Edição 196 | 18 Setembro 2006

Inácio de Loyola, mestre da suspeita

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IHU Online

Carlos Domínguez Morano é doutor em Teologia pela Universidade de Granada, Espanha, doutor em Filosofia e Ciências da Educação pela Universidade de Madri, licenciado em Filosofia Pura pela Universidade de Valência e em Psicologia pela Universidade de Madri. Sua formação psicanalítica se deu no Centro L’A.M.A.R. de Paris e no Instituto de Psicoterapia Analítica “Peña Retama” de Madrid. Atualmente, Morano é professor de Psicologia da Religião na Faculdade de Teologia de Granada e psicoterapeuta no Centro Francisco Suárez, da mesma cidade, onde realiza também um trabalho formativo com profissionais de saúde mental.

Carlos Morano foi presidente da Associação Internacional de Estudos Médico-Psicológicos e Religiosos (A.I.E.M.P.R.). É professor convidado em diversas universidades da Espanha e da América Latina. Suas publicações abordam a problemática das relações entre a psicanálise e a fé e da análise do mundo afetivo. Entre elas, cabe destacar como as mais importantes: El psicoanálisis freudiano de la religión. Madri: Ed. Paulinas, 1991; Creer después de Freud. Madri: Ed. Paulinas, 1992; Experiencia mística y psicoanálisis. Santander: Sal Terrae, 1999; Psicoanálisis y Religión: diálogo interminable. Madrid: Trotta, 2000; Psicodinámica de los Ejercicios Ignacianos. Santander: Sal Terrae, 2003; e Experiencia cristiana y psicoanálisis. Córdoba: EDUCC, 2005.

Confira, a seguir, a entrevista que Morano concedeu com exclusividade para a revista IHU On-Line, falando sobre o tema Inácio de Loyola à luz da psicologia, que ele desenvolverá durante o Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que se realizará na Unisinos, de 25 a 28 de setembro.

IHU On-Line - Como podemos caracterizar Inácio de Loyola do ponto de vista da psicologia?

Carlos Morano
- É difícil caracterizar de modo uniforme uma personalidade da complexidade e riqueza de Inácio. Em sua dinâmica pessoal, tiveram lugar transformações muito profundas que foram caracterizando seu psiquismo de modo muito especial. De ser um homem dado "às mulheres, ao jogo e às brigas", passou a ser um homem polarizado completamente pela experiência religiosa. E, a partir dela,  converteu-se em um buscador incansável, o que o foi conduzindo a experimentar situações humanas e espirituais muito diferentes: de quase eremita em Manresa , foi peregrino em Jerusalém, estudante em Alcalá , Salamanca  ou Paris, e organizador de uma nova instituição religiosa... Situações tão diferentes que, sem dúvida, acarretaram configurações psicodinâmicas muito diferentes também.

Vitalidade e energia fora do comum

Mas, em todo caso, teríamos que destacar como característica fundamental que recorre e marca toda sua vida a de uma vitalidade e energia fora do comum, expressada em uma vontade de aço e em um "eu" de enorme fortaleza e capacidade. Esse "eu" forte e decidido permitiu-lhe um equilíbrio importante entre suas dimensões afetivas, racionais e relacionais. Por sua vez, se considerarmos sua personalidade sob uma perspectiva clínica, parece inquestionável que seu caráter fosse marcado por claros componentes obsessivos. Daí vem sua tendência ao escrúpulo, à ordem, sua tenacidade etc. Sua inteligência (predominantemente intrapessoal e interpessoal) constitui outro elemento a destacar em sua estrutura pessoal. Essas capacidades favoreceram de modo importante sua vida espiritual e sua experiência mística. E sem deixar espaço para dúvidas, se poderia afirmar que foi essa experiência mística que configurou essencialmente sua vida e sua personalidade a partir de sua conversão.

IHU On-Line - Como a psicologia pode contribuir para o estudo da espiritualidade inaciana?

Carlos Morano
- A psicologia pode ajudar a manifestar dimensões da pessoa que entram em jogo em toda espiritualidade, porque toda espiritualidade se dá em uma dinâmica pessoal bem concreta, fruto de algumas vicissitudes biográficas particulares. Toda experiência religiosa tem lugar no seio de uma experiência humana e, nessa experiência, os componentes psicológicos fazem sempre um papel de "infra-estrutura" básica, que condiciona e determina, em parte, essa mesma experiência espiritual.

IHU On-Line - Qual é a psicologia dos Exercícios Espirituais e até que ponto ela está relacionada com a vida e experiência de Inácio?

Carlos Morano
- A psicologia dos Exercícios é complexa, dado que neles se tenta pôr em jogo toda a personalidade, tantos em seus estratos afetivos, como nos volitivos e racionais. Ao exercitante pede-se uma implicação de todas estas esferas de seu psiquismo, e todas elas devem ser revisadas em ordem para uma transformação profunda de sua vida. E, evidentemente, a experiência espiritual proposta pelos Exercícios não pode ser entendida se  não levarmos em conta de modo fundamental a experiência de Inácio. O que ele fez foi descrever, com enorme rigor e precisão de linguagem, o que havia experimentado no processo de transformação de sua vida, particularmente na etapa de Manresa.

IHU On-Line - Quais são os mecanismos psíquicos que entram em jogo no processo dos Exercícios Espirituais?

