Edição 386 | 19 Março 2012

Rosenzweig e uma nova compreensão da ideia de sujeito

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Márcia Junges

Obra de envergadura teórica não tem viés piedoso, mas precisa ser compreendida em sua inovação filosófica, pontua Ricardo Timm. Seus escritos figuram como uma das últimas oportunidades para um mundo em busca de paz

 

Em A estrela da redenção, obra fundamental de sua filosofia, Franz Rosenzweig antecipa temas que anos depois seriam discutidos por Heidegger e a ele atribuídos. Considerada grandiosa em termos de inovação filosófica e erudição, A estrela traz uma “grande ‘oferta de paz’ a um mundo intrinsecamente beligerante, talvez a última oferta séria e altamente elaborada até que a Shoah, Hiroshima e a II Guerra em geral reduzissem tudo a cinzas”. A ponderação é do filósofo Ricardo Timm em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Rosenzweig prova que a obsessão pela alternativa ‘ou’ conduz necessariamente à guerra”, destaca. Verdadeiro tesouro a ser descoberto, o pensamento de Rosenzweig não deve ser considerado como piedoso, mas como “sistemas narrativos de pensamento, nos quais a linguagem é primordial”. Indiscutivelmente revela-se uma tradição kantiana no sistema rosenzweiguiano, expresso pela tríade Mundo/Ser humano/Deus, já que seus professores Meinecke e Cohen eram neokantianos, aponta Timm. A ruptura com a categoria de totalidade traz consigo novos modos de compreensão da ideia de sujeito, que precisa ser pensado intersubjetivamente, algo que Emmanuel Lévinas desenvolveu mais tarde em sua filosofia.

Ricardo Timm é o conferencista que inaugura as atividades do Ciclo de Palestras: Filosofias da Intersubjetividade. A temática é Rosenzweig: multiplicidade, singularidade, temporalidade do real, a ser explorada nesta quarta-feira, dia 14-03-2012.

Timm é graduado em Instrumentos, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e em Estudos Sociais e Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Também cursou o mestrado em Filosofia, pela mesma universidade, e doutorado em Filosofia, pela Universität Freiburg (Albert-Ludwigs) com a tese Wenn das Unendliche in die Welt des Subjekts und der Geschichte einfällt – Ein metaphänomenologischer Versuch über das ethische Unendliche bei Emmanuel Lévinas. Escreveu inúmeros livros, entre eles, Sujeito, Ética e História – Lévinas, o traumatismo infinito e a crítica da filosofia ocidental (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1999), A condição humana no pensamento filosófico contemporâneo (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004) e Em torno à diferença – Aventuras da alteridade na complexidade da cultura contemporânea (Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007). É também um dos organizadores de Alteridade e Ética – Obra comemorativa dos 100 anos do nascimento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual é o contexto da produção intelectual de Rosenzweig ?

Ricardo Timm – Franz Rosenzweig era oriundo de uma família bem estabelecida em Kassel, típica da situação de muitos judeus contemporâneos assimilados na Alemanha. Recebeu a melhor educação possível na época, interagiu com várias ciências, estudando em diversas universidades (Freiburg im Breisgau, Berlim), interessou-se profundamente por literatura, filosofia, história (na qual se doutorou) além de haver estudado também medicina e línguas diversas (entre as quais o árabe). O contexto de sua produção intelectual pode ser descrito por um conjunto complexo de fatores, entre os quais, e um dos mais relevantes, está o pressentimento que a assimilação judaica na Alemanha estava prestes a sofrer um baque de consequências inimagináveis. Boa parte de sua produção tem como objetivo justamente oferecer respostas a esse imenso desafio que se anuncia.

A influência de Hermann Cohen em Berlim condicionará, entre outros fatores, a sua aproximação amistosa porém tensa com o universo cristão em geral e especialmente com seus parentes e amigos convertidos ao cristianismo, já que demarca um campo de ação em que finalmente se autoafirmará como judeu voltado à amizade com o mundo cristão. Por outro lado, as rápidas mudanças históricas da época condicionam a concentração de energias em poucas obras, das quais, sem dúvida, A estrela da redenção – na qual antecipa claramente muitos temas posteriormente desenvolvidos por Heidegger e até hoje a ele atribuídos – é a principal, pela grandiosidade que significa em termos de inovação filosófica e ímpar erudição.

