Edição 378 | 31 Outubro 2011

Uma obra em debate com o cartesianismo

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Márcia Junges / Tradução: Benno Dischinger

Legado de Merleau-Ponty é, “acima de tudo”, um debate com a tradição filosófica dualista, ressalta Mauro Carbone. Referências literárias e artísticas são uma constante ao longo de seus escritos

Após o grande “boom” da redescoberta dos textos de Merleau-Ponty nos anos 90 do século XX, o estudo de seu pensamento ganha novo fôlego “em duas das questões às quais a atual reflexão filosófica internacional resulta mais sensível: de um lado, os desenvolvimentos das ciências neurológicas e, do outro, o estatuto assumido pelas imagens de nossa época também à luz da revolução digital“. A constatação é do filósofo italiano Mauro Carbone, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Quem lê os textos desse pensador fica impressionado com a centralidade e frequência das referências literárias e artísticas, desde a pintura até o cinema e à música, garante. Carbone examina, ainda, a influência da Fenomenologia do espírito de Hegel sobre a filosofia de Merleau-Ponty: “Direi que Merleau-Ponty dialoga com a Fenomenologia do espírito sobretudo em torno ao problema de como conceber a filosofia de modo que ela resulte realmente em condições de conduzir a expressão a experiência humana“. Em sua opinião, a obra desse pensador francês é, “acima de tudo um debate sobre o cartesianismo”, que retomou e atualizou o dualismo platonista e “teve um papel crucial na formação do pensamento da humanidade ocidental moderna e, em particular, da cultura francesa, para qual permanece como o ponto de referência e de confronto inamovível”. Outros temas em discussão foram a “nova ontologia” merleau-pontyana e os seus escritos políticos, dentre os quais Les aventures de la dialectique.

Mauro Carbone é professor na Faculdade de Filosofia Jean Moulin, Lyon 3, na França. Recebeu seu PhD em 1990, na Universidade Católica de Louvain, Bélgica, com a dissertação La visibilité de l'invisible: Merleau-Ponty entre Cézanne et Proust, publicada em inglês sob o título The Visibility of the Invisible: Merleau-Ponty between Cézanne and Proust (Hildesheim: Olms, 2001). Acaba de publicar La chair des images: Merleau-Ponty entre peinture et cinéma (Paris: Vrin, 2011) e é o fundor e co-editor da revista Chiasmi International. Trilingual Studies concerning Merleau-Ponty's Thought.

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Qual é a importância da filosofia de Merleau-Ponty dentro do contexto da ontologia ?

Mauro Carbone -
Quando Merleau-Ponty morre, no mês de maio há cinquenta anos, o centro de sua reflexão é precisamente o problema da ontologia, ou melhor, para usar seus próprios termos, o problema de uma nova ontologia. O primeiro ponto sobre o qual convém dar clareza refere-se, então, ao que Merleau-Ponty entende por ontologia, já que sabemos que há quem, com este termo, queira rigorosa e estritamente referir-se a uma disciplina que tem por objeto o ente, enquanto para outros ele designa um discurso não já em torno ao ente, e sim em torno do ser. A primeira pergunta a colocar-se é, então: quando Merleau-Ponty fala de “nova ontologia”, em que acepção assume este último termo? A esta pergunta poder-se-ia responder que para Merleau-Ponty falar de “nova ontologia” significa falar de uma nova relação com o ser, de modo a não poder senão fazer tudo uno com uma nova relação com o ente.

Na perspectiva da nova ontologia que Merleau-Ponty visa formular, portanto, as duas acepções do termo “ontologia” – como discurso em torno ao ente e como discurso em torno do ser – se mantêm juntos, já que aquela perspectiva visa formular quanto Merleau-Ponty define também como “endo-ontologia” , ou seja, uma ontologia que não se pode elaborar senão do interior do horizonte do ser no qual os entes se encontram colocados. Uma ontologia assim concebida não poderá senão configurar-se, então, como uma ontologia para a qual o discurso em torno à relação com o ser deverá inevitavelmente passar através do discurso em torno à relação com os entes. Neste sentido, a ontologia só poderá ser indireta, ou seja, mediada precisamente através da relação com os entes, os quais vêm assim a nivelar-se como espelhos que, a seu modo, refletem a luz (e a sombra) do ser.

