Edição 370 | 22 Agosto 2011

Tolerância e alteridade: princípios para confiar no outro, reconhecendo as diferenças

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Moisés Sbardelotto

As igrejas cristãs se encontram em meio a uma sociedade plural na qual têm que conviver com outras religiões e outras convicções, afirma D. Manoel João Francisco, bispo da Diocese de Chapecó e presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC

Em suas origens, o cristianismo já viveu em um mundo extraordinariamente plural em termos de crenças e culturas. “Hoje, estamos em situação semelhante a dos primeiros cristãos. As igrejas cristãs, especialmente o catolicismo e o protestantismo histórico, se encontram em meio a uma sociedade plural na qual têm que conviver com outras religiões e outras convicções”, defende D. Manoel João Francisco, bispo da Diocese de Chapecó, Santa Catarina.

Nesta entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, D. Manoel afirma que “ser ecumênico na sociedade em que vivemos significa enraizar-se em Cristo e, a partir dele, firmar nossa identidade sob a luz dos princípios da tolerância e da alteridade”. O primeiro princípio é a “capacidade de confiar no outro, permitindo que se expresse do jeito que é e da forma que lhe aprouver”. Já a alteridade é reconhecer “que o outro é diferente de mim e esta diferença nos distingue, mas não nos afasta”. Por isso, defende, “é preciso construir uma identidade relacional, onde o eu seja constitutivo do tu e vice versa”.

D. Manoel João Francisco é bispo da Diocese de Chapecó, em Santa Catarina, e presidente do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC, eleito para o período 2011-2015. Formou-se pela Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná e é mestre e doutor em Teologia Dogmática com especialização em Sacramentos pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo, de Roma. Foi professor de Teologia no Instituto Teológico de Santa Catarina – Itesc, de 1978 até 1998. Foi coordenador do Centro Ecumênico de Estudos em Florianópolis, presidente (um período) e vice-presidente (dois períodos) da Associação dos Liturgistas do Brasil – Asli e membro da Comissão de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em uma sociedade como a atual, marcada paradoxalmente por sincretismos e fundamentalismos de todos os tipos, o que significa ser ecumênico?

Dom Manoel João Francisco –
Antes de tudo, é preciso dizer que, lá no seu início, o cristianismo já viveu em um mundo extraordinariamente plural no que diz respeito às crenças e às culturas. Em sua pregação no areópago, o apóstolo Paulo faz referência à diversidade religiosa dos gregos que tinham inclusive um altar dedicado ao deus desconhecido (At 17,23). Depois, o cristianismo tornou-se religião oficial. Enquanto aliado do poder passou a ser intolerante com as outras religiões. Hoje, mutatis mutandis, estamos em situação semelhante a dos primeiros cristãos. As igrejas cristãs, especialmente o catolicismo e o protestantismo histórico, se encontram em meio a uma sociedade plural na qual têm que conviver com outras religiões e outras convicções.

Lá nos primórdios, os cristãos não tiveram medo de marcar sua identidade, contrapondo-se ao que consideravam errado e falso, sem, no entanto, deixar de acolher e incorporar em sua doutrina e em sua moral o que viam de bom nas crenças e cultura pagãs. Santo Agostinho, por exemplo, ensinava que, assim como o povo judeu, ao sair da escravidão se apropriou dos objetos de ouro e prata dos egípcios. Da mesma forma os cristãos não só não deveriam temer e evitar as verdades da filosofia pagã, mas até mesmo reivindicá-las como suas.

Ser ecumênico na sociedade em que vivemos significa enraizar-se em Cristo e, a partir dele, firmar nossa identidade sob a luz dos princípios da tolerância e da alteridade. O princípio da tolerância é a capacidade de confiar no outro, permitindo que se expresse do jeito que é e da forma que lhe aprouver. A tolerância é um reflexo do amor ao próximo, renuncia a impor as próprias verdades e respeita a compreensão de verdade do outro. Essa atitude permite romper o círculo vicioso do preconceito e os particularismos de toda espécie, inclusive o religioso. A tolerância, sem nos deixar cair na ingenuidade, nos leva a crer que o mal não tem a última palavra e que a eficácia do amor é lenta, mas eficaz.

