Edição 372 | 05 Setembro 2011

Crise global: mais do que apenas especulação financeira

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Graziela Wolfart e Patricia Fachin

Para Fernando José Cardim de Carvalho, essa nova onda de crises é resultado do desdobramento da crise iniciada em 2007

As consequências de sucessivas crises internacionais são, na opinião do economista Fernando Cardim, “o empobrecimento de muitos países, o desemprego, a destruição de capacidade produtiva. Nesse contexto, sobe a probabilidade de conflitos sociais, como os indignados espanhóis e os conflitos gregos, como sobe também a probabilidade de adoção de métodos protecionistas, para tentar resolver o desemprego de um país exportando-o para seus parceiros, manipulação cambial, etc. O resultado pode ser um longo período de empobrecimento, estagnação e convulsão social, até que as sociedades acabem por descobrir um modo de reagir a essas tendências”. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line, Cardim não identifica que estamos vivendo uma crise estrutural do capitalismo, que mostre a inviabilidade desse tipo de sistema. “Mas é certamente mais que especulação financeira”, contrapõe. Para ele, “economias capitalistas, deixadas a si mesmas, tendem a desenvolver fragilidades que, cedo ou tarde, tendem a levar a economia a um colapso. Se este colapso não for enfrentado, ou for enfrentado com meias e hesitantes medidas, como ocorreu dessa vez, a situação pode não se tornar mais dramática (como nos anos 1930), mas ainda assim gerar um estado de estagnação que pode se prolongar por muito tempo”.

Fernando Cardim de Carvalho é mestre em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutor em Economia pela Rutgers, State University of New Jersey. Atualmente, é consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase – e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – As principais economias ocidentais entraram em crise. Quais as razões desse colapso?

Fernando Cardim – Essa nova onda de crises é resultado do desdobramento da crise iniciada em 2007. Exceto no caso grego, onde a crise tem raízes na desorganização da própria economia local, nos países europeus restantes ela resulta principalmente do impacto da crise seja sobre a situação fiscal dos atingidos, como no caso da Irlanda, que passou a ter um déficit fiscal enorme por causa das despesas que o governo fez para o salvamento de seu sistema bancário, seja sobre a avaliação que os investidores fazem da viabilidade de economias nacionais, como a portuguesa, e agora também a espanhola e a italiana. A mudança de avaliação de investidores quanto às perspectivas desses países faz com que seus financiamentos se contraiam, aumentando seu custo. Ao subirem assim as taxas de juros, esses países acabam mesmo por se tornar inviáveis. É o que ocorreu com Portugal e pode ocorrer com Espanha e Itália. Até a França, nos últimos dias, passou a sofrer este tipo de avaliação e viu os juros de seus títulos públicos subirem no mercado secundário.

IHU On-Line – Pode-se dizer que a crise financeira internacional é uma crise do capitalismo ou é, em boa medida, uma especulação financeira?

Fernando Cardim – Eu não sei bem o que significa “crise do capitalismo”. Com certeza é uma crise do capitalismo, no sentido de que resulta de mecanismos que só existem nesse tipo de economia. Mas se por crise do capitalismo se entende algo como uma crise estrutural, que mostre a inviabilidade desse tipo de sistema ou coisas assim, me parece que a expressão é completamente inadequada. Mas é certamente mais que especulação financeira. Não é um jogo apenas, porque a estabilidade sistêmica de economias empresariais depende mesmo de que as expectativas sobre seu futuro sejam minimamente otimistas. Quando se conclui que algumas dessas economias estão em trajetórias insustentáveis, o que se faz é tentar se livrar de quaisquer ativos que possam sofrer perdas, levando ao colapso desses mercados ou a medidas de reestruturação da economia que mudem sua trajetória. Foi o que fez, por exemplo, com o New Deal . Nesta crise, contudo, ainda não apareceu nenhuma proposta de mudança mais consequente.

IHU On-Line – O que as constantes crises internacionais revelam sobre a economia e o sistema financeiro? Por que está sendo tão difícil controlá-las?

Fernando Cardim – Nós não estamos testemunhando muitas crises internacionais, nós estamos vivendo os desdobramentos da mesma crise, iniciada em 2007, nos Estados Unidos, e que contagiou outras áreas a partir de 2008. O que elas mostram é que economias capitalistas, deixadas a si mesmas, tendem a desenvolver fragilidades que, cedo ou tarde, tendem a levar a economia a um colapso. Se este colapso não for enfrentado, ou for enfrentado com meias e hesitantes medidas, como ocorreu desta vez, a situação pode não se tornar mais dramática (como nos anos 1930), mas ainda assim gerar um estado de estagnação que pode se prolongar por muito tempo. Este tipo de processo pode ser controlado antes que chegue ao estágio do colapso. É o que aconteceu entre a década de 1930 e agora. Mas quando as defesas criadas naquela década foram desmontadas, como parte do processo de liberalização financeira, as fragilidades voltaram a se manifestar. A inação política permitiu que se chegasse ao estágio da avalanche e, aí, tudo se torna muito mais difícil de controlar. Se se somar um problema de origem independente, a ascensão da direita irracional dos Estados Unidos, corporificada no partido republicano, encontrar soluções se torna mesmo muito difícil.