Esta questão da “nova ontologia” é, dizia, o problema para o qual convergem as pesquisas e as reflexões de Merleau-Ponty nos últimos anos de sua vida. Em outras palavras, trata-se, de um lado, de compreender quais sejam os caracteres de tal “nova ontologia”, isto é, de tal nova relação com o ser, que não pode se dar senão através de uma nova relação com os entes e, de outro lado, trata-se de dar a tal “nova ontologia” uma formulação filosófica apropriada.


IHU On-Line - Dentro da filosofia contemporânea, qual é sua relevância após meio século de sua morte? É um filósofo que vai sendo “redescoberto” e mais estudado nos últimos anos?

Mauro Carbone -
A grande redescoberta do pensamento de Merleau-Ponty já eclodiu nos anos noventa do século passado. De um lado, de fato, estes estudos iniciaram na Itália com a publicação de minha tese de doutorado intitulada Nos confins do exprimível. Merleau-Ponty a partir de Cézanne e de Proust (1990)  e logo depois na França com a publicação da tese de Renaud Bárbaras intitulada De l’être du phénomène: Sur l’ontologie de Merleau-Ponty (1991) : duas teses que relacionaram e renovaram de modo decisivo os estudos sobre Merleau-Ponty em nível internacional. De outro lado, os anos noventa do século passado concluíram com a fundação de Chiasmi International. Pubblicazione trilingue intorno al pensiero di Merleau-Ponty, a revista que acompanhou a renovação dos estudos merleau-pontyanos e a integrou com o ulterior impulso que, em seguida, lhes foi oferecido pela publicação de muitos inéditos e pelas pesquisas da geração de estudiosos que mais se encarregaram disso, tornando-se agora o ponto de referência imprescindível para todo aquele que no mundo se interesse pelo pensamento de Merleau-Ponty e de seus contornos.

Hoje o estudo do pensamento de Merleau-Ponty encontra novo alimento em duas das questões às quais a atual reflexão filosófica internacional resulta mais sensível: de um lado, os desenvolvimentos das ciências neurológicas (basta pensar na descoberta dos neurônios-espelho) e, do outro, o estatuto assumido pelas imagens de nossa época também à luz da revolução digital (às quais retornarei mais detidamente na conclusão desta entrevista). Em ambos os casos, tende-se a encontrar, nas impostações merleau-pontyanas, importantes elementos que precedem os desenvolvimentos presentes daquelas questões e que podem, portanto, contribuir a pensá-los. Mais em geral, o que resulta tanto mais atual, é o convite do último Merleau-Ponty a pensar a mutação dos modos pelos quais, em nossa época, os homens vão se relacionando consigo próprios, com os outros, com as coisas e o mundo no referente ao passado . É esta que eu chamo “a filosofia a ser feita”.


IHU On-Line - Qual é o nexo que une o visível e o invisível entre Merleau-Ponty, Cézanne e Proust?

Mauro Carbone -
Para Merleau-Ponty o nexo entre visível e invisível designa, entre outros aspectos, o elo entre nossa relação com o mundo e os modos pelos quais o mesmo encontra expressão. Num certo sentido, esta expressão torna visível quanto, na experiência de cada um de nós, de outra forma permaneceria invisível aos outros. Num outro sentido, aquela expressão dá uma invisível profundidade à nossa experiência sensível, tornando-a participável aos outros. Tanto num sentido quanto no outro – entre si indivisíveis – o modelo da operação de expressão é, para Merleau-Ponty, o trabalho do artista e do escritor, que ele analisa referindo-se em particular a Cézanne  e a Proust . Ele o faz enquanto isso evidencia como a passagem do nosso encontro sensível com o mundo à sua expressão articulada se configura como contínua “retomada criadora” de um no outro e, portanto, como a expressão, tanto em suas formas não verbais quanto nas verbais, mantém com aquele encontro uma relação de recíproco envolvimento. Além disso, na ótica acima delineada, através do aspecto de atividade do trabalho expressivo se manifesta aquela aspecto de passividade que sempre o duplica e que remete à nossa inscrição carnal no Ser.
Na impostação de Merleau-Ponty, nem a produção artística, nem a linguística gozam, portanto, de autonomia absoluta, sendo ambas radicadas na perspectiva ontológica do sensível, cuja verdade, precisamente através da operação expressiva que tem naquelas o seu modelo, se faz caminho, mesmo indiretamente.