O princípio da alteridade, como lembra o episcopado brasileiro, “é o reconhecimento de que o outro é diferente de mim e esta diferença nos distingue, mas não nos afasta. As diferenças nos atraem e complementam, convidando ao respeito mútuo, ao encontro, ao diálogo, à partilha, ao intercâmbio de vida e à solidariedade” (CNBB, Doc. 94, n. 8). O princípio da alteridade supõe a capacidade de apreciar a diferença como fonte de enriquecimento, de crescimento no processo de busca da verdade.

Nesse sentido, a exemplo dos primeiros cristãos, é preciso marcar nossa identidade sim, mas, sem exigir que nossa verdade e nossos valores sejam os únicos e exclusivos. Ser ecumênico nos dias de hoje significa, portanto, não ter medo de acolher o outro, até mesmo em sua intolerância. Ser como Abraão, que abandonou a segurança de sua cultura para ir em busca de uma terra estrangeira. Sem dúvida, tudo isto é graça que deve ser buscada na oração à luz da Palavra de Deus.


IHU On-Line – Em sua opinião quais são os grandes pilares teológicos do ecumenismo hoje?

Dom Manoel João Francisco –
Por “pilares teológicos do ecumenismo” vamos entender aqui aqueles consensos que estão sendo construídos pelo diálogo entre as igrejas. A construção encontra-se em diferentes estágios para os diferentes pilares: para alguns deles ainda se está buscando o chão firme; outros estão construídos em parte; e talvez possamos verificar que algum pilar já está em condições de sustentar o edifício da unidade eclesial, como é o sacramento do Batismo. Como esses pilares já têm uma parte construída, sustentam a continuidade da busca da unidade dos cristãos; mas como estão ainda em construção, eles aparecem também como tarefas e desafios ao diálogo.

Não existe plena comunhão na interpretação do kerigma cristão e dos elementos que constituem a natureza e o conteúdo da fé, como a doutrina da graça, os sacramentos, a natureza da Igreja, os ministérios, entre outros. Compreensões divergentes da fé cristã sustentam as diferentes tradições eclesiais. Constata-se um consenso fundamental nos artigos primários da fé cristã, relativos ao Deus Uno e Trino, à pessoa de Jesus Cristo, à ação do Espírito Santo que a todos dispensa a graça salvífica. Esse pilar fundamental sustenta a busca do entendimento comum acerca das mediações da ação do Deus Uno e Trino e da manifestação da sua graça na história, ampliando o diálogo para a questão da eclesiologia, da missiologia e dos sacramentos.

No campo da eclesiologia, há um consenso substancial na compreensão da igreja como “Povo de Deus”, sustentada no sacerdócio comum dos fiéis através do sacramento do Batismo. Há também uma compreensão comum de Igreja enquanto “Corpo místico de Cristo”, e “Templo do Espírito Santo”, conforme as Escrituras. A Igreja é chamada a ser a comunhão de todos os que, pelo sacramento do Batismo, integram-se na comunidade dos que professam a fé em Cristo. Dessa forma, todos os batizados possuem o sacerdócio comum dos fiéis, que os torna iguais em dignidade cristã, na recepção da graça salvífica e no compromisso de testemunhar o evangelho no mundo, promovendo o Reino de “vida em abundância” para todos. (Cf. Jo 10,10.)


Coerência no ensinamento de Jesus

A partir dessa base comum na compreensão da Igreja, podemos avançar em outros elementos que aparecem no momento como questões nodais para o diálogo. Como deve ser a manifestação histórica da Igreja para que ela seja coerente com o ensinamento de Jesus Cristo? O dissenso manifesta-se tanto sobre quais são os elementos estruturais da Igreja, quanto sobre a compreensão teológica que se tem deles. Não é fácil um acordo sobre quais estruturas eclesiais nascem de circunstâncias históricas das comunidades e são apenas funcionais, de modo que a igreja seja semper reformanda conforme as necessidades do tempo; e quais poderiam ter origem nos elementos escriturísticos que melhor expressam a própria vontade de Cristo – elementos permanentes porque de iure divino.