Carlos Morano
– Com base no que eu disse até agora se deduz que os mecanismos psíquicos que entram em jogo são muito diferentes e complexos. De modo fundamental, devem ser postos em jogo os aspectos afetivos (sentimento de culpa, processos de identificação, amorosos, estados anímicos diversos etc.) sem os quais não é possível alcançar a reordenação da vida que se persegue. Inácio está convencido de que as puras idéias ou os meros esforços da vontade mudam pouco se não se vêem respaldados por toda a dinâmica afetiva do sujeito. "Desejando e escolhendo..." diz-nos, no Princípio e Fundamento : Se uma escolha (objetivo central nos Exercícios) não está respaldada pelo desejo, em pouco ou em nada poderá ser alcançada. Muitos recursos "técnicos" (aplicação de sentidos, debates, adições etc.) que Inácio propõe têm a função de mobilizar essa afetividade, de transformá-la para que seja possível a mudança "na disposição" da vida. Inácio, como Freud, está convencido de que, mesmo que a razão constitua uma das dimensões mais fundamentais da vida pessoal, a qual lhe corresponde o aspecto de direção e guia, ela não poderá atingir seus objetivos se não se vê assistida e respaldada por uma sensibilidade mais profunda.

IHU On-Line - Como se dá a ação de Deus no ser humano durante a prática dos Exercícios? E depois dessa experiência, o que fica para as pessoas?

Carlos Morano
- A ação de Deus pode se dar nos Exercícios como em qualquer outro modo de experiência espiritual. Deus não está condicionado a atuar dependendo das diferentes modalidades espirituais que os seres humanos possam pôr em jogo. É soberanamente livre para atuar em qualquer modo e situação pessoal. O que ficar dessa ação de Deus ao terminar uma experiência como a dos Exercícios, dependerá da responsabilidade pessoal e da profundidade que teve a resposta a essa ação de Deus.

IHU On-Line - Qual é a particularidade de Inácio de Loyola e de sua experiência religiosa no contexto de seu tempo?

Carlos Morano
- Em Inácio de Loyola, encontramos uma contribuição absolutamente nova e original na história da espiritualidade cristã: nunca se havia estabelecido como critério da ação de Deus o prazer ou desprazer que podem ter lugar na subjetividade da pessoa. É aí, na análise desses movimentos anímicos de "consolação " e "desolação" em que Inácio encontra os sinais de uma ação de Deus na alma. Não é, portanto, por referência a princípios morais ou espirituais, em que se tenta descobrir o certo ou o errado da própria vida ou a orientação para a mesma, mas por referência a algo que tem a ver com a vida do desejo. Isso é uma completa novidade. Podemos afirmar ainda que Inácio tem uma consciência muito profunda de que, nessa vida do desejo, nós podemos nos equivocar com muita facilidade. Por isso, seu método também se caracteriza por uma atitude de suspeita, que poderíamos chamar "vida espiritual avançada". Desse modo, Inácio pode ser considerado, com toda a razão, um "mestre da suspeita". E aí encontramos outra contribuição fundamental à história da espiritualidade cristã: os exercícios como método de suspeita sobre os auto-enganos que podem ter lugar no campo da espiritualidade.
 
IHU On-Line - Como se caracteriza o método inaciano de buscar e encontrar Deus?

Carlos Morano
- O método para essa busca da vontade de Deus se caracteriza pela caminhada rumo a um processo de remodelação afetiva (tirar todas as "afeições desordenadas") que favoreça a "indiferença" (ou seja, a liberdade) necessária e, com base nela, tornar possível uma escolha ou reforma de vida conforme a vontade de Deus. Uma vontade de Deus que tão só se poderá conhecer por meio de um processo espiritual, "místico", podemos dizer, de encontro profundo, íntimo, entre "o Criador e a criatura". Um desejo de Deus que deve ser indagado na profundidade do próprio desejo.

IHU On-Line - Praticar os Exercícios pode nos ajudar a compreender melhor o mundo contemporâneo?

Carlos Morano
- A prática dos Exercícios tem algumas finalidades específicas na linha do que venho dizendo. Não é um método de psicoterapia, nem um método para orientar-se na complexidade da vida sociocultural. Não podemos pedir, portanto, aos Exercícios aquilo que ele não trata de responder. Mas se poderia dizer que, na medida em que o sujeito pode, mediante os Exercícios, adquirir um melhor conhecimento e harmonia consigo mesmo, também poderá, com base neles, adquirir uma nova capacidade para enfrentar e compreender melhor as circunstâncias vitais e sociais nas quais sua vida se desenvolve.

IHU On-Line - Que correntes da psicologia e que autores nos ajudam melhor, na atualidade, a compreender o ser humano e sua contemporaneidade?

Carlos Morano
- Depende de que aspectos do ser humano e da sociedade pretendamos conhecer e explicar. Cada corrente da Psicologia e cada escola centra sua atenção em alguns aspectos particulares da conduta humana, que é o objeto da Psicologia. Dependerá de que aspecto desta conduta queiramos compreender (afetiva, cognitiva, social, etc.) para ver a conveniência de uma corrente psicológica ou outra. A corrente cognitiva está hoje no seu auge e, penso, tem sido muito benéfico seu desenvolvimento como superação do behaviorismo reducionista que dominou boa parte da psicologia do século XX. A psicanálise e a psicologia profunda, em geral, seguirão sendo fundamentais para a compreensão do mundo afetivo e de suas desordens.

IHU On-Line - Qual é atualmente a principal contribuição dos jesuítas à sociedade?

Carlos Morano
- Seguindo a pauta de seu fundador, a de seguir "falando" a Deus em um mundo, o de hoje, onde Deus "diz muito pouco", e referir esse Deus na luta contra o sofrimento, a desigualdade e a injustiça. E tudo isso no mais amplo leque de atividades e setores sociais ou culturais.

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