IHU On-Line - Em que aspectos se dá a maior contribuição deste pensador aos campos da estética e da arte?

Mauro Carbone -
Merleau-Ponty não pode ser considerado propriamente um “estetólogo” ou esteticista. De fato, não endereça a própria meditação sobre os problemas teoréticos peculiares à estética. Todavia, lendo os seus textos se é impressionado por quão frequentes e centrais sejam as referências literárias e artísticas, onde estas últimas não se referem somente à pintura – como por demasiado tempo se sustentou – mas também ao cinema e à música. A meditação merleau-pontyana sobre a arte e a literatura é, em suma, parte integrante, ou melhor – para usar uma expressão recorrente nos seus escritos – “parte total” da meditação filosófica: aquela parte na qual a totalidade se desdobra e da qual é tornada visível. Arte e filosofia parecem, em suma, entreter no pensamento de Merleau-Ponty uma relação “quiasmática” análoga àquela que ele chega a descrever entre o visível e o invisível, onde o segundo termo se perfile como o reverso do primeiro. Neste sentido se pode ler o título do último ensaio merleau-pontyano dedicado à pintura: L’oeil et l’esprit, onde o olho remete precisamente ao visível da estética – a entender-se como reflexão tanto sobre o conhecimento sensível quanto sobre as artes – e o espírito ao invisível da filosofia. Esta impostação mostra, então, como os motivos pelos quais Merleau-Ponty não foi, em sentido próprio, um estetólogo sejam profundamente radicados em sua concepção das relações entre arte e filosofia, que impede considerar a estética como campo autônomo. A estética enquanto reflexão sobre o conhecimento sensível serve antes, a Merleau-Ponty, para meditar sobre a ininterrupta relação que nosso corpo entretém com o mundo e a estética enquanto filosofia das artes sobre as modalidades nas quais aquela relação encontra expressão. Neste quadro, uma dezena de páginas antes que o manuscrito do Visible et l’invisble seja interrompido pela morte repentina de seu autor, Merleau-Ponty escreve:

“Toca-se aqui no ponto mais difícil, isto é, no elo da carne e da idéia, do visível e da armadura interior que ele manifesta e que ele esconde. Ninguém esteve mais longe do que Proust na fixação das relações do visível e do invisível, na descrição de uma idéia que não é o contrário do sensível, mas que é sua duplicação e profundidade”.


O “último” Merleau-Ponty

Merleau-Ponty começa, portanto, aqui, a partir da Recherche proustiana, sua reflexão sobre o “ponto mais difícil”, para o qual cria a expressão “ideias sensíveis”: uma expressão que, por sua vez, sublinha de maneira potente a dificuldade deste ponto, já que nomeia algo de literalmente impensável para a tradição do pensamento ocidental. Com efeito, esta última, a partir de Platão, sempre teve a tendência de pensar segundo a separação e oposição entre o sensível e o ideal, ou seja, segundo a separação e oposição entre o visível e o invisível. Ao contrário, o último Merleau-Ponty soube mostrar que, em nossa experiência, as ideias não são separadas e opostas ao sensível, mas surgem precisamente graças ao nosso encontro com isso: certa ideia do amor é inseparável para Swann, o protagonista do primeiro volume da Recherche, da escuta da “pequena frase” da Sonata de Vinteuil  que tinha sido “o hino nacional” de sua história de amor com Odete. Nas páginas em que Proust descreve esta experiência de Swann, Merleau-Ponty vê, portanto, o esboço de uma nova concepção das ideias que foi e, por certos aspectos, não cessa de ser a pilastra do pensamento ocidental.

