Edição 381 | 21 Novembro 2011

Os 'Grundrisse': uma mina para ajudar a descortinar o século XXI

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Graziela Wolfart

Para Ricardo Antunes, os Grundrisse contribuem para se entender as relações entre ciência, tecnologia e trabalho, de tal modo que a ciência e a técnica não eliminam o trabalho na geração do valor do capitalismo

Na concepção do sociólogo e professor da Unicamp, Ricardo Antunes, os textos de Marx ressurgem com força no momento atual por vários motivos. Um deles “é a crise profunda que o capitalismo e, em termos mais precisos, o sistema de capital se encontram hoje. E segundo, porque junto a essa crise, e tendo claras conexões com ela, surgem as lutas sociais ampliadas em várias parte do mundo, o que permite uma certa retomada positiva da obra de Marx”. Ao analisar os Grundrisse, Antunes afirma, na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, que Marx vai mostrar, em 1857-1858 (ano em que escreveu seus cadernos), “que se a ciência se desenvolvesse de modo livre, se o progresso tecnocientífico não fosse limitado, plasmado por relações sociais moldadas pelo capital, nós podíamos chegar a uma situação em que o trabalhador seria um simples vigia e supervisor do processo de produção. De tal modo que o trabalho seria cada vez menor, cada vez menos extenuante, cada vez mais autoconstituinte e, portanto, seria um trabalho cada vez mais livre, autônomo, autodeterminado”. E percebe que a obra é publicada no Brasil “talvez no melhor momento da conjuntura mundial das últimas décadas. Desde 1968 não tínhamos lutas sociais em escala global tão amplamente difundidas. Isso marca um cenário mundial muito rico para o século XXI”.

Ricardo Antunes é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas e doutor, na mesma área, pela Universidade de São Paulo. Realizou pós-doutorado na University of Sussex e obteve o título de Livre Docência pela Universidade Estadual de Campinas, onde hoje é professor. É autor de Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade no mundo do trabalho (São Paulo: Cortez, 2010), Infoproletários: degradação real do trabalho virtual (São Paulo: Boitempo Editorial, 2009), entre outros títulos. Ele acaba de lançar O continente do labor (São Paulo: Boitempo Editorial, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Didaticamente falando, o que são os Grundrisse e como entender que tenham sido traduzidos somente agora?

Ricardo Antunes – Os Grundrisse são anotações e estudos que Marx fez entre 1857 e 1858 e se constituem em verdadeira mina, pistas, notas, indicações que depois vão aparecer em uma exposição mais sistemática e volumosa na sua obra maior e monumental: O Capital. A riqueza maior dos Grundrisse está no fato de que esse livro traz várias indicações, muitas das quais não foram incluídas depois em O Capital. Esses cadernos, por condensarem uma primeira síntese de pesquisa, constituem um material primoroso. Eles estão sendo publicados agora no Brasil por uma deficiência de não termos conseguido consolidar, ao longo das décadas passadas, uma linha de traduções de autores clássicos, dos quais Marx está certamente no começo da fila. Felizmente nos últimos anos a editora Boitempo vem fazendo um trabalho primoroso no sentido de recuperar várias obras de Marx, que ou não estavam publicadas em edição brasileira ou estavam, mas carecendo de revisões, reelaborações. O Brasil tardiamente supre essa lacuna. Claro que os textos de Marx ressurgem com força por vários motivos. Um deles é a crise profunda que o capitalismo e, em termos mais precisos, o sistema de capital se encontram hoje. E segundo, porque junto a essa crise, e tendo claras conexões com ela, surgem as lutas sociais ampliadas em várias parte do mundo, o que permite uma certa retomada positiva da obra de Marx.

IHU On-Line – Qual a atualidade dessa intuição de Marx presente nos Grundrisse? Em que sentido esses textos ajudam a entender o mundo hoje?

