Edição 386 | 19 Março 2012

Franz Rosenzweig. Um pensador para ajudar o Ocidente a se curar de sua esquizofrenia

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Márcia Junges

Contestador ferrenho da leitura totalizante da História por Hegel, Rosenzweig influenciou pensadores fundamentais para a discussão da alteridade e para a crítica da sociedade contemporânea, como Lévinas e Benjamin, observa Luiz Carlos Susin

Conhecedor tanto das tradições do judaísmo como das do cristianismo, o filósofo alemão Franz Rosenzweig (1886-1929) “exercitou uma leitura positiva e discernidora de diferentes tradições religiosas”. A declaração é do teólogo Luiz Carlos Susin, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Rosenzweig mostra um bom conhecimento de ambas as tradições, pois de certa forma viveu na fronteira entre elas. Não pretendeu nem opor uma à outra e nem amalgamar uma na outra”, destaca. E complementa: “Rosenzweig pode ser colocado junto dos pensadores que contestaram a leitura totalizante da História feita por Hegel. Portanto, ao lado de Kierkegaard, Schopenhauer, Nietzsche. 

Rosenzweig influenciou profundamente a obra de Emmanuel Lévinas, e de acordo com Susin, “em ambos podemos reconhecer a força de algumas categorias que permitiram uma reação à tendência totalizante de marca hegeliana na filosofia europeia dos últimos dois séculos”. De acordo com o pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Rosenzweig pode “ajudar o Ocidente a se curar de sua esquizofrenia e se preparar para um diálogo mais justo com as culturas não ocidentais”. Franz Rosenzweig: multiplicidade, singularidade, temporalidade do real é o tema da primeira conferência do Ciclo de Palestras: Filosofias da Intersubjetividade, iniciado dia 14-03-2012. O palestrante foi Ricardo Timm de Souza, docente na PUCRS. Confira a programação completa do evento em http://bit.ly/xfWkV2. 

Luiz Carlos Susin é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – Estef, em Porto Alegre. É também secretário-geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Dentre suas obras, destacamos Teologia para outro mundo possível (Paulinas, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que medida Franz Rosenzweig antecipa o diálogo entre diferentes tradições religiosas?

Luiz Carlos Susin – Franz Rosenzweig, em sua grande obra A estrela da redenção – grande em tamanho e em qualidade – percorre diacrônica e sincronicamente as tradições religiosas do Ocidente, sobretudo o judaísmo e o cristianismo, mas também suas origens helênicas, pagãs, e busca captar seu ensinamento singular e sua contribuição. Portanto, em meio ao positivismo científico que dominava a cena intelectual da época, ele exercitou uma leitura positiva e discernidora de diferentes tradições religiosas. 

IHU On-Line – O que essa ideia traz como contribuição para o diálogo inter-religioso no século XXI?

Luiz Carlos Susin – Do ponto de vista religioso Franz Rosenzweig pode ser considerado um “místico”. Em sua obra ele cruza fronteiras e respeita a imensidão de um panorama inalcançável no seu todo. Isso é ao mesmo tempo abertura ao outro e respeito para com a realidade maior do que o próprio entendimento dela, portanto, a realidade aceita como “mistério”. Ele não pretende uma sistematização das tradições religiosas numa generalidade sem singularidades. Pelo contrário, sua fidelidade à sua tradição judaica e seu pensamento sobre as religiões são coerentes: somente desde dentro e não por cima das tradições é possível compreender, de tal forma que somente no diálogo sem preconceitos é possível aprender das diferentes tradições.

IHU On-Line – Como ele percebia a relação entre judaísmo e cristianismo, especificamente?

Luiz Carlos Susin – Rosenzweig mostra um bom conhecimento de ambas as tradições, pois de certa forma viveu na fronteira entre elas. Não pretendeu nem opor uma à outra e nem amalgamar uma na outra. Buscou um significado específico para cada uma. A dimensão messiânica do cristianismo (permito-me aqui uma tautologia, já que messianismo e cristianismo dizem o mesmo) é um caminho missionário pelo mundo, um caminho cujo desígnio histórico se direciona ao horizonte escatológico de uma criação redimida no Reino de Deus. Já o judaísmo é testemunho da fonte e guia da redenção porque dele escorreu a revelação. Daí a imagem de “caminho” para o cristianismo e de “estrela” para o judaísmo.

