Edição 387 | 26 Março 2012

Bach e Liszt. Música para ouvir, meditar e rezar

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Natália Scholz

Nos dias 29 e 30 de março a professora Dr. Yara Caznok comentará as cantatas Was Gott tut, das ist wohlgetan, de Bach e Via Crucis, de Liszt, além de proferir a palestra Experiência estética e espiritualidade na música brasileira, que ocorrerá no dia 29-03 das 19h30min às 22h.

Caznok é graduada em Letras, pela Fundação Faculdade Estadual de Filosofia Ciências Letras Cornélio Procópio – FAFI, e em Música, pela Faculdade Paulista de Arte – FPA. Especialista em Educação pela Universidade de São Paulo – USP, cursou mestrado em Psicologia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado em Psicologia Social pela mesma instituição com a tese Música: entre o audível e o visível (São Paulo: Edunesp, 2004).

Por e-mail, Yara Caznok disse à IHU On-Line sobre os desafios da música erudita hoje. Ela afirma que a repercussão nas rádios e na TV são raríssimas. “O repertório da música erudita precisa de uma estratégia diferenciada para atingir as pessoas que não tiveram a sorte de se encontrar com ela de forma natural, como, por exemplo, em casa, em meio a uma família ou uma comunidade que goste e que cultive hábitos de escuta ou de prática desse gênero musical”.

De acordo com Caznok, como não há nas escolas uma educação musical consistente, “as pessoas não são expostas a essa experiência e, via de regra, consideram-na ‘música de velhos’ ou ‘música de elite’”.
A professora trabalha com atividades de “apreciação musical” para leigos, amadores, jovens ou adultos e, até, músicos profissionais, as quais consistem em “proporcionar algumas chaves de escuta que aproximam obra e ouvinte. Um dos objetivos é desmistificar a ‘dificuldade’ de acesso que muitos alegam ter na abordagem de uma obra erudita”, explica. Ela diz que a “fruição não é imediata, assim como um texto de Guimarães Rosa ou uma tela de Iberê Camargo. É preciso se habituar a um tipo de relacionamento e de diálogo com a obra que se baseia na frequentação, na insistência, na busca e, principalmente, na crença de que há um mundo sensível a ser descoberto e compartilhado que vale muito a pena ser cultivado”.

Yara afirma que “depois de vencido o preconceito e de ter feito algumas experiências gratificantes, o ouvinte se percebe estimulado, capaz e confiante em suas capacidades de escuta e passa a ir buscar, sozinho, a ampliação dessa vivência”.

Segundo Caznok, a cantata e a Via Crucis que serão ouvidas e comentadas “são duas obras maravilhosas que trazem vivências espirituais ao mesmo tempo próximas e distintas”. Ela acredita que a audição “trará algo muito especial e intenso aos participantes. Experimentaremos como tornam possíveis, por meio da música, unir sociedades, mentalidades e concepções de mundo aparentemente tão diferentes, mas tão próximas na missão de afirmar a beleza da existência humana e de buscar, pela sensibilidade, o reconhecimento de que a vida é sempre uma benção de Deus”.

Sobre a palestra que ministrará, Caznok diz que a proposta de estimular e instigar os jovens por meio de escuta e de conversas sobre o repertório da música brasileira é desafiadora. “Pretendo propor uma reflexão sobre a capacidade ilimitada da pessoa humana viver uma espiritualidade fincada e conectada com a experiência cotidiana, porém capaz de transcendê-la e de ressignificá-la de forma gratificante e esperançosa. E claro, o melhor instrumento para tal provocação é o belíssimo acervo de canções brasileiras que temos à nossa disposição e que, muitas vezes, nem nos damos conta de seu potencial evocativo, de chamamento a uma vida interna plena de intensidades, de sonhos e sentimentos de afirmação e de realização”.


Johann Sebastian Bach

Sobre Johann Sebastian Bach (1685-1750), que viveu no século XVIII barroco alemão e luterano, Caznok conta que tudo o que ele produziu “foi a expressão de sua intensa fé. Naquele século, a posição do compositor na sociedade ainda era de subserviência às cortes ou às igrejas e a destinação de suas obras era para eventos e para uso “imediato”, por assim dizer”.
A Cantata BWV 98, “Was Gott tut, das ist wohlgetan” (O que Deus faz está bem feito), que será comentada no dia 29-03, das 17h30min às 19h, foi escrita em 1726 para o 21º domingo pós-Trindade e tem como tema principal a confiança em Deus. “É uma cantata concisa (dura 15 minutos aproximadamente), com uma estrutura simples – coro, recitativo, ária, recitativo, ária – bem ao estilo barroco. Seu ambiente espiritual é de intimidade e de confirmação da fé e, em alguns momentos, ela se aproxima da Paixão segundo São João. Na verdade, toda a magistral obra de Bach, escrita de acordo com o calendário litúrgico, pode ser conectada e mesmo superposta, desfazendo sua linearidade temporal. Isso acontece, pois a unidade que as sustenta e as torna autorreferentes é a sua fé e a sua certeza que todas elas eram dedicadas “à glória de Deus somente” (Soli Deo Gloria, SDG, em sua forma abreviada, como encontrada em algumas das obras de Bach)”, conta Caznok.


Franz Liszt

Já sobre Liszt (1811-1886), a professora conta que ele “viveu no século XIX romântico, período em que a sociedade cultivava a ideia do ‘gênio’, do grande artista virtuoso que se colocava acima dos mortais comuns e sua obra deveria ser a expressão de uma subjetividade única e livre de imposições sociais”. Liszt era católico de família e “encarnou essa figura de artista excêntrico, mas se recolheu no final de sua conturbada vida afetiva e profissional à Ordem Terceira de São Francisco, em Roma, onde se tornou abade”.

Em sua obra Via Crucis, escrita em 1878 e que será comentada no dia 30-03, “encontramos, por um lado, um desejo restaurativo de vivificar as manifestações passionais da Idade Média, com a presença de cantochão e do Stabat Mater como elementos estruturais da condução musical e, ao mesmo tempo, ousados experimentos harmônicos e timbrísticos que anunciam a sensibilidade do século XX”. A obra tem 15 movimentos que “seguem a ordem das estações da Via Crucis (14 paradas, precedidas por uma introdução) e há momentos especiais nos quais a fruição artístico-espiritual transcende a temporalidade e a vivência da Paixão se torna plena: nas estações 3,7 e 9, encontramos o Stabat Mater agudizando as três quedas de Jesus; o famoso coral luterano característico das Paixões barrocas “O Haupt voll Blut und Wunden” (Oh! face cheia de sangue e chagas) vem na 6ª estação, representando o momento em que Verônica enxuga a face de Cristo, e um outro coral luterano, “O Traurigkeit, o Herzeleid’ (Ó tristeza, ó sofrimento/aflição), sublinha o pesar pela morte de Cristo no final da 13ª Estação”.

Para saber mais sobre a programação de Páscoa IHU 2012, confira a programação em http://www.ihu.unisinos.br/eventos/agenda/270-.

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