, atrelado a questões de escassez, de falta, sofrimento. Ou seja, não existe viabilidade ou sustentabilidade na Caatinga”, lamenta o biólogo Rodrigo Castro, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Essa é uma visão que, segundo ele, se acumulou devido à questão das grandes secas históricas desde o século XIX. “Além disso, no imaginário popular, fixou-se a ideia de que o bioma é sinônimo de sofrimento e de que nele é difícil sobreviver. Essa é uma faceta que não devemos subestimar. Porém, em muitos aspectos, não se deu espaço para falar de uma Caatinga rica, com grande potencial para o desenvolvimento, com uma enorme biodiversidade, a ser conhecida e descoberta, e de um bioma que tem muitos exemplos de desenvolvimento viável”, completa. E lança uma novidade: “recentemente, a Associação Caatinga lançou uma campanha nacional de valorização para atrair o interesse da sociedade no intuito de conhecer melhor a Caatinga e por que é importante cuidar dela. Trata-se da campanha do tatu-bola para mascote da Copa do Mundo. Lançamos essa campanha em janeiro deste ano. A Fifa recebeu a proposta e achou muito interessante. Então, o tatu-bola concorre para se tornar, efetivamente em setembro, o mascote da Copa do Mundo”.

Rodrigo Castro é biólogo. Tem mestrado em Ciências do Desenvolvimento. Participa de diversas redes nacionais e internacionais voltadas para a questão da conservação ambiental. Fundou e coordena a Aliança da Caatinga e a Associação Caatinga, que são movimentos de instituições que se unem para trabalhar algumas questões do bioma, no intuito de unir esforços, buscando ampliar a proteção e o nível de conservação da Caatinga. Além disso, busca trazer um novo olhar para o semiárido brasileiro, preservando a flora e a fauna e fomentando o desenvolvimento sustentável do entorno das reservas particulares. Rodrigo criou ainda a primeira Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN do país no bioma Caatinga. É pioneiro na implantação do Selo Município Verde, programa de certificação ambiental de municípios do Brasil reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente. Desde 1998, beneficiou mais de 50 mil pessoas que vivem nas proximidades das 50 reservas criadas em nove estados do Nordeste e no norte de Minas Gerais. Além disso, participou da fundação da Associação dos Proprietários de RPPNs do Ceará, a Asa Branca, e esteve à frente, como diretor durante três anos, até o ano de 2011, da Confederação Nacional de RPPNs, movimento nacional de proprietários e proprietárias. Atualmente são 1.072 em todos os biomas do Brasil.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como podemos descrever a Caatinga? Quais as peculiaridades do bioma?

Rodrigo Castro –
A Caatinga é determinada por aspectos de clima, relevo, de regimes de chuvas etc. Ela tem as características que conhecemos devido a questões ligadas à topografia, ao clima, a estrutura dos solos, entre outros. Então, trata-se de um conjunto de fatores que criam as condições para que exista a Caatinga como conhecemos, que é um bioma que está inserido em todos esses atributos.


IHU On-Line – Por que a Caatinga representa um dos biomas brasileiros mais alterados pelas atividades humanas?

Rodrigo Castro –
Na verdade, a Caatinga é uma região com alta densidade populacional. Ou seja, muitas pessoas vivem no bioma, desenvolvem suas atividades no local, sejam elas agrícolas ou econômicas. Então, essa relação do homem com o bioma, bem como a ocupação deste último pelo homem, é muito antiga. O que nós vivenciamos atualmente é um processo de muito tempo de modificação do ambiente devido às atividades humanas. Temos como resultado de tudo isso um nível de degradação. O que vemos é um acumulado do processo de ocupação desordenado, de certa forma muito predatório, que leva à situação de agonia da Caatinga. Estudos indicam que metade da cobertura original do bioma já foi desmatada e degradada. Porém, trata-se de dados conservadores, uma vez que sabemos que esse número é mais elevado. A estimativa, hoje, é a de que pelo menos 65% da Caatinga tenha sido destruída.


IHU On-Line – Quais são os principais fatores que contribuem para esse cenário de constante degradação?

