Edição 379 | 07 Novembro 2011

A filosofia precisa de mais audácia

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Márcia Junges / Tradução: Benno Dischinger

Diálogo com clássicos do passado, reinterpretando nossas questões atuais é imprescindível, adverte Paul Valadier. Assim como a literatura, a filosofia “está ameaçada pelos sistemas escolares ou universitários que crêem poder substituí-los somente pelas disciplinas científicas”

“Uma filosofia que não responde às questões existenciais que se colocam os homens é digna deste nome?” O questionamento é do filósofo jesuíta francês Paul Valadier, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. O maior desafio dessa área de conhecimento hoje é ter mais audácia, pondera. “De maneira estranha, é o que não cessaram de solicitar aos filósofos papas como João Paulo II e Bento XVI”. Valadier observa que as filosofias “mais fecundas” são as que “não cessam de meditar e de reinterpretar as grandes questões lançadas pelos antigos, mas, a partir das questões que são as nossas”. Ele discute, ainda, a tradição filosófica francesa e a colaboração da Companhia de Jesus: “a tradição jesuíta deve honrar a filosofia para formar espíritos livres, críticos, refletidos, capazes de discutir, de justificar suas posições, de entender e compreender as dos outros”

Paul Valadier é professor de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia, da qual citamos: Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche et Marx (Paris: Cerf, 1974); Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); e Nietzsche l’intempestif (Paris: Beauchesne, 2000). É autor, também, de La part des choses. Compromis et intransigeance (Paris: Lethielleux – Groupe DDB, 2010), e Elogio da consciência (São Leopoldo: Unisinos, 2001). Foi conferencista no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de indivíduos?, com as conferências A moral após o individualismo e O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo. A esse respeito, confira o artigo O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo: leitura filosófica e teológica, publicado na coletânea O futuro da autonomia: uma sociedade de indivíduos (Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Leopoldo: Unisinos, 2009). Em 13-08-2009, convidado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, proferiu a conferência Narrar Deus no horizonte do niilismo.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Quais são os principais temas e problemáticas da filosofia em nosso século?

Paul Valadier -
Você me interroga sobre a “filosofia em nosso século”. Penso que não se trata somente do século XXI que recém inicia. Viso, pois, os anos após 1990, isto é, após o desmoronamento dos regimes bolcheviques, acontecimento que acarretou uma desconsideração muito forte e sem dúvida injusta, do pensamento marxista. A própria desilusão atingiu todos os filósofos da história, e mais em geral as filosofias mais sistemáticas (fim dos grandes relatos; dúvida sobre a ideia de progresso); ela restitui uma forte atualidade às diversas formas de fenomenologia, que propunham um retorno à própria coisa, que supunham, pois, um afastamento das concepções englobantes, com o tema do fim da metafísica. A este respeito, Husserl  permaneceu como referência maior, fecundando filosofias muito diversas: Paul Ricoeur, Michel Henry , Jacques Derrida (para a França). De outro lado, muitos retornaram a uma reflexão sobre a democracia após o fim dos totalitarismos (nos EUA em particular), e a uma reflexão sobre questões muito concretas e vivas das ditas democracias: assim, do tema da justiça com J. Rawls, M. Walzer  e outros. A filosofia ético-moral encontrou nova força e, num certo sentido, os pensamentos da emancipação, da libertação (na América Latina), do feminismo deveriam ser inscritos nesta perspectiva. Trata-se menos de transformar o mundo do que de fazer calar injustiças, posições petrificadas, situações bloqueadas, ou de abrir debates novos em torno da ecologia (J.P. Dupuis, D. Bourg).


IHU On-Line - Quais os autores que considera atuais e relevantes no debate filosófico?

Paul Valadier -
Os autores pertinentes continuam sendo sempre os grandes clássicos. Podemos nós deixar de nos deter em Platão, Aristóteles, os estóicos, Kant ou Hegel? Evidentemente não, e talvez as filosofias atualmente mais fecundas sejam aquelas que não cessam de meditar e de reinterpretar as grandes questões lançadas pelos antigos, mas, a partir das questões que são as nossas... Cito como exemplo: Hannah Arendt, Eric Weil (infelizmente tão pouco conhecido apesar de sua obra maior, Lógica da filosofia), Simone Weil (que não se para de redescobrir), Levinas.


IHU On-Line - Como a Alemanha, a França possui uma sólida tradição filosófica. É possível falar de uma filosofia francesa em nossos dias? Por quê? O que a caracteriza?

