Edição 379 | 07 Novembro 2011

A filosofia atrás de uma muralha?

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Márcia Junges

Arraigada em seu historicismo e atrasada no diálogo com o mundo digital, a filosofia permanece “muda” em relação às redes sociais, constata Massimo Canevacci. A relação desse saber com a antropologia é “infeliz”

Assim como a coruja de minerva, que só levanta voo ao entardecer, “o filosofar contemporâneo, se chega, chega atrasado demais”. A crítica é do filósofo e antropólogo italiano Massimo Canevacci, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “A filosofia me parece ausente. A lógica dela é, ainda, só analógica e não consegue aceitar o desafio de penetrar criticamente na cultura digital”, completa. “Não conheço um filósofo que acompanhou (não digo antecipou) os movimentos das redes sociais”. Em sua opinião, a filosofia permanece muda frente a cultura digital, que é “mais do que somente técnica, é uma fratura deslocante em relação à modernidade”. Canevacci assevera a necessidade da universidade “sair de si própria, de seus muros”, além de abandonar a separação rígida entre os saberes. E desafia: “Steve Jobs cria dispositivos horizontais e inovadores: Agamben reproduz a verticalidade separada da filosofia/muralha. Filosofia murada”.

Massimo Canevacci é doutor em Letras e Filosofia pela Universidade Degli Studi di Roma La Sapienza - URS, na Itália, de onde é natural. Leciona antropologia cultural, arte e culturas digitais nessa mesma instituição e é professor visitante na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Publicou vários trabalhos sobre a realidade brasileira. É autor de livros como Antropologia da comunicação visual (Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2001), Fetichismos visuais (São Paulo: Atelier Editorial, 2008) e Antropologia do cinema (São Paulo: Editora Brasiliense. 1990), Fake in China (Maceió: Edufal, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Com a popularização das redes sociais surgem novas maneiras de manifestação e participação política. Como essas redes impactam a filosofia e o filosofar contemporâneos?

Massimo Canevacci – A filosofia me parece ausente. A lógica dela é, ainda, só analógica e não consegue aceitar o desafio de penetrar criticamente na cultura digital. A política nasceu com a filosofia em relação à cidade-estado. Agora a política vai além da sua filologia clássica: é um cruzamento de comunicação expandida, horizontal, baseada sobre a autorrepresentaçao de cada sujeito, desafia o dualismo filosófico, é transcultural e além do estado-nação. O filosofar contemporâneo precisa se colocar onde os conflitos nascem com práticas diferentes daquelas modernas. A filosofia atual não só aceitou de novo as “duas culturas”, mas gosta de se separar com um orgulho provinciano/periférico de tudo o que acontece no âmbito das ciências assim ditas exatas. Informática e física vão além da filosofia atual. Não é só a reprodução daquele que se chamava “duas culturas”: é pior. É imaginar que os filósofos defendem o passado moderno, industrialista, classista, em que eles acharam de ter um papel moral. O filosofar contemporâneo é distante, e diria o inimigo de tudo o que está modificando culturas, tecnologia, subjetividades, metrópoles, artes, ubiquidade, identidades, etc.

Trilha originária
O filosofar contemporâneo, se chega, chega atrasado demais. Gregory Bateson  e Norbert Wiener  trabalharam juntos durante a elaboração da cibernética porque o primeiro descobriu na sua pesquisa etnográfica na cultura Iatmul o conceito de schismogenesi, que se tornou o feedback. Uma dialógica flutuante entre antropologia e matemática/física formou a cibernética, isto é, aquilo que agora é a cultura digital. E os filósofos? Ainda imaginam o vilarejo puro e o caminho pela trilha originária? Você conhece um filósofo que lembra de McLuhan ? Será porque Heidegger é ainda hegemônico em muitas universidades através de discípulos que controlam o poder acadêmico? Se a política está ubiquamente dentro e fora da cidade (da polis), parece que a filosofia não consegue participar. A filosofia parece não ser ubíqua, no sentido do cruzamento espaço/tempo que a experiência digital favorece. Não conheço um filósofo que acompanhou (não digo antecipou) os movimentos das redes sociais.

IHU On-Line – Pode-se dizer que a internet é uma nova ágora? Por quê?

Massimo Canevacci – Na ágora, a única subjetividade presente era do homem cidadão: mulheres, escravos, bárbaros eram excluídos. Eu tenho dúvida e resistência sobre a maneira de fixar o pensamento conceitual (também como metáfora) sobre um passado grego eterno como supostamente a filosofia imagina a si mesma. A internet não é somente um espaço digital material/imaterial (e-space): é também uma maneira de poder enfrentar, interpretar, furar e transformar a monológica do domínio dicotômico que a ágora historicamente presenteava. É uma escritura não somente alfabética, mas uma composição icônica, sônica, visual. A ágora é identitária, é um lugar certo no centro da cidade, onde a arte política é baseada sobre a retórica. A internet é um direito da humanidade, como a saúde, a casa, a cidadania e isso significa que cada pessoa no mundo deveria ter acesso a ela. A rede é deslocada, flutuante, desenvolve uma multidão de identidades por sujeito, favorece um multivíduo ubíquo, como eu gosto de dizer; talvez incorpora o além da era pós-colonial. Não se fala uma única língua, apesar de o inglês ser fundamental e, ao mesmo tempo, é um webpidgin: a retórica não funciona; a comunicação (mais que o discurso) é um fluxo de expressividades diferentes e coexistentes: multilógicas, transculturas, plurissensoriais. A internet não está só dentro da tradição eurocêntrica. Ela está, simultaneamente, dentro e fora. Gosto de sublinhar mais as descontinuidades da cultura digital do que uma suposta continuidade. A cultura digital, mais do que somente técnica, é uma fratura deslocante em relação à modernidade: e assim a filosofia fica muda.