Rodrigo Castro –
A ocupação antiga e a densidade populacional elevada são uns dos principais fatores. Outra questão muito importante é o uso da Caatinga como fonte de energia de forma ainda não muito sustentável. No bioma, os estudos indicam que pelo menos 1/3 de toda a energia utilizada provém da queima de madeira, lenha ou carvão, que são extraídos, na grande maioria das vezes, de forma não planejada, sem plano de manejo florestal, sem uma atividade ordenada e planejada. Então, temos hoje um grande território que precisa de energia e a mais barata ainda é a da lenha. Porém, trata-se de uma energia explorada de forma irracional. E isso, ao longo de muito tempo, causou um processo de degradação muito grande.


IHU On-Line – De que maneira a educação ambiental pode contribuir para a conservação do bioma?

Rodrigo Castro –
Ela tem uma vertente fundamental que é a valorização da Caatinga. Quer dizer, o bioma ainda hoje é visto, no imaginário predominante da sociedade, como um ambiente sem valor, atrelado a questões de escassez, de falta, sofrimento. Ou seja, não existe viabilidade ou sustentabilidade na Caatinga. Essa é uma visão que se acumulou devido à questão das grandes secas históricas desde o século XIX. Além disso, no imaginário popular, fixou-se a ideia de que o bioma é sinônimo de sofrimento e de que nele é difícil sobreviver. Essa é uma faceta que não devemos subestimar. Porém, em muitos aspectos, não se deu espaço para falar de uma Caatinga rica, com grande potencial para o desenvolvimento, com uma enorme biodiversidade, a ser conhecida e descoberta, e de um bioma que tem muitos exemplos de desenvolvimento viável. Desde o norte de Minas Gerais até o centro sul do Piauí existem exemplos e experiências exitosas de convivência com o semiárido e com a Caatinga, de exploração mais racional e de condições de melhoria de vida de muitas populações.


Tecnologias sustentáveis

A educação ambiental tem um papel fundamental na valorização para aproximar as pessoas a enxergarem a Caatinga como um todo e, principalmente, esses aspectos positivos que não são vistos. Na verdade, o que não se conhece é muito difícil valorizar. Porém, a educação ambiental não é o suficiente para reverter o quadro de degradação que predomina. Além de uma educação para o meio ambiente, tem que se trabalhar três outros aspectos fundamentais: acesso ao conhecimento (chamamos isso de Tecnologias Sustentáveis), que serve para trabalhar a Caatinga explorando-a de forma mais sustentável, seja o manejo das florestas, manejo de espécies ou silvicultura, plantando espécies com grande valor econômico de árvores do bioma para o comércio, seja através do desenvolvimento de atividades extrativistas tanto com a carnaúba como com a exploração de abelhas nativas de forma racional, que fornecem mel de altíssima qualidade e de alto valor agregado de mercado. Além disso, o investimento em artesanato, em atividades em que se explora a Caatinga com menos impactos e que possa gerar renda, é de suma importância. Então, a questão das tecnologias sustentáveis é fundamental.


Políticas públicas

A outra vertente é criar políticas públicas da nossa região que sejam voltadas a oferecer incentivos para quem protege, preserva, utiliza de forma racional e trabalha a Caatinga com uma nova proposta, mais inteligente e contemporânea, de explorar os recursos sem exterminar as suas bases. E tudo isso precisa de incentivo, reconhecimento público. Para isso, precisamos de políticas públicas que possam premiar quem tem boas atitudes, ações produtivas mais sustentáveis. Isso na forma de incentivos financeiros, redução de impostos para propriedades que possuam manejo adequado da Caatinga etc. Então, existem muitas formas.
Ampliação de áreas protegidas

A terceira vertente seria criar condições para que haja a ampliação das áreas protegidas no bioma. Que possa se investir de maneira forte na criação de Unidades de Conservação em áreas protegidas. Precisamos preservar áreas sensíveis e frágeis, como topos de morros, encostas, áreas de nascentes na Caatinga para continuar garantindo a segurança hídrica; para que continue existindo água em um bioma onde o déficit hídrico e a escassez de água são grandes. Se não preservarmos áreas estratégicas, que produzem água, que controlam as pragas e a erosão, há um maior incentivo ao processo de desertificação, porque quanto mais se desmata mais cresce a desertificação. E, com as áreas protegidas, há uma forma de enfrentar e não deixar que o processo de desertificação possa expandir. Então, trabalhar de maneira forte a criação de Unidades de Conservação e fazer com que aquelas existentes sejam bem geridas dá condições de trazer mais sustentabilidade para o bioma.