Infelizmente, como eu dizia, a elaboração da noção de ideia sensível e, portanto, de uma teoria não platônica das ideias continua, no entanto, interrompida pela morte repentina de Merleau-Ponty. Olhando bem, é até muito estranho que os especialistas do pensamento de Merleau-Ponty não tenham quase nunca procurado estudar a noção de ideia sensível que para ele não era somente “o ponto mais difícil”, mas também, como bem se pode entender, o mais importante. Por isso, em meu livro Proust e les idées sensibles  , eu procurei estudar e prolongar a elaboração merleau-pontyana da noção de ideia sensível, reconhecendo a maior contribuição que Merleau-Ponty queria oferecer – através da reflexão sobre a experiência estético-sensível e a estético-artística – à formulação de uma nova ontologia.


IHU On-Line - É correto afirmar que a filosofia de Merleau-Ponty é um debate com o cartesianismo e a tradição filosófica dualista? Por quê?

Mauro Carbone -
È realmente correto afirmar que a filosofia de Merleau-Ponty seja acima de tudo um debate sobre o cartesianismo. Este último, de fato, retomando e atualizando o modo de pensar dualista herdado do platonismo, teve um papel crucial na formação do pensamento da humanidade ocidental moderna e, em particular, da cultura francesa, para qual permanece como o ponto de referência e de confronto inamovível.
Mas, a pesquisa de uma “nova ontologia” da parte do último Merleau-Ponty radicaliza o confronto com a tradição dualista ocidental, procurando pôr em discussão não só a versão cartesiana, e sim os próprios pressupostos platonistas. Escolher Le visible et l’invisible como título da grande obra interrompida pela morte significa escolher confrontar-se precisamente com aqueles pressupostos, com o fim de analisar de novo o problema ontológico. E descrever o visível e o invisível em termos de mútua referência e recíproca implicação bem como de separação e oposição recíprocas significa procurar oferecer, precisamente, uma nova formulação àquele problema.

Então: revocar a intenção opositora com que a metafísica instituiu todos os dualismos reassumíveis naquela ideia de visível e invisível – filosofia e não-filosofia, sensível e inteligível, atividade e passividade, sujeito e objeto – para nomear o íntimo co-pertencimento entre os elementos que a compõem e, por isso, mudar conduta e linguagem de modo a corresponder à atual mutação nas relações entre o homem e o ser: é esta a tarefa que Merleau-Ponty entreviu, assumido e deixado aberto. Para a própria dimensão epocal desta tarefa não podia, de resto, ser de outro modo, já que, além das vivências biográficas de cada um, não se trata da tarefa de um pensador, mas do próprio pensamento.


IHU On-Line - Quais são os principais pontos de diálogo entre o pensamento merleau-pontyano e a Fenomenologia do espírito de Hegel?