Ricardo Antunes – É muito mais do que intuição. Marx tem anotações e reflexões que são calcadas em uma reflexão científica muito profunda. Ele era frequentador assíduo do museu britânico, onde por décadas ficou estudando, lendo, pesquisando, investigando sobre o capital. São sínteses de um processo reflexivo em curso, ainda que elaboradas pelo próprio autor para sua pesquisa, diferentemente de O Capital, que tem uma linha de exposição, como é o caso do volume 1. Os volumes 2 e 3 foram publicados depois da morte de Marx e foram finalizados por Engels . O que os Grundrisse têm de inspirador é o seguinte: a primeira pista importante é a conhecida introdução escrita em 1857, onde Marx fala do processo de produção do capital e esse processo enfeixa um movimento que passa da produção ao consumo, tendo a distribuição, a circulação ou a troca como elementos de mediação. Isso é muito importante, porque a concepção de produção para Marx é ampla. A constatação que ele faz nesse capítulo é de que não há produção sem consumo, nem consumo sem produção, ou seja, o processo de constituição do capital, ao mesmo tempo em que gera o mais valor, gera o processo de criação do trabalho excedente. Mas a geração do mais valor na produção só tem a sua efetivação finalizada na esfera do consumo. De tal modo que o capital é um sistema totalizante que abarca um amplo leque em que, por exemplo, podemos ver as alienações, as fetichizações e os estranhamentos na esfera da produção e as alienações, os estranhamentos e as fetichizações também na esfera do consumo. E uma não é separada da outra. São momentos distintos de um mesmo processo.

A base em evidências empíricas

Aqui está embutido um segundo elemento muito importante da análise marxiana. Mesmo quando Marx analisa processos particulares, ele busca sempre análises a partir de casos concretos, evidências empíricas, buscando sempre compreender este movimento da totalidade, que é uma categoria vital do seu método. Uma terceira pista dos Grundrisse pode ser encontrada nesa mesma introdução a que estou me referindo, que consta na presente edição brasileira, que é um item chamado “método na economia política” e que é excepcional. São poucas páginas, mas aqui Marx indica, primeiramente, que o segredo da ciência que ele está constituindo é capturar, apreender as formas da matéria, as formas de ser, os movimentos do real. De tal modo que esse percurso metodológico tem uma fundamentação ontológica. Isso quer dizer que é preciso compreender o concreto nas suas múltiplas determinações. É o ser, em sua concretude, que deve ser apreendido idealmente. O real existe independente da capacidade que os investigadores tenham de apreendê-lo ou não. Por isso Marx vai dizer que o real é o concreto pensado, concebido. Mas a prova de fogo de qualquer análise é a reflexão feita, esta elaboração do concreto no pensamento, sendo ou não expressão da realidade. Esse é um preceito ontológico e indica um ponto fundamental de Marx, que já foi apresentado com ênfase no século XX por Lukács . Esse preceito fundamental é de que Marx é o verdadeiro fundador de uma ontologia materialista e dialética, cujo precursor mais apurado foi Hegel , mas que oscilava entre a materialidade e a idealidade. A consequência disso é que, nos Grundrisse, o trabalho se torna uma categoria central. E Marx dá suas pistas sobre o trabalho. Ele faz longas digressões sobre o trabalho e a ciência, o trabalho e o desenvolvimento científico, a constituição do maquinário, das forças produtivas, do que ele chamava general intellect, este “intelectual coletivo”, que resulta de uma força produtiva potente dada pela conjugação entre a força de trabalho e o avanço tecnocientífico. Marx vai mostrar, em 1857-1858, que se a ciência se desenvolvesse de modo livre, se o progresso tecnocientífico não fosse limitado, plasmado por relações sociais moldadas pelo capital, nós podíamos chegar a uma situação em que o trabalhador seria um simples vigia e supervisor do processo de produção. De tal modo que o trabalho seria cada vez menor, cada vez menos extenuante, cada vez mais autoconstituinte e, portanto, seria um trabalho cada vez mais livre, autônomo, autodeterminado. Mas o mesmo Marx dirá o seguinte: como na sociedade movida pelo capital a técnica e a ciência não são livres, mas plasmadas por relações de produção capitalista que, ao mesmo tempo, as incentiva e as tolhe, a ciência não pode romper os liames do capital. Isso faz com que essa abstração de Marx, de imaginar um trabalho cada vez mais livre, só pode ocorrer quando as relações sociais de produção capitalistas voarem pelos ares, explodirem. Os Grundrisse são uma mina para se entender as relações entre ciência, tecnologia e trabalho, de tal modo que a ciência e a técnica não eliminam o trabalho na geração do valor do capitalismo.

IHU On-Line – Qual a especificidade ou a novidade dos Grundrisse em relação à concepção de Marx sobre o trabalho?

