Edição 371 | 29 Agosto 2011

Adam Smith, os sentimentos morais e a acumulação da fortuna material

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Para André Azevedo, Adam Smith foi capaz de entender e relacionar o desejo individual, egoísta, de melhorar a condição de vida material com a acumulação de riqueza de um país

O primeiro economista era, antes disso, um filósofo. E a partir desta formação é que Adam Smith contribuiu para o pensamento clássico e econômico e continua atual até nossos dias. Tendo isso em vista, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU promove o Ciclo de Estudos: Repensando os Clássicos da Economia – Edição 2011, que inicia hoje, dia 29 de agosto. O professor Dr. André Filipe Zago de Azevedo, professor no PPG em Economia da Unisinos, falará sobre o tema “Adam Smith: os sentimentos morais e as razões da acumulação e da conservação da fortuna material”, das 20 às 22h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU.
Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, André Azevedo argumenta que, do ponto de vista econômico e influenciado pela ineficiência gerada pelo Estado mercantilista, Adam Smith pendeu para o livre mercado. “Enquanto a ordem imposta pelo Estado gerava desordem, a desordem aparente do mercado conduzia à ordem, uma ordem anárquica das partes. Nesse sistema, para ele, (i) desde que não se violasse as leis da justiça (regras do jogo), (ii) cada homem ficaria livre para buscar seu próprio interesse. Na visão smithiana, essas são as duas variáveis-chave para entender a riqueza das nações”. E André explica porque considera interessante retomar Smith em pleno contexto de crise financeira internacional, ao lembrar que ele “foi um dos primeiros a defender o livre comércio, que seria um mecanismo capaz de promover o aumento da produção via especialização e, com as trocas, aumentar o consumo e o bem-estar das populações dos países envolvidos no comércio internacional. No entanto, ele reconhecia a importância da regulação, ou seja, da necessária obediência às ‘regras do jogo’. A forte desregulamentação financeira, ocorrida desde os anos 1980, não seria vista por ele como algo necessariamente benéfico”.

André Filipe Zago de Azevedo é graduado e mestre em Economia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e doutor em Economia, pela University of Sussex, Inglaterra. É professor do Programa de Pós-Graduação em Economia na Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que sentido os sentimentos morais em Adam Smith se relacionam com as razões da acumulação e da conservação da fortuna material?

André Azevedo – Smith, ao contrário de muitos filósofos morais, que condenavam a riqueza e a ambição material, foi capaz de entender e, mais do que isso, relacionar esse desejo individual, egoísta, de melhorar a condição de vida material com a acumulação de riqueza de um país. Isso não significa que Smith atribuísse à riqueza uma importância indevida para a felicidade do indivíduo. Ao contrário, ele parecia ser cético quanto à relevância do progresso material para a felicidade das pessoas. Ou seja, ele foi capaz de distinguir entre o desejado e o desejável. Conforme observado por Eduardo Giannetti , em seu livro A ética na riqueza das nações , “entre o desejável e o desejado está uma opinião, um juízo de valor que faz daquilo que se deseja algo merecedor do nosso desejo”. A ética incidiria exatamente aí, sendo o filtro que separa o desejado do desejável. Na teoria dos sentimentos morais, Smith enfatiza que a riqueza é desejada pela “grande multidão humana” e que, embora isso fosse moralmente tolerável, estava longe de ser o desejável. O desejável, para ele, seria buscar a sabedoria e a virtude. No entanto, isso não o impediu de procurar compreender quais seriam as causas da riqueza das nações.

IHU On-Line – Qual a importância da obra Riqueza das Nações, de Adam Smith, para a constituição da economia como ciência?

André Azevedo – Para muitos, a importância da Riqueza das nações não reside apenas no fato de ter sido a primeira obra que tratou, com profundidade, de assuntos econômicos, mas na sua capacidade de explicar o próprio “homem econômico”. De acordo com Ronald Coase , ao receber o prêmio Nobel de Economia, em 1991, “a principal atividade dos economistas, desde a publicação da Riqueza das nações, em 1776, tem sido preencher as lacunas no sistema de Adam Smith, corrigir seus erros e tornar sua análise mais precisa”. Isso mostra a relevância dessa obra para o surgimento da economia como ciência. Portanto, mais de dois séculos após sua publicação, ela não perdeu a capacidade de se manter atual.