IHU On-Line – Como a participação de Rosenzweig na I Guerra influenciou em sua percepção sobre a filosofia da história de Hegel ? E até que ponto “Hegel e o Estado” é uma reação do autor ao edifício teórico construído por Hegel?

Ricardo Timm – A participação no front – aproximadamente na mesma época e não muito longe de Wittgenstein  – teve como consequência principal não apenas a redação de boa parte da Estrela (escrita em cartões postais enviados ao lar), como principalmente a percepção cabal da derrocada de um mundo que então tinha lugar. Rosenzweig teve a percepção clara de que, doravante, ofertas racionais de concialiação, por mais sofisticadas que fossem, não teriam efeito algum na geopolítica. É a época de rompimento com sua crença anterior em modelos político-racionais expressos principalmente em sua tese doutoral Hegel e o Estado.

IHU On-Line – Em que sentido o pensamento de Franz Rosenzweig tem na intersubjetividade uma de suas características fundantes?

Ricardo Timm – Rosenzweig desenvolve, em um sentido algo diferente, a ideia de “correlação”, exposta por Cohen em Religion der Vernunft aus der Quellen des Judentums (Religião da razão desde as fontes do judaísmo), sua obra capital. O desenvolvimento da categoria de “totalidade” e de sua ruptura, paralelamente à proposta de um sistema narrativo de filosofia em oposição a modelos descritivos de sistemas, como era usual na tradição, subsidiam novas formas de compreender a própria ideia de sujeito, em profundo questionamento por esta época. Trata-se agora – e ficará mais claro em Lévinas – de um sujeito que não pode ser pensado senão intersubjetivamente – uma ruptura com a ideia de uma mônada psíquica autoconsciente e autorreferente que se relaciona com outras mônadas de mesmo formato ideal.

IHU On-Line – Em que aspectos essa intersubjetividade contribui para repensar a capacidade humana atual da relação com a realidade?

Ricardo Timm – O essencial é perceber que a própria ideia de intersubjetividade é falaciosa, pois não existe sujeito que não se constitua inter-relacionalmente, portanto todo sujeito já é desde sempre intersujeito. A subjetividade é uma posição social em meio ao diverso e na relação ao Outro, e não uma invariante blindada ao mundo, com o qual pode, ao seu bel-prazer, se relacionar ou não.

IHU On-Line – Qual é o lugar ocupado pela alteridade, pelo Outro, na obra desse autor?

Ricardo Timm – Rosenzweig prepara com sua obra o terreno para o desenvolvimento dessa categoria, por exemplo, em Lévinas (autor que não pode ser, por sua vez, compreendido sem a compreensão de algumas categorias centrais do próprio Rosenzweig), no sentido que, na Estrela – entre outros locais – ao defender a palavra “e” em lugar do termo alternativo “ou”, aproxima diferentes e os convida à convivência pacífica. Tal é especialmente claro a partir do exemplo que utiliza, quando se trata de culturas e civilizações. Rosenzweig prova que a obsessão pela alternativa “ou” conduz necessariamente à guerra.

IHU On-Line – Como se relacionam a unicidade do ser humano, a realidade do mundo e a transcendência em Deus na obra “A estrela da redenção’, colocando em xeque a ideia de totalidade?

Ricardo Timm – Deus, mundo e ser humano não são redutíveis, como disse, um ao outro pela palavra “ou”, mas estabelecem relações com a “palavrinha” (Wörtchen) “e” (und). Não se trata, portanto, de saber se Deus e Ser humano são frutos do Mundo, ou o Mundo função de Deus, etc, mas de pensar uma multiplicidade de origem, um múltiplo original, no qual Mundo E Ser Humano E Deus com-vivam. Com isso duas consequências são claras: a ruptura definitiva com a ideia parmenídica de coincidência entre ser e pensar e a valorização eminente do singular frente ao universal.

