Aposta no consumo e na liquidez interna como resposta à crise internacional

Para Amir Khair, a única forma possível de resolver a crise da Europa é ter uma redução substancial na dívida, ou seja, os bancos não vão poder receber o que gostariam, porque é impossível que os governos consigam gerar recursos suficientes.

Por: Graziela Wolfart

“Os países ditos desenvolvidos não têm condições de consumir o que vinham consumindo. Eles terão que ‘apertar os cintos’, não há alternativa. A única maneira que vejo como possível recuperação - muito lenta - desses países será pela via da exportação, ou seja, eles terão que ter uma sensível redução nos custos salariais, além de desvalorizar ainda mais as suas moedas para ganhar poder competitivo internacional. Não espero que esses países tenham um desenvolvimento no mercado interno, porque passarão por um emagrecimento de vários anos”. A análise é do economista Amir Khair, em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line. Na sua visão, “para a economia mundial, 2012 será um ano nada bom. Vejo como um ano de redução global nas exportações, e de uma situação bastante conflituosa do ponto de vista social, especialmente nos países desenvolvidos, que terão problemas bastante graves do ponto de vista de tentativa de arrocho encima das populações, como já vem fazendo a Europa, com resultados bastante negativos”.

Amir Khair é mestre em Finanças Públicas pela Fundação Getúlio Vargas – FGV-SP. Foi secretário de Finanças da Prefeitura de São Paulo na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992). É consultor na área fiscal, orçamentária e tributária.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como o senhor avalia, de forma geral, a crise do euro e seu impacto na Europa? Quais são os países mais atingidos?

Amir Khair –
Essa crise começou com uma ponta na Grécia e agora ela se estende até a outra ponta, que é a Itália, inclusive chegando até a Espanha. A origem desta crise está na própria forma como a Europa vem sendo conduzida. Não existe disciplina fiscal, inclusive para os países que propugnam a disciplina fiscal, como França e Alemanha. Ao mesmo tempo, esses países perderam poder de competição no mercado internacional. Eles têm custos mais elevados e dificilmente conseguem competir com o leste asiático, por exemplo. Além disso, eles têm uma dívida extremamente elevada, normalmente superior a 100% da receita do PIB, o que é difícil de ser pago porque os juros já começam a perturbar as contas públicas. Isso ameaça os detentores dos títulos desses países e os bancos, que terão problemas sérios para receber. A única forma possível de resolver a crise da Europa é ter uma redução substancial na dívida, ou seja, os bancos não vão poder receber o que gostariam, porque é impossível que os governos consigam gerar recursos suficientes.


IHU On-Line - Quais as consequências de um possível esfacelamento da zona do euro e de uma crise bancária global?

Amir Khair –
As consequências seriam dramáticas, pois atingiria todos os países, ninguém estaria imune a isso. E pegaria mais intensamente os países cujos sistemas bancários e cujo consumo interno estivesse baixo, sem condições de compensar as perdas que irão ocorrer por conta das reduções das exportações no mundo todo. Os países que têm um comércio muito intenso com a zona do euro, como os EUA, o Japão e a própria China, serão mais fortemente atingidos pelo lado comercial. E os países que têm uma interconexão maior na questão bancária com os bancos europeus também serão mais fortemente afetados.


IHU On-Line - Qual sua opinião sobre a política de os países mais ricos consumirem mais e exportarem menos, no intuito de retomar o equilíbrio, como alternativa de solução para a crise da zona do euro?

Amir Khair –
Os países ditos desenvolvidos não têm condições de consumir o que vinham consumindo. Eles terão que “apertar os cintos”, não há alternativa. A única maneira que vejo como possível recuperação - muito lenta - desses países será pela via da exportação, ou seja, eles terão que ter uma sensível redução nos custos salariais, além de desvalorizar ainda mais as suas moedas para ganhar poder competitivo internacional. Não espero que esses países tenham um desenvolvimento no mercado interno, porque passarão por um emagrecimento de vários anos.


IHU On-Line - Em que sentido a crise na Europa e nos EUA mais impacta na América Latina e no Brasil, especificamente?