Ricardo Antunes – Marx foi o primeiro autor que, com densidade, superou o que chamo de uma visão pendular do trabalho, como positividade e negatividade. Marx superou essa visão porque partiu de Hegel, dando um salto. Ele foi o primeiro a perceber que há uma dialética do trabalho. Isso significa que o trabalho, ao mesmo tempo, é criação e servidão. Esse é um movimento contraditório que existe no próprio âmago do trabalho, o que depende do modo de vida e do modo de produção das coisas. Cada período histórico tem um movimento do trabalho; a escravidão teve um, a Idade Média teve outro, e o capitalismo marca um momento muito típico do trabalho, deixando de ser prevalentemente produtor de coisas úteis. Isso continua, mas se torna secundário, porque o trabalho se torna prevalentemente produtor, gerador de mercadoria, riqueza e mais valor, em particular a mercadoria força de trabalho. Por exemplo, nos Grundrisse Marx dá pistas sobre o que ele chama, em inglês, de work e de labor. E é esse o duplo movimento contraditório do trabalho. Quando ele fala no work, está se referindo ao trabalho que tem dimensões de criação, de um trabalho que gera coisas úteis e, ao mesmo tempo, socialmente falando, é autoconstituinte do processo de hominização do homem. Por outro lado, ele mostra que o trabalho, sobre o capitalismo, é, por excelência, labor: sofrimento, alienação, estranhamento, fetichização.

A questão da emancipação

Os Grundrisse trazem pistas e mais pistas sobre tantas questões e a questão da emancipação aparece de forma muito rica. O avanço das forças produtivas capitalistas e o avanço tecnocientífico criaram, pela primeira vez, as bases socioeconômicas que podem possibilitar a emancipação humano-social. Mas, ao mesmo tempo em que o capitalismo criou as bases socioeconômicas da emancipação, ele é, em si e por si, o sistema da unilateralização, do constrangimento, das alienações, das reificações e dos estranhamentos. O sistema do capital, e em particular o capitalismo, cria as possibilidades para a emancipação, mas é, ao mesmo tempo, um impulsionar do ser humano a sua unilateralização. Se o trabalho é fetichizado e estranhado, como posso ter uma vida fora do trabalho livre e emancipada? È uma impossibilidade ontológica. Marx mostra que o capitalismo impossibilita qualquer efetivação plena de um indivíduo livre dentro e fora do trabalho. Dessa forma, os Grundrisse são uma mina para nos ajudar a descortinar o século XXI. Claro que esse é um desafio dos intelectuais críticos do século XXI, especialmente das lutas sociais que estamos vendo explodir em intensidade global como não víamos há muito tempo. Os Grundrisse são parte desse cenário e é publicado no Brasil talvez no melhor momento da conjuntura mundial das últimas décadas. Desde 1968 não tínhamos lutas sociais em escala global tão amplamente difundidas. Isso marca um cenário mundial muito rico para o século XXI.

IHU On-Line – Os Grundrisse podem contribuir para pensarmos uma alternativa ao capitalismo nos dias hoje?

Ricardo Antunes – O principal desafio do marxismo hoje é duplo: primeiro, é desvendar o mundo atual. Por volta de 15 ou 20 anos atrás estávamos na onda pós-moderna de que o marxismo tinha acabado, de que Marx estava morto, sepultado, não tinha mais nada a nos oferecer. Nós adentramos em uma fase de crise estrutural profunda do capital que rejuvenesceu e “ressuscitou” a obra de Marx. Então, o primeiro desafio dos marxistas é compreender o século XXI, o nosso entorno. A obra de Marx, em seu conjunto, é fortemente inspiradora para uma alternativa para além do capital. Mas os Grundrisse têm a particularidade de serem anotações, indicações, textos inconclusos, que percebiam embriões de tendência no século XIX que hoje estão plenamente desenvolvidas. Por exemplo, a questão da ciência e da técnica e suas conexões com o trabalho. Essa obra é mais um ingrediente importante para esse decisivo processo de redescobrimento de Marx, que nos auxilia diante dos desafios radicais do século XXI.

Leia mais...

>> Ricardo Antunes já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Dentre elas, confira:
•    Marina não foi um fenômeno eleitoral. Entrevista publicada no sítio do IHU em 21-10-2010;
•    Um 1º de maio getulista em plena era lulista. Entrevista publicada na IHU On-Line número 256, de 28-04-2008;
•    A crítica e subversão de Gorz ao capital. Entrevista publicada na IHU On-Line número 238, de 01-10-2007.

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