Dentre esses elementos, destacam-se o ministério ordenado e a hierarquia na Igreja, sobretudo, o ministério petrino. Temas difíceis, mas que as comissões de diálogo bilateral e multilateral têm enfrentado. Em todas as igrejas, verifica-se a existência de pessoas instituídas para o exercício de funções que em sua finalidade coincidem: a pregação da Palavra e a celebração dos sacramentos. A questão é a compreensão teológica que se tem dessa instituição. Nisso as igrejas diferem sobretudo em relação à natureza sacramental dessa instituição/ordenação, a estrutura e o sujeito do ministério ordenado, a sucessão apostólica. O caminho do consenso leva a compreender que o ministério ordenado encontra sua razão a partir da missão de todo o povo de Deus. Deve-se entender a relação entre a liberdade do carisma e a institucionalização do ministério, chegando ao consenso de que há liberdade para as tradições eclesiais viverem sua ministerialidade, desde que explicitem as funções próprias do ministério que Jesus Cristo quer para sua Igreja. Afinal, o ministério é serviço, e todas as funções na Igreja devem ser expressões de serviço para a realização do projeto de Deus na história da humanidade.

Quanto ao ministério petrino, o que está em questão não é tanto o seu valor na Igreja, quanto o modo e o sujeito desse ministério. Não há consenso no modo primacial apresentado pela tradição católica, com todas as suas propriedades doutrinais e jurídicas; mas também o modo conciliar/sinodal apresentado por outras igrejas não obtém consenso. Para avançar na unidade cristã, o primado deve abrir-se a novas possibilidades mediante uma reinterpretação teológica e uma reestruturação em nível prático que melhor possibilite a realização do seu serviço ao Evangelho e à unidade da Igreja.
Também a questão dos sacramentos é um pilar para o ecumenismo. Por eles, celebramos a fé da Igreja. A questão acerca do número dos sacramentos, sua instituição, fundamentação doutrinal e formas litúrgicas estão no centro da discussão ecumênica. Essa discussão nos leva ao abandono do entendimento individualista, mágico e descomprometido da eficácia sacramental. Eles não são túmulos, mas berços da comunidade cristã. Assim entendemos, por exemplo, a Eucaristia. As controvérsias sobre a presença real de Cristo nas espécies consagradas, a noção de sacrifício, o ministro, serão superadas na medida em que explicitarmos as convergências já existentes: ela é um memorial da paixão, morte e ressurreição de Cristo pela humanidade, o mistério central da Igreja, do qual esperamos um dia comungar plenamente.
Há, ainda, consensos relativos à espiritualidade, à pastoral e à ética, que também são pilares a serem construídos para se alcançar a unidade cristã.


IHU On-Line – Em nível mundial, o Vaticano promoveu ações que geraram polêmica no âmbito ecumênico: de um lado, a retomada dos encontros de Assis, cuja nova edição irá ocorrer em outubro deste ano; de outro lado, a revogação da excomunhão aos lefebvrianos e a criação dos ordinariatos para o ingresso de comunidades anglicanas ao catolicismo. Como o senhor analisa a ação e o serviço ecumênico no papado de Bento XVI?

Dom Manoel João Francisco –
A questão ecumênica não é tranquila em nenhuma igreja. Existem afirmações e ações que expressam a convicção do compromisso ecumênico, mas existem também dificuldades internas que, por vezes, fragilizam essas convicções. Trata-se das limitações e ambiguidades de toda instituição, e essa é uma realidade também na Igreja Católica.

