Edição 366 | 20 Junho 2011

A supressão da Companhia de Jesus: episódio-chave de sua ação nas fronteiras da fé

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Moisés Sbardelotto

Jornalista e escritor espanhol, Lamet acaba de lançar um romance histórico, El último jesuíta, em que relata como, em 1773, o Papa Clemente XIV, incitado pelo rei espanhol Carlos III, suprimiu a Companhia de Jesus de todos os territórios católicos do mundo

Em 1773, por meio da breve Dominus ac redemptor, o Papa Clemente XIV , incitado pelo rei espanhol Carlos III , suprimiu a Companhia de Jesus de todos os territórios católicos do mundo. E foi em países não católicos, principalmente Prússia e Rússia, onde a autoridade papal não era reconhecida, que essa ordem foi ignorada, e a Companhia pôde continuar existindo – embora no exílio. Somente 41 anos depois, em 1814, é que o Papa Pio VII  leu a bula Sollicitudo omnium Ecclesiarum, que revogava o breve de Clemente XIV e restaurava a Companhia. Todo esse episódio virou um romance histórico pelas mãos do jornalista e escritor jesuíta espanhol, Pedro Miguel Lamet. Seu livro El último jesuita (Ed. La Esfera de los Libros, 2011, 628 p.) relata uma história não apenas baseada em um fato verídico: “Tudo é verídico no meu livro, até a ambientação, a forma de comer e de vestir, as comunicações, os mínimos detalhes da vida cotidiana, salvo, é claro, os personagens de ficção que dão unidade ao relato”, afirma, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. Ao analisar os pormenores desse período histórico e das atitudes tomadas pelos jesuítas de então, Lamet reconhece que “a história da Companhia está cheia de conflitos”. Para ele, “o segredo de sua eficácia foi, de um lado, os Exercícios Espirituais, que cria homens livres e despertos, com independência de critério e ousadia apostólica. De outro, seu nível cultural e compromisso com as pessoas onde trabalha”. Por isso, hoje, quando os jesuítas possuem “menos meios humanos”, a valentia apostólica é a mesma, ou ainda maior: o desafio é sempre trabalhar dentro da Igreja nas fronteiras da fé. “E todas as fronteiras, já se sabe, sempre são e serão perigosas”, afirma.

Pedro Miguel Lamet é escritor, poeta e jornalista jesuíta espanhol. Entrou na Companhia de Jesus em 1958, onde se formou em Filosofia, Teologia, Ciência da Informação e Cinematografia. Foi professor de Estética e Teoria do Cinema nas universidades de Valladolid, Deusto e Caracas, sendo também crítico literário e cinematográfico. Trabalhou como redator da emissora internacional Rádio do Vaticano e, em 1981, foi nomeado diretor da revista semanal Vida Nueva, da qual havia sido editor e editor-chefe desde 1975. Na década de 1980, trabalhou em diversos veículos da mídia espanhola, como a Rádio Nacional de España, Radio 1, El Globo, Tiempo e El País. Atualmente, é diretor da revista bimestral de desenvolvimento pessoal A vivir. Entre suas inúmeras publicações, destacamos Arrupe, una explosión en la Iglesia (Ed. Temas de Hoy, 2007, 10. ed.); Hombre y Papa (Biografia de João Paulo II) (Ed. Espasa Calpe, 2005; Díez-Alegría: Un jesuita sin papeles: la aventura de una conciencia (Ed. Temas de Hoy, 2005, 2. ed.); e El místico: Juan de la Cruz (Ed. La esfera de los libros,  2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Seu livro El ultimo jesuita é narrado em formato de romance. Por que esse gênero literário? E como se deu o processo de produção? Foi baseado em alguma história verídica?