Amir Khair –
Na América Latina os países que têm exportações mais fortes para a área poderão sofrer um pouco mais. De qualquer forma, serão atingidos na medida em que os preços dos seus produtos irão cair internacionalmente. Dependendo da forma como os governos desses países irão atuar, poderão desenvolver seus mercados internos, que ainda não estão totalmente desenvolvidos. Então, eles têm essa válvula de escape. O Brasil, particularmente, tem uma posição mais confortável. Ele tem uma exportação mais diluída entre os países do mundo e não tem a economia tão dependente de exportação, constituindo uma posição bastante favorável nesse aspecto. Temos um mercado interno muito grande, que tem formas internas de desenvolver, por exemplo, reduzindo a taxa de juros bancária ao consumo, que é a mais alta do mundo desde 2000, uma aberração da economia brasileira. O governo tem instrumentos para reduzir essas taxas e, com isso, dar poder de consumo ao brasileiro. Fora isso, o Brasil detém uma colcha bastante confortável de recursos da ordem de mais de 400 bilhões de reais, que estão em depósito compulsório no Banco Central. A liberação desses recursos de forma que beneficie os bancos que estão numa situação de praticar uma taxa de juros mais baixa pode ser uma boa alternativa. O governo teria uma política diferenciada na questão do depósito compulsório ajudando a facilitar a liquidez interna como resposta à crise internacional.


IHU On-Line - Que paralelos o senhor pode traçar entre a crise atual e a crise de 2008?

Amir Khair –
A crise de 2008 foi originada nos EUA. Essa é uma crise originada na Europa e vem com uma intensidade maior, porque pega um espectro mais amplo. A economia americana vem se recuperando aos poucos, mas ela será muito duramente atingida, pois tem exportações expressivas para a zona do euro. Nesse sentido, ela, que ainda está numa situação bastante frágil, com uma taxa de desemprego elevada e um crescimento econômico baixo, será também atingida. O que pode ajudar é a situação nos países emergentes, que estão mais fortes do que estavam durante a crise de 2008. Eles se fortaleceram de lá para cá e estão em condições de “aguentar o tranco” dessa crise de uma maneira melhor do que tiveram em 2008. Lá, a crise foi fundamentalmente do sistema financeiro. Agora, a crise inicia na questão fiscal nos países da zona do euro e desemboca no sistema financeiro. Ela tem um duplo comando, fiscal e financeiro, com repercussões bastante sérias em toda a economia mundial.


IHU On-Line - Quais são as suas as perspectivas econômicas para 2012?

Amir Khair –
Para a economia mundial, 2012 será um ano nada bom. Vejo como um ano de redução global nas exportações, e de uma situação bastante conflituosa do ponto de vista social, especialmente nos países desenvolvidos, que terão problemas bastante graves do ponto de vista de tentativa de arrocho encima das populações, como já vem fazendo a Europa, com resultados bastante negativos. Vejo bastantes conflitos sociais e intranqüilidade. Os governos, do ponto de vista político, serão normalmente derrotados. Já tem oito governos que caíram desde 2008, e esse processo vai continuar. Então, também teremos dificuldades sérias. Tudo vai depender das políticas que forem adotadas. No caso brasileiro, se desenvolver o mercado interno, teremos condições de ter um ano de 2012 bastante razoável, até mesmo superior a este ano.


IHU On-Line - Quais os caminhos para as economias do planeta reagirem conjuntamente à crise, no sentido de evitar o risco de espiral de instabilidade financeira mundial?

Amir Khair –
Vejo apenas a possibilidade de rearranjo internacional no sentido de melhorar a participação dos emergentes na riqueza mundial ao lado de uma redução dos desenvolvidos. Será um período de reajustamento a essa situação. Os salários nos países desenvolvidos tenderão a refluir e os salários nos países emergentes a subir. É uma forma natural de um equilíbrio internacional não apenas mais justo, mas também mais natural, como resposta a essa crise.


Leia mais...

>> Amir Khair já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

• A crise do euro, a reestruturação geopolítica e os países emergentes. Entrevista publicada no sítio do IHU em 17-05-2010

• Política econômica preventiva. “A redução da taxa Selic é positiva”. Entrevista publicada no sítio do IHU em 03-09-2011

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