Edição 376 | 17 Outubro 2011

Interdisciplinaridade e interpretação: Paul Ricoeur em diálogo com Hans Urs von Balthasar

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Márcia Junges| Tradução Benno Dischinger

Mediados pela filosofia, por caminhos distintos, Balthasar e Ricoeur apontam para o “papel decisivo da ação”, observa Cecília Avenatti de Palumbo. Exigência da “saída de si” dá ao ser humano uma dimensão ética para a ação e a história

“No diálogo entre literatura e teologia, a filosofia se apresenta como ponto de encontro. Por caminhos diferentes, Balthasar e Ricoeur propõem a mediação da filosofia, sublinhando o papel decisivo da ação, o qual tem sua origem na opção pelo paradigma teatral”. A constatação é de Cecília Avenatti de Palumbo, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. De acordo com a pesquisadora argentina, Balthasar conhece e cita Ricoeur, do qual foi contemporâneo, mas “não podemos comprovar se Ricoeur conheceu a obra magna do teólogo suíço”. E completa: “na medida em que representam uma exigência de êxtase ou saída de si de dentro para fora, ambos significam a possibilidade de sair do fechamento individualista pós-moderno descobrindo ao homem a dimensão ética através da projeção do olhar e do ler para o agir e para a história”. Cecília esteve recentemente no Brasil, onde apresentou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio a conferência Interdisciplinaridade e interpretação: Contribuições do pensamento de Paul Ricoeur em diálogo com Hans Urs von Balthasar.

Cecília é licenciada e doutora em Letras pela Pontifícia Universidade Católica Argentina com a tese La literatura como figura, drama y verdad en la estética de Hans Urs von Balthasar”. Leciona nessa instituição e é autora de Imagen y palabra. Fenomenología de la expresividad en Hans Urs von Balthasar (Buenos Aires: Ediciones del Viejo Aljibe, 1998); La literatura en la estética de Hans Urs von Balthasar. Figura, drama y verdad (Salamanca: Ediciones Secretariado Trinitario, 2002); Lenguajes de Dios para el siglo XXI. Estética, teatro y literatura como imaginarios teológicos (Juiz de Fora-Buenos Aires: Edições Subiaco – Ediciones de la Facultad de Teología de la Universidad Católica Argentina, 2007).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A senhora foi convidada pela Cátedra de leitura da Unesco, com sede na PUC–Rio, para ditar uma conferência de pós-graduação sobre “Interdisciplinaridade e interpretação: Contribuições do pensamento de Paul Ricoeur em diálogo com Hans Urs von Balthasar”. Poderia referir-se ao enquadramento epistemológico? Por que a relação entre interdisciplinaridade e interpretação?

Cecília Avenatti de Palumbo – À colocação da interdisciplinaridade como caminho de superação da fragmentação dos saberes e de um modo unidimensional e redutivo de explicar o mundo e o homem, segue-se imediatamente a questão da mediação, entendida como o “entre” vinculante, a linguagem que comunica às disciplinas entre si e em relação ao objeto comum, a ponte que une suas margens atomizadas. A interdisciplinaridade suscita, pois, a necessidade de se pensar uma linguagem mediadora a partir da qual as disciplinas podem dialogar. A linguagem é a via de compreensão entre umas e outras, a via de recíproca interpretação das linguagens, a via hermenêutica. Interdisciplinaridade e hermenêutica reconhecem, assim, sua necessidade de pensar a partir de outro e com outros.
No Seminário de diálogo interdisciplinar permanente – literatura, estética e teologia, estamos trabalhando desde 1998 nesta direção. Nos “Prolegômenos” a uma obra coletiva de recente aparição, Beleza que fere , recolhemos o itinerário percorrido de 2007 a 2010, no decurso do qual a linguagem mediadora escolhida foi a da figura estético-dramática, devedora do pensamento teológico de Hans Urs von Balthasar . Durante o último ano, junto com colegas da PUC-Rio e da PUC-Chile – todos membros de Alalite  – decidimos investigar conjuntamente a contribuição efetivada pelo pensamento de Paul Ricoeur  à mediação entre a literatura e a teologia.

Em nosso interesse por configurar uma linguagem de mediação interdisciplinar está a questão sobre onde confluem os caminhos do teólogo suíço e do filósofo francês.

IHU On-Line – Paul Ricoeur e Hans Urs von Balthasar foram contemporâneos. Houve um diálogo entre o filósofo e o teólogo? Em que consistiu esse diálogo?

Cecília Avenatti de Palumbo – Realmente, até onde sabemos, não houve propriamente um diálogo real entre eles. Balthasar conhece e cita Ricoeur, do qual foi contemporâneo, o da hermenêutica dos símbolos – A simbólica do mal (1960), O conflito das interpretações (1969), A metáfora viva (1975), já que, além da hermenêutica do texto (de 1980) e da hermenêutica do eu como outro (dos anos 1990) não chegou a conhecê-los. Numa das referências sublinha a abertura ricoeuriana para o sentido através do caminho da metáfora e do símbolo . Isso se sucede na terceira parte de sua Trilogia, chamada Teológica, que se encontra precedida pela Teoestética e pela Teodramática, justamente onde, ao tratar da beleza e do drama de Deus nos outros dois painéis, dá o passo à verdade na linguagem do Deus que se fez carne e, por conseguinte, história . Não podemos comprovar se Ricoeur conheceu a obra magna do teólogo suíço, pois para isso seria necessário realizar uma inquisição mais exaustiva. De todos os modos, o importante aqui é que estabelecemos o diálogo a partir de seus textos, como consequência de nosso caminho de busca de uma linguagem mediadora para o vínculo interdisciplinar entre literatura e teologia.

