Edição 379 | 07 Novembro 2011

Sem grandes intuições, não há grande filosofia

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Márcia Junges e Graziela Wolfart

Para Julio Cabrera, o filósofo está sempre “inventando a roda”, ou seja, retomando os velhos temas da filosofia, repetindo e criando

“Hoje, o que foi retirado dos estudantes de filosofia é precisamente o risco de pensar e, por conseguinte, de fracassar. O estudante atual não corre outros riscos além de enfrentar com sucesso a sua banca de defesa final; mas sem riscos não há filosofia; pensar é sempre algo perigoso”. A reflexão é do professor Julio Cabrera, da UnB. Na entrevista que concedeu por e-mail para a IHU On-Line ele traz suas concepções sobre o que é fazer filosofia e o que entende pela filosofia no Brasil e na América Latina. Na visão de Cabrera, a Europa “não está interessada em nossa filosofia, e nem mesmo no que possamos vir a dizer sobre a filosofia europeia. Na verdade, a Europa não espera nada de nós, simplesmente não existimos para ela. Mas isso não é o pior, senão que esta indiferença pelo que pensamos desde a América Latina foi internalizada pelos próprios estudiosos latino-americanos de filosofia. Hoje em dia, a Europa não precisa perder seu tempo rejeitando-nos, porque ela já tem representantes internos que desempenham a contento esse papel excludente”.

Julio Ramón Cabrera Alvarez possui graduação e doutorado em Filosofia pela Universidad Nacional de Córdoba, Argentina. Lecionou nas universidades de Córdoba, Belgrano (Buenos Aires) e Santa Maria (RS). Atualmente é professor titular no Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília - UnB. É autor de, entre outros, O cinema pensa: uma introdução à filosofia através dos filmes (Rio de Janeiro: Rocco, 2006) e Margens das filosofias da linguagem (Brasília: Editora UnB, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os principais desafios de se filosofar na América Latina?

Julio Cabrera - O principal deles é que ninguém espera que um latino-americano filosofe. Quero dizer, num sentido autoral, além do comentário, a exegese, a historiografia ou tradução de autores europeus. O desafio na América Latina é simplesmente o de filosofar contra todas as expectativas. Todos os outros problemas são menos graves do que esse, que me parece o fundamental. Já no começo do século XX, muitos países latino-americanos começaram a se perguntar acerca de um filosofar desde a América Latina, e o problema da sua mera existência precedia a todos os problemas de essência: antes de discutir as temáticas e metodologias de um filosofar latino-americano, é preciso perguntar se poderá o pensador latino-americano filosofar.
Por um lado, é a própria velha Europa que não está interessada em nossa filosofia e nem mesmo no que possamos vir a dizer sobre a filosofia europeia. Na verdade, a Europa não espera nada de nós, simplesmente não existimos para ela. Mas isso não é o pior, senão que esta indiferença pelo que pensamos desde a América Latina foi internalizada pelos próprios estudiosos latino-americanos de filosofia. Hoje em dia a Europa não precisa perder seu tempo rejeitando-nos, porque ela já tem representantes internos que desempenham a contento esse papel excludente. Sendo o problema crucial de um filosofar desde a América Latina o da sua própria existência, trata-se de insurgir-se contra aquilo que impede esse filosofar; nos países hispano-americanos, ao longo do século XX, tem deslanchado uma vigorosa reflexão sobre este processo de libertação, indispensável para ganhar uma voz. É claro para essas tendências filosóficas que o crucial é criar as nossas próprias tradições de pensamento.

IHU On-Line - E no Brasil, quais são as peculiaridades da reflexão filosófica para além de nacionalismos e universalismos? Qual é a sua percepção sobre o tipo de filosofia e pesquisa filosófica que se faz aqui no país? Que limites e possibilidades se apresentam?

Julio Cabrera – Infelizmente, a filosofia brasileira não tem participado com a mesma intensidade, a meu ver, desse processo de insurgência que mencionei antes. Vou começar tentando descrever a postura predominante e depois expor o que me parece equivocado nela. Essa postura consta das seguintes ideias:
Foi com a criação das universidades no século XX e com a posterior implementação dos programas de pós-graduação em filosofia no país que começou a haver realmente filosofia no Brasil. Antes disso, só havia diletantismo, improvisação, autodidatismo, falta de profissionalismo no tratamento das fontes, leituras arbitrárias e interpretações mal fundamentadas. O passado filosófico brasileiro pode ser visitado de vez em quando com o respeito que merece um acervo cultural autóctone, mas do qual não se poderia extrair uma única obra filosófica significativa nem um autêntico pensador.
Um pensamento brasileiro, num sentido nacional, não faz qualquer sentido, considerando que a filosofia é uma atividade de caráter eminentemente universal; se lermos os pensadores vindos da Europa, não é por serem franceses ou alemães, mas por eles terem colocado problemas universais, válidos e importantes para toda a humanidade; na medida em que o pensamento brasileiro queira inserir-se nesse contexto universal da filosofia, terá que tentar produzir obras que possam fazer contribuições significativas para o pensamento universal, tal como apresentado e desenvolvido pelos grandes pensadores europeus.

