Edição 379 | 07 Novembro 2011

Filosofia não é, necessariamente, sistema

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Márcia Junges

Nem Platão, nem Tomás de Aquino foram sistemáticos. Para Heidegger, o sistema correspondia ao cartesianismo, e a demanda por esse tipo de filosofia vem na esteira do romantismo alemão, observa Roberto Romano

“A ‘desregulamentação’ do universo financeiro, o poder concedido a ‘agências de risco’ que elevam ou rebaixam notas de países ou regiões inteiras do globo terrestre, a paralisia dos governos diante de semelhantes bandidos, ou mesmo sua cumplicidade em relação aos que, negando todos os princípios e valores almejam o lucro, tudo mostra que entramos numa era em que o humano está sendo reduzido a suporte de uma categoria financeira, como enuncia Marx no introito de O capital, o lucro”. A reflexão de Roberto Romano perscruta os efeitos do relativismo e do niilismo ético em nossos dias. “Quem deseja verificar os resultados do niilismo em marcha assista o filme Inside job, sobre o império de Wall Street na suposta maior potência estatal do planeta. Império que se espraia pelo mundo inteiro. Mas tudo, mesmo a recusa de princípios axiológicos, tem limites”. Outro tema da entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line é o diálogo da filosofia com outras áreas do conhecimento: “O trato interdisciplinar ainda é um mito, pois os estudantes e professores de filosofia que entram em terrenos limítrofes dificilmente são valorizados pelos pares”. Além disso, desafia, é recente o imperativo de que a filosofia seja feita de forma sistemática. Essa concepção surgiu “nos anos românticos que espalharam esquemas sobre o pensamento pretérito (atribuindo algo como um sistema a Kant, quando sua filosofia notoriamente apresenta lacunas e descontinuidades) e sobre o que veio depois de Hegel, Schelling e outros”. E completa: “Heidegger vai ao ponto dolorido ao dizer que o sistema corresponde ao cartesianismo, mas que nem Platão nem Tomás de Aquino foram sistemáticos, o que não significa que não foram rigorosos. Nas próprias Luzes o sistema já era algo considerado prejudicial ao pensamento filosófico”.

Roberto Romano cursou doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS, na França, e é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Escreveu, entre outros, os livros Igreja contra Estado. Crítica ao populismo católico (São Paulo: Kairós, 1979), Conservadorismo romântico (2ª ed. São Paulo: Ed. Unesp, 1997) e Moral e Ciência. A monstruosidade no século XVIII (São Paulo: Senac Ed., 2002). Atualmente leciona na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Na entrevista que concedeu em dezembro à IHU On-Line, o senhor se refere a um “mercadejo ético”, no qual “o caráter dos indivíduos e grupos é corroído de alto a baixo” . Qual é a relevância de temas como o relativismo e o niilismo ético na filosofia hoje?

Roberto Romano – Quando um valor é inventado, ele se torna de certo modo modelo de comportamento ético. Por mimetismo, as sociedades e indivíduos tendem a repeti-lo automaticamente, garantindo a sobrevivência da sociedade. O mesmo ocorre, em sentido contrário, com o valor negativo. Se ele surge e se impõe, também pode ser retomado como segunda natureza, conduzindo a sociedade que o pratica à indefinida agonia. Mas valor e contravalor são corroídos pelo niilismo, o que retira do relacionamento social qualquer parâmetro valorativo. Abrem-se as portas do estado de natureza, desaparece o fundamento das leis. A lição platônica é relevante no caso. Quando A República  narra a passagem da política democrática à tirânica, Platão  põe na boca dos cidadãos acostumados à licença a frase segundo a qual quem segue a lei é um “escravo voluntário”. A lei não pode impor comportamentos, é fraca soberana. Segue-se que, para ser livre, é preciso abandonar o respeito pela lei. Os totalitarismos foram iniciados por partidos que visavam abolir a lei vigente. Claude Lefort , no comentário ao Arquipélago Gulag  diz que apenas bandidos abolem as leis. Mas quantos bandidos controlaram o Estado nazista, fascista, stalinista e outros! A recusa em obedecer a lei resulta em massacres, genocídios, torturas, exílios, prisões para os que não foram beneficiados com o poder baseado na força. Sem a lei, os filhotes de Trasímaco  encontram facilidades adequadas para suas façanhas.
Marcello Gigante , em Nomos Basileus  apresenta um tratamento clássico do tema. Como ele mesmo diz, o assunto toca fundo no problema da justiça e no “problema da legitimidade e da injustiça”. E também na questão da legitimidade da violência no mundo dos violentos. Hoje, adianta ele, “a violência é praticada em nome do ‘direito’ do punho, descoberta antiga do homem ainda deseducado. Mas tal ‘direito’ não tem raiz divina, nem o homem conseguiria codificá-lo. Hoje o interesse econômico elevou a nomos novíssimo uma história inglória, com a violência do mais forte sobre os mais fracos. Sobram apenas as teorias ‘intimistas’ do desfalecimento da consciência moral, e cuja ação inclui os procedimentos tortuosos e de bajulação”. Lúcido Gigante, profeta dos horrores passados e futuros e Wall Street, escreve logo após a II Guerra Mundial, com o fascismo aparentemente vencido, bem como o nazismo. O estalinismo estava no auge. A pergunta sobre o político, o republicano, o justo, permanece, bem como a questão dos saber se obedecemos leis ou somos servos de outros homens. Com base na força física dos Estados, bandidos do mundo financeiro atacam o direito à vida de humanos aos milhões. Prestemos atenção às massas que, na Europa e também em Israel, protestam contra as “medidas inadiáveis”, as lições de casa escritas no lombo dos “negativamente privilegiados” (o termo é de Max Weber ). Notemos também os cassetetes, os tanques e todos os engenhos militares contra pessoas desarmadas e munidas apenas de indignação e que exigem emprego e dignidade. Os nossos governantes seguem mesmo as lições de Trasímaco, com leve matiz de esquerda ou direita para encobrir o fascismo das finanças.

