Uma filosofia para compreender a crise ambiental

Com seu imperativo ético, o princípio responsabilidade de Hans Jonas afirma o valor indiscutível da vida dos humanos e não humanos, observa Helder Carvalho, além de afirmar a liberdade e autonomia do sujeito contemporâneo

Por: Márcia Junges

“A filosofia de Hans Jonas tem o mérito de tocar diretamente num nervo exposto da cultura contemporânea: a conexão da crise ambiental pela qual passa o mundo com a ação humana e o lugar que a técnica moderna ocupa na modelagem dessa ação”. A afirmação é do filósofo Hélder Buenos Aires de Carvalho, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, “o costumeiro é pensar que a técnica é sempre algo que produz o bem, que traz benefícios para nossa vida, como se fosse algo divino, sem a mácula do pecado”. A reflexão de Jonas, continua, “busca lembrar ao homem que ele tem um papel significativo nas transformações ambientais do mundo e que o poder que adquiriu com o desenvolvimento da técnica – e seu uso desmesurado – precisa ser modulado eticamente, a partir de um referencial não mais antropocêntrico, mas biocêntrico, pois carrega consigo também a possibilidade do mal extremo”.

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal do Piauí – UFPI, Helder Buenos Aires de Carvalho é especialista em História da Filosofia Contemporânea e Pesquisa Educacional pela mesma instituição. Cursou mestrado e doutorado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG com a tese Hermenêutica e Filosofia Moral em Alasdair MacIntyre. É pós-doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Professor do departamento de Filosofia da UFPI, é autor de Tradição e racionalidade na filosofia de Alasdair MacIntyre (2ª ed. Teresina: EDUFPI, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a atualidade da filosofia de Hans Jonas?

Helder Buenos Aires de Carvalho - A filosofia de Hans Jonas tem o mérito de tocar diretamente num nervo exposto da cultura contemporânea: a conexão da crise ambiental pela qual passa o mundo com a ação humana e o lugar que a técnica moderna ocupa na modelagem dessa ação. O costumeiro é pensar que a técnica é sempre algo que produz o bem, que traz benefícios para nossa vida, como se fosse algo divino, sem a mácula do pecado. Sua reflexão busca lembrar ao homem que ele tem um papel significativo nas transformações ambientais do mundo e que o poder que adquiriu com o desenvolvimento da técnica – e seu uso desmesurado – precisa ser modulado eticamente, a partir de um referencial não mais antropocêntrico, mas biocêntrico, pois carrega consigo também a possibilidade do mal extremo. Noutras palavras, que a crise ambiental pela qual passamos tem também um elemento ético significante, vinculado ao modo como o homem compreendeu até agora a si mesmo e a natureza, bem como à forma como tem exercido esse poder tecnológico; que uma não compreensão ética da técnica, um esquecimento de que ela também é um dado humano, portanto, maculado pela finitude, pode conduzir a uma catástrofe.

IHU On-Line - Como o conceito do princípio responsabilidade dialoga com a liberdade e autonomia do sujeito contemporâneo?

Helder Buenos Aires de Carvalho - Se contemporaneamente pensamos a liberdade e autonomia como constitutivos fundamentais do sujeito humano, dando-lhes uma plasticidade muito maior do que havia sido concebido até agora pelo que Hans Jonas chama de ética tradicional, essa liberdade e autonomia, na verdade, aumentam a responsabilidade pelos seus atos. Anteriormente não se pensava essa autonomia em termos tão extensos; o homem era visto em suas limitações frente à presença avassaladora do cosmos e do mundo natural. O princípio responsabilidade, em Jonas, é justamente a afirmação da liberdade e autonomia que o homem contemporâneo assumiu, tanto em relação a si mesmo como em relação ao mundo natural, de um modo radical, dado que ele chegou à condição de ser capaz até mesmo de destruir toda a vida no planeta Terra. Penso que o esforço teórico de Jonas é justamente articular de forma radical essa autonomia e liberdade que o homem contemporâneo adquiriu, com a quase onipresença da técnica em sua vida, numa reflexão ética que o leve a repensar quem ele quer ser, sua participação na vida do planeta como um todo, sua responsabilidade com a manutenção da vida, pois passou a ser efetivamente um dos feitores do mundo, não mais apenas um vassalo deste ou dos deuses.

IHU On-Line - Quais as aproximações da filosofia de Jonas e de Alasdair MacIntyre?

Helder Buenos Aires de Carvalho - MacIntyre  e Jonas são pensadores bastante diferenciados, vinculados inicialmente a tradições teóricas aparentemente distantes, como a alemã continental e a analítica anglo-saxã. Entretanto, ambos compartilham certas referências importantes para pensar o agir humano em sua complexidade ontológica e aporte ético. A avaliação crítica da modernidade filosófica e seus efeitos é um ponto de partida comum entre eles; ambos compartilham a avaliação de que grande parte de nossos problemas fundamentais, hoje, são o resultado das escolhas filosóficas feitas nos albores e na continuidade do mundo moderno. O niilismo e a decadência que se apresentam na experiência moral contemporânea são valorações que ambos identificam como produtos dos equívocos cometidos a partir do modo de pensar da modernidade e que precisamos reavaliá-los para encontrar saídas. Jonas e MacIntyre são também críticos da democracia liberal e de sua alternativa marxista, pela incapacidade crônica destes dois modelos políticos de responder aos desafios globais que se colocam atualmente pela ecologia. A falta de representatividade dos modelos democráticos liberais, a redução crescente da participação política dos cidadãos, o individualismo destruidor de valores comuns, a ilusão da tecnociência como panaceia universal a todos os males, o mergulho dos socialismos marxistas em totalitarismos reais, a predominância de uma racionalidade instrumental em todas as esferas da vida humana, tudo isso são objetos da crítica dos dois filósofos.

Revisão do antropocentrismo

Ambos buscam encontrar alternativas para essa falta de opção no mundo contemporâneo, pois nem o capitalismo das sociedades liberais nem a planificação das sociedades comunistas se mostraram eficientes e consistentes para responder ao desafio ético de uma sociedade que possa pensar a vida aqui e agora, bem como no futuro. Tanto Jonas como MacIntyre tematizam a animalidade do homem e sua dependência da natureza como um todo, vendo isto como um indicativo fundamental da necessidade de se rever o antropocentrismo que caracterizou a eticidade tradicional. O reconhecimento da fragilidade e da dependência do humano em relação ao mundo natural, de tal modo que o homem não possa olhar mais a natureza como um outro a ser domesticado, mas como parte de si mesmo e ele mesmo como parte dela, é um ponto de convergência de suas filosofias. Além disso, por serem diferenciadas, isto é, Jonas propugnar uma ética principialista, do dever, e MacIntyre uma ética das virtudes, do caráter, elas podem convergir como complementares, na medida em que o princípio responsabilidade defendido por Jonas pode ser pensado também como uma virtude fundamental para se buscar saídas para os nossos problemas. Responsabilidade não é apenas uma imposição jurídico-formal ou um dever ser ancorado ontologicamente na vida como tal, mas também é um modo de ser do agente moral, um elemento constitutivo da agência, de sua identidade como humano.


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