IHU On-Line – É possível evitar crises internacionais em uma economia cada vez mais globalizada?

Fernando Cardim – O problema mais importante não foi propriamente a globalização, ainda que isso torne mais difícil a coordenação de políticas necessária ao combate eficaz à crise. (Basta ver que não existem instrumentos para coibir a ação não cooperativa de chineses e, principalmente, de alemães.) O que foi decisivamente destrutivo foi, sem dúvida, a liberalização financeira. Agora que o desastre já ocorreu, a globalização se complica pela inexistência de estruturas globais de governança eficaz. Mas é necessário se considerar esse elemento com muito cuidado, especialmente para países em desenvolvimento, porque estruturas internacionais de governança geralmente implicam controle das opções e latitudes de ação de países emergentes por países mais ricos. É muito mais importante, ainda, definir áreas e instrumentos de autonomia, como, por exemplo, a criação de controles de capitais, do que apostas em governança internacional, que pode se tornar um instrumento de dominação em vez de coordenação democrática de políticas desenhadas para o bem de todos.

IHU On-Line – As crises internacionais podem gerar algum impacto para as economias emergentes? Como a crise atinge os países do Bric?

Fernando Cardim – Certamente. A contração do comércio internacional pode contrair mercados para exportações de emergentes, pode fazer cair os preços de commodities (das quais países como o Brasil se tornaram muito dependentes, resultados de anos de políticas equivocadas), pode afetar, portanto, diretamente o nível de atividades. Mas uma crise como a atual pode também levar ao retorno de capitais estrangeiros aos seus países de origem (para cobrir perdas por lá), pressionando a taxa de câmbio no Brasil e causando pressões inflacionárias. Todos querem que a apreciação do real se reverta, mas não de forma rápida, em meio a pânico, mas controlada de forma a evitar a emergência de pressões inflacionárias domésticas e problemas para as empresas que se endividaram em dólares nos últimos dois a três anos. Alem disso, pode haver um efeito sobre expectativas, tornando investidores mais pessimistas e inibindo o investimento privado doméstico. Não é inevitável que isso aconteça, mas há o risco.

IHU On-Line – O governo brasileiro anunciou medidas fiscais para controlar o câmbio. Elas são necessárias ou paliativas, considerando a conjuntura atual?

Fernando Cardim – As últimas medidas, que atingem também o mercado de derivativos, são de amplitude potencialmente maior, mas ainda estão sendo traduzidas em diretrizes efetivas. As anteriores, impondo IOF sobre certas formas de entradas de capital, foram muito tímidas para ter eficácia. Alem disso, pouco se fez para coibir liberdade de saída de capitais de residentes, o que pode vir a ser problema sério se as perspectivas internacionais se agravarem.

IHU On-Line – Quais serão as consequências se sucessivas crises internacionais continuarem ocorrendo?

Fernando Cardim – As consequências são as que se vê agora. O empobrecimento de muitos países, o desemprego, a destruição de capacidade produtiva. Nesse contexto, sobe a probabilidade de conflitos sociais, como os indignados espanhóis e os conflitos gregos, como sobe também a probabilidade de adoção de métodos protecionistas, para tentar resolver o desemprego de um país exportando-o para seus parceiros, manipulação cambial, etc. O resultado pode ser um longo período de empobrecimento, estagnação e convulsão social, até que as sociedades acabem por descobrir um modo de reagir a essas tendências.

IHU On-Line – Recentemente, Nicolas Sarkozy e Ângela Merkel anunciaram a criação de um governo econômico comum para a zona do euro. Como o senhor vê essa medida? Um governo econômico comum seria uma alternativa para resolver os problemas econômicos e financeiros da região?

Fernando Cardim – Construir uma administração política comum à União Europeia é uma exigência quase inevitável da existência de uma moeda comum. Os países membros descobrem tardiamente algo que sempre se soube. Naturalmente, criar um “governo” europeu é apenas um pré-requisito. Resta saber o que esse governo fará quando for criado. A qualidade das lideranças políticas europeias dá pouca razão para otimismo nesse particular. Desprovidos de visão mais ampla, acuados pela crise e por eleitorados dominados por preconceitos como o de que europeus “do norte” trabalham mais do que os mediterrâneos e coisas assim, é de se imaginar que um governo europeu, constituído pelas autoridades que hoje controlam os governos nacionais, não vá funcionar muito melhor do que se tem agora. Mas criar instituições melhores é um pré-requisito.

Leia mais...

>> Fernando Cardim de Carvalho já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line, disponíveis na página eletrônica do IHU (www.ihu.unisinos.br).

•    “Criou-se uma moeda europeia, mas não um estado europeu”. Entrevista publicada na edição 330, de 24-05-2010;
•    As controvérsias da política econômica brasileira. Entrevista publicada na edição 338, de 09-08-2010;
•    Câmbio continua sendo maior desafio do governo brasileiro. Entrevista publicada na edição 356, de 04-04-2011.

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