Mauro Carbone -
Acima de tudo seja assinalado que o diálogo entre o pensamento merleau-pontyano e a Fenomenologia do Espírito (7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002) de Hegel  resulta sempre mediado pela interpretação que João Hipólito deu daquela obra e mais em geral da filosofia hegeliana. Isso já se encontra no artigo de Merleau-Ponty intitulado L’existentialisme chez Hegel, publicado em “Les Temps modernes” em 1946 . A interpretação fornecida por Hyppolite  da relação entre a Fenomenologia do Espírito e os subsequentes desenvolvimentos da filosofia de Hegel se confirmam como centrais no curso intitulado Philosophyie depuis Hegel que Merleau-Ponty estava dando no Collège de France em 1960-61, no momento de sua morte repentina. Neste curso, como já naquele artigo, Merleau-Ponty retoma, de fato, de Hyppolite, a tendência de ler os desenvolvimentos do pensamento hegeliano em termos de contraste entre as posições expressas na Fenomenologia do espírito e aquelas assumidas subsequentemente. 
O intento do curso consiste em traçar e discutir as diversas tentativas conduzidas a partir de Hegel para elaborar uma ideia de filosofia tal que saiba rejeitar a própria separação tradicional da “não-filosofia” e mensurar-se, assim, com esta reconhecendo-a como o outro lado de si antes do que o outro de si, para inaugurar assim uma nova relação com o Ser: é tal ideia que Merleau-Ponty define também como “a-filosofia”. Daquelas tentativas ele reconhece o princípio – no duplo sentido de momento inicial e noção fundamental – na concepção hegeliana da fenomenologia, embora julgue que daquele princípio Hegel acabe por destacar-se.
Em todo caso, Merleau-Ponty dialoga com a Fenomenologia do espírito sobretudo em torno ao problema de como conceber a filosofia de modo que ela resulte realmente em condições de conduzir a expressão a experiência humana.


IHU On-Line - Como ocorre a relação entre filosofia e cinema no pensamento deste autor?

Mauro Carbone -
Em 1945 Merleau-Ponty é convidado ao Institut des Hautes Études Cinématographiques de Paris, onde pronuncia uma conferência com título Le cinema et la nouvelle psychologie, cujo texto é publicado dois anos depois em “Les Temps Modernes” e após coletado em 1948, com os outros principais ensaios por ele escritos naquele período em Sens et non-sens . Preparando-se para concluir aquela conferência, Merleau-Ponty faz uma afirmação que agradará muito ao cineasta Jean-Luc Godard , o qual a citará em seu filme Masculin Fèminin (1966):

“O filósofo e o cineasta têm em comum certa maneira de ser, certa visão do mundo que é aquela de uma geração” .

Mas, não é só entre filosofia e cinema que Merleau-Ponty indica uma convergência histórica nos escritos deste período. Mais em geral, em Sens et non-sens ele sublinha a profunda convergência de certas experiências artísticas (a pintura no A dúvida de Cézanne, o cinema no ensaio a ele dedicado, a literatura no O romance a metafísica, que comenta A convidada de Simone de Beauvoir , e em Um autor escandaloso, escrito em defesa de Sartre) com aquela que chama preferencialmente “nova psicologia” – e tende a identificar na psicologia da forma – bem como com a filosofia contemporânea. Esta convergência se coagularia segundo ele em torno aos temas de nossa relação com o mundo e de nossa relação com os outros.

Até menos de dez anos atrás, acreditava-se que a conferência Le cinema et la nouvelle psychologie fosse o único caso de reflexão dedicada por Merleau-Ponty ao cinema. Na realidade, esta reflexão percorre toda a curva de seu pensamento, como o demonstrou o número 12 da revista “Chiasmi International”, publicado em 2010, e como eu documentei em meu livro intitulado La chair des images. Merleau-Ponty entre peinture et cinéma [A carne das imagens. Merleau-Ponty entre pintura e cinema], saído faz pouco .


Tendências convergentes

Com efeito, em alguns dos últimos cursos de Merleau-Ponty se pode ler seu projeto de mostrar como se possam encontrar, também nas experiências e nas reflexões desenvolvidas pelo cinema, certas linhas de tendência convergentes com aquelas desenhadas contemporaneamente por outras formas expressivas (como literatura e pintura) no tracejar o perfil da “nova ontologia” de que eu fazia referência na minha primeira resposta. Em particular, era sua intenção indicar tais linhas assumindo, por exemplo, “la question du mouvement au cinema” . Não resulta, então, surpreendente – mas parece tanto mais interessante – relevar que os outros traços de reflexões dedicados por Merleau-Ponty ao cinema se refiram precisamente àquela questão, já a partir do primeiro curso por ele dado no Collège de France, o de 1953 intitulado Le monde sensible et le monde de l’expression, cujas notas preparatórias foram publicadas também elas muito recentemente.