Paul Valadier -
Existe, falando em sentido próprio, uma filosofia francesa? Alguns o afirmam. Sem dúvida, é preciso falar antes de um estado de espírito, de um modo de ver as coisas, de um olhar, menos sistemático que o espírito alemão, menos pragmático que o espírito anglo-saxão. Os franceses mais notáveis, aliás, quase sempre “dialogaram” com os alemães (Kant, Hegel, Marx, Heidegger), ou com os americanos (filosofia analítica, Lévi Strauss, pragmatismo). Hoje notar-se-ia antes um interesse pela história da filosofia, indefinidamente comentada sem muita inventividade, embora com muita fineza e penetração, ou uma reticência a se deixar instruir pelas ciências humanas, como foi recentemente o caso quando as ditas ciências tinham tenores reconhecidos: Claude Lévi-Strauss, J. Lacan, P. Bourdieu , R. Aron. Hoje já não é mais o caso. Antigos discípulos de Althusser  tentam devolver vida a concepções marxistas da política ou da sociedade: J. Rancière, A. Badiou , E. Balibar, mas são pensamentos marginais e até extravagantes (Zizek  filósofo esloveno plurilíngue!), estimados pela mídia, mas pouco apreciados por seus colegas filósofos. Pelo menos assim me parece. Sem dúvida se encontraria uma situação análoga na Itália em torno dos escritos de Toni Negri , influente também na França nos mesmos meios pós-marxistas.


IHU On-Line - Quais são os desafios de ser filósofo numa época marcada pela secularização e pelo relativismo?

Paul Valadier -
O desafio para a filosofia consistiria em ter ela mais audácia. De maneira estranha, é o que não cessaram de solicitar aos filósofos papas como João Paulo II (Encíclica Fides et Ratio, 1998) e Bento XVI (seus discursos em Regensburg ou na La Sapienza de Roma, que não pôde mais ser pronunciado ante a oposição de professores intolerantes): não vos detenhais na superfície, colocai os problemas fundamentais que dizem respeito à existência dos homens, ousai pensar (slogan kantiano retomado por alguns papas, o que é surpreendente). Eis o programa proposto! O que é uma crítica indireta tanto à fenomenologia, como à filosofia analítica que se situa deliberadamente numa postura pós-metafísica. Ora, o slogan da pós-metafísica caracteriza uma recusa do pensamento, uma autolimitação estanha para pensadores. Aí há incontestavelmente um desafio a realçar para uma filosofia viva (o que tenta na França um Remy Brague, Les ancres dans le ciel. L’infrastructure métaphysique [As âncoras no céu. A infra-estrutura metafísica], 2011. Uma filosofia que não responde às questões existenciais que se colocam os homens é digna deste nome? Mas, a filosofia é, sem dúvida, esmagada pela amplitude dos problemas enfrentados pela humanidade atual: não somente a ecologia e o futuro do planeta, mas o encontro das culturas e das religiões. O que pode e o que deve dizer a filosofia sobre essa maré dos sistemas de crenças, sobre a violência que ela por vezes gera, sobre a necessidade de uma compreensão mútua? Aqui a hermenêutica de um Gadamer pode prestar grandes serviços para se avançar num terreno difícil. Mas, os trabalhos de Hans Blumenberg também permitem interrogar o movimento de secularização e se perguntar se este é tão inelutável como tinham acreditado as filosofias da história.


IHU On-Line - Como a obra de Charles Taylor, Uma era secular, ajuda a compreender o tipo de sociedade ocidental na qual vivemos?

Paul Valadier -
Deste ponto de vista, a última obra de Charles Taylor  traz suas contribuições a esta reflexão. Uma era secular (São Leopoldo: Unisinos, 2010), recoloca, com efeito, a questão do lugar das crenças num universo desencantado. Este trabalho, muito e até demasiado abundante, não é absolutamente novo, mas ele também põe em causa a ideia de um progresso inelutável e unilateral da secularização. Ele mostra que este abala todos os sistemas de crenças, todas as filosofias, mesmo os ateísmos e que, portanto, ninguém sai indene da situação cultural de nosso tempo. Talvez ele desmonte admiravelmente sobretudo os mecanismos das lógicas que presidiram o advento desta época secular (a idéia de mobilização ou da autenticidade); diversamente de muitos outros, ele não poupa as teses da Reforma protestante e mostra bastante bem em quê elas nem sempre contribuíram ao melhor, longe disso, pelo menos no campo cultural e político.