Não há como negar que a Igreja Católica se integrou de modo decisivo na caminhada ecumênica a partir do Concílio Vaticano II, como bem mostram não apenas os decretos conciliares que explicitam uma relação identitária entre Igreja e ecumenismo, mas também as consequências do seu ensinamento. A Igreja Católica, hoje, participa de mais ou menos 70 conselhos de igrejas em todo o mundo; compõe 16 comissões de diálogo bilateral e tem tomado iniciativas que, de fato, fortalecem tanto o ecumenismo quanto o diálogo inter-religioso. Uma consequência disso é a nova postura da Igreja Católica no contexto do pluralismo eclesial e religioso, uma postura de acolhida das diferenças e do reconhecimento dos seus valores e de sua legitimidade; outro resultado positivo são os acordos doutrinais, como o da doutrina da justificação com os luteranos e os metodistas.

Mas, infelizmente nem sempre os resultados positivos obtidos pelo diálogo ecumênico e inter-religioso incidem no cotidiano da Igreja. Manifestam-se também sinais de recuo. Esse comportamento pode colocar dúvidas sobre o real compromisso ecumênico da Igreja Católica. São expressão disso alguns documentos emanados pela cúria romana cujos conteúdos e estilo fizeram ressurgir o espírito da polêmica e animosidades entre as igrejas, com sérias consequências para as relações ecumênicas. Claro que houve dissenso acerca desses documentos no interior da própria Igreja Católica, por se entender que causam perplexidades. O fato é que tais documentos apresentam a doutrina católica sem considerar os progressos realizados pelo diálogo que ela mesma tem realizado até agora, principalmente a partir do Concílio Vaticano II. Evidentemente, não pode ser assim. Entre o tempo do Concílio e o tempo atual não há espaço vazio; ele foi preenchido por positivas relações, sintonias, convergências e consensos ecumênicos.


Ritmo pós-conciliar

Neste contexto de dificuldades para manter o ritmo do pós-concílio é que se pode ler o atual momento ecumênico da Igreja Católica, bem como algumas decisões tomadas pelo Papa Bento XVI. Não se pode negar que Bento XVI dá continuidade tanto à orientação ecumênica do Concílio Vaticano II quanto ao posicionamento ecumênico de seus antecessores, sobretudo João Paulo II. O encontro de líderes religiosos em Assis, em outubro deste ano, é um sinal disso. Mas o é também o seu primeiro discurso, ainda na capela sistina pela ocasião da sua eleição, quando já tratou do ecumenismo.

A revogação da excomunhão aos lefebvrianos e a criação dos ordinariatos para o ingresso de comunidades anglicanas no catolicismo por si mesmas não significam abandono ou retrocesso no ecumenismo. Trata-se de uma oferta que o papa faz para quem quer viver na comunhão católica. E isso está contemplado no horizonte de liberdade de todas as Igrejas. O que pode dificultar o ecumenismo é outra coisa: os que entram na comunhão católica o fazem por convicção de que a tradição católica é, para eles, a melhor expressão da fé cristã, ou o fazem apenas para fugirem de conflitos com a tradição eclesial à qual pertencem. Se o fizerem por essa segunda opção, então claro que causarão obstáculos para a continuidade das relações ecumênicas da Igreja Católica com as demais igrejas.


IHU On-Line – Qual a sua avaliação da caminhada ecumênica no Brasil? Que avanços ocorreram nos últimos anos? Por outro lado, em que pontos ainda é necessário um maior comprometimento por parte das igrejas?

Dom Manoel João Francisco –
Infelizmente é pouco conhecida a história do ecumenismo no Brasil. Mas já temos uma rica experiência que merece atenção, estudo, divulgação. Precisamos avaliar a caminhada ecumênica me nosso país em três principais horizontes: histórico, teológico e pastoral.