Pedro Miguel Lamet – Hoje, existem dois formatos dentro do boom do romance histórico. Um recria a história com tanta liberdade que a inventa e até a deforma. Para esse tipo de livro, o romance é mais importante do que a história. E uma segunda maneira de escrever, que é que eu cultivo na herança de mestres como Walter Scott , Tolstoi , Sienkiewicz  ou o nosso Benito Pérez Galdós , que quer ser muito fiel aos dados históricos, levados nas asas, isso sim, de uma ficção o mais atrativa possível. Assim são, por exemplo, meus romances sobre Inácio de Loyola , Francisco Xavier , João da Cruz , Francisco de Borja .
No entanto, no caso de El último jesuita a concepção foi especialmente difícil, pois me encontrei com fontes muito dispersas. Investigou-se muito sobre o tema, mas a partir de monografias muito parciais, que abordam aspectos muito concretos, como os estudos centrados nos políticos Roda, Moñino, Campomanes, Aranda e o rei Carlos III. Também na navegação dos exilados, seus diários, negociações em Roma, ou então na obra literária do padre Isla , na biografia de São José Pignatelli , e assim por diante. Era uma autêntica enxurrada de materiais o que eu tinha sobre a mesa e não sabia como lhe dar forma. Finalmente, criei uma família galega, os Fonseca, cujo pai é secretário do Conselho de Castela. O enredo se articula, sobretudo, na vida dos dois personagens, seus filhos, Mateo e Javier, alunos de um colégio de jesuítas, que ingressam posteriormente no noviciado. Mateo, apaixonado por sua prima María Luisa, deixa a Companhia e se coloca ao lado dos perseguidores por razões políticas e econômicas; enquanto Javier, que persevera na ordem, sofre ao lado dos perseguidos. Isso me permite abranger as duas óticas da expulsão e da supressão, de dentro e de fora, em todos os seus aspectos de intriga política, eclesiástica e, o que é muito importante para um romance, de impressionante drama humano. Em todo o caso, por que um romance e não um livro de história? Em geral, os livros de história são muito cansativos. Como jornalista e escritor, eu gosto de chegar ao grande público. Por outro lado, como digo, não é que eu tenha me baseado em uma história verídica: é que tudo é verídico no meu livro, até a ambientação, a forma de comer e de vestir, as comunicações, os mínimos detalhes da vida cotidiana, salvo, é claro, os personagens de ficção que dão unidade ao relato. O resultado, para mim, foi, salvando-se as distâncias, uma investigação exaustiva, um sem fim de leituras, momentos de desassossego, mas, ao mesmo tempo, de aprendizagem e de iluminação sobre uma época que eu desconhecia e que, como a história em seu conjunto, é mestra de vida. Com o agravante de que a minha incumbência era também de criação, de pôr em cena, como em um filme ou em grandes relatos de televisão, fatos e personagens, até convertê-los em vida.

IHU On-Line – Seu Seu romance narra um fato histórico marcado por uma delicada conjunção de poder, política e igreja. Como esses três elementos se manifestam historicamente na supressão da Companhia de Jesus?

Pedro Miguel Lamet – Partimos de uma época muito peculiar, o século XVIII europeu, marcado pelo Despotismo Iluminado e pelos Pactos de Família das monarquias bourbônicas. Na França, imperava o galicanismo e, em geral, o regalismo nas monarquias europeias. Isto é, os reis queriam controlar o poder da Igreja e, para isso, lhes escapavam, sobretudo, as ordens religiosas isentas, principalmente a Companhia de Jesus, com seu quarto voto de obediência ao papa. No entanto, o poder do papa e dos bispos o controlavam de alguma forma. Por exemplo, na Espanha, com a Exequatur, uma lei que permitia o governo publicar ou não documentos segundo seus interesses para seus fins políticos. Os jesuítas, por outro lado, encontravam-se no auge de sua capacidade de influência na sociedade da época. Haviam sido confessores de reis, talvez o maior equívoco da história da Companhia de Jesus – escrevi um livro sobre o assunto, Yo te absuelvo, majestad. Confesores de reyes y reinas de España (Ed. Temas de Hoy, 1991/2004) –, e controlavam, na prática, o mundo da educação e da cultura. Se somarmos a isso o fato de que o governo havia estado nas mãos de nobres, até então, formados por jesuítas, não há dúvida do poder que a Companhia ostentava até esse momento. Com a irrupção, na política, de ministros manteistas (não nobres que haviam tido acesso à educação), estabeleceu-se uma perseguição vingativa e iluminista contra a Companhia e seus amigos. A isso, contribuiu, sem dúvida, a condenação do jansenismo pelo papa, a doutrina do probabilismo na teologia moral, considerado como laxo por um setor, a teoria do tiranicídio (não regicídio, como falsearam alguns) do Pe. Mariana , a tentativa de beatificar seu grande inimigo, o bispo Palafox , vice-rei do México (que, aliás, acaba de ser beatificado agora na Espanha), e uma série de calúnias, como a de que os jesuítas haviam instigado para provocar o famoso Motim de Esquilache ; que tinha um império na América, cujo rei seria um tal Nicolau I, com um exército de escravos para invadir a Europa; e os ciúmes de outras ordens e congregações religiosas. A isso, une-se o medo feroz de Carlos III, que fugiu do Motim por um túnel do palácio até Aranjuez, ao qual seus ministros haviam repreendido duramente, sobretudo Tanucci , conselheiro de seu filho, em cartas quase diárias de Nápoles. A Igreja espanhola se alinhou, por interesses, com o rei, e a Igreja de Roma foi na prática “comprada” e duramente pressionada até a supressão. Como todos esses elementos se combinam? É difícil resumir aqui. Para saber em detalhes, convido à leitura do romance.