Criação de Unidades de Conservação

É importante frisar que a criação de Unidades de Conservação vai de encontro com a visão de promover o desenvolvimento regional na Caatinga dentro de uma lógica de zoneamento, onde existem áreas para a preservação, produção, pecuária e a possibilidade de desenvolver o potencial de cada uma, não esquecendo que algumas delas devem permanecer sendo preservadas para o bem da humanidade, para o equilíbrio do ecossistema e da manutenção das espécies que são importantes para nós.


IHU On-Line – Por que o senhor afirma que a Caatinga assume a posição do bioma brasileiro menos protegido do país e o mais ameaçado?

Rodrigo Castro –
Trata-se de uma questão de estatística que está disponível nos levantamentos do Ministério do Meio Ambiente, que é um levantamento que mostra qual o nível de proteção legal dos biomas brasileiros. Na Caatinga, nós temos a seguinte situação: menos de 2% do bioma está protegido em forma de Unidade de Conservação de Proteção Integral e menos de 8% está protegido em qualquer forma de Unidade de Conservação. Em comparação com outros biomas, realmente a Caatinga é o bioma menos protegido por Unidade de Conservação. E o mais ameaçado é porque nós estamos diante de um fenômeno mundial, que é a questão do aquecimento global, que acontece dentro do processo das mudanças climáticas. Isso vem trazendo novos desafios para a Caatinga. O bioma é um território semiárido, onde já existe o fenômeno da desertificação bastante acentuado. Então, as áreas que estão desertificadas continuarão, e crescem, principalmente devido ao aquecimento global. Ademais, com a temperatura média crescendo no bioma nos próximos 50, 100 anos, existe um cenário não muito favorável porque a região já é semiárida e muitas áreas do semiárido na Caatinga poderão se tornar áridas. E áridas são áreas que têm clima de deserto, onde é muito difícil encontrar água, viver e onde a adaptação das sociedades e das localidades se tornará cada vez mais difícil.


IHU On-Line – De que forma o incentivo ao ecoturismo pode colaborar para a conservação de áreas da Caatinga, bem como à consciência ambiental da população?

Rodrigo Castro –
O ecoturismo parte do princípio de que você vai fazer visita a áreas naturais, de paisagens preservadas, bonitas; bicicleta, trilha, alguns esportes radicais também entram nesse segmento. Há, na verdade, a possibilidade de uma vivência na natureza que seja positiva e prazerosa. Para que isso aconteça, tem que haver um ambiente que ofereça essas condições. Ou seja, um ambiente preservado. Aqui se insere novamente a questão das áreas protegidas das Unidades de Conservação como um alvo fundamental dentro de uma estratégia de fortalecer o ecoturismo na Caatinga ou, na verdade, o turismo de maneira geral, uma vez que o potencial de beleza cênica, das chapadas, das serras, do sertão é imenso, bem como o potencial de paisagem. Além disso, existem muitas Unidades de Conservação belíssimas no bioma. Apesar de serem poucas ainda, as que existem são extremamente bonitas e representativas. Ademais, é necessária ainda uma série de fatores de infraestrutura e logística para que o ecoturismo possa chegar até à Caatinga. A riqueza é indiscutível, existe de sobra. Mas ainda falta muita infraestrutura para viabilizar esse ecoturismo. Mas, este, atrelado às áreas protegidas, conseguiria exatamente oferecer às pessoas a possibilidade de conhecer esse ambiente de perto, vivenciá-lo e poder enxergar o que realmente existe de positivo não apenas na internet, nos sites ou nas publicações. Assim, as pessoas terão uma visão mais completa, realista, do que é a Caatinga.