IHU On-Line – Quais são as aproximações filosóficas e teológicas entre esses pensadores? O que resulta dessa interdisciplinaridade?

Cecília Avenatti de Palumbo – No diálogo entre literatura e teologia, a filosofia se apresenta como ponto de encontro. Por caminhos diferentes, Balthasar e Ricoeur propõem a mediação da filosofia, sublinhando o papel decisivo da ação, o qual tem sua origem na opção pelo paradigma teatral. Deste modo, a ação se apresenta como linguagem mediadora, tanto em Balthasar como em Ricoeur. O caminho de Balthasar vai da figura estética à ação como drama ; o caminho de Ricoeur vai da hermenêutica do texto à hermenêutica da ação. Ambos transitam o caminho para o reconhecimento de si: o teólogo, na ação do personagem teatral, o filósofo na ação da trama que se desdobra numa tríplice mímesis . O resultado é uma linguagem dinâmica, com valor perlocutório e, portanto, com intenção de uma transformação histórica mediante ações pessoais e comunitárias, de Deus e dos homens.

IHU On-Line – Como se manifesta a busca pelo divino na obra de von Balthasar?

Cecília Avenatti de Palumbo – A Denkform [maneira de pensar] balthasariana é trilógica e nós a expressamos segundo o dinamismo preposicional do amor que, partindo da figura, se desenvolve no drama da liberdade infinita e da liberdade finita, e sobre o cenário desta ação dramática se põe o movimento para a verdade, a fim de desvelá-la não como ideia estática, mas como vida superabundante que excede de modo transbordante os limites do conceito. Daí resulta a necessidade teológica de sair em busca de novas linguagens.
Sua opção pela figura estética reconhece o estatuto epistemológico da filosofia como mediadora entre as ciências humanas e a teologia. A figura estética é pensada por Balthasar em abertura para o drama existencial. Daí resulta a nomeação de “figura estético-dramática. O paradigma é a ação teatral que ele toma do topos do teatro do mundo de Calderón. Mediante este instrumental, propõe-se a renovação de “uma teologia inserida no banco de areia da abstração racionalista” .

IHU On-Line – Como se articula a passagem do texto à ação no pensamento de Ricoeur?

Cecília Avenatti de Palumbo – É a preocupação epistemológica por encontrar, para a interpretação, um critério objetivo que provenha a partir de dentro do texto (a linguística, atos de fala, poética), superador da dialética entre explicar e compreender, ciências naturais e humanas, proposta por Dilthey, a que leva Ricoeur para o umbral da ação teatral pelo caminho da mímesis e da construção da trama, como antes o levara para o estruturalismo e a semiótica. O círculo hermenêutico e o círculo mimético estão aparentados: um relaciona texto e ação; o outro mímesis e ação . O paradigma da ação é o da relação mímesis/mythos (trama) que Aristóteles propôs na Poética: “A trama é a representação da ação” (50 a, 1). Na circularidade hermenêutica que acontece entre mímesis 1 (pré-figuração); mímesis II (configuração) e mímesis III (refiguração) é onde se abre o homem à possibilidade de ser ele mesmo criativamente .

IHU On-Line – Em que aspectos von Balthasar e Ricoeur oferecem subsídios para repensarmos a igreja, a cultura e a sociedade da civilização tecnocientífica na qual vivemos?

Cecília Avenatti de Palumbo – Poderíamos enunciar as contribuições da ação dramática (Balthasar) e da ação textual (Ricoeur) ao diálogo entre literatura e teologia e, através deste, ao diálogo da igreja com a cultura e a sociedade atuais.
Seus pensamentos em diálogo oferecem, em primeiro lugar, um caminho para a referencialidade do Tu através da abertura do texto e do drama. Em segundo lugar, na medida em que representam uma exigência de êxtase ou saída de si de dentro para fora, ambos significam a possibilidade de sair do fechamento individualista pós-moderno descobrindo ao homem a dimensão ética através da projeção do olhar e do ler para o agir e para a história.
Em terceiro lugar, a necessidade hermenêutica como mediação é posta em relevo em Ricoeur quando considera que o ato de leitura é o que opera a transição entre texto e recepção (entre mímesis II e III) e em Balthasar, quando centra no ato da interpretação do papel no cenário a origem do conhecer-se a si mesmo e ser pessoa na missão.
Em quarto lugar, a inclusão do horizonte cultural e antropológico na interpretação a partir de dentro do texto e do drama e a consequente abertura a um horizonte de alteridade a partir da mesmidade da figura dramática e do texto.
E, por último, a superação da dialética sujeito/objeto pelo caminho da interpretação do ator e do leitor nos coloca ante o desafio de estabelecer relações em que o pessoal e o comunitário se vinculam através da corporeidade, do jogo e de uma comunicação que compromete a totalidade do humano.

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