Edição 376 | 17 Outubro 2011

A economia política dos trabalhadores da mídia chinesa

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Yao Jianhua

Um dos resultados da convergência tecnológica e sinergia corporativa ou institucional é a transformação de boa parte da força de trabalho, incluindo os trabalhadores do conhecimento, em trabalhadores precários.

Por Yao Jianhua*

Um dos resultados da convergência tecnológica e sinergia corporativa ou institucional é a transformação de boa parte da força de trabalho, incluindo os trabalhadores do conhecimento, em trabalhadores precários. Na atualidade, ninguém, nem mesmo aqueles em profissões tradicionais, tem possibilidade de esperar um padrão fixo de trabalho no curso de sua vida profissional. Com o aumento da porcentagem de trabalhadores irregulares, tanto os de ramos industriais em serviços baratos como os do conhecimento que ocupam altos cargos encontram-se, cada vez mais, sob pressão para se prepararem para um futuro no qual eles serão capazes de competir em um mercado mutável. O segundo grupo, em particular, está confrontando-se, cada vez mais, com a completa incerteza que permeia o seu futuro, a natureza temporária de seus contratos de trabalho e sua exclusão de qualquer proteção garantida pelo seguro social. Contribuindo para os numerosos estudos sobre trabalhadores do conhecimento, minha pesquisa concentra-se especificamente nos desafios enfrentados pelos trabalhadores da mídia chinesa, provocados pelo desenvolvimento social. Ademais, de uma perspectiva muito mais ampla, o trabalho também analisa de que forma os trabalhadores do conhecimento nas indústrias de mídia chinesas vêm competindo com a rápida transformação, informacionalização, transnacionalizacao do capitalismo juntamente com a divisão global de trabalho.

Em primeiro lugar, a investigação sobre a condição e a luta dos trabalhadores chineses da mídia precisa se basear na análise de classes na China. Com o desenvolvimento do capitalismo autoritário, a reconfiguração do poder de classe serve como uma dimensão constitutiva da reforma de mercado desse país, e se torna impossível compreender plenamente as características das mudanças socioeconômicas no Estado chinês sem formular como conceito interpretativo as relações de classes aí presentes. Com a privatização massiva de empreendimentos estatais e a adesão do Partido Comunista da China – PCC às tecnologias da informação, os trabalhadores industriais chineses estão rapidamente perdendo o controle da produção e dos processos de inovação tecnológica que eles adquiriram sob a política proletária da era pré-reforma. Profissionais do conhecimento, ao contrário, são normalmente bem-educados, dotados das mais recentes habilidades tecnológicas, e muitas vezes situados em um nível mais elevado da hierarquia social. Eles tornaram-se gradualmente a classe dirigente do Estado “socialista”.

Em segundo lugar, em termos do processo produtivo dos operários da mídia chinesa, as relações de trabalho, os sistemas de recompensa e as organizações sindicais domesticadas são pilares para a fabricação de consentimento por serem indispensáveis  no exame das condições político-econômicas e dos padrões sociais de formação de classes e reconstituição dos trabalhadores do conhecimento como setor de classe. Uma vez que a mídia e a comunicação são cada vez mais moldadas pelas relações sociais de comunicação, assim como pela estrutura de poder institucional mais ampla da sociedade, torna-se essencial examinar os trabalhadores da mídia como uma classe situada dentro de uma sociedade capitalista. Mais especificamente, as relações de classe e as lutas dos operários da mídia devem ser analisadas no processo de sua produção, controle e distribuição de informação e comunicação.

Em terceiro lugar, é importante entender o contexto da produção global de comunicação e tecnologia de informação na qual os operários da mídia chinesa estão situados, a partir de uma perspectiva internacional com foco na divisão global do trabalho de conhecimento. Com os trabalhadores do conhecimento ocupando a maior parte dos empregos dos países desenvolvidos, e precipitadamente expandindo-se também para as nações mais pobres, eles acabam por desempenhar um papel cada vez mais crítico no movimento operário ao redor do mundo. Portanto, a investigação acerca da divisão global de trabalho envolve a transformação de um grande número de instituições sociais no intuito de responder ao capitalismo global, que incluem a rápida construção de mercados de trabalho, a reestruturação das forças de trabalho já existentes, novas políticas de Estado para regular a reprodução social, mudanças dramáticas dentro das relações domésticas e a criação de novos valores culturais. Assim, o estudo a respeito dos trabalhadores da mídia chinesa nunca poderá ser totalmente compreendido em termos nacionais, pois a China tem se tornado cada vez mais envolvida com a economia global informacional, tendo como resultado uma economia remodelada pelas redes de produção transnacionais.

Partindo desse contexto, como os trabalhadores do conhecimento deveriam agir? Provisoriamente, porém de forma bastante eficaz, o trabalho vem se organizando de maneira diferente e competindo com os desafios do desenvolvimento tecnológico e convergência institucional. Curiosamente, na China o trabalho organizado tem tomado a sua própria forma de convergência, reagindo à convergência tecnológica e corporativa na economia do conhecimento ao reunir os trabalhadores uma vez divididos pelas barreiras tecnológicas, industriais e de capacitação. Sindicatos e organizações afins têm tomado a iniciativa de oferecer benefícios transferíveis a quem compõe a força de trabalho móvel, assim como formações para toda a vida, ofertas de emprego, aconselhamento e planos de saúde para os trabalhadores que não são elegíveis para os benefícios concedidos por empregadores. Portanto, os trabalhadores chineses da mídia têm se unido, respondendo ativamente aos desafios trazidos pelo desenvolvimento social e pela divisão global do trabalho.

* Yao é mestre e graduado na Escola de Relações Internacionais e Administração Pública da Fudan University, Shangai, China e é doutorando no departamento de sociologia da Queen’s University, em Kingston, província de Ontário, Canadá. Como orientando de Vincent Mosco, participa ativamente do cenário internacional da Economia Política da Comunicação e colabora regularmente com o Grupo Cepos. E-mail: .

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