IHU On-Line – Quais foram os impactos da decisão de Carlos III sobre o papado de Clemente XIV e sobre a Igreja em geral? O que estava em jogo, do lado da Igreja, nessa decisão?

Pedro Miguel Lamet – O papado foi muito frágil em sua atuação em favor dos jesuítas. Embora Clemente XIII  os tenha defendido por meio de documentos, na hora da verdade não os aceitou quando, em barcos fretados por Carlos III, enviou-lhes desterrados para sempre aos Estados Pontifícios, em 1768. É preciso levar em conta que, entre espanhóis, americanos e filipinos, eram nada menos do que 5 mil homens. Disse-se que o papa não os quis aceitar, porque esperava que Carlos III se arrependesse. Mas o resultado foi um terrível ano de penúrias na ilha de Córsega, que vivia então a guerra entre corsos, genoveses e franceses. O caso do seu sucessor, Clemente XIV, foi ainda mais cruel, já que foi eleito com o compromisso verbal de extinguir os jesuítas. Esse frei franciscano, que chegou ao sólio pontifício por uma espécie de compromisso político, era frágil, pouco claro em suas ideias e fascinado pela possibilidade de chegar a ser papa. Mas, quando recebeu a tiara, ele postergou o assunto, torturado pelo medo e pela responsabilidade de decretar a supressão de uma ordem tão numerosa e influente. As intrigas das cortes bourbônicas e sua influência no conclave, seu mal-estar pelo Monitório de Parma e pelo tráfico de influência em Roma, desembocaram na supressão de 1773. Mas, acima de tudo, foi decisivo o papel de Moñino , recompensado depois com o título de Conde de Floridablanca, que comprou, com prebendas e grandes somas, o confessor e outros prelados e amigos do pontífice. Seu assédio psicológico sobre o papa, tal como aparece em sua abundante correspondência com Madri, acabou destroçando o ânimo e a saúde de Clemente XIV, que acabou assinando o breve (não bula) Dominus ac redemptor, o qual suprimia em toda a Igreja a Companhia de Jesus. A tese de que ele morreu envenenado pelos jesuítas é tão falsa que até os inimigos destes defendem que, na realidade, ele sucumbiu a um envenenamento mental por medo e angústia. Nem toda a Igreja aceitou igualmente essa decisão. Por exemplo, o arcebispo de Paris contestou furiosamente. As consequências, por exemplo, para o ensino e a cultura foram fatais. E, na Ibero-América, as manifestações de dor por parte do povo foram muito frequentes. Os historiadores continuam divididos perante a conduta de Clemente XIV. Os partidários do papa defendem que ele não tinha outra saída perante as pressões das cortes bourbônicas para evitar um cisma e que ele atrasou o extermínio o quanto pôde. Os defensores dos jesuítas alegam a grande debilidade do pontífice, seu obscuro compromisso durante o conclave, os funestos colaboradores dos quais se rodeou, a facilidade com que se converteu em marionete angustiada dos ministros em Roma, principalmente do implacável conde de Floridablanca, de certo modo seu verdugo; além de seu desinteresse pelas vítimas, quando outras potências continuavam sendo favoráveis aos jesuítas, e estes chegavam a sucumbir nas mãos do papa, o mesmo que eles defendiam perante os regalistas . Na realidade, não deixava de ser um primeiro ato da tragédia que a revolução francesa  significou para a Igreja, com a supressão de todas as ordens e que culminaria na detenção e na deportação do próprio papa.

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