IHU On-Line – Qual a contribuição de Smith para a possibilidade de conjunção entre interesses privados e interesse público, entre a busca do interesse próprio do indivíduo e o bem-estar social, entre o bem-estar de cada um e o bem comum a todos?

André Azevedo – A obra de Smith sofreu forte influência de Mandeville , autor de Fábula das abelhas: vícios privados, benefícios públicos, em que o autor afirma que os pecados humanos (egoísmo, lascívia, vaidade, etc.) seriam insumos indispensáveis para o progresso econômico. Assim, o egoísta, que só pensava em si, seria o responsável pelo avanço material da sociedade, ou seja, aquele indivíduo, cujo comportamento era repudiado desde os tempos bíblicos, torna-se um benfeitor público. Por sinal, uma das frases mais famosas da Riqueza das nações é: “Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm de seu próprio interesse”.

IHU On-Line – Em que sentido a metáfora da mão invisível exprime essas conjunções?
André Azevedo –
Em outras palavras, que mecanismo seria responsável por transformar os vícios das partes no esplendor do todo? Muitos interpretam como sendo a liberdade econômica com regras gerais de conduta justa, isto é, a mão invisível, é o que levaria o indivíduo a promover um fim, ou seja, o bem-estar da sociedade, que não era parte da sua intenção original. Assim, ao buscar promover seu autointeresse, o egoísta estaria beneficiando a toda a sociedade.

IHU On-Line – Quais os fundamentos da filosofia moral e da economia política smithiana, e qual a relação entre ambas?

André Azevedo – Embora tenha sido o primeiro economista, Smith foi um filósofo até o fim de seus dias. Segundo James Bonar, seu principal motivo para estudar economia na Riqueza das nações e ética na Teoria dos sentimentos morais é a descoberta da verdade por ela mesma, o amor de buscar a ordem onde parecia haver o caos. Do ponto de vista econômico, influenciado pela ineficiência gerada pelo Estado mercantilista, Smith pendeu para o livre mercado. Enquanto a ordem imposta pelo Estado gerava desordem, a desordem aparente do mercado conduzia à ordem, uma ordem anárquica das partes. Nesse sistema, para ele, (i) desde que não se violasse as leis da justiça (regras do jogo), (ii) cada homem ficaria livre para buscar seu próprio interesse. Na visão smithiana, essas são as duas variáveis-chave para entender a riqueza das nações.

IHU On-Line – Em que sentido Adam Smith pode contribuir com uma reflexão sobre a crise financeira internacional atual?

André Azevedo – Smith foi um dos primeiros a defender o livre comércio, que seria um mecanismo capaz de promover o aumento da produção via especialização e, com as trocas, aumentar o consumo e o bem-estar das populações dos países envolvidos no comércio internacional. No entanto, ele reconhecia a importância da regulação, ou seja, da necessária obediência às “regras do jogo”. A forte desregulamentação financeira, ocorrida desde os anos 1980, não seria vista por ele como algo necessariamente benéfico.

Leia mais...


>> André Filipe Zago de Azevedo já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

* Brasil será atingido pela crise mundial. Publicada na IHU On-Line número 274, de 22-09-2008

>> Veja o que mais o Instituto Humanitas Unisinos – IHU já publicou sobre Adam Smith:

•    A atualidade do pensamento de Adam Smith. Entrevista com Ana Maria Bianchi, publicada na IHU On-Line nº 133, de 21-03-2005;
•    Cadernos IHU Ideias número 35, de 21-07-2005, intitulado Adam Smith: filósofo e economista, escrita por Ana Maria Bianchi e Antônio Tiago Loureiro Araújo dos Santos. 

Últimas edições

  • Edição 542

    Vilém Flusser. A possibilidade de novos humanismos

    Ver edição
  • Edição 541

    Planos de saúde e o SUS. Uma relação predatória

    Ver edição
  • Edição 540

    Hans Jonas. 40 anos de O princípio responsabilidade

    Ver edição