IHU On-Line - O interesse de Merleau-Ponty pela ontologia jamais diminui seu interesse pelo pensamento político, coisa que pode ser atestada pelas cartas nas quais ocorre seu “rompimento” com Sartre. Quais eram suas principais ideias políticas?

Mauro Carbone -
No centro da reflexão política de Merleau-Ponty está a questão comunista, em particular a maneira pela qual tal fora colocada nos países da Europa Ocidental após a Segunda Guerra Mundial. Imediatamente após a mesma, Merleau-Ponty, que de fato era então diretor político de “Les Temps Modernes”, em seu primeiro livro dedicado a tal âmbito – Humanisme et terreur (1947) havia professado “em relação ao comunismo uma atitude prática de compreensão sem adesão e de livre exame sem difamação” . Nos anos subsequentes este “livre exame” atravessou a reflexão sobre os campos de deportação soviéticos e a ruptura com Sartre , para desaguar no segundo livro político de Merleau-Ponty: Les aventures de la dialectique (1955). As conclusões a que o mesmo chega – declarando acabada a credibilidade da ideologia comunista sem dever sequer esperar, dezoito meses mais tarde, a revolta da Hungria e sua sangrenta repressão da parte soviética – antecipavam em 34 anos a queda do muro de Berlim. Mas, atenção: Les aventures de la dialectique não se limitou a percorrer a derrota do comunismo soviético, nem a escolha – então raríssima – de mostrar a ascendência marxista e mesmo marxiana dos motivos de tal falência, sem aportar por isso a posições anticomunistas. Sua potência prefiguradora consiste mais em haver procurado impostar os problemas que se teriam aberto com a queda do muro de Berlim, ou aqueles problemas que o fim da credibilidade da ideologia comunista não deixou de colocar.

Além disso, a queda do muro de Berlim e a subsequente dissolução da União Soviética assinalaram o início do processo de globalização ainda em andamento, que foi então saudado por anúncios sobre o fim da história e das ideologias e, portanto, sobre o próprio fim da filosofia da história. Houve depois quando ocorreu no 11 de setembro de 2001 fazendo desmoronar também, junto com as Torres Gêmeas de Nova York, o castelo de tais anúncios , já que realmente, como escreve Merleau-Ponty criticando a noção de “fim da história”: “chaque décision porte des conséquences inatttendues, et comme d’ailleurs l’homme répond à ces surprises par des inventions qui déplacent le problème (cada decisão traz consequências inesperadas, e como aliás o homem responde a essas surpresas por invenções que deslocam o problema)” . Eis, então, que retorna a exigência daquela interrogação filosófica da história e daquela interrogação histórica da filosofia que Merleau-Ponty magistralmente pratica de modo complementar em Les aventures de la dialectique. Por isso a reflexão sobre a época presente pode encontrar neste livro um pensamento surpreendentemente precioso.


IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Mauro Carbone -
Gostaria de falar da concepção das imagens que emerge da reflexão sobre a visão conduzida pelo último Merleau-Ponty. Recentemente pude focar aquela concepção também graças a alguns inéditos seus. Decidi dedicar àquele tema o livro que acabo de publicar em francês, La chair des images [A carne das imagens], porque pude encontrar no modo pelo qual ele o enfrenta algumas noções ainda inexploradas e todavia profundamente inovadoras, tanto para a teoria das imagens quanto para a ontologia nela implicada. Trata-se de noções que, do primeiro ponto de vista, oferecem elementos de pensamento surpreendentemente à altura das novidades que o estatuto das imagens assumiu nos últimos vinte anos. Por isso, tais noções mostram convergir e integrar-se com algumas das mais significativas reflexões que os teóricos da assim dita “virada icônica” dirigem à questão do atual estatuto das imagens. Do segundo ponto de vista – aquele mais requintadamente ontológico – aquelas noções sugerem uma rede de implicações e de consequências em cuja perspectiva a filosofia apenas começou a pensar e a pensar-se.

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