No horizonte histórico, contamos desde os primeiros passos com a Aliança Evangélica Brasileira (1903), a Comissão Brasileira de Cooperação (1920), a Confederação Evangélica Brasileira (1934). Claro, tratava-se de um diálogo e cooperação ecumênica apenas interprotestante, sobretudo de origem norte-americana, mas eram relações ecumênicas que vinham se desenvolvendo. O diálogo ganha força a partir dos anos 1950 e 1960, com a presença dos luteranos, anglicanos e católicos no movimento ecumênico. No campo teológico, o Brasil ainda não desenvolveu uma reflexão consistente. Mas destacam-se os seminários do Conic, que buscam sintonias e convergências sobre vários temas, como a hospitalidade eucarística, matrimônios mistos e o sacramento do Batismo – sobre o qual se obteve mútuo reconhecimento. No campo pastoral, cresce em alguns ambientes a sensibilidade para a relação entre missão e ecumenismo, e surgem positivas iniciativas de cooperação ecumênica entre as igrejas.

Como frutos do diálogo, podemos afirmar com o Papa João Paulo II, na carta encíclica Ut Unum Sint : a fraternidade reencontrada pelo reconhecimento do único Batismo e pela exigência que Deus seja glorificado na sua obra; a solidariedade no serviço à humanidade; convergências na palavra de Deus e no culto divino; a construção em conjunto ou o empréstimo de edifícios para o culto; o apreço mútuo dos bens nas diferentes tradições eclesiais; o reconhecimento de que “é muito mais forte aquilo que nos une do que quanto nos divide” (UUS 20.41-49).

Esses frutos permitem apontar cinco aspectos de crescimento nas relações ecumênicas: a) nas relações dos dirigentes das igrejas, existe a localização de pontos de encontro e mútua procura de avizinhamento e diálogo; b) no nível teológico-doutrinal, chegou-se a importantes convergências e consensos sobre vários elementos da fé cristã e eclesial; c) nas comunidades dos fiéis, cresce o convívio entre cristãos de diferentes confissões, vencendo-se preconceitos e hostilidades; d) no campo pastoral, a cooperação ecumênica é realidade em muitos ambientes; e) cresce a sensibilidade ecumênica na espiritualidade. Enfim, em muitos espaços a caminhada ecumênica desenvolve uma nova eclesiologia, relacional, dialógica, que superam tendências ao dogmatismo fixista e antidialógico.


IHU On-Line – Em 2012, o Conic completará 30 anos. Como o Conic se cruza com a história do ecumenismo no Brasil? Que inspirações o fizeram nascer?

Dom Manoel João Francisco –
A história do ecumenismo no Brasil é anterior ao CONIC. Mas o Conic é certamente uma das principais expressões do movimento ecumênico no Brasil nos dias de hoje. Ele nasceu nos anos 1970 com a iniciativa de diálogo entre católicos, luteranos, anglicanos e metodistas na região da grande Porto Alegre-RS. Depois foi ampliado, contando com a participação de cristãos reformados e ortodoxos.

Na época do seu nascimento, o ecumenismo vivia uma fase mais animadora do que a atual: o movimento ecumênico crescia em todo o mundo e os católicos eram orientados pelo Concílio Vaticano II a participarem das iniciativas ecumênicas. No Brasil, vivia-se sob a ditadura militar, havia – como em nossos dias – muita injustiça social, o que levou as igrejas a juntarem suas vozes para denunciarem as injustiças existentes. Em muitas igrejas desenvolvia-se a teologia da libertação. Nesse contexto, havia um clima muito propício para o ecumenismo, ajudando as igrejas no Brasil a se abrirem para o diálogo e a cooperação ecumênica.

Nesse sentido, pode-se dizer que o Conic foi, e continua sendo, um importante instrumento para que as igrejas pudessem unir suas vozes para pronunciamentos comuns frente às questões sociais e para dialogarem sobre os elementos teológico-pastorais que as dividem. A partir da década de 1970, grande parte da história do movimento ecumênico no Brasil passa pelo Conic e é por ele construída. Após 30 anos de existência, pode-se afirmar que o Conic tem cumprido sua função e certamente muito fará ainda para a promoção do movimento ecumênico no Brasil.


IHU On-Line – Até que ponto o Conic reflete as experiências de suas igrejas-membro?

