Edição 375 | 03 Outubro 2011

Uwe Schulz

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Thamiris Magalhães / Fotos Arquivo pessoal

“Sou um ser híbrido. De um lado, tenho minha educação, também formal, alemã; de outro, encontro-me em uma situação de um país latino que, muitas vezes, não tem isso”, afirma o professor Uwe Schulz. Natural da Alemanha, o docente afirma que adora viajar e fotografar. “Almejo viajar muito ainda. Aprender bastante sobre coisas que ainda sei muito pouco. Além disso, gostaria de me dedicar mais à fotografia”. Uwe frisa que, morando no Brasil há 16 anos, está aprendendo muitas coisas, inclusive ser mais paciente com relação à falta de pontualidade do brasileiro. O resultado de tudo isso? “Não sou mais alemão, mas também não sou brasileiro”, declara. Conheça um pouco mais a sua história.

Quem sou eu – Sou um ser híbrido. De um lado, tenho minha educação, também formal, alemã; de outro, encontro-me em uma situação de um país latino que, muitas vezes, não tem isso. Por exemplo, em termos de pontualidade, o brasileiro é menos organizado do que o alemão. E isso, muitas vezes, complica o meu trabalho e me exige mais paciência do que eu deveria ter. Por outro lado, estou aprendendo outras coisas. O resultado de tudo isso? Não sou mais alemão, mas também não sou brasileiro.

Origens – Nasci em Berlim, na Alemanha. Criei-me em Hamburgo e várias outras cidades alemãs, mas principalmente em Bielefeld onde terminei o ensino médio. É ao sul de Hanover, então, mas ao norte da Alemanha. Estudei biologia na Universidade de Constança, no sul do país, à beira do lago de Constança e na Universidade de Bielefeld, onde em 1995 terminei o meu doutorado.

Brasil – Durante todo esse tempo, sempre tive uma forte ligação com a América do Sul, especialmente com o Brasil. Fiz várias viagens, ainda morando na Alemanha. Conheci em uma dessas viagens a minha ex-esposa. Casamos em 1994, na Alemanha, e um ano depois mudamo-nos para o Brasil. Nessa época, trabalhei como funcionário público para o estado de Baden-Württemberg, num instituto de pesquisa que tinha funções parecidas com a nossa Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) aqui no Rio Grande do Sul. Trabalhávamos com fiscalização ambiental, mas a maior parte era mesmo pesquisa. Trabalhei com questões relacionadas à água e pesca no lago de Constança. Aqui no Brasil, comecei o meu trabalho na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, em Florianópolis. Fiquei lá um ano. Ingressei na Unisinos em setembro de 1996. Então, estou há exatamente 15 anos nesta Universidade. No Brasil, estou há 16 anos e pretendo ficar por aqui. Decidi vir para cá devido às possibilidades de trabalho. Sempre gostei muito do Brasil em termos de diversidade. Como sou biólogo, sei que o país tem muito apelo pela natureza. E, trabalhando no lago de Constança, como funcionário público, senti que os desafios eram limitados. Quando a gente sobe na carreira, temos a tendência de nos afastarmos das coisas de que gostamos. Então, o meu trabalho lá ficou cada vez mais burocrático, administrativo e eu estava mesmo procurando outras coisas. Deixei a segurança do funcionalismo público alemão e troquei para ser professor da Unisinos. E até hoje não me arrependi.

Biologia – Nasci com a biologia. Nunca tive outra ideia profissional que não fosse ser biólogo. Sempre tive muito interesse em tudo que tem a ver com água, principalmente com peixes. Então, nunca foi um problema para mim o que seria a minha profissão. Quando era criança, tinha um aquário pequeno; depois, um maior. Mais tarde, comecei a pescar, mas sempre me interessei mais pelo comportamento dos organismos aquáticos do que ter como resultado da pesca comer um bicho, por exemplo.

Formação – Quando me formei, não existia essa divisão de mestrado/doutorado no sistema educacional americano. Então, fazíamos a graduação e, depois, poderíamos ingressar direto no doutorado. Acredito que, nessa época, a minha graduação na Alemanha foi mais ou menos ao equivalente como o mestrado aqui no Brasil. Então, no meu caso, fiz o doutorado logo após ter concluído minha formação como biólogo. Entrei direto no doutorado, trabalhando com questões da pesca, no lago de Constança. Quando me formei, emprego era muito difícil. O que tínhamos na Alemanha eram contratos, de três meses a um ano. Então, trabalhei na Suíça, na parte da conservação da pesca. Trabalhei em outros lugares, mas sempre com contratos curtos. A previsão de poder trabalhar como biólogo não era muito positiva. Foi quando resolvi fundar uma empresa de consultoria, que começou a funcionar muito bem. Ao mesmo tempo, o estado de Baden-Württemberg abriu edital de um concurso que, na verdade, eu nem queria fazer, mas os meus pais e amigos acabaram insistindo, por se tratar de concurso público. Então, fiz, consegui a vaga e deixei de ser consultor. Mas acabei fazendo outros cursos também, como a biologia não era muito promissora. Fiz curso na área de turismo, por exemplo, entre outras coisas, mas acabei ficando mesmo com a biologia.