Conhecer a história da filosofia
Para um pensamento brasileiro surgir, será preciso, antes, termos sólidos conhecimentos de história da filosofia – entendida como história da filosofia europeia; não se pode pensar em fazer filosofia no vazio, desde o nada, sem longos estudos preparatórios; não se pode falar sem conhecer e não se podem correr riscos de “inventar a roda”; filosofia brasileira sem passar por esse longo e trabalhoso preparo é pura irresponsabilidade intelectual; é ignorar todo o que foi conquistado através do longo e penoso processo de profissionalização da filosofia ao longo das décadas.
A produção filosófica é, pois, exclusivamente universitária, traduzida em papers, livros, aulas, etc., que são avaliados pelos pares e pelos organismos competentes; a metodologia do que for produzido (tanto por estudantes como por professores) consiste na defesa de ideias mediante argumentação e com sólidos apoios bibliográficos, deixando-se de lado estilos narrativos ou literários e norteando-se pela tradição filosófica ocidental.

No bom caminho

A situação da filosofia no Brasil está muito boa e no bom caminho: as pós-graduações estão consolidadas; o ensino transmitido é de boa qualidade e um número considerável de estudantes é formado nesses padrões ano após ano; nos encontros de filosofia se apresentam trabalhos filosóficos de todas as linhas do pensamento europeu, desde marxismo à filosofia analítica e fenomenologia; esses eventos têm sido acompanhados por numeroso público crescentemente interessado em filosofia; um considerável acervo de obras filosóficas clássicas tem sido traduzido para o português; existem muitas revistas e meios de comunicação de ideias filosóficas e o trabalho filosófico tem atingido um alto padrão de profissionalismo e excelência.

Devo dizer que não estou nada otimista a respeito do futuro da filosofia no Brasil se persistir a vigência deste padrão. Creio que esse se ressente de uma grave e curiosa contradição interna: de um lado, se reconhecem como grandes filósofos pensadores como Kierkegaard, Fichte, Mill, Nietzsche, Wittgenstein e Heidegger; de outro lado, os padrões de excelência filosófica estabelecidos não seriam satisfeitos por nenhum desses filósofos: o padrão nos obriga a estudar esses filósofos, mas nos proibe fazer filosofia como eles. Para fugir da contradição, o sistema vigente teria que declarar clara e abertamente que não está interessado em abrir as possibilidades de um filósofo surgir, mas apenas em formar profissionais competentes, bons professores de filosofia, mas não filósofos (no sentido dos que o próprio padrão considera como grandes pensadores). Há, de fato, na situação atual uma atitude cética (quase diria niilista) a respeito de que o jovem estudante de filosofia possa transformar-se num pensador; parece partir-se da convicção de que isso seja impossível.
Decorrente dessa ideia central, as minhas observações mais específicas sobre a atual situação dos estudos filosóficos no Brasil são as seguintes:

A criação de universidades e a implementação das pós-graduações foi algo bom por aperfeiçoar as técnicas de tratamento de autores dentro de trabalhos exegéticos; ou seja, ensinou a fazer de maneira melhor o que, por exemplo, Farias Brito  tentou fazer de maneira desorganizada e imperfeita. Já li um autor se queixando de Tobias Barreto  ter mencionado um pensador alemão do qual nada se sabe, porque Tobias esqueceu de mencionar a fonte. Trata-se de trabalho filosófico mal feito do ponto de vista técnico, e isso é algo que a atual situação ajudou a superar; hoje ninguém que se ocupa com filosofia comete esses erros grosseiros. Entretanto, nem tudo foram ganhos: Tobias Barreto e Farias Brito tinham um espírito filosófico autoral que se perdeu na face profissional; eles (e Silvio Romero , e Arthur Orlando, e tantos outros) tentavam apropriações do que liam e se preocupavam mais com um filosofar desde a própria situação pensante; além do mais, faziam algo do qual sentimos falta atualmente: escreviam uns sobre os outros (Silvio Romero escreveu sobre Tobias, Orlando sobre Romero e Tobias, Jackson de Figueiredo  sobre Farias Brito, Vilém Flusser  sobre Vicente F. Da Silva, etc.). Creio que os profissionais de filosofia são injustos com seu passado filosófico: há muitas ideias importantes nos autores mencionados e outros, mesmo que seus projetos tenham fracassado em seu conjunto; mas fracassaram como só um filósofo pode fracassar. Hoje, o que foi retirado dos estudantes de filosofia é precisamente o risco de pensar e, por conseguinte, o de fracassar. O estudante atual não corre outros riscos além de enfrentar com sucesso a sua banca de defesa final; mas sem riscos não há filosofia; pensar é sempre algo perigoso.