IHU On-Line – Como as Reservas Particulares do Patrimônio Nacional – RPPNs podem auxiliar as populações locais que trabalham diretamente com elas?

Rodrigo Castro –
Podem-se fomentar, junto à população local, atividades de turismo, que podem gerar renda para uma cozinheira que trabalha no seu receptivo para um guia, que conduzirá os turistas nas trilhas etc. Então, tudo isso está ligado ao ecoturismo e às RPPNs que já existem e que acabam gerando emprego localmente. A outra vertente é gerar conhecimentos sobre a Caatinga com pesquisadores dentro da área que podem ter desdobramentos para fora dos limites das RPPNs, e muitas vezes têm. Uma última questão é a de envolver a rede educacional local para que as escolas tenham a oportunidade de se confrontar com a Caatinga e se deixar surpreender com o que o bioma possui. E isso tem dado resultados impressionantes. Ademais, o proprietário de RPPN contribui para a sustentabilidade do município; coopera, muitas vezes, para a proteção de nascentes que abastecem mananciais e abastecimento humano urbano ou semiurbano; colabora, quando o proprietário tem interesse, recebendo as escolas, trabalhando com a educação, recebendo turismo. Então, as RPPNs conseguem mobilizar vários segmentos. Mas devo frisar que depende muito do perfil e do interesse do proprietário. Este cria uma RPPN para conservação da biodiversidade. Ele não é obrigado a ter um programa educacional e/ou turístico. Isso é optativo. Ele cria uma RPPN com o objetivo de preservar aquela paisagem e aquele ambiente. Se tiver interesse, a lei o autoriza a desenvolver atividades de pesquisa, com parcerias com universidades, por exemplo, e outras instituições de ensino ou pesquisa; além de poder fazer um projeto de educação ambiental e realizar atividades de visitação turística ou educativa. No entanto, isso depende da visão do proprietário com a sua respectiva RPPN, o que busca desenvolver e qual tipo de atividade almeja realizar.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Rodrigo Castro –
Sim. Recentemente a Associação Caatinga lançou uma campanha nacional de valorização para atrair o interesse da sociedade no intuito de conhecer melhor a Caatinga e por que é importante cuidar dela. Trata-se da campanha do tatu-bola para mascote da Copa do Mundo. Lançamos essa campanha em janeiro deste ano. A Fifa recebeu a proposta e achou muito interessante. Então, o tatu-bola concorre para se tornar, efetivamente em setembro, o mascote da Copa do Mundo.


Mascote como símbolo de valorização do bioma Caatinga

Esse exemplo resume muito bem a nossa filosofia de trabalho na Associação Caatinga, que é trabalhar pela valorização desse bioma com as tecnologias e políticas públicas, tentando fomentar incentivos. Além disso, o tatu-bola simboliza uma espécie rara, muito ameaçada, inusitada, surpreendente, que vem essencialmente da Caatinga e de alguns lugares do Cerrado. Ademais, para nós, tem representado uma grande bandeira, desde o começo deste ano, de o tatu-bola ser o nosso mensageiro para uma Caatinga sustentável e preservada. Se ele se tornar o mascote, iremos trabalhar para tentar ver como a Copa do Mundo pode trazer um legado ambiental para a preservação da Caatinga; que as pessoas no Brasil e no mundo possam enxergar que o tatu-bola é uma espécie que vem da Caatinga. E possam perguntar: “o que é a Caatinga mesmo? Vamos conhecer!”

Então, para nós, essa campanha de mobilização da sociedade em torno da valorização da Caatinga toma uma dimensão e um rumo grande e acreditamos que, se o tatu-bola for escolhido, nós teremos uma grande repercussão para a Caatinga e para o esforço de valorização do bioma. Para nós, esse momento está sendo muito interessante, porque nunca tantas pessoas falaram sobre a Caatinga como agora, devido a essa discussão da Copa do Mundo. Se a Caatinga for mais conhecida será mais valorizada. E se for mais valorizada, teremos mais investimentos. Tendo mais investimentos em tecnologias e em políticas públicas em áreas protegidas, a Caatinga conseguirá enfrentar de cabeça erguida o grande desafio que é o aquecimento global e a desertificação.

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