Niilismo em marcha

E o niilismo tem muito a ver com tal prática corrosiva. A “desregulamentação” do universo financeiro, o poder concedido a “agências de risco” que elevam ou rebaixam notas de países ou regiões inteiras do globo terrestre, a paralisia dos governos diante de semelhantes bandidos, ou mesmo sua cumplicidade em relação aos que, negando todos os princípios e valores almejam o lucro, tudo mostra que entramos numa era em que o humano está sendo reduzido a suporte de uma categoria financeira, como enuncia Marx  no introito de O capital, o lucro. Esse último promove o processo de corrosão dos valores (o termo Auflösung, usado pelo ainda jovem Marx para elogiar a lógica “progressista” da burguesia, é eloquente) e de tudo o que poderia receber alguma solidez no caos chamado humanidade.
Quem deseja verificar os resultados do niilismo em marcha assista o filme Inside job  sobre o império de Wall Street na suposta maior potência estatal do planeta. Império que se espraia pelo mundo inteiro. Mas tudo, mesmo a recusa de princípios axiológicos, tem limites. Quando uma sociedade democrática abandona seus valores em favor de oligarquias poderosas, surge a outra face de Trasímaco, trazendo esperanças de recuperar o antigo estado de coisas segundo métodos violentos.

Não é possível esquecer que Marcello Gigante escreve quase ao mesmo tempo que Carl Schmitt , autor de O nomos da Terra. Se a lei não é seguida, sobe o clamor por um Katechon, um Soter, um líder que decida contra a corrosão do direito. Ele decide contra os privatismos acarinhados pelo mundo liberal (leia-se a atualíssima crítica dos parlamentos feita por Schmitt em A crise da democracia parlamentar) e pelos grupos financeiros. Sendo impossível viver sob corrosão permanente, o movimento contrário procura uma unidade social baseada na força e na liderança carismática de um indivíduo ou partido. Gargalhar com a falta de valores pode ser útil para quem se aproveita da corrosão generalizada, com as privatizações rendosas, desregulamentações fraudulentas. Mas assim se retiram dos seres humanos os parâmetros vitais que lhes permitiriam resistir ao poder dos bandidos. O ressurgimento do movimento nazista no mundo (“neonazismo” é disfarce criminoso) mostra que, no abismo trazido pela negação dos valores, abre-se um ventre fértil de desgraças iminentes.

IHU On-Line – Quais são as grandes linhas, os grandes temas, da filosofia atualmente?