IHU On-Line - Na última entrevista que concedeu a IHU On-Line, você escreveu que “a busca de um Deus tranqüilizador e ofuscante não está próxima de extinção”. Como entender esta constatação em contraposição à revivescência do divino à qual se refere na mesma entrevista, e a secularização de nosso tempo?

Paul Valadier -
A filosofia, enquanto reflexão livre e crítica, é parte constitutiva da modernidade democrática; isso se vê bem onde ela está entravada ou tornada impossível, em particular nas regiões em que domina o Islã: assim é a democracia que foi tornada inconcebível. Todavia, não é preciso ampliar o papel individual dos filósofos, nem seus engajamentos que frequentemente são mais do que discutíveis. Os neo-marxistas de que falei acima dão disso exemplos bastante tristes (exaltação de um maoísmo criminoso, sonho de um novo comunismo, ou anarquismo assumido, justificação do terror por Zizek!). É a filosofia como tal que representa esta caminhada de retorno sobre si, essencial a toda sociedade que procura melhorar a condição dos homens. Ela é necessária justamente enquanto não procura colar na atualidade, mas se concede os meios da distância, da reflexão, da amplitude de visão. A “théoria” é, para Platão, o que permite ver de cima e de longe e, portanto, de mensurar todas as dimensões da realidade.
A filosofia, sob o mesmo título que a literatura, está ameaçada pelos sistemas escolares ou universitários que crêem poder substituí-los somente pelas disciplinas científicas. Assim se corre o risco de formar tecnocratas ou especialistas sem alma e sem visão. O espetáculo do mundo financeiro dá a esse respeito um espetáculo muito triste: reinam aí traiders mais do que hábeis, mas sem escrúpulos e sem contato com a realidade vivida, porque encerrados no virtual onde os obstáculos podem sempre ser superados.


IHU On-Line - Descartes foi um dos alunos célebres dos jesuítas, estudante do La Flèche, em Paris. Como avalia a influência dos jesuítas no pensamento filosófico atual?

Paul Valadier -
É preciso lembrar o apego da tradição universitária jesuíta às letras clássicas, mas também às ciências. As primeiras não vão sem as outras, mas hoje são antes as “letras” que estão ameaçadas. Parece-me que, em fidelidade a si mesma, a tradição jesuíta deve honrar a filosofia para formar espíritos livres, críticos, refletidos, capazes de discutir, de justificar suas posições, de entender e compreender as dos outros. É inútil dizer que em relação à teologia, a filosofia é também essencial. Em sua falta corre-se o risco de soçobrar nos diversos iluminismos ou integrismos que também caracterizam a atualidade da vida eclesial. Essas atitudes são muitas vezes feitas em desprezo pela razão; ora, se existe uma tradição católica forte, é bem seu respeito pela razão em todo o seu alcance, sem a qual a fé soçobra no vazio. Os papas acima citados ainda insistiram recentemente neste ponto essencial, senão é o fideísmo que a faz submergir. Ora, o fideísmo é a ruína de uma fé entregue, em conhecimento de causa, à Sabedoria suprema e ao Verbo de Deus. Infelizmente, não é certo que estes papas sejam bem entendidos e ainda menos seguidos neste ponto. E é verdade que muitos suspeitam da filosofia moderna por seu ceticismo, seu relativismo, seu agnosticismo, e mesmo por seu ateísmo. Mas, uma fé viva deve poder enfrentar estes sistemas, não para esmagá-los por sua suficiência, mas para compreender suas lógicas e aprender a situar-se em relação a elas. Além disso, talvez seja a fé que pode dar à razão (aos filósofos) a coragem de pensar até o fim e não desabar na desconstrução niilista.



Leia mais...

>> Paul Valadier
já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 127 da Revista IHU On-Line, de 13-12-2004
* O futuro da autonomia, política e niilismo. Publicada na edição 220 da Revista IHU On-Line, de 21-05-2007
* “A esquerda francesa está perdida”. Publicada nas Notícias do Dia do site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 27-05-2007
* Narrar Deus no horizonte do niilismo: a reviviscência do divino. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009
* O desejo e a espontaneidade capciosa. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009
* A intransigência e os limites do compromisso. Publicada na edição 354 Revista IHU On-Line, de 20-12-2010
* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 15 dos Cadernos IHU em Formação
* A moral após o individualismo: a anarquia dos valores. Publicada na edição 31 dos Cadernos Teologia Pública

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