Um filosofar histórico-existencial
Pensar desde o Brasil não tem que assumir as feições de um projeto “nacional”; o “desde” de um filosofar não é apenas geográfico, mas histórico-existencial; trata-se, por exemplo, de pensar Wittgenstein a partir de problemas e situações brasileiras e latino-americanas, em lugar de tentar repeti-lo e explicá-lo incansavelmente, ou tentar pensá-lo desde outras situações (por exemplo, saber se Wittgenstein está ou não inserido na filosofia austríaca). Na filosofia hispano-americana já se colocou em xeque há muitos anos – pelo menos desde os escritos de Leopoldo Zea e Salazar Bondy – a identificação entre o “universal” e o europeu; a Europa situou problemas universais a partir da sua perspectiva histórico-existencial e nós, latino-americanos, deveríamos fazer o que eles fizeram, situar os universais desde nossa perspectiva pensante (que inclui, por exemplo, a conquista, uma experiência que o europeu nunca teve). Desse modo, nos afastaríamos tanto de um nacionalismo hoje impensável quanto de um universalismo abstrato, aquele que impera atualmente na comunidade brasileira.

O conhecimento de história da filosofia europeia é apenas aconselhável, ou recomendável, mas não é nem necessário nem suficiente para fazer filosofia autoral. Esse é talvez o ponto mais controverso e aquele que desperta mais irritação nos profissionais da filosofia. Em primeiro lugar, história da filosofia deveria entender-se não apenas como história da filosofia europeia; deveria ensinar-se aos estudantes também história do pensamento latino-americano e, no caso do Brasil, de pensamento africano, por exemplo. Mas nem mesmo isso é necessário ou suficiente para filosofar; muitos dos que consideramos grandes filósofos tinham conhecimentos às vezes muito limitados sobre história da filosofia. É difícil apreender Platão através de Aristóteles, Descartes através de Spinoza, Schopenhauer através de Nietzsche ou Heidegger através de Sartre , porque todos estes filósofos não se limitaram a “conhecer” a história da filosofia anterior, mas se apossaram dela de maneiras muito criativas e “deturpadoras”. De maneira que a própria história da filosofia europeia – a favorita exclusiva dos profissionais – mostra que um sólido conhecimento de história da filosofia nunca foi necessário para fazer grande filosofia (aquela mesma que os profissionais consideram tal). Por outro lado, o exército de pesquisadores competentes que fazem introduções, comentários, análises, etc., de filósofos europeus e conhecem perfeitamente toda a história da filosofia, mas que não apresentaram um pensamento próprio, mostra que este conhecimento tampouco é condição suficiente para filosofar. Eu creio que, num sentido profundo, o filósofo sempre pensa “a partir do nada”, mesmo que conheça perfeitamente toda a história da filosofia (como Heidegger a conhecia). E, num sentido igualmente profundo, o filósofo está sempre “inventando a roda”, ou seja, retomando os velhos temas da filosofia, sempre repetindo e sempre criando.

“Isso não é filosofia?”

Os filósofos europeus, ao longo de toda a sua história, produziram filosofia em todos os estilos possíveis (diálogos, poemas, ensaios, tratados, aforismos, controvérsias, cartas, etc.). Nem sempre foram argumentativos, muitas vezes foram narrativos, metafóricos, retóricos, imagéticos. As universidades deveriam abrir espaço para que os estudantes pudessem escrever também nesses estilos, sob a devida orientação de seus professores para obter resultados profícuos; mas não fechar essas possibilidades de expressão de pensamentos (com a afirmação taxativa de “Isso não é filosofia!”). Um trabalho filosófico pode valer mais pelas suas intuições do que pelos seus argumentos; dificilmente chamaríamos de grande pensador um que simplesmente arguisse brilhantemente; sem grandes intuições, não há grande filosofia. Esse acento no tecido analítico-argumentativo dos trabalhos filosóficos, proibindo o estalo das grandes intuições sintéticas, pode estar tolhendo muitas vocações filosóficas.
Assim, a situação da filosofia no Brasil não está boa se quisermos que o Brasil tenha alguma presença nas futuras histórias do pensamento latino-americano. Não digo europeu, porque nas histórias da filosofia europeia continuarão sem aparecer pensadores argentinos, chilenos ou brasileiros, mesmos que eles sigam o figurino. A situação no Brasil, a meu ver (e tal como o coloquei em meu Diário de um filósofo no Brasil, de 2010),  poderia melhorar se as universidades não se contentassem com formar comentadores e exegetas competentes (que também são necessários e úteis e cumprem uma função importante no ensino da filosofia), mas abrissem espaços para os estudantes que assim o desejarem tentarem trabalhos mais autorais, com menos acento na erudição histórica, com mais espírito de apropriação, e usando estilos alternativos.

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