IHU On-Line – Sob quais aspectos “A estrela da redenção” é uma obra importante para compreendermos a perplexidade e a barbárie, característicos de nosso tempo?

Ricardo Timm – Trata-se de uma grande “oferta de paz”, como analisei em vários textos, oferecida a um mundo intrinsecamente beligerante; talvez a última oferta séria e altamente elaborada até que a Shoah, Hiroshima e a II Guerra em geral reduzissem tudo a cinzas.

IHU On-Line – Como se dá a influência de Franz Rosenzweig nas obras de Benjamin e Lévinas? Ele influenciou outros autores também?

Ricardo Timm – Para a compreensão da obra de ambos os autores, a obra de Rosenzweig é imprescindível, por inúmeras razões que não podem ser desenvolvidas aqui. Benjamin considerava em 1929 – ano da morte de Rosenzweig – a Estrela como “uma das pouquíssimas obras que ainda valiam a pena serem lidas”; Lévinas explica logo ao início de Totalité et infini que Rosenzweig está ali excessivamente presente para poder ser citado.

IHU On-Line – De que forma o pensamento desse autor pode auxiliar numa sustentabilidade ética frentes às novas relações que o mundo atual exige?

Ricardo Timm – A obra de Rosenzweig é um tesouro a ser descoberto. A ideia de uma sustentabilidade ética passa pela compreensão da já referida multiplicidade de origem. Enquanto tal não for compreendido, a própria ideia de sustentabilidade ética permanece um ideal inalcançável.

IHU On-Line – Quais são os maiores pontos de aproximação entre filosofia e teologia em seu pensamento?

Ricardo Timm – Ele não se preocupava demais com esse tipo de distinção na feitura do pensamento; aliás como costuma acontecer com os filósofos alemães (basta ver que a maioria dos clássicos da filosofia, de Kant e Hegel a autores do século XX, foram também, em maior ou menor medida, teólogos). Todavia, faz questão de dizer que obras como a Estrela não são obras piedosas, mas sistemas narrativos de pensamento nos quais a linguagem é primordial, que procuram se relacionar com a infinidade de singulares que compõe o real. Naturalmente, a tríade Mundo/Ser humano/Deus remete a Kant, entre outros, pois é a essa tradição que se filia (seu professor Meinecke tinha origem neokantiana, assim como H. Cohen).

IHU On-Line – Por que seu pensamento é pouco conhecido no Brasil? Quais são os movimentos que têm sido feitos em direção contrária?

Ricardo Timm – Entre outras razões pela funesta e quase absoluta preponderância do pensamento de Heidegger que, como já dito, repete em 1927, em Ser e tempo, ideias que Rosenzweig tinha publicado na Estrela, em 1921. Também pela dificuldade intrínseca da obra. Tenho feito esforço para reverter esse quadro, havendo publicado, pela Editora Perspectiva, um livro de introdução ao pensamento de Rosenzweig – Existência em Decisão – uma introdução ao pensamento de Franz Rosenzweig – bem como traduzi Hegel e o Estado, publicado pela mesma editora. Porém, esse fenômeno não é só brasileiro. Pode-se dizer que o renascimento de Rosenzweig inicia apenas em 1986, em Kassel, com o I Congresso Internacional Rosenzweig, por ocasião do centenário do nascimento do autor. Em 2004, na mesma cidade, foi fundada a Associação Internacional Rosenzweig (Internationale-Rosenzweig-Gesellschaft), que tem inclusive uma seccional no Brasil. O mérito do renascimento de Rosenzweig se deve em enorme proporção aos esforços do professor Wolfdietrich Schmied-Kowarzik , Professor Emérito da Universidade de Kassel e atualmente em Viena.

Leia mais...

>> Confira outra entrevista concedida por Ricardo Timm à IHU On-Line

* A Filosofia mudou muito depois de Auschwitz. Edição 265, revista IHU On-Line, de 21-07-2008;

* A contribuição de Lévinas à humanização da sociedade. Edição 277, revista IHU On-Line, 14-10-2008;

* O juízo absoluto e a paralisia da linguagem. Edição 344, revista IHU On-Line, 21-09-2010.

 

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