Oportunidade brasileira – Como era funcionário público na Alemanha, pedi licença para vir ao Brasil. Tinha a possibilidade de voltar depois de um ano. Então, o grande desafio, quando cheguei aqui, era conseguir um emprego com uma perspectiva de poder permanecer. Tive um ano para fazer isso. E consegui. Primeiro, com uma bolsa de pós-doutorado na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC; e, depois de um ano, eu pedi renovação da minha licença na Alemanha, que foi concedida. E, em 1996, entrei como professor na Unisinos. A partir disso, pedi demissão na Alemanha.

Família – Meus pais são vivos e moram na Alemanha com meu irmão. É uma família pequena que mora em Bielefeld. Tenho uma companheira, mas por enquanto não estou casado.

Lazer – Gosto de fotografar. Fazer caminhadas. Praticar esportes. Ler. Viajar; acho que esse é o meu maior prazer. Desde os meus 15 anos, já viajava sozinho. Então, acabei indo para vários lugares da Europa e América do Sul.

Autor – Existe um autor americano que se chama Michael Crichton. O livro mais famoso que ele escreveu foi O parque dos dinossauros. O autor é médico. Então, ele consegue tratar de assuntos científicos de uma maneira extremamente inteligente. Para a diversão, gosto de ler esse autor. Mas gosto também dos clássicos. Aprecio autores russos. Gosto do Dostoiévski  e Tolstoi. Eles tinham uma maneira de escrever que, acho, hoje, ninguém consegue mais.

Livro – Presa, do Michael Crichton, que trata de problemas relacionados com a inteligência artificial.

Filme - Gosto do clássico, de quase quatro horas de duração, faroeste, que se chama Era uma vez no Oeste, com Charles Bronson no papel principal.

Política brasileira - Estou extremamente decepcionado com a atitude de políticos em geral. Não consigo entender a situação no Congresso, por exemplo. Pessoas que, pela lei, são consideradas corruptas, continuam na vida pública porque o Senado decide a seu favor, para que permaneçam. Isso é uma coisa que não consigo entender.

Religião – Luterana.

Sonho – Almejo viajar muito ainda. Aprender bastante sobre coisas que ainda sei muito pouco. Além disso, gostaria de me dedicar mais à fotografia.

Lembrança – Tenho muito prazer ao ver um trabalho que comecei dar certo. No nosso projeto de pesquisa, por exemplo, tem uma parte que envolve a população e se isso dá certo eu me sinto extremamente feliz. Tem um episódio que um aluno meu me contou quando fizemos uma saída de campo. Nós tivemos um projeto que se chamava Peixe Dourado, trabalho que ligava ciência com educação ambiental. Então, nós usamos a espécie do peixe dourado como motivador para a educação ambiental. Os alunos que fizeram parte desse projeto receberam uma camiseta. Além disso, nossa caminhonete que usamos para a ida a campo tinha a mesma logomarca. Ou seja, estávamos todos muito bem identificados com esse projeto. Quando as pessoas que tinham contato com essas questões nos avistavam e viam a caminhonete, sabiam que se tratava do projeto Peixe Dourado. Então, quando estava com meus alunos, andando no campo, fazendo um levantamento de peixes, eles encontraram um estudante em uma cadeira de rodas. E esse menino olhou para a caminhonete, foi para casa, e, quando voltou, tinha colocado a camiseta do projeto. Essas coisas me fazem muito feliz.

Unisinos – Representa um lugar seguro para trabalhar. A Unisinos é uma universidade particular que está na liderança do país. A avaliação dos nossos cursos, em geral, é muito boa. Ela hoje se distingue de várias outras pelo investimento que faz na área de pesquisa. O professor que trabalha na Unisinos, que é associado a um PPG, tem a possibilidade de trabalhar com pesquisa e fazer um trabalho padrão como nas universidades federais.

IHU – As matérias do IHU sempre enfocam na atualidade, o que acho muito bom, e os jornalistas conseguem preparar essa matéria para uma clientela diversificada, para o leigo. Várias entrevistas que concedi para o Instituto foram muito boas, porque eles conseguiram transformar em uma linguagem que é acessível para todos.


Leia mais...

Uwe Schulz
já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* Rio dos Sinos: Causas do desastre não foram completamente eliminadas. Notícias do Dia 20-04-2010

* O atraso do RS em termos de saneamento. “Ainda há esperanças para o Rio dos Sinos”.  Revista IHU On-Line 242, de 05-11-2007

* A nova agonia do Rio dos SinosNotícias do Dia 13-11-2010

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