Edição 373 | 12 Setembro 2011

Filosofia da Libertação e direitos humanos no pensamento de Ellacuría

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Márcia Junges | Tradução: Benno Dischinger

Laço entre ambos aspectos tinha na análise da realidade o seu grande enfoque, comenta José Mora Galiana. Calcada na realidade histórica e na prática política, o pensamento desse jesuíta não se fixava somente na filosofia “do ser enquanto ser”

Uma filosofia centrada na realidade histórica e na prática política, ao invés de se fixar no “ser enquanto ser”. Assim pode ser caracterizado o fazer filosófico de Ignácio Ellacuría, observa o filósofo espanhol José Mora Galiana, na entrevista que concedeu, por e-mail à IHU On-Line. “A constatação da não-justiça, da não-liberdade, da não-verdade o obrigava a acentuar a dimensão ética e política da Filosofia latino-americana”, afirma. E continua: “O laço entre Filosofia da Libertação e os Direitos Humanos é uma sequência obrigatória da função pedagógica da Filosofia e de sua análise da realidade: a violação da vida, as matanças de camponeses, os desaparecidos, e os crimes de Estado obrigam moralmente à defesa dos direitos humanos, sendo o primeiro e principal o da vida”.

José Mora Galiana, doutor em Filosofia, é assessor de projetos sociais e europeus na Fundação AFIES e professor de Filosofia de Direito e Política na Universidade Pública Pablo de Olavide, de Sevilha. Em outubro de 2009, junto com Juan Antonio Sennet de Frutos e Raúl Fornet Betancourt, formou o Comitê Científico do “Congresso Internacional Ignacio Ellacuría, vinte anos depois”, celebrado na Faculdade de Direito da Universidade de Sevilha. Nesta semana, participará do XII Corredor de Ideias de Porto Alegre onde proferirá a conferência O pensamento de Ignacio Ellacuría sobre Filosofia da Libertação e Direitos Humanos. Também nesta semana, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, ele continuará o Ciclo Perspectivas do Humano, apresentando a vida e a obra de Ignácio Ellacuría. Em 12-09-2011, às 19h30min, no Auditório Central da Unisinos, falará sobre Filosofia da Libertação e Direitos Humanos no pensamento de Ignacio Ellacuría. Em 15-09-2011, no IHU Ideias, das 17h30min às 19h, seu tema é Vida e obra de Ignacio Ellacuría. À noite, das 19h30min às 22h30min, apresentará a conferência Filosofia, Universidade e Política: a inserção social de Ignacio Ellacuría.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como se relacionavam o fazer filosófico e a práxis política de Ignacio  Ellacuría?

José Mora Galiana - Ignacio Ellacuría, após uma sólida formação em Filosofia, considerava que o inescusável, sobretudo na América Latina, era partir da realidade, sentida, atualizada, pensada e entendida como realidade histórica estruturalmente injusta. A constatação da não-justiça, da não-liberdade, da não-verdade o obrigava a acentuar a dimensão ética e política da Filosofia latino-americana. Segue daí que, em sua época de maturidade intelectual e humana entendesse a Filosofia como síntese entre o “nous theoretikos” e o “nous politikos”. A filosofia, para ser tal, para ser paixão e amor pelo saber e o conhecer, e pelo fazer a verdade e a justiça, tem necessariamente uma dimensão comunitária, pública e política. Por isso, o objeto da filosofia que ele propõe não é “o ser enquanto ser”, senão a realidade histórica e a práxis política.

IHU On-Line - Como podemos compreender o laço que unia Filosofia da Libertação e Direitos Humanos no pensamento desse jesuíta?

José Mora Galiana - O laço entre Filosofia da Libertação e os Direitos Humanos é uma sequência obrigatória da função pedagógica da Filosofia e de sua análise da realidade: a violação da vida, as matanças de camponeses, os desaparecidos, e os crimes de Estado obrigam moralmente à defesa dos direitos humanos, sendo o primeiro e principal o da vida. A não-vida digna obriga igualmente à defesa dos demais direitos individuais, sociais, econômicos, culturais, religiosos e políticos.

IHU On-Line - Qual é a conexão entre sua Filosofia da Libertação e a Teologia da Libertação? Em que aspectos Filosofia e Teologia da Libertação se entrelaçam ao longo de sua caminhada?

José Mora Galiana - A Filosofia da Libertação, que é libertação da Filosofia subjetiva, transcendental ou teorética e justificativa da dependência, do domínio e da escravidão, é, por sua vez, o fundamento da Teologia Canônica, que se abre “transcendentalmente” à “ortopráxis”. Pois, como amar a Deus a quem não se vê se não se ama o irmão – em situação de necessidade – a quem, sim, se vê?

IHU On-Line - Dentro da categoria “Libertação” é que podemos compreender a inserção social de Ellacuría, mesclando Filosofia, Universidade e Política? Por quê?

José Mora Galiana - O tema da Filosofia e da Política foi expressamente tratado por Ignacio Ellacuría em 1972 (justamente um ano antes de escrever sua Teologia Política num contexto social no qual se exigia uma reforma agrária que não chegaria a produzir-se nunca). Há neste tema um referente clássico: a pessoa e o modo de filosofar de Sócrates , e um referente externo: a politização universitária na Espanha frente à ditadura. Porém, substantivamente, a história é forçosamente política num ou noutro sentido e, consequentemente, também nossas atuações humanas, quando têm uma repercussão pública. Por isso ele coloca, a partir da Universidade, a exigência de um pensamento crítico que mergulhe no por que e no para que das coisas, da ciência e das atuações ou opções. Pode-se legitimar um status quo injusto ou se pode denunciá-lo como estruturalmente injusto. Porém, se o status quo é injusto é preciso denunciar as falácias, é preciso denunciá-las e transformar a realidade para poder alcançar a libertação das maiorias frente ao poder e o domínio das minorias. E essa é a correta polarização universitária na dimensão política da Filosofia. Esse debate, quando se trata da terra, do acesso aos bens, e dos Direitos Humanos, tem evidentemente uma grande projeção social. A Filosofia, toda ela, não é asséptica, pois tem de seu uma dimensão política de muito calado.

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