Roberto Romano – Se é verdade que toda a filosofia se resume a uma nota de pé de página a Platão (e acredito), um tema essencial é a história da filosofia, que indica o modo pelo qual os diferentes herdeiros, a começar de Aristóteles , pensaram o homem e a natureza. Ao mesmo tempo, a pesquisa estética traz alimento para a alma, num tempo em que as mudanças tecnológicas chegam ao paroxismo. Talvez não estejamos muito longe da época, profetizada por Novalis , na qual será preciso, de fato, “introduzir alma na máquina”. Quase no mesmo terreno, temos as reflexões sobre a cibernética, a neurociência e tudo o que promete o enhancement do ser humano, visando ultrapassar limites até hoje obedecidos na engenharia do corpo e da mente. Nesse sentido, a política e o Estado atravessam uma crise ímpar, porque ao mesmo tempo se aproveitam de tais procedimentos (sobretudo em plano bélico e financeiro) e são por eles ameaçados. Temas como a soberania dos países tendem a se tornar anacrônicos, deixando as massas sem proteção possível. Tal problema foi exposto por um jurista do trabalho, tempos atrás (na comemoração da Encíclica Rerum Novarum  em São Paulo): hoje uma pessoa residente no Rio de Janeiro pode trabalhar para outra, que mora em Moscou ou em Tokyo. Quem garante a sua aposentadoria, o seu tratamento médico, a sua educação ou segurança? Com a privatização definitiva do público, algo muito prezado pelos filhos de Hayek, teremos o fim do Estado? Haverá forma institucional que substitua o antigo (mas em termos históricos muito novo, pois data do século XVI) mecanismo estatal? Como produzir elos entre as pessoas, se elas não possuem novos paradigmas de comportamento coletivo que permitam abolir os monopólios entregues ao Leviatã, como o da força física, da norma jurídica, dos impostos?

Melhoramento do humano

Num ambiente noético cambiante, instável, existem trabalhos interdisciplinares que tentam achar algumas pistas. Cito, entre vários, um pequeno livro denominado justamente ‘Enhancement’, éthique et philosophie de la médecine d’amélioration, reunindo escritos de especialistas nos vários setores . Antonio Damasio (Self comes to brain) , Jonathan Moreno (Minds wars: brain research and national security)  e outros, apresentam os desafios da tecnologia que pretende “melhorar” o ente humano. Se é verdade, como quer André Leroi-Gourhan, que somos demiurgos do nosso próprio corpo, vivemos desde o início da aventura planetária em tecnosfera, hoje os limites entre o biológico, o psicológico, o intelectual e o mecânico se tornam a cada minuto mais tênues. Aprofundamos as ambições das Luzes, com seu culto às técnicas herdado de Francis Bacon  e Descartes  (o Homem máquina de La Mettrie  é ícone da coisa, entrevista por Platão e idealizada no Leviatã), mas não sabemos, ao certo, como prever consequências desastrosas, para nós ou para o nosso habitáculo cósmico. Reflexões como a de Hans Jonas , portanto, são inelutáveis. Modestamente, em meu livro Moral e ciência: a monstruosidade no século XVIII  tentei apresentar as premissas de semelhantes aporias no pensamento de Denis Diderot .

IHU On-Line – Qual é a relevância da filosofia num tempo em que a economia possui preponderância sobre as outras esferas da sociedade?

Roberto Romano – Primeiro, uma questão histórica. Como fruto da especialização universitária, a filosofia foi posta, a cada instante mais fortemente, num campo que não é o seu, o das ciências humanas. Tal foi o grande equívoco. Ela não se limita ao campo das humanidades, mas sempre teve o impulso e a ambição de interrogar a natureza (e o que vai além dela), as artes, a religião, a política. Michel Foucault , em As palavras e as coisas, procura mostrar, em sentido polêmico, o frágil estatuto das ciências humanas no campo epistêmico. Ele enuncia que a economia é das poucas disciplinas que atingiram uma axiomatização preliminar que lhe garante algum terreno no sistema de saber contemporâneo. Ora, a filosofia, desde Platão pelo menos, é companheira das matemáticas, do cálculo, etc. Esse ponto é notável no saber antigo e moderno (por exemplo em Descartes, Hobbes , Leibniz , mesmo em Kant , Hegel , Marx). Com a sua inserção burocrática e dogmática no campo das ciências humanas, ela se afastou das matemáticas, sobretudo no ensino da graduação. No mesmo passo a economia usa e abusa de uma retórica, a estatística, para edificar seu discurso e sua intervenção no mundo social. Filósofos não conseguem seguir, por não terem recebido ensinamentos matemáticos sólidos, os enunciados de seus colegas economistas. Ou seja, não conseguem retomar a crítica, seja em sentido kantiano, seja em sentido marxista, da economia. A retórica econômica garante aos seus defensores o estatuto de novos artífices do Estado no mesmo passo em que a filosofia foi encerrada num campo menor do que o seu, o das ciências humanas.
Quando digo que a estatística compõe na economia uma retórica, não pretendo enunciar que toda ela integra a arte da persuasão, pois cumpre o papel de auxiliar metodológico em muitos campos da pesquisa científica e humanística. Só indico que a ojeriza atual de numerosos cursos de filosofia à lógica, às matemáticas, à própria estatística, serve apenas para afastar a análise filosófica das questões pertinentes, no mundo efetivo das pessoas.

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