Edição 385 | 19 Dezembro 2011

Hildegard de Bingen, uma “artista” mística e profética

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Moisés Sbardelotto

Visionária, profeta e mística do século XII: é assim que a professora da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, resume a vida de Hildegard de Bingen, um “caso único” da história da mística e da espiritualidade universais

“Hildegard de Bingen foi uma visionária, profeta e mística do século XII. Escreveu uma obra profética, isto é, revelada, na qual transcreve a voz de Deus, mas também na qual introduz passagens autobiográficas em que fala de uma experiência de união com Deus”. Mas não só: “Ela escreveu uma obra ‘científica’, nascida da observação direta da natureza. Foi poeta e compôs música”. Nestas poucas linhas, Victoria Cirlot, professora de Filologia Românica na Faculdade de Humanidades da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, busca resumir um “caso único” da história da mística e da espiritualidade universais. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Victoria afirma que “o fato de uma mulher escrever e falar em público perante os prelados da Igreja é algo extraordinário para a condição da mulher na Idade Média”. Hildegar pôde fazer isso “graças ao carisma que lhe foi proporcionada pela sua faculdade visionária em uma época (século XII) em que a Igreja ainda estava aberta a esse tipo de experiências”, além de contar com o apoio de Bernardo de Claraval , o que sem dúvida foi decisivo. Portanto, uma mística que revela “o aspecto feminino de Deus”, afirma Victoria. “Eu situo Hildegard nas origens da mística feminina”, explica. “Se eu tivesse que definir Hildegard para o nosso mundo, eu diria que ela era uma artista. Dito de outro modo, se Hildegard tivesse vivido no século XX ou XXI, teria sido uma artista de primeira ordem, pela sua elevadíssima capacidade criadora”, sintetiza.

Victoria Cirlot (Barcelona, 1955) é professora de Filologia Românica na Faculdade de Humanidades da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, Espanha. Ocupou-se da mística medieval, dentre outros temas, e publicou vários livros, entre os quais destacamos: La mirada interior. Escritoras mística y visionarias de la Edad Media (Madri: Siruela, 2008) e Vida y visiones de Hildegard von Bingen (Madri: Siruela, 2009, 3ª ed.). Tem-se dedicado a estudar o fenômeno visionário a partir de uma perspectiva comparativa com a arte do século XX, por exemplo em seus livros Hildegard von Bingen y la tradición visionaria de Occidente (Barcelona: Herder, 2005) e La visión abierta. Del mito del Grial al surrealismo (Madri: Siruela, 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você afirma que Hildegard de Bingen foi “uma das figuras mais significativas da espiritualidade do Ocidente europeu”. Como você apresentaria Hildegard de Bingen ao público brasileiro? Quais são os aspectos mais importantes da vida e da personalidade dessa mística?

Victoria Cirlot – Hildegard de Bingen foi uma visionária, profeta e mística do século XII. Escreveu uma obra profética, isto é, revelada, na qual transcreve a voz de Deus, mas também na qual introduz passagens autobiográficas em que fala de uma experiência de união com Deus. Por essas passagens, sabemos que, desde a sua infância, ela teve visões. Além dessa obra visionária, ela escreveu uma obra “científica”, nascida da observação direta da natureza. Foi poeta e compôs música.

IHU On-Line – Os escritos de Hildegard de Bingen foram aprovados pelo Papa Eugênio III  e integrados solenemente à doutrina oficial da Igreja. Como você analisa esse importante papel de uma mulher na sociedade e na Igreja da Idade Média?

Victoria Cirlot – É um caso único. O fato de uma mulher escrever e falar em público perante os prelados da Igreja é algo extraordinário para a condição da mulher na Idade Média. Ela pôde fazer isso graças ao carisma que lhe foi proporcionada pela sua faculdade visionária em uma época (século XII) em que a Igreja ainda estava aberta a esse tipo de experiências. Ela contou com o apoio de Bernardo de Claraval (o papa tinha sido um dos seus discípulos), o que sem dúvida foi decisivo.

IHU On-Line – Quais foram as “visões” de Hildegard? Como a perspectiva visionária de Hildegard influenciou o pensamento medieval ou posterior?

Victoria Cirlot – A obra profética de Hildegard se constrói a partir de suas visões: primeiro, são descritas e, depois, interpretadas. Trata-se de visões cosmológicas, nas quais se assiste à Criação e ao fim dos tempos. A ambivalência própria do símbolo e a polivalência significativa se estreitam na interpretação, sempre conforme à teologia cristã, mas, nas descrições, sua intensidade e riqueza ficam patentes. As visões de Hildegard, além disso, foram ilustradas em três manuscritos. São miniaturas realmente extraordinárias. Sabemos que algumas de suas visões foram copiadas e transferidas para os muros dos conventos, como, por exemplo, o de Santa Gertrudes de Colônia (Alemanha). No início do século XIV, Tauler fez um sermão nesse convento, no qual comentou as imagens de Hildegard.