IHU On-Line – Em que aspectos sua crítica a Hegel e à historicização da filosofia se conectam com seu pensamento teológico?

Luiz Carlos Susin – Rosenzweig pode ser colocado junto dos pensadores que contestaram a leitura totalizante da História feita por Hegel. Portanto, ao lado de Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche. Mas ele se caracterizou por uma busca de visão mais sistemática, ainda que começando pela contestação de que se pode encerrar o “todo” num sistema inclusive de conhecimento que, afinal, seria totalitário. É o pensamento de um “sistema aberto”, de tal forma que, em sua radicalidade, tem uma dimensão claramente teológica, embora não lhe falte substância e interpretação filosóficas.

IHU On-Line – Como podemos compreender o período do “renascimento judaico”, do qual Rosenzweig foi um dos maiores incentivadores?

Luiz Carlos Susin – Creio que há duas contribuições fundantes desse renascimento. 1) A contestação da totalidade e, portanto, de todo totalitarismo, seja político, científico ou religioso ou mesmo tecnológico. 2) A sensibilidade para com a alteridade, que obriga qualquer sistema a perseverar na abertura e na relação ao outro inabarcável. Na edição francesa de A estrela da redenção há um comentário de capa que remete a Emmanuel Lévinas como um dos raros filósofos que intuíram a importância dos fundamentos colocados por Rosenzweig em sua “fulgurante orquestração conceitual”. De fato, no final do prefácio de um dos seus mais importantes livros, Totalidade e infinito, Lévinas afirma que não citará Rosenzweig porque seria necessário citá-lo a cada página. Hoje conhecemos melhor Lévinas, mas em ambos podemos reconhecer a força de algumas categorias que permitiram uma reação à tendência totalizante de marca hegeliana na filosofia europeia dos últimos dois séculos. 

IHU On-Line – Como ficaram os frutos desse renascimento judaico com o advento do nacional socialismo e a II Guerra?

Luiz Carlos Susin – Pensar eticamente aquele tempo de totalitarismo e violência inominável foi mérito desse renascimento durante e depois dos acontecimentos. Basta pensar em nomes como Walter Benjamin, influenciado mais diretamente pelo místico judeu Gershom Gerhard Scholem, e em seguida Theodor Adorno e Max Horkheimer, nomes do pensamento crítico do chamado Círculo de Frankfurt depois da II Guerra, mas também Martin Bubber, André Neher, Wlademir Jankélévitch. Deve-se a alguns deles também o interesse pela hermenêutica do hassidismo, corrente espiritual judaica de caráter narrativo e místico.

IHU On-Line – Como se dá o tensionamento entre a formação idealista clássica desse filósofo e a tradição judaica da qual era originário?

Luiz Carlos Susin – De fato, entre o idealismo alemão, especialmente o “sistema” hegeliano, que culmina um caminho típico do Ocidente de origem helênica, e a tradição judaica, cujas origens e cuja plenitude remontam sempre para além de si numa história que irrompe antes, sem começo controlável, e escorre para um horizonte escatológico também sem controle, portanto uma tradição que transcende todo sistema de totalidade, há mais do que uma tensão, há também uma confrontação inconciliável. Lévinas exemplificou tal situação no confronte entre dois paradigmas, o de Ulisses, cuja viagem é de retorno para si carregando gloriosamente a totalidade de sua experiência, e a viagem de Abraão, que a cada passo muda até de nome numa humilde e atenta viagem sem retorno. O interessante em Rosenzweig, mais do que em Lévinas, foi sua fidelidade à sistematização até onde ela ajudou a abraçar a realidade, mas reconhecendo que ela não é a última realidade, apenas um método que se mantém aberto.

IHU On-Line – Na obra de Rosenzweig há uma busca simultânea de valores laicos e religiosos. Como dialogam esses dois campos em seu pensamento?

Luiz Carlos Susin – Ele não trata separadamente e nem sobrepõe valores laicos e religiosos como se fossem duas realidades. Essa é uma questão estimulante para o Ocidente que separou a realidade secular e a realidade religiosa. Nesse sentido, ele é também uma ajuda no diálogo com culturas como a muçulmana ou indiana, em que essa esquizofrenia não existe. Ele pode ajudar o Ocidente a se curar de sua esquizofrenia e se preparar para um diálogo mais justo com as culturas não ocidentais. 

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