Edição 371 | 29 Agosto 2011

O Jango da memória e o Jango da História

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Graziela Wolfart

Lucília de Almeida Neves Delgado considera que o Jango da memória, que inclui o esquecimento, é apresentado como um político pífio, incompetente e demagogo. Já o Jango da História é um político que apresenta uma trajetória consistente, que incluiu vitórias eleitorais expressivas e a participação em cargos

Ao refletir sobre o episódio da legalidade, é impossível não falar de João Goulart, personagem central do episódio ao lado de Brizola. O ex-presidente é o tema principal da entrevista concedida por e-mail pela professora Lucília de Almeida Neves Delgado, da UNB. Para ela, “Jango foi herdeiro dileto de Getúlio Vargas, mas em muitos aspectos diferenciou-se do velho estadista, que paradoxalmente foi também um ditador. Jango bebeu nas águas do getulismo, mas criou sua própria marca, de um trabalhismo mais moderno e arrojado. Penso que ainda precisamos fazer jus à sua memória e à sua trajetória, não de uma forma ufanista e inconsequente, mas sim reconhecendo seus limites e suas qualidades de homem público”. Lucília também fala sobre o PTB, e o coloca como “filho do getulismo, mas um filho que ganhou autonomia de voo à medida que foi se consolidando como partido. O PTB jamais deixou de ser getulista, mas passou a ser mais do de que somente getulista. Com o tempo ficou mais trabalhista do que getulista”.

Lucília de Almeida Neves Delgado é professora dos cursos de graduação e pós-graduação em História da Universidade de Brasília – UNB. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado em Ciências Humanas/Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É autora de, entre outros, Comando Geral dos trabalhadores no Brasil (1961-1964) (Petrópolis: Vozes, 1986); e PTB: do getulismo ao reformismo (1945-1964) (São Paulo: Marco Zero, 1989). Lucília estará na Unisinos participando do Seminário 50 anos da Campanha da Legalidade: memória da democracia brasileira, promovido pelo IHU amanhã, dia 30 de agosto de 2011.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como ficou desenhada a figura política de João Goulart na memória e no imaginário social brasileiro?

Lucília de Almeida Neves Delgado – Infelizmente, João Goulart, que foi um dos maiores líderes trabalhistas do Brasil, é um grande injustiçado pela História. Deposto por um golpe político em 1964, teve sua memória estigmatizada e desqualificada pelos militares, que precisavam justificar o rompimento da ordem democrática e sua ascensão ao poder político da nação brasileira por uma via não constitucional e não democrática. Após o golpe de 1964, toda política oficial em relação a João Goulart teve duas orientações: desqualificação e urdidura do esquecimento. Os jornais, sob censura, foram relegando notícias sobre Goulart a um segundo plano. Parte da intelectualidade de esquerda, com base na teoria do populismo, também considerou Jango um político ou inexpressivo ou pouco competente e, finalmente, segmentos de esquerda que atuaram na luta pela democratização do país, a partir do final da década de 1970, também desconsideraram a importância de Goulart na política brasileira, pois queriam ser identificados como os melhores e talvez os únicos representantes da esquerda na História do Brasil. Só recentemente passamos a verificar um esforço por parte de historiadores e outros intelectuais no sentido de reavaliar a presença de Jango na História do Brasil e de reconsiderar sua importante contribuição como líder trabalhista brasileiro. A mais recente publicação que reavalia a trajetória política de Goulart é a alentada e bem fundamentada biografia escrita por Jorge Ferreira, intitulada: João Goulart. Uma biografia. Trata-se de um livro denso, pioneiro como biografia do ex-presidente e muito consistente nas análises que apresenta. Considero também, que o livro de minha autoria, escrito em 1989 e agora lançado em segunda edição pela LTr, também faz jus à importância de Goulart como líder político trabalhista que abraçou a causa do reformismo social.

IHU On-Line – Existem diferenças entre o Jango da memória e o Jango da História?

Lucília de Almeida Neves Delgado – Claro que sim. O Jango da memória que inclui o esquecimento é apresentado como um político pífio, incompetente e demagogo. O Jango da História é um político que apresenta uma trajetória consistente, que incluiu vitórias eleitorais expressivas e a participação em cargos como deputado estadual, deputado federal, Ministro do Trabalho, vice-presidente da República, por duas vezes, e, por fim, presidente do Brasil. Além disso, foi presidente do PTB, partido ao qual foi filiado desde tenra idade. Sua coerência como político trabalhista, preocupado com causas sociais, reformistas e nacionalistas, é um marco importante de sua trajetória. Como presidente da República, Goulart governou sob a égide de uma crise institucional profunda. Mesmo assim, fez um governo de importantes realizações. Só a título de registro, podemos lembrar da criação da Eletrobrás, da aprovação do Estatuto do Trabalhador Rural, da Lei do Décimo Terceiro Salário e da fundação da Universidade de Brasília. Além disso, cabe também registrar a orientação de sua política externa não alinhada, o que era uma ousadia, no tempo da Guerra Fria.

IHU On-Line – Na trajetória histórica e política do PTB, quais os principais acontecimentos que pontuam o caminho do getulismo ao reformismo?

Lucília de Almeida Neves Delgado – O Partido Trabalhista Brasileiro nasceu ao final do Estado Novo como um partido marcadamente getulista. Sua fundação objetivava também fazer frente
à expansão do Partido Comunista quando da redemocratização de 1945. Mas a história do PTB, interconectada à História do Brasil, caminhou na direção da adoção da causa de um reformismo social profundo e de um nacionalismo contundente. Mesmo tendo na pessoa de Getúlio Vargas uma referência genuína, incorporou uma nova liderança trabalhista, que, podemos dizer, avançou à esquerda em relação ao programa fundador do partido.

IHU On-Line – Como a história do PTB se relaciona com Getúlio Vargas e com o getulismo?

Lucília de Almeida Neves Delgado – O PTB é filho do getulismo, mas um filho que ganhou autonomia de voo à medida que foi se consolidando como partido. O PTB jamais deixou de ser getulista, mas passou a ser mais do de que somente getulista. Com o tempo ficou mais trabalhista do que getulista.

IHU On-Line – Como a senhora define a relação do movimento sindical com o PTB?

Lucília de Almeida Neves Delgado – Trata-se de uma relação umbilical. Muitos dos mais importantes líderes sindicais do Brasil no período de 1945 a 1964 eram também petebistas. Na verdade, o movimento sindical do Brasil naqueles anos contou também com a atuação de lideranças católicas e comunistas, mas os trabalhistas eram, a bem dizer, hegemônicos, em especial no período imediatamente anterior ao golpe político de 1964.

IHU On-Line – Quais os principais pontos da evolução programática do PTB?

Lucília de Almeida Neves Delgado – Certamente foi a adoção da bandeira da reforma agrária e demais reformas de base, a defesa do terceiro-mundismo e um forte nacionalismo. Podemos dizer que, com o passar dos anos, o PTB tornou-se referência de um trabalhismo democrático, orientado por profundas preocupações sociais. Com certeza ficou mais próximo da social-democracia do que da liberal-democracia.

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