IHU On-Line – Qual a sua análise das obras de Hildegard, especialmente de sua trilogia Liber? Qual a atualidade dos seus escritos na sociedade contemporânea?

Victoria Cirlot – Fundamentalmente, as imagens de suas visões ficaram plasmadas em suas miniaturas, nas do manuscrito de Rupertsberg realizado durante a vida de Hildegard (perdido na Segunda Guerra Mundial, mas do qual se conserva um fac-símile realizado pelas freiras de Eibingen nos anos 1920), e as do manuscrito de Lucca, que se encontra na Biblioteca estatal da cidade de Lucca, na Itália, do início do século XIII. São imagens que foram reproduzidas inúmeras vezes e que constituem pontos de apoio para a meditação, por exemplo.

IHU On-Line – Em sua opinião, em que aspectos Hildegard pode ser considerada um “fruto” da cultura e da simbologia medievais?

Victoria Cirlot – Com efeito, é preciso situar Hildegar em sua época, meados do século XII, na qual a concepção do mundo imperante era essencialmente neoplatônica (a escola filosófica de Chartres, a escola vitorina), que outorgava um valor à imagem superior ao da palavra. Essa extraordinária valoração da imagem se devia à sua dimensão simbólica. A imagem-símbolo era concebida como uma ponte, uma mediação para o conhecimento do além.

IHU On-Line – O que separa ou distancia Hildegard de outras místicas? Quais foram as particularidades da sua experiência mística em comparação com outras místicas da história?

Victoria Cirlot – Estudos feministas demonstraram como Hildegard mostra, em sua obra, o aspecto feminino de Deus. Eu situo Hildegard nas origens da mística feminina, porque, embora sua obra seja sobretudo profética – e isso significa que ela não fala de si mesma nem da sua experiência, mas sim que Deus fala através dela –, também se ouve a primeira pessoa em seus textos. Naturalmente, de um modo muito mais oculto do que na mística flamenga ou alemã (refiro-me a uma Hadewijch, ou a uma Mechthild de Magdeburgo), que converteram sua experiência interior no tema de seus escritos. Mas o fato de que sua obra contenha passagens autobiográficas que se referem à sua própria experiência fazem dela, a meu modo de ver, em um claro precedente. Por outro lado, a Vita que Theoderich von Echternach escreveu pouco depois de sua morte e na qual se recolhiam testemunhos autobiográficos de Hildegard seria um modelo para a redação de Vitae posteriores. Hadewijch cita Hildegard em sua célebre Lista de perfeitos.

IHU On-Line – Muitas foram as expressões artísticas dessa mulher medieval: poetisa, música, pintora. Como você vê a arte de Hildegard? Como a expressão artística e estética dela está associada com a sua experiência mística?

Victoria Cirlot – O que nós chamamos agora de arte, na sua época, era religião. Se eu tivesse que definir Hildegard para o nosso mundo, eu diria que ela era uma artista. Dito de outro modo, se Hildegard tivesse vivido no século XX ou XXI, teria sido uma artista de primeira ordem, pela sua elevadíssima capacidade criadora.

IHU On-Line – Especificamente, como você analisa a obra musical de Hildegard? Como podemos compreender o seu universo melódico?

Victoria Cirlot – Infelizmente, eu não sei música, mas, pelos estudos que li acerca de suas composições, seu universo melódico se destacava também por uma grande originalidade, já que não era gregoriano o que ela compunha, e que era o que se fazia em sua época.

IHU On-Line – De que fontes teológicas Hildegard bebe? Quem são os seus “interlocutores” em sua reflexão sobre Deus?

Victoria Cirlot – É muito difícil determinar as fontes de Hildegard, porque, na Idade Média, se citam pouco os autores aos quais se lê. Mas as últimas edições de sua obra dão conta da cultura de Hildegard. Longe de ser uma indouta e iletrada, como ela se chama, sobretudo para enfatizar o caráter revelado de sua obra profética, ela poderia ter chegado a ler Escoto Erígena .

IHU On-Line – Em sua opinião, a partir da obra de Hildegard, que modalidades discursivas, literárias ou semânticas marcam a simbologia e a linguagem místicas renanas?

Victoria Cirlot – Hildegard escreveu em latim. As primeiras obras místicas em língua vulgar, em alemão antigo (que também incluía o neerlandês), são as de Beatrijs van Nazareth  e Hadewijch, na primeira metade do século XIII. O alemão (mittelhochdeutsch) alcança seu ponto culminante na obra de Mechthild de Magdeburgo e do Mestre Eckhart : trata-se de uma linguagem aberta, sensual, metafórica, paradoxal.

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