IHU On-Line – Nesse sentido, como podemos compreender o “saber analógico” que as universidades ainda detêm, e como esse tipo de saber é apropriado e retrabalhado pelo pensamento filosófico?

Massimo Canevacci – A formação das universidades, com suas faculdades, departamentos e curriculum vitae de muitos professores não é adequada ao desafio atual. Um aluno deveria criar um CV específico, participando nas aulas em qualquer universidade-mundo. Também a universidade é ubíqua. A racionalidade não é singular-universal e ainda menos fixa, mas modifica-se quando acontecem eventos históricos determinantes. A revolução digital imprime uma aceleração e diferenciação no saber como foi (mutatis mutandis) na revolução industrial. Naquela época nasceu uma nova dialética (Hegel, Marx etc.), mas agora a dialética é morta, e a síntese é instrumento arqueológico de um domínio em crise e que ainda tenta, às vezes, utilizá-la. Por isso a universidade precisa de sair de si própria, de seus muros. A universidade é uma muralha que agora tenta se defender de tudo aquilo que avança. A separação rígida do saber e da disciplina precisa de ser colocada em crise.

A divisão comunicacional do trabalho é mais significativa daquela divisão social que Marx acreditava fundamental dissolver: quem comunica e quem é comunicado é um conflito político/comunicacional. A autorrepresentação é vontade política de não delegar a nenhum (em primeiro lugar aos antropólogos) a própria história e as próprias narrações. É o problema de uma inovadora política comunicacional na qual ninguém quer delegar nada a ninguém. Dever-se-iam favorecer alunos e pesquisadores em direção de desenvolver um tipo de pesquisa descentrada, individualizada, transdisciplinar, além do saber por departamentos. Cada departamento está se tornando uma gate community. Steve Jobs , por exemplo, pode ser considerado um filósofo contemporâneo, como a arquiteta Zaha Hadid , filósofa ainda mais criativa de novas perspectivas pós-euclideanas nas experiências urbanas diagonais. O mesmo se pode dizer de muitos músicos, como Björk , que elaborando os sons por Ipad (Biophilia) – cria uma filosofa da música que horizontaliza o escutar ativo/compositivo de cada um.

IHU On-Line – Como se dá o diálogo entre a antropologia e a filosofia? Quais são os principais pontos de contato entre ambas as ciências?

Massimo Canevacci – É um diálogo infeliz. A filosofia entende ainda a antropologia como uma elaboração das invariantes pelo homo sapiens: conceitos fundantes, arquetípicos, imutáveis. Ainda não coloca o adjetivo cultural atrás dela. E ciência do imodificável, do eterno sem retorno. Não conheço um filósofo que entendeu a revolução recente da antropologia cultural, isto é nos últimos 20 ou 30 anos: talvez sò Rorty  escreveu que a filosofia deveria aprender pela antropologia cultural, diluir-se nela. Os filósofos atuais não entendem a revolução moderada que aconteceu a partir da Geertz e, depois, mais radical, mas incompleta, pelo grupo de “Writing Culture”. Antropologia é ainda só Lévi-Strauss, justamente pela fraternidade entre estruturalismo e ciência das invariantes.
Os filósofos xavantes ou bororo que eu conheço não são percebidos ou ouvidos pelos filósofos brasileiros. Por outro lado, os antropólogos culturais (os etnógrafos) precisam fazer pesquisa empírica elaborando processualmente reflexões filosóficas que transitam, misturam, sincretizam tratos locais com tensões mais complexas. Os antropólogos poderiam elaborar pensamentos criativos, descentrados, horizontais/verticais, material/imateriais pós-dualistas. Os pontos de contatos deveriam abordar as subjetividades que emergem a partir da transformação profunda entre aldeia e metrópole. Esse trânsito complexo/sincrético, além de uma definição disciplinar ou disciplinada, precisa renovar métodos, conceitos, paradigmas, composições.

Na cultura bororo, a cosmogonia sacral ou uma pragmática ritual performática como desafio a uma morte percebida como domínio por as religiões monoteístas é uma filosofia num sentido estranho. Um canto/choro bororo na frente de uma caveira que se transforma em antenado sagrado, que chama ao som das maracás e de uma voz rítmica todos os mortos de todos os tempos pra tentar estabelecer uma interconexão profunda entre morte/vida: esse foi o evento da minha vida que tento de contar, descrever, escrever e também fotografar e que deixa os filósofos indiferentes, quase enfastiados por uma relíquia do passado. O filósofo parece que não gosta mais de perguntar. E o antropólogo parece não ser penetrado pela webcultura. O ponto é transitivo: a filosofia que aceita se transformar poderia oferecer uma outra maneira para desenvolver critérios metodológicos e narrativos experimentais, conceitos sensoriais e composições multilinguísticas. Os pontos transitivos significam que o antropólogo e filósofo, seja nascido nas metrópoles ou nas aldeias, precisam dialogar para enfrentar o controle ainda colonial dos missionários que, únicos e por uma lei inexistente, podem continuar a morar nas aldeias.

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