Alternativa agroecológica contra os agrotóxicos e transgênicos

O modelo desse tipo de agricultura é um caminho para uma alimentação saudável, diz o docente da UnB Fernando Ferreira Carneiro

Por: Thamiris Magalhães



IHU On-Line – Como as pessoas podem identificar os alimentos com agrotóxicos?

Fernando Ferreira Carneiro – Todo ano a Anvisa disponibiliza no seu site uma lista de alimentos avaliados em todos os estados, em parceria com as vigilâncias sanitárias, com o grau de contaminação. Então, consultar é a primeira saída. Você saberá, por exemplo, que o pimentão, morango e tomate sempre batem recorde de contaminação. É muito importante que o consumidor esteja atento que busque esses produtos em feiras agroecológicas, em assentamentos da reforma agrária que não utilizem esse tipo de produto; na parte dos supermercados em que há orgânicos certificados. Temos que conjugar essas duas coisas: a informação e o estímulo à economia solidária sustentável. Ou seja, existem várias feiras em cada cidade, e é importante que o consumidor esteja atento. Só aqui em Brasília conheço várias. Eu sei que o Rio Grande do Sul é, inclusive, um dos estados que está mais avançado no Brasil nesse setor. Existem experiências da agroecologia que remontam a décadas. Então, não acredito que o consumidor terá dificuldades em encontrar essas feiras. Além disso, outra saída é a organização, procurar movimentos sociais do campo próximo em que cada um vive, integrar-se no Comitê da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos pela Vida, que é uma campanha dos movimentos sociais, que tem se preocupado em disponibilizar informações para a sociedade, uma coisa que o governo tem feito muito pouco, além de ajudar na formação das pessoas para esse tipo de tema de movimentos de líderes. Se cada um procurar o Comitê da Campanha (e há um em praticamente todos os estados), acredito que pode haver não apenas solução individual para o problema, no caso, como se alimentar de maneira mais saudável, mas ajudar a transformar uma situação e às vezes a criar alternativas no seu território, porque coletivamente temos muito mais chances de encontrar saídas para esses dilemas que o agronegócio tem nos colocado. Não vou dizer que não devemos comer frutas e verduras. Sou o último a dizer isso. Temos que comer frutas e verduras, mas saudáveis e, para isso, não há, muitas vezes, como ter uma solução individual. Logo, é importante nós nos organizarmos, mobilizarmos, a contribuirmos para alterar esse quadro. Espero que no próximo ano o Brasil não seja mais o primeiro consumidor de agrotóxicos. Almejo que toda essa mobilização que nós estamos fazendo na sociedade e academia ajude a pressionar o governo, o Estado brasileiro, a criar programas de incentivo à agroecologia, para criarmos um futuro mais sustentável para o planeta e o nosso país.

IHU On-Line – Por que agrotóxicos proibidos em outros países são permitidos no Brasil?

Fernando Ferreira Carneiro – O lucro ainda está acima da vida. Quando a Anvisa proíbe um agrotóxico em função de seus riscos, como causar câncer, por exemplo, há uma estratégia acordada entre alguns órgãos que faz com que se demore ainda dois ou três anos para tirar o produto totalmente do mercado. Assim, todos os estoques poderão ser vendidos. Olha que coisa perversa! Já está comprovado que ele causa dano à saúde, mas, para a empresa não ter prejuízo, estende-se o prazo total, quer dizer, não se pode mais produzir, mas pode-se vender, para que os estoques sejam comercializados.

IHU On-Line – Quem são os responsáveis, de fato, pela autorização do uso de agrotóxicos no Brasil?

Fernando Ferreira Carneiro – O Brasil hoje possui uma lei avançada. São três órgãos: a agricultura, que avalia a eficiência agronômica do agrotóxico; o Ibama, que analisa o impacto no ecossistema; e a Anvisa, que percebe o impacto na saúde humana. Então, para um agrotóxico ser liberado, tem que haver o parecer produtivo desses três órgãos.

IHU On-Line – Que ações as autoridades devem tomar para conscientizar a população com relação aos alimentos transgênicos?

Fernando Ferreira Carneiro – Ainda existe muita incerteza científica relacionada ao impacto que os transgênicos causam à saúde. Não existe um consenso científico que diga que eles causa, ou não, males. Veja só a perversidade do modelo: as empresas que produzem os transgênicos estavam resistentes a colocar a rotulagem. Se eles acreditam que não fazem mal, por que estão preocupados com a rotulagem? Eles não querem dar nem a opção para o consumidor em escolher se quer ou não comer um alimento transgênico. Eu, à medida que identifico, não compro produtos de origem transgênica. Essa tem sido a minha conduta. Acredito que a questão dos transgênicos entra na mesma luta dos agrotóxicos. No Rio Grande do Sul, os agrotóxicos, após a implantação dos transgênicos, aumentaram três vezes. E no Brasil dobrou. Então, alegar que os transgênicos iriam chegam para diminuir o uso dos agrotóxicos é uma grande falácia.

IHU On-Line – Quais as implicações que os transgênicos podem trazer para o cidadão?

Fernando Ferreira Carneiro – Acredito que para o cidadão, e talvez ainda mais para o produtor, o transgênico aumenta a vulnerabilidade de nossa economia. Estamos falando de grandes grupos internacionais, como a Monsanto, que cobram royalties pelo uso da semente transgênica. O produtor paga royalties para a Monsanto. Então, as pessoas entram num sistema que, para plantar, têm que comprar sempre da empresa. E é ela quem coloca o preço. Isso atenta contra a soberania alimentar do povo. De repente, agricultores que tinham uma independência, uma forma de plantar, ficaram totalmente dependentes da Monsanto e começaram a aumentar os preços dos produtos, gerando desequilíbrio à comunidade. Na verdade, estamos lidando com algo que ainda não temos completa certeza científica e não sabemos direito no que isso vai dar. Só sabemos que, às vezes, pessoas com suas plantações que não querem ser contaminadas com os transgênicos estão assim sofrendo, porque a contaminação pode chegar a uma planta não transgênica, uma vez que não existe muro entre uma plantação e outra e acabam sendo carreados, muitas vezes, pelo vento. Então, o que eu acho pior para o consumidor é que ele está perdendo a capacidade de escolha, seja porque as empresas não querem evidenciar que usam transgênicos, seja pela dificuldade de isolar esses plantios. Logo, a saída que nós defendemos é a implantação de um modelo de agricultura agroecológica no Brasil, sem a utilização de agrotóxicos e transgênicos.

Se a Embrapa, que investe bilhões em pesquisa nesse modelo convencional, começasse a investir de forma importante na agricultura e tecnologias para a agroecologia, o Brasil poderia ser uma grande potência mundial de produção de produtos pilares, talvez, mas produtos mais saudáveis, que gerassem biodiversidade, que ajudassem a gerar qualidade de vida no campo. Eu acredito que aí, sim, poderíamos ser realmente líderes para o mundo. Então, iríamos nos orgulhar em sermos o número um. Mas seria o número um de produção agroecológica, respeitando a natureza e a vida das pessoas. Penso que é essa a nossa utopia e é isso o que nós acreditamos que tem que ser construído para o nosso país, porque a outra opção é o que estamos vendo em vários outros países do mundo: a degradação das terras em busca da mais-valia, do lucro fácil, à custa da natureza e da vida.



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