Dom Manoel João Francisco –
O Conic é um organismo ecumênico eclesiástico, atualmente composto por cinco igrejas. Cada uma delas tem a sua compreensão da fé cristã, da igreja, da missão, do mundo e dos elementos constitutivos da unidade cristã. Como organismo eclesiástico, o Conic está a serviço das igrejas, de modo que a sua função é possibilitar o encontro e o diálogo entre as igrejas-membro. Ele reflete as experiências das igrejas-membro no sentido que a agenda do Conic é expressão da consciência e convicção ecumênica das igrejas que o constituem. Quando essa agenda é enriquecida por eventos que fortalecem a caminhada ecumênica, ele naturalmente possibilita e expressa a aspiração da relação, da acolhida mútua e do compromisso comum entre as igrejas. Mas há um outro lado da moeda.

As limitações e fragilidades do Conic expressam também as limitações e fragilidades das igrejas-membro. As sérias dificuldades pelas quais o Conic tem passado nos últimos anos não se devem apenas à constatação de uma certa crise no movimento ecumênico em geral ou nos problemas financeiros. Elas se explicam também pelos limites no empenho ecumênico das igrejas. Aqui há um desafio sério para o Conic: ele não tem autoridade para propor às igrejas mudanças internas doutrinais ou estruturais. Mas é sua função fazer uma provocação positiva às igrejas para que se encontrem a fim de dialogarem. E nessa provocação, cabe ao Conic constatar as dificuldades de suas igrejas e ampliar o horizonte da busca da superação dessas dificuldades. Esta é a sua função: possibilitar o encontro e o diálogo.


IHU On-Line – Um dos pontos da missão do Conic é servir as igrejas do Brasil na “defesa da integridade da Criação”. O Mutirão Ecumênico deste ano também tem como tema “Unidos em Cristo na defesa da Criação”. Como isso desafia as igrejas cristãs especialmente no contexto brasileiro?

Dom Manoel João Francisco –
A relação entre ecumenismo e as lutas pela defesa da Criação estão no centro das aspirações ecumênicas. A proposta vem do Conselho Mundial de Igrejas. No Brasil, uma proposta ecumênica desse tema está na “Carta de Belém”, Conclusões da Consulta Ecumênica Internacional Criação e Libertação – O Desafio da Amazônia, realizada em Belém, estado do Pará, de 8 a 11 de setembro de 1991. Aqui se manifesta a necessidade de ampliar a pauta do diálogo ecumênico, na qual ganham sempre mais espaço as questões ecológicas.

Para as igrejas do Conic, a preocupação com as questões ecológicas significa coerência com a Fé no Deus Criador. Cuidar da Criação é cuidar para que o projeto de Deus se realize neste mundo. O Mutirão Ecumênico (também chamado Sulão de Ecumenismo VI) vem fortalecer as igrejas nesse compromisso ecumênico.


IHU On-Line – Em âmbito brasileiro, que aspectos teológicos, sociais o culturais, segundo o senhor, são os maiores impedimentos à unidade cristã? É possível superá-los?

Dom Manoel João Francisco –
Vamos contemplar alguns aspectos. Primeiro, no aspecto cultural, vivemos uma fragilização das relações entre pessoas e grupos que afetam também as instituições. Impera o individualismo, o subjetivismo, o império do eu versus o tu. Isso tem sérias implicações para as tradições religiosas e eclesiais, tornando difícil a proposta ecumênica do encontro, do diálogo, da comunhão. A grande dificuldade aqui é o equilíbrio da relação entre identidade e alteridade. Pessoas e instituições têm sua própria identidade, suas convicções. Isso é legítimo. Mas não se pode fazer da afirmação da própria identidade uma rejeição do outro. É preciso construir uma identidade relacional, onde o eu seja constitutivo do tu e vice-versa. Sem isso não há encontro de complementaridade entre as diferenças, não há acolhida que possibilite o mútuo enriquecimento. O desafio aqui é a capacidade de as igrejas se desinstalarem de seus espaços sociais, doutrinais e institucionais já estabelecidos, superando o fixismo de posições que não permitem relações de partilha.

Segundo, no aspecto social, as igrejas possuem diferentes compreensões da sociedade e não há consenso sobre o modo de situar-se nos conflitos que nela ocorrem. Mas é preciso fazer o exercício de entender a história em suas dimensões política e econômica como o lugar onde estão e atuam. Ali é que devem discernir os sinais do Reino. As vicissitudes das pessoas no campo econômico, da saúde, do emprego, entre outros, as agruras da existência, são interpelações para as igrejas e o ecumenismo. A constatação da injustiça social alarmante em nosso país exige das igrejas uma compreensão comum dessa realidade para que possam assumir posicionamentos também comuns frente a ela. Estar situado no cotidiano da vida social é condição para que o ecumenismo seja uma proposta convincente para os nossos dias.

Em terceiro lugar, é preciso uma compreensão profunda do pluralismo religioso brasileiro. A configuração desse pluralismo é complexa, constituída, de um lado, pelo cristianismo com suas diferentes expressões – as denominações consideradas “históricas” e o pentecostalismo – e, de outro lado, pelo pluralismo religioso formado pelo cristianismo e por expressões de fé muito antigas, como as religiões primitivas dos povos indígenas e africanos, o judaísmo, o islamismo, o budismo e outras e por movimentos religiosos modernos, como o espiritismo, a nova era e outras de matriz oriental. Nesse cenário manifestam-se posições de fundamentalismo e intolerância religiosa, preconceitos e exclusões mútuas. Poucos são os espaços para um diálogo sereno e maduro que possibilite a convivência e cooperação entre as tradições eclesiais e religiosas. Entender o ecumenismo nesse contexto é um enorme desafio, na identificação dos parceiros, do conteúdo e do método do diálogo. Finalmente, isso implica na reflexão e prática teológico-pastoral. A contextualização sociocultural é o chão para o redimensionamento do pensamento teológico e da ação evangelizadora das igrejas. Há que se construir um eclesiologia com base no princípio da encarnação; uma espiritualidade socialmente ativa; os sacramentos como sinais proféticos do Reino. Possibilitando esses consensos, o ecumenismo no Brasil contribui para a integração social, em todas as suas dimensões.


IHU On-Line – Uma das principais ações sociais dos bispos católicos do Brasil são as Campanhas da Fraternidade, das quais três edições foram ecumênicas (2000, 2005 e 2010). O que significa este compromisso conjunto e que frutos gerou?

Dom Manoel João Francisco –
Antes de tudo, é bom esclarecer que as Campanhas da Fraternidade têm sido ecumênicas e não sobre ecumenismo. Embora o Conic tenha, desde a sua fundação, sonhado com uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, a primeira aconteceu por iniciativa da CNBB. Na Assembleia Geral em abril de 1996 foi feita a proposta. O Conic, por sua vez, também em sua Assembleia Geral em novembro de 1996, aceitou. Com essa iniciativa, a CNBB quis oferecer “um testemunho e um sinal das muitas coisas novas que, no Jubileu do Ano 2000 e no 3º milênio, os discípulos e discípulas de Cristo poderiam oferecer ao mundo dividido e competitivo” (texto base n. 6).

Não é possível mensurar quantitativamente os frutos destas Campanhas da Fraternidade Ecumênicas. Mas, com certeza, um dos mais significativos frutos foi a divulgação do Conic com seus objetivos e atividades nos mais distantes lugares do país. Possibilitou também o congraçamento de diferentes igrejas num trabalho concreto de âmbito nacional. Mas o principal fruto destas campanhas tem sido o Fundo Ecumênico de Solidariedade constituído pela coleta realizada no Domingo de Ramos. Através desse Fundo, as igrejas atendem às solicitações de ajuda financeira e incentivam os grupos e organizações comprometidas com projetos relacionados aos temas propostos. Em 2010, por exemplo, o Fundo apoiou 229 projetos sociais que, certamente, contribuíram e estão contribuindo na consolidação de um mundo de paz e sem exclusão, na preservação de nosso planeta terra e na mudança de uma economia de exploração e acumulação para uma